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Holocausto brasileiro: 50 anos sem punição

Minha amiga blogueira Michele Viviane Vasconcelos (do blog Mira Certeira, Faca sem Ponta – Palavras) me passou essa história, que eu não conhecia. Achei um relato impressionante e por isso reproduzo na íntegra a matéria do “Tribuna de Minas” que conta tudo. E este post, ao lado daquele em que falo sobre a escravidão (aqui), pode nos ajudar a conhecer a história invisível de nosso país.

Milhares sucumbiram de frio, fome, tortura e doenças curáveis; 50 anos depois, ninguém foi punido por este genocídio

Por DANIELA ARBEX

Realidade da Colônia era a de um campo de concentração, onde homens e mulheres morriam de inanição.

Não se morre de loucura. Pelo menos em Barbacena. Na cidade do Holocausto brasileiro, mais de 60 mil pessoas perderam a vida no Hospital Colônia, sendo 1.853 corpos vendidos para 17 faculdades de medicina até o início dos anos 1980, um comércio que incluía ainda a negociação de peças anatômicas, como fígado e coração, além de esqueletos. As milhares de vítimas travestidas de pacientes psiquiátricos, já que mais de 70% dos internados não sofria de doença mental, sucumbiram de fome, frio, diarreia, pneumonia, maus-tratos, abandono, tortura. Para revelar uma das tragédias brasileiras mais silenciosas, a Tribuna refez os passos de uma história de extermínio. Tendo como ponto de partida as imagens do então fotógrafo da revista “O Cruzeiro”, Luiz Alfredo, publicadas em 1961 e resgatadas no livro “Colônia”, o jornal empreendeu uma busca pela localização de testemunhas e sobreviventes dos porões da loucura 50 anos depois. A investigação, realizada durante 30 dias, identificou a rotina de um campo de concentração, embora nenhum governo tenha sido responsabilizado até hoje por esse genocídio. A reportagem descortinou, ainda, os bastidores da reforma psiquiátrica brasileira, cuja lei sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais, editada em 2001, completa dez anos. As mudanças iniciadas em Minas alcançaram, mais tarde, outros estados, embora muitas transformações ainda estejam por fazer, conforme já apontava inspeção nacional realizada, em 2004, nos hospitais psiquiátricos do país. A série de matérias pretende mostrar a dívida histórica que a sociedade tem com os “loucos” de Barbacena, cujas ossadas encontram-se expostas em cemitério desativado da cidade.

Criado pelo governo estadual, em 1903, para oferecer “assistência aos alienados de Minas”, até então atendidos nos porões da Santa Casa, o Hospital Colônia tinha, inicialmente, capacidade para 200 leitos, mas atingiu a marca de cinco mil pacientes em 1961, tornando-se endereço de um massacre. A instituição, transformada em um dos maiores hospícios do país, começou a inchar na década de 30, mas foi durante a ditadura militar que os conceitos médicos simplesmente desapareceram. Para lá eram enviados desafetos, homossexuais, militantes políticos, mães solteiras, alcoolistas, mendigos, pessoas sem documentos e todos os tipos de indesejados, inclusive, doentes mentais.

‘Trem de doido’

Sem qualquer critério para internação, os deserdados sociais chegavam a Barbacena de trem, vindos de vários cantos do país. Eles abarrotavam os vagões de carga de maneira idêntica aos judeus levados, durante a Segunda Guerra, para os campo de concentração nazista de Auschwitz, na Polônia. Os considerados loucos desembarcavam nos fundos do hospital, onde o guarda-freios desconectava o último vagão, que ficou conhecido como “trem de doido”. A expressão, incorporada ao vocabulário dos mineiros, hoje define algo positivo, mas, na época, marcava o início de uma viagem sem volta ao inferno. Wellerson Durães de Alkmim, 59 anos, membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise, jamais esqueceu o primeiro dia em que pisou no hospital em 1975. “Eu era estudante do Hospital de Neuropsiquiatria Infantil, em Belo Horizonte, quando fui fazer uma visita à Colônia ‘Zoológica’ de Barbacena. Tinha 23 anos e foi um grande choque encontrar, no meio daquelas pessoas, uma menina de 12 anos atendida no Hospital de Neuropsiquiatria Infantil. Ela estava lá numa cela, e o que me separava dela não eram somente grades. O frio daquele maio cortava sua pele sem agasalho. A metáfora que tenho sobre aquele dia é daqueles ônibus escolares que foram fazer uma visita ao zoológico, só que não era tão divertido, e nem a gente era tão criança assim. Fiquei muito impactado e, na volta, chorei diante do que vi.”

Pavilhão onde internos dormiam no “leito único”, nome oficial para substituição de camas por capim
 Esgoto era fonte de água de internos

Entrar na Colônia era a decretação de uma sentença de morte. Sem remédios, comida, roupas e infraestrutura, os pacientes definhavam. Ficavam nus e descalços na maior parte do tempo. No local onde haviam guardas no lugar de enfermeiros, o sentido de dignidade era desconhecido. Os internos defecavam em público e se alimentavam das próprias fezes. Faziam do esgoto que cortava os pavilhões a principal fonte de água. “Muitas das doenças eram causadas por vermes das fezes que eles comiam. A coisa era muito pior do que parece. Cheguei a ver alimentos sendo jogados em cochos, e os doidos avançando para comer, como animais. Visitei o campo de Auschwitz e não vi diferença. O que acontece lá é a desumanidade, a crueldade planejada. No hospício, tira-se o caráter humano de uma pessoa, e ela deixa de ser gente. Havia um total desinteresse pela sorte. Basta dizer que os eletrochoques eram dados indiscriminadamente. Às vezes, a energia elétrica da cidade não era suficiente para aguentar a carga. Muitos morriam, outros sofriam fraturas graves”, revela o psiquiatra e escritor Ronaldo Simões Coelho, 80 anos, que trabalhou na Colônia no início da década de 60 como secretário geral da recém-criada Fundação Estadual de Assistência Psiquiátrica, substituída, em 77, pela Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig). A Fhemig continua responsável pela instituição, reformulada a partir de 1980 e, recentemente, transformada em hospital regional. Hoje, o Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB) atende um universo de 50 cidades e uma população estimada em 700 mil pessoas.

Capim como cama

Os pacientes da Colônia, em sua maioria, dormiam no “leito único”, denominação para o capim seco espalhado sobre o chão de cimento, que substituía as camas. O modelo chegou a ser oficialmente sugerido para outros hospitais “para suprir a falta de espaço nos quartos.”

Em meio a ratos, insetos e dejetos, até 300 pessoas por pavilhão deitavam sobre a forragem vegetal. “O frio de Barbacena era um agravante, os internos dormiam em cima uns dos outros, e os debaixo morriam. De manhã, tiravam-se os cadáveres”, contou o psiquiatra Jairo Toledo, diretor do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB).

Marlene Laureano, 56 anos, funcionária do CHPB desde os 20, era uma espécie de faz-tudo. “Todas as manhãs, eu tirava o capim e colocava para secar. Também dava banho nos pacientes, mas não havia roupas para vestirem. Tinha um pavilhão com 300 pessoas para alimentar, mas só tinha o suficiente para 30. Imagine! Só permaneci aqui, porque tinha a certeza de que um dia tudo isso ia melhorar, sei que Deus existe.”

José Machado em 1961
Machadinho, hoje, aos 80 anos. Resistência em meio século de internação

“Esse faleceu. Era uma delícia de pessoa. Essa morreu. Ela benzia a gente. Lembra? Olha o Raul, que saudade. Essa era bem alegre. Esse homem era engraçado, gostava de tomar conta das portas.” Os comentários de Marlene Laureano sobre os pacientes fotografados por Luiz Alfredo, em 1961, não deixam dúvida de que a história da Colônia tem na morte uma de suas principais heranças. Sobreviver à Colônia é quase como confrontar o improvável. José Machado, 80 anos, Sônia Maria da Costa, 61, Maria Aparecida de Jesus, 71, e Antônio Sabino, 70, são alguns dos que conseguiram. Institucionalizados há mais de meio século, resistiram a fome, ao frio e ao tratamento desumano, mas carregam graves sequelas.

O registro de José Machado, o Machadinho, é de número 1.530. A informação sobre ele que mais se aproxima da verdade, já que a maior parte dos pacientes não tem qualquer registro sobre o seu passado, é de que deu entrada na entidade em 1959, conduzido pela polícia, após ser acusado de colocar veneno na bebida de alguém. Inocente, passou a vida encarcerado. Hoje, aos 80 anos, precisa de uma cadeira de rodas para se locomover, mantendo-se reticente na presença de estranhos.

Sebastiana Marques está em um dos cinco módulos residenciais implantados no hospital para atender os pacientes com mais autonomia. Com diagnóstico de esquizofrenia, mantém o hábito de ficar isolada e não consegue se expressar. Já Sônia é uma exceção entre os sobreviventes. Apesar de ter chegado ao hospital ainda criança, vive hoje em uma das 28 residências terapêuticas de Barbacena. Mudou-se para lá em 2003, deixando para trás uma história de eletrochoques, agressões e medo. “Lá no hospital judiavam muito da gente. Já apanhei muito, mas bati em muita gente também. Como era agressiva, me deram muito choque. Agora tenho comida gostosa, talheres e o principal: liberdade.”

Museu é tributo às vítimas

Atualmente 190 pacientes asilares estão sob a guarda do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB), mas sua sobrevida é estimada em, no máximo, mais uma década. “Acredito que, em dez anos, o ciclo dos porões da loucura se fecha”, afirma o diretor Jairo Toledo, referindo-se às últimas testemunhas daqueles tempos de horror. Maria Cibele de Aquino, 68 anos, foi uma das baixas mais recentes. Clicada em 1961, aos 18 anos, por Luiz Alfredo, ela faleceu em 14 de setembro, na companhia das bonecas que ninou durante toda uma vida de internação. Chegou ao hospício aos 14 anos de idade e nunca saiu de lá.

Para que a memória não seja enterrada, o Museu da Loucura vai continuar lembrando o que, convenientemente, poderia ser esquecido. Idealizado por Jairo, o museu foi inaugurado, em 1996, no torreão do antigo Hospital Colônia, e pretende ser um tributo às dezenas de milhares de vítimas da lendária instituição. Dos cinco museus de Barbacena, o que se dedica a contar a história da loucura é o mais visitado por turistas.

Em 2008, a publicação do livro “Colônia”, também organizado por Jairo, expôs as feridas de uma tragédia silenciosa abafada pelos muros do hospital. “Por mais duro que seja, há que se lembrar sempre, para nunca se esquecer – como se faz com o holocausto – as condições subumanas vividas naquele campo de concentração travestido de hospital. Trazer à tona a triste memória dessa travessia marcada pela iniquidade e pelo desrespeito aos direitos humanos é uma forma de consolidar a consciência social em torno de uma nova postura de atendimento, gerando uma nova página na história da saúde pública”, afirmou o ex-secretário de estado da saúde de Minas, o deputado federal Marcus Pestana. (PSDB/MG). Foi ele quem viabilizou a tiragem de mil exemplares do livro “Colônia.”

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11 comentários em “Holocausto brasileiro: 50 anos sem punição”

  1. Oi Julio! Obrigada por citar meu blog. Fiquei sabendo dessa história no programa provocações, do Abujamra. Eu sou do tipo casca grossa, podem matar minha mãe que não me sensibilizo, não choro. Tenho opinião crítica a respeito de caridade, compaixão, dó, injustiça… Pra me comover, tem que ser algo realmente seja impactante. Algo que vá além dos limites convencionais, pro bem ou pro mal. E, assistindo a esse programa, chorei…
    Veja, se é que tem algo “mais grave” na matéria, o mais grave disso tudo é que 70% dos internados não sofriam de doença mental. Eram pessoas que como eu, você e tantas outras, tinham opiniões que às vezes divergiam dos padrões da época.
    Não vou me estender aqui, mas, acredito que são essas coisas impactantes nos fazem refletir sobre o que realmente são alguns “seres humanos”.
    Estava comentando agora a pouco aqui, que, às vezes, cruzamos com Hitler na rua, e nem desconfiamos…
    Abs

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    1. Michele Hitler não foi nada perto de Ce Niamby tenha certeza disso, mas quem quer saber sobre povos ditos primitivos? Se falam muito de Hitler apenas pela campanha maciça dos judeus apenas, afinal o dinheiro do mundo a eles pertence.

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      1. Perdoe-me a ignorância, já que deus google não respondeu, mas, quem foi Ce Niamby? Nunca é demais saber… abs

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      2. Não é questão de ignorância, nem pense nisso, eu também só vim a aprender quando após longos estudos encontrei uma trilha. Quando estudava sobre a África e o povo africano além de seus idiomas, quis eu conferir com mais profundidade como puderam desenvolver tamanha sapiência. Pois bem vai que deparo com documentações de estudos pré históricos daquele continente em diversos cantos, como a Biblioteca da Torre do Tombo em Portugal ( http://antt.dglab.gov.pt/ ) nos arquivos da Obafemi Awolowo University e com diversos amigos africanos que fiz pela rede como o professor Gèrard na página onde dava aulas de Fongbè. Acabei sabendo que África negra como conhecemos era apenas uma parte lá ao norte o que conhecemos hoje como África Banta, Angola, Kongo, Jaire, Africa do Sul, Moçambique e etc ( http://pt.wikipedia.org/wiki/Bantos ) não existia pois pertencia ao maior numero de habitantes africanos que já existiram os chamados Pigmeus que eram caçados como porcos e comidos por esses povos. Em suma, não eram os Pigmeus que eram canibais e sim os Bantu. Cientistas encontraram o que chamam de “Sambaquis” com milhões de ossadas dos Pigmeus e provas cabais de que eram comidos pelos negros Bantu enquanto tomavam o território todos chefiados por um Soba (Rei) chamado Ce Niamby (leia-se Tchê Niamby). Tenho imagens atuais desse tipo de canibalismo ainda usado por algumas tribos de lá. É triste não falarem sobre isso principalmente nas faculdades estaduais e federais que aceitam as monografias de seus formandos falando sobre deuses africanos quando na verdade não o são, confundem deidades com Deus, mas fazer o que, rssssssss.
        Tá bem explicado? para para mais o estudo é pesado e profundo. 😉

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      3. Assisti já faz algum tempo a um documentário que falava sobre o canibalismo de uma tribo africana – nos dias de hoje. Não sei dizer se é a mesma tribo/raça ou descendentes, mas, o canibalismo para rituais ou não, ainda é prática por lá, até mesmo, tendo como iscas turistas, andarilhos etc. que se atrevam a se aproximar de suas terras.
        Essa tribo africana que assisti no documentário, vive isolada numa península e tudo o que se move, estão de olho.
        Havia relatos de “poderes sobrenaturais” dessa tribo, e, também por isso, os moradores locais não se atreviam…
        Minha opinião: Cultura regional ou ampliada que faz mal, causa danos a terceiros, não pode ser admirada. Não pode ser defendida.
        E, tenho certeza que com a diversidade de nossa “fauna” sapiente, não deve ser dificil encontrar alguma rede obscura que trafique carne humana de qualidade.
        Bizarro o assunto, não é?
        O mundo é mesmo cheio de pessoas esquisitas, insanas, em grau menor, em grau maior…
        O que nos choca é quando descobrimos que a barbárie está tão próxima da nós, ou faz parte de nós, faz parte de nossa história, como no holocausto brasileiro.

        Grande abraço e obrigada pela aula Claúdio!
        p.s.: ainda sobre canibalismo, tem um filme que me impressionou muito:
        ‘We Are What We Are’: http://www.ew.com/article/2013/09/27/we-are-what-we-are-exclusive

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      4. Oi Michele, olha apenas para acertarmos o passo nos dias atuais não existem mais tribos africanas que pratiquem o canibalismo, pelo menos a olhos vistos, mas ainda existem os Korowai de Papua Nova-Guiné. Porém acredito ainda que há canibais indiferentes de regiões e etnias como disse, mas não por cultura e sim por disfunção mental ou extremo da sobrevivência, como foi o caso dos sobreviventes do famoso “El Milagro de los Andes”.
        O filme ainda não assisti mas pelo título achei muito interessante, “Nós somos o que somos”, irei procurar para assistir, valeu! 🙂

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  2. Morriam? Sucumbiam? Não sei posso estar ultrapassado nas informações, mas creio que nada mudou e só virá a tona daqui a cinquenta anos ou seja em á para 2065 e apareceram imagens como estas, histórias até mais bizarras e mais uma vez se perguntaram: Ninguém foi punido.
    A história não muda, apenas se adia e se esconde para que ao ser descoberto ou redescoberta faça lembrar que todos são culpados pela omissão e não cobrança de transparência. Volto ao ponto onde parei de minha analise, “Planeta dos Macacos” (filme da década de 60/70).

    Curtido por 1 pessoa

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