Papo de Boteco

por Mário Rubial

DEDO DURO DOMÉSTICO

Quarentena em casa é fogo. Principalmente para um botequeiro como eu.

Já escrevi neste mesmo espaço: pelas minhas origens familiares e profissionais – publicitário adora um happy hour – não poderia ser um fiel frequentador de igrejas. Sem falar no meu tempo de estudante de Direito. No Mackenzie, onde o bar MacFil que ficava próximo, era meu segundo lar. E local de estudo principalmente nos dias de prova, tentando aprender, em 60 minutos, um livro do tamanho de dois tijolos para a prova que seria dada nas próximas horas.

Fui tão fiel ao MacFil que minha festa de formatura foi lá, sob as bençãos do Augusto, dono do bar.

Mas voltando à quarentena, na impossibilidade de visitar botecos para os embates etílicos, mantenho a rotina em casa na companhia da Cris, minha companheira há 50 anos. E que me conheceu botequeiro, sempre responsável, não exagerando nas doses e respeitando os horários.

E claro, não é a mesma coisa. Faltam os companheiros e as conversas sem pé nem cabeça, que geram embates enciclopédicos onde todo mundo é catedrático de alguma coisa.

Mas, obviamente, Dona Cris sempre dá uma espiadela para ver se não estou exagerando. É normal.

Quando estou sorvendo um destilado, não há problema naquela dose a mais. A tampa do whisky não faz barulho e eu despejo a última bem “chorada”. O que não consigo com a lata de cerveja e seu maldito lacre.

Não tem jeito: é impossível abrir a latinha sem fazer barulho. E claro, você se autodenuncia na saideira.

Acho mesmo que a Lei Maria da Penha exigiu dos fabricantes esse infame “alarme”.

E que ninguém reclame: saideira é uma instituição e não tem papo.

Se não acreditam, perguntem ao Rafael Cury, meu amigo de copo e de Rio.

É só entrar no YouTube e buscar o belo samba Quando Acabar.

 

FRASE DE BOTECO

Deve-se beber moderadamente, isto é, um pouco todos os dias. Isso não sendo possível, beber muito sempre que der. Mas o abuso, como a moderação, tem que ser aprendido. O amador que abusa tende a ser desabusado.

Millôr Fernandes

Decálogo do bom bebedor – 1971

 

 

PELO MENOS, SEM TORNOZELEIRA!

– Quem, quem, quem?

Diria Aldemar Vigário, da Escolinha do Professor Raimundo.

Sim, quem imaginaria que estaríamos em prisão domiciliar por causa desse coronavírus cornudo?

No momento em que cometo esta crônica, completo três semanas sem sair de casa. Prisão domiciliar mas, pelo menos, sem tornozeleira!

Recebo de Aydano Roriz, querido amigo residente na Ilha da Madeira, afetuoso e-mail, contando as últimas novidades e manifestando preocupação com meu período de clausura.

Escreve Aydano:

– Preocupo-me com você, que interrompeu suas visitas aos botecos da cidade. Consegues suportar?

Sabedor de minha paixão pelos botequins, Aydano acertou na mosca!

Respondo que, para amenizar, resolvi encarar um desafio: ler o livro do Raymundo Faoro, Os Donos do Poder, um tijolo de 900 páginas. Quem sabe consigo entender por que o Brasil não consegue sair dessa eterna condição de terceiro mundo.

Quem gosta, entende e frequenta botequins, sabe que, muito além da bebida, existe um clima de camaradagem onde tudo é discutido. Todos são especialistas em qualquer coisa, palpitando sobre todos os assuntos, com autoridade, e ainda sugerindo para os simples mortais quais caminhos devem seguir para solução dos problemas. E, como diz meu amigo Wilson Palhares, o botequim é muito melhor que uma sessão de psicanálise.

– Lá você ouve qualquer  tipo de conversa. Se não gostar do papo, muda de lugar e, em último caso, paga apenas o que consumiu e vai embora.

Na impossibilidade de sair de casa, improvisei um boteco na varanda do meu apartamento onde, pelo menos, posso admirar as verdejantes praças da Granja Julieta.

Longe do ideal, mas pelo menos preencho meu tempo da maneira possível.

E, ao final da tarde, ainda bato um papo virtual com meu amigo Gerson Cury. A tecnologia traz essas vantagens.

 

FRASE DE BOTECO

Se passando gel nas mãos você está protegido contra o coronavírus

Bebendo, você torna-se praticamente imortal.

Anônimo

 

 

O MONZA DO JULINHO

Rolava o ano de 1985. Editora Globo na Rua Frei Caneca, Sampa. Plano Cruzado. Sucesso absoluto. Todo mundo vendendo barbaridade. Acreditem, quase não havia ninguém nos cruzamentos pedindo ou vendendo alguma coisa. Carros para comprar, nem pensar.

Aí entra o Monza do meu amigo Julio de Andrade, o famoso Julinho.

Nessa época eu era Gerente de Atendimento de Projetos Especiais, dirigido pelo também amigo Roberto Krause. E o Julinho, Diretor de Criação.

Na época ele era dono de um baita carrão: um Monza modelo 82, fastback, lindo, maravilhoso. E eu com um Fiat modelo 80, acanhado, ruim de dirigir.

Nossa divisão vendeu um fantástico projeto para a Gessy Lever: As Grandes Telenovelas da TV Globo. Livretos com o resumo das novelas, feitas pelos próprios autores e que foram oferecidos nos supermercados, junto com um pacote de OMO. Quase 8 milhões de exemplares! Um sucesso. E que gerou uma boa comissão para a equipe de vendas. Eu, inclusive.

Vou trocar de carro, pensei.

Procura aqui, ali e… nada. Só pagando ágio. E que ágio!

Foi nesse momento que comecei a paquerar o Monza de Julinho. Lindo, brilhando no nosso estacionamento. Meu Fiat 147 até se encolhia de tanta humilhação.

Um dia, de bate pronto, falei pro Julinho.

– Você não que me vender o Monza?

E, por incrível que pareça, ele não assustou.

Pensei: será que ele sabe como está o mercado de automóveis?

Julinho, que também considerava renovar sua frota de 1 carro, topou.

Negócio fechado e lá fui eu com o Monza lindão, assombrando as ruas de Sampa.

E aí começa o drama do Julinho e o meu complexo de culpa: ele não conseguia comprar outro carro. E eu agoniado. Afinal tudo aquilo por minha culpa.

A solução, se bem me lembro, foi dada pelo irmão do Julinho, que lhe emprestou um Fusca.

E aproveitando a história do Monza, conto uma passagem que mudou minha vida.

Certo fim de semana, fui com a família para Cesário Lange, onde o meu amigo Rui Bertone tinha uma chácara.

Meus filhos Dani e Alê, tinham 10 e 8 anos respectivamente.

Retornando a São Paulo no domingo pela manhã, resolvi testar a potência do MONZÃO.

Desci o pé num trecho plano, que terminava com uma leve subida. Em seguida, uma descida. Meti quase 160 km!

De repente, no acostamento um homem de quepe e botas, fazendo sinal para eu parar.

Sim, era um guarda rodoviário!

Parei já imaginando o tamanho da multa, apreensão da carteira de motorista e até mesmo do carro.

O que ele fez foi muito pior. Muitíssimo pior.

Depois de examinar os documentos, carteira de motorista, olhou pra mim e disse na frente dos meus filhos:

– Sr. Mário, sua família é tão bonita, filhos saudáveis. Terão um lindo futuro, sem dúvida. Não jogue tudo isso fora. Respeite a velocidade permitida e cheguem vivos em casa. Pode seguir.

Não me multou e nem tomou minha carteira. O que ele fez comigo, na classe, em frente minha mulher e filhos, foi muito pior.

Depois desse dia, NUNCA MAIS excedi a velocidade permitida.

 

 

FRASE DE BOTECO

Narrado por Juca Chaves

Chico Buarque e Tom Jobim dentro do carro, após uma rodada de chopp:

– Tom, pare o carro que eu quero descer.

– Não faça isto Chico, quem está dirigindo é você!

 

 

COMO AS CARAVELAS DE MARTIM AFONSO DE SOUZA SUBIRAM A SERRA DO MAR E VIERAM PARAR NO RIO PINHEIROS

Sou curioso, no bom sentido. Gosto de entender o significado das coisas.

Há dez anos moro na Rua do Carreiro de Pedra, próximo a Santo Amaro.

Por isso, pesquisei no Google o significado do nome.

Tudo o que descobri no site da prefeitura de Sampa é que Carreiro de Pedra é uma enseada na parte oeste da Ilha Fernando de Noronha.

Mas o motivo de ser nome de rua em Sampa continua um mistério.

Será que algum figurão da Prefeitura, na época de colonização do bairro, saudoso de uma viagem à Fernando de Noronha, resolveu homenagear?

Até aí tudo bem. Afinal, dar nome às ruas é quase sempre um mistério.

O que mais intriga é que ela fica no Jardim Caravelas!

Mas qual a relação de CARAVELAS com a região?

Pesquisei o que pude e não encontrei nenhuma informação.

Diante disso, e considerando que estamos vivendo intensamente um turbilhão de fake news, resolvi entrar na onda e divulgar minha versão, que é a seguinte:

Martim Afonso de Souza chegou a São Vicente em 1532. Fundou a vila junto com uns padrecos que acompanharam a expedição. Rezaram muito, transaram com as índias. Inauguraram a “biquinha” que existe até hoje, ensinaram os nativos a fazer doce de banana e de coco e começaram a sentir uma certa monotonia.

Um putruca, que estava meio perdido na nova terra, soube por índios fofoqueiros que, subindo a serra, encontrariam um planalto que daria um belo povoado.

Entusiasmado, nosso amigo Martim resolveu que iria subir a serra com as cinco caravelas! Maluco, né?

Arrumaram um  monte de cavalos, bois e índios bem fortes e trataram de subir a Serra Do Mar com as caravelas.

Chegaram na represa de Guarapiranga, onde puderam levantar velas e navegar,

Como era tudo novo e difícil, acabaram se deslocando para o Rio Pinheiros, onde encalharam.

Esse imprevisto foi registrado pelo padre Ramiro Rubial, meu antepassado e precursor da minha família.

 

Espalhem que daqui um tempo isso vira verdade.

 

FRASE DE BOTECO

A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer.

MÁRIO QUINTANA

 

AH, O SENHOR NÃO QUER VENDER? ENTÃO ANUNCIE NESTA REVISTA!

Pode parecer brincadeira, pois ninguém anuncia um produto com a finalidade de não vender, não é mesmo?

Mas a frase do título é real. Aconteceu mesmo.

Conto a história.

A Editora Abril foi fundada em 1950 pelo Sr. Victor Civita.

Seu primeiro lançamento foi a revista em quadrinhos O Pato Donald. Não, nada a ver com o DONALD Trump. Era uma genial criação de Walt Disney que o Sr. Victor lançou no Brasil.

Em seguida vieram as revistas de fotonovelas. Talvez os mais jovens não lembrem. Mas imaginem uma novela da Globo mostrada em fotos, impressas numa revista. Era exatamente isso.

Por volta de 1965, eram cinco as fotonovelas publicadas: CAPRICHO, CONTIGO, ILUSÃO, NOTURNO E SUPERNOVELAS. Se minha memória não falhar Capricho era líder com cerca de 500.000 exemplares vendidos por mês. Seguida por Contigo, e as demais também com ótimas tiragens. A que vendia menos era Supernovelas, algo como 200.000. Uma excelente venda, mas que comparada com as demais, não passava do patinho feio.

Um dos primeiros publicitários que iniciou a profissionalização da atividade de vendas de anúncios em revistas foi Hamilton Pacciullo, com quem tive a honra de trabalhar e posteriormente nos tornarmos grandes amigos.

E foi justamente ele que dirigiu a venda de publicidade nas fotonovelas, dando o embasamento profissional necessário considerando a circulação paga, perfil de leitores, custo por mil exemplares etc.

Hamilton colocou na sua alça de mira um grande cliente, com potencial de anunciar nas fotonovelas. E que fabricava panelas de vários modelos. Produto mais do que ideal para esse tipo de revista, já que o público era composto na sua maioria de donas de casa.

E lá vai Hamilton munido das pesquisas disponíveis, dos números do IVC (Instituto Verificador de Circulação) para comprovar os exemplares efetivamente comercializados e, principalmente, a capacidade de vendas do nosso herói.

Hamilton argumenta daqui, dali, descrevendo a qualidade das revistas, sugerindo que o cliente fizesse uma programação na Capricho e Contigo, que se o cliente anunciasse, suas panelas iriam vender, vender, vender…

O cliente ouviu pacientemente as argumentações do Hamilton e depois de muito pensar declarou definitivamente:

– Sr. Hamilton, agradeço sua amável visita, seu profissionalismo e a qualidade desse tipo de mídia. Mas não posso anunciar.

Hamilton de pronto pergunta:

– O problema é o valor do investimento? Podemos facilitar o pagamento…

Retruca o cliente:

– Não, Sr. Hamilton, não se trata disso. É que eu, como líder de mercado, já tenho minha produção vendida para os próximos 12 meses. Daí que, anunciar, seria jogar dinheiro fora.

Se vocês pensam que o Hamilton se deu por vencido, segurem esta:

– Quer dizer que o seu problema é NÃO vender? Está resolvido, caro cliente. Anuncie em Supernovelas, que é uma porcaria de revista, e asseguro que não venderá uma panela a mais!

Não sei se o cliente concordou pois a essa altura é difícil comprovar. Mas que foi uma bela sacada, isso foi!

FRASE DE BOTECO

O maior vendedor do mundo foi Moisés. Fez o povo andar 40 anos no deserto para ver um terreno.

NIZAN GUANAES

MALDITAS COLUNAS!

Covardes e dissimuladas. Corporativistas e arrogantes.

Covardes e dissimuladas porque atacam quando você não tem possibilidade de defesa.

Corporativistas e arrogantes porque se protegem e, por serem mais altas, te observam com pouco caso.

Afirmo e provo.

No condomínio onde moro, existe um exército de colunas demarcando as vagas onde estacionamos os carros. E sempre dissimuladas, como não querendo nada com nada.

De repente, atacam!

E lá vai uma lateral, uma tampa de porta malas, um paralamas.

E você sai do carro disposto a brigar ou pelo menos conversar sobre a responsabilidade do dano.

Alguma reação da “navalha”? Nadinha. Te olha como se não tivesse nada a ver com isso.

Procuro uma testemunha! Nada. Todas as outras colunas disfarçam, olhando pro lado e nem dando bola para o seu problema.

Certa vez fui abalroado por uma dessas meliantes.

Tinha acabado de retocar meu carro, polido, um brilho.

Manobro para sair da vaga. De repente, bam! Lá foi minha lateral esquerda.

Reclamo ao síndico. Ele me diz:

– Infelizmente isso é comum. E não conseguimos testemunhas pois as colunas são unidas e não denunciam as colegas. Temos dezenas de reclamações!

E você fica com o prejuízo.

Até quando nossa autoridades contemplarão em silêncio esse absurdo?

Abaixo as colunas! Já!

FRASE DE BOTECO

Mais perigoso que cavalo na estrada, é burro no volante.

Autor desconhecido mas que poderia ser dito por mim, a cada raspada que dou numa coluna.

 

ANTIQUADA, ANACRÔNICA, MEDIEVAL, ULTRAJANTE, INDIGNA, OFENSIVA, VEXAMINOSA, HORRENDA, OBSOLETA, SUPERADA, DESUSADA, ULTRAPASSADA, PRIMITIVA, VETUSTA!

Calma!

Não estou me referindo a nenhuma pessoa.

Todos os impropérios do título são dedicados à GRAVATA! Sim, àquela tripa amarrada no pescoço que sufoca o cidadão. Tudo em nome de um suposto toque de elegância ou algo do gênero.

Minha implicância com o trapo vertical vem desde minha juventude, quando comecei a trabalhar. Um horror! Sentia-me sufocado, ainda mais porque moramos num país tropical.

Desde então, faço o papel de um D. Quixote tentando eliminar esse maldito tirante.  Sempre em vão. Pois o establishment determina que aquele cadarço pendurado é necessário e faz parte do modus vivendi de um país… civilizado.

Conto algumas histórias reais, tragicômicas.

1968. A Editora Abril mudou-se para o novo prédio na Av. Marginal. Está lá até hoje. Richard Civita, um dos filhos do fundador, Sr. Victor, resolveu que a principal editora do país deveria também ditar normas de elegância. E decidiu:

– A partir de hoje TODOS deverão entrar no horário e devidamente paramentados com… gravata!

Foi uma grande barato. O pessoal da publicidade, eu inclusive, já estava acostumado com essa bobagem, mas os jornalistas…

O Richard acabou mexendo em vespeiro.

Imagine jornalistas famosos, influentes, de esquerda, prestando-se a uma ordem tão ridícula.

Combinaram que no dia seguinte TODOS OS JORNALISTAS estariam com gravata e às 9 horas. Só que as gravatas eram qualquer coisa amarrada no pescoço: barbante, cadarço de sapato, corda de pião, menos a tradicional gravata. E, claro, tudo voltou ao que era antes.

A segunda passagem que me marcou muito foi quando trabalhei na Revista Quatro Rodas. E claro, de gravata. Corria o ano de 1978 e eu era contato de publicidade. Em outras palavras: vendedor. Íamos pra rua com a missão de vender anúncios para a revista.

Os carros naquela época não tinham ar condicionado. Só modelos importados, para os mais ricos.

O suplício era imenso.

Até que um dia tive uma ideia. Reuni meus colegas e combinamos solicitar aos nossos chefes a permissão de não usar gravata, pelo menos no verão.

Meu Deus! Quase começa a 3ª Guerra Mundial.  Fui chamado de Lula da publicidade pois coincidia com a ascensão do Sapo Barbudo. Quase fui demitido.

Conto essas duas das muitas passagens que tive na inglória luta contra essa selvagem instituição porque, neste momento, estou novamente empunhando minha lança quixotesca.

É no condomínio onde moro.

A garagem por onde entram e saem os automóveis é controlado por vigilantes devidamente engravatados. E tudo sob um calor de 30 graus. E protegidos por um “refrescante” guarda-sol.

A visão é dantesca. Funcionários educados, competentes e responsáveis, mas expressando um grande sofrimento. Colarinhos encharcados de suor, camisas empapadas mas, a abominável gravata, lá!

Solicitei ao condomínio que apresentasse à empresa de segurança pedido para que a gravata fosse dispensada, pelo menos no verão.

A luta é inglória, mas prometo não dar sossego.

Estou até pensando em me candidatar a deputado federal, tendo como plataforma o slogan:

NO BRASIL TROPICAL, A GRAVATA É DO MAL.

FRASE DE BOTECO

Estranho que, em pleno século 21, ainda existam homens que tentam impor respeito pelo uso da gravata e pelo grito, e não por nobres valores pessoais,

MAURO PINHEIRO

 

CAMPOS DE VÁRZEA, BAILINHOS E CINEMA – QUE SAUDADE!

No último dia 23, encontrei minha velha turma da Bela Vista. Velha nos dois sentidos: pelo tempo que convivemos e também pela idade dos remanescentes.

Nossa turma era imensa. No início dos anos 50, morávamos numa região formada pelas ruas Peixoto Gomide, Augusta, Frei Caneca, Herculano de Freitas, Barata Ribeiro e outras. Nossos encontros eram quase sempre no adro da Igreja do Divino Espírito Santo, ponto central das reuniões.

Outro ponto de encontro, a partir de 1958, era o Bar Violeta, que permanece até hoje na esquina da Rua Augusta com a Mathias Ayres. E é exatamente lá que nos encontramos anualmente, graças ao nosso amigo Latorre, que coordena a turma.

Infelizmente, esse grupo fica cada vez menor. É o ciclo da vida, não há o que fazer.

Mesmo assim, as recordações são sempre maravilhosas e engraçadas.

Relato algumas:

Naquela época, havia praticamente três diversões: futebol, bailes e cinema.

No futebol tivemos vários clubes em épocas diferentes: Rio Branco, Herculano de Freitas, Madureira, Moleque XII, Gnat’s, Gerbev, Frei Caneca, Espirito Santo.

Lembro de uma passagem. Fomos jogar contra um adversário da zona leste. E transportados na carroceria de caminhão pertencente a um amigo.

O campo ficava num buraco. Ambiente hostil. E não deu outra. Após o jogo, tivemos que sair correndo, com a roupa na mão e subindo na carroceria desesperadamente. O velho caminhão penava no retorno daquele buracão. Gemia, o coitadinho. E os “inimigos” quase nos alcançando porque simplesmente não conseguiram ganhar do nosso time.

Nossa felicidade era maior quando jogávamos nos campos próximos do Itaim Bibi, onde hoje fica o Parque do Povo.

Os times que lembro eram Marítimo, Flor do Itaim e Canto do Rio.

Era mais civilizado porque podíamos tomar o ônibus elétrico 51 Jardim Europa na rua Augusta, e chegar em poucos minutos aos campos.

Já os bailinhos, eram realizados na casa de algum amigo da turma.

Eram os tempos do Elvis, Paul Anka, Platters, Neil Sedaka e as bebidas, Cuba Libre e Hi-Fi principalmente. Esta última, para os mais novos que não sabem, era mistura de vodka com crush, refrigerante à base de laranja. Mas não dispensávamos uma passada no Bar Violeta, para dar um “tapa” no Samba. Cachaça com Coca Cola que era para dar “liga” e criarmos coragem para tirar as “minas” e dançar ao som do Ray Conniff.

E claro, sempre havia muita briga quando chegava alguém de fora e tirava nossas meninas para dançar. Lembro de uma famosa, contra a turma do Brás. Foi um sufoco por que eles voltaram no dia seguinte para acerto de contas e por pouco não houve uma carnificina.

E os cinemas. Ah, os cinemas…Na rua Augusta o Marachá e o Regência. Um pouco mais acima o Majestic e Picolino. Lá embaixo o Paulista e pouco tempo depois, no Conjunto Nacional, o Astor.

E claro, quem tinha 10 ou 12 anos queria entrar em filmes para maiores de 14. Quem tinha 15 ou 16, nos de 18. E tome falsificação das cadernetas escolares. Era um tal de passar Cândida, um alvejante que apagava o que estava escrito não sem fazer algum estrago. Esse tipo de falsificação era uma arte. Poucos tinham competência para tanto.

Agradeço meu querido amigo Latorre por manter unido nosso grupo para os encontros anuais.

FRASE DE BOTECO

De um amigo ninguém se livra fácil.

A amizade além de contagiosa é totalmente incurável.

VINICIUS DE MORAES

publicado originalmente em https://gentequefala.com.br/2019/12/05/campos-de-varzea-bailinhos-e-cinema-que-saudade-por-mario-rubial/

OPORTUNIDADE DE EMPREGO: VELHINHO LARANJA

Pesquisei na internet, em livros, artigos de jornais e revistas, qual o motivo de tanta impunidade no Brasil. Fora o fato de sendo um leitor voraz desde que me conheço por gente, acompanho notícias do tipo:

– Fulano foi preso por matar uma pessoa para roubar seu carro. Já tinha oito passagens na polícia pelo mesmo crime.   

– Sicrano  foi preso, por estupro de vulnerável. Já tinha várias passagens e condenado pela justiça.

Ou seja, aqui mata-se, rouba-se e, rigorosamente, nada acontece.

Ninguém vai preso. O cara tem que estuprar a mãe, cuspir no túmulo dos avós, roubar, matar, e depois de tudo isso, ainda tem um monte de benefícios que diminuem a pena e, não raro, jamais cumprem coisa alguma. Ou seja, vale a pena ser bandido no Brasil.

Rapidinho: até o advento da Lava Jato, RIGOROSAMENTE NADA ACONTECIA  em termos de punição. Não vou me alongar nesse assunto porque já é demais conhecido.

Mas com paciência os canalhas de sempre conseguiram  esvaziar a Lava Jato, livrar vários bandidos e o Brasil continua o mesmo.

E, como todos já sabem, tudo termina em pizza. Lula e Zé Dirceu soltinhos da silva, Azeredo e mais um monte da bandidos que não vou citar para não vomitar.

Acompanho o desenrolar desses acontecimentos. E, depois de todas as artimanhas dos canalhas, inventaram o Juiz das Garantias. Mil debates, contra e a favor. Mas vocês acreditam que no Brasil, de tantas inglórias tradições e impunidades, isso vai dar certo? Certamente é mais uma jogada para garantir que os ladrões continuem à solta. É só lembrar o que fizeram na Itália – Operação Mãos Limpas -, que, ao final, terminou em pizza. Literalmente. Afinal, Itália…

Diante de tudo isso, e com a necessidade de criar empregos, imaginei um projeto para ajudar os velhinhos acima de 70 anos.

É o emprego do VELHINHO LARANJA.

Empresas empenhadas em roubar o dinheiro público podem nomear um Velhinho Laranja para Diretor do Departamento de Operações Estruturadas – copyright da Odebrecht – para fazer os contatos necessários com os corruptores. Recebe a grana, repassa para os donos, carrega malas de dinheiro etc., etc., etc.

E, quando preso, vai se beneficiar de todas as prerrogativas da nossa “célere” justiça e também pelo fato de ser idoso.

É assim: se todo mundo tem benefícios de audiência de custódia, dezenas de recursos, onde mata-se, rouba-se e não acontece nada. Recursos e mais recursos, e agora com o Juiz das Garantias, tudo, rigorosamente TUDO, vai prescrever. Duvidam?

Não vou abusar da paciência dos meus poucos leitores. Mas , sem muito esforço, todos lembrarão dos ladrões que continuam soltos, em prisão rsrsrs… domiciliar, e por aí vai.

Alguém ainda acredita que o Brasil vai mudar?

FRASE DE BOTECO

Outro dia me disseram que policiais são corruptos por causa dos baixos salários. Errado!

Se a honestidade estivesse relacionada com salário, nenhum político roubaria.

Henrique Rodrigues

publicada originalmente em https://gentequefala.com.br/2020/02/03/oportunidade-de-emprego-velhinho-laranja-por-mario-rubial/

 

QUÉQUIMÓIA?

Não entenderam?

Traduzo:

– Quer que molha?

Era assim que o Geraldo, meu barbeiro de Tatuí, falava tão logo eu sentava na cadeira para aparar meus desaparecentes cabelos.

O Geraldo falava um caipirês absolutamente incompreensível. Eu não entendia nada do que ele falava. E, para não ficar chato, eu ria quando ele falava rindo e ficava sério quando ele falava sério. Achava mesmo que ele estava me gozando.

Um dia, papeando com o Paulinho, dono de melhor chope de Tatuí, comentei sobre minha dificuldade com o Geraldo. Achava mesmo que ele estava gozando da minha cara.

Sorrindo, Paulinho falou:

– Marinho, tá gozando não. Nem nós entendemos o que ele fala.

Tempo passando e, certo final de semana, toda nossa turma de Sampa resolve passar um final de semana em minha casa de Tatuí.

Sábado pela manhã, anuncio:

– Vou pro centrinho comprar a carne do churrasco e aproveitar pra cortar o cabelo.

Levanta a mão o Dorlan:

– Também vou. Preciso dar um tapa na juba.

No caminho comento que o Geraldo é uma barbeiro que fala muito enquanto maneja a tesoura, mas que não dá para entender nada.

No meio do papo surgiu uma ideia luminosa. Dorlan era de Jaú e, mesmo morando há décadas em Sampa, não perdia o caipirês no falar.

Contei que não entendia nada do que o Geraldo falava e propus um desafio:

– Quero ver se você, que é de “Jaur”, entende o que o Geraldo fala.

Chegamos, apresentações e sento na cadeira. O de sempre: Geraldo falando sem parar e eu entendendo nada.

Chega a vez do Dorlan. Tudo igual, Geraldo falando mais que a boca e o Dorlan mudo.

Cabelos aparados, contas pagas e saímos.

Ansioso pergunto ao Dorlan:

– E aí, entendeu alguma coisa?

O baixinho me olha com sorriso amarelo e diz:

– Só quando ele falou melancia

Naquela mesma época, estava sendo inaugurada uma fábrica americana em Tatuí.

Fiquei imaginando os gringos, que devem ter feito um curso  de português antes de embarcar para o Brasil, tentando compreender o que o Geraldo falava.

FRASE DE BOTECO

– Arco ou tarco?

– Verva.

Folclore piracicabano com barbeiro perguntando ao cliente:

– Álcool ou talco?

– Água Velva – responde o freguês.

 

publicado originalmente em https://gentequefala.com.br/papo-de-boteco/

FRACASSO! PREFERÊNCIA NACIONAL

No final de 2019, li uma interessante crônica do Marcelo Rubens Paiva.

O título era “O Fracasso Brasileiro” que abordava nossa “fracassomania”.

Chamou minha atenção porque, ao longo desta minha jornada de 75 anos, venho acompanhando a estranha obsessão brasileira pelo fracasso. Observada há muitos anos por Nelson Rodrigues, quando cunhou a expressão “complexo de vira-latas” para designar esse sentimento do nosso povo.

Adoramos a derrota. Parece nos dar prazer diante de um fracasso dizer:

– Bem feito! não falei?

O caso mais emblemático é o do Pelé. Aos 80 anos, continua como referência positiva do Brasil. É homenageado no mundo inteiro, incessantemente. Mas, no Brasil, só é lembrado pelo milésimo gol, desancado só porque lembrou que deveríamos cuidar melhor das nossas crianças e pelo encontro com Sandra Regina, uma filha que apareceu depois de quase trinta anos acompanhada por um advogado e um procurador. E isso num primeiro encontro, onde deveria iniciar os primeiros contatos com o pai famoso. Só faltou chamar o STF para garantir os seus “direitos”.

Outra história, referente ao nosso desmedido culto ao fracasso, foi com Emerson Fittipaldi. Aqui lembram dele como o idiota que construiu um F-1 brasileiro que vivia quebrando, ganhando inclusive o apelido de Leite Glória, aquele que desmancha sem bater, numa referência ao slogan desse leite em pó.

Agora vejam o cartel do Emerson:

2 vezes campeão mundial de F1;

2 vezes vice-campeão de F1;

2 vezes vencedor das 500 Milhas de Indianópolis, a mais emblemática corrida de automobilismo do mundo.

E tudo isso no tempo que o piloto era mais importante que todas as engenhocas eletrônicas da atualidade.

Querem mais uma prova?

Enquanto Emerson não é reconhecido no Brasil, em Miami comemora-se no dia 20 de junho o Fittipaldi’s Day, além de ter uma rua com o nome Emmo Fittipaldi.

E a lista é extensa: Chico Buarque premiado no mundo todo é tratado como um anormal. Quando João Gilberto morreu, Bolsonaro desdenhou sobre a importância do baiano. E mais uma penca de grandes nomes como Fernanda Montenegro, Caetano, Gil, Rubens Barrichello, que além de 2 vezes vice-campeão de F-1, nunca pagou para correr.

Quando leio as trapalhadas do atual ministério, meu pensamento vai direto para o humorístico Sai de Baixo.

O casal Caco Antibes e Magda era interpretado por Miguel Falabella e Marisa Orth. A personagem desta última abusava da ignorância.

E sempre que falava algo sem pé nem cabeça, o Caco dizia:

– Cala a boca , Magda!

E eu, sempre que vejo uma declaração estapafúrdia de qualquer membro do atual governo, não resisto e grito:

– CALA A BOCA, MAGDO!

FRASE DE BOTECO

Já foi publicado, mas não custa repetir:

É melhor calar-se e deixar que as pessoas pensem que você é um idiota, do que falar e acabar com a dúvida.

Maurice Switzer

Publicado originalmente em https://gentequefala.com.br/2020/01/16/fracasso-preferencia-nacional-por-mario-rubial/

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