UMA PALAVRINHA

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JOBSON

por CLAUDIO ATILIO
 
Dona Romana, uma senhora vigorosa e rotunda, já guardava seus instrumentos de parteira na maleta. O rebento viera ao mundo e, mesmo assim, os pais não chegavam num acordo…
 
– Macedo, tem certeza? Jobson?!
– Caci, pelamordedeus! São nove meses discutindo isso, chega né?
– De onde você tirou esse diabo de nome?
– Compadre Petrônio disse o significado. Como é mesmo…
– Desembucha, homem!
– Filho do trabalho! É isso, filho do trabalho. Você não sabe nada de inglês mesmo, talôko.
 
Erudição e paciência não eram o forte de Zé Macedo. Concessões então, nem pensar. Quanto a Carmem Cecília… bem, resignação talvez fosse seu sobrenome. Dona Romana trancou a maleta, ganhou a rua e o bebê um nome.
 
Jobson.
 
Teria uma vida pela frente para descobrir que, na verdade, não ganhara nada, mas perdera por W.O. Um nome desse naipe é algo que se carrega e esse seria seu fardo. Filho do trabalho.
Um significado assim já define vocação.
 
– Jobsonzinho fez dois anos e ontem disse as primeiras palavras.
– Mamãe, papai?
– Companheiros e companheiras.
 
Com sete anos os brinquedos já revelavam o futuro.
– De qual carrinho você gostou mais, da Ferrari ou do Lamborghini?
– Prefiro o trator.
– Esse Lego do Castelo de Hogwarts não é o máximo?
– O da siderúrgica é melhor.
– E boné?
– Que tal o capacete?
 
Jobson desconhecia preguiça. Essa é uma permissão que não pertence a quem se orgulha de um epíteto como Filho Do Trabalho. Virou homem e cresceu com o lombo curtido na labuta de segunda à segunda, de sol a sol. Aos dezoito conseguiu emprego na linha de produção da Toyota.
 
Bastaram dez anos de carteira assinada e já era uma lenda no pátio e no almoxarifado.
– O Jobson entrou aqui apertando parafuso. Vai ver hoje. É o melhor apertador de parafusos da firma.
 
Beirando os trinta casou com a secretária da contabilidade, Maria Lúcia, no dia 1º de maio. Dia do trabalho, filho do trabalho, as coisas não são à toa. Adorava usar crachá, não tirava nem pra tomar banho. Bater cartão de ponto então era um orgasmo. Seu sonho era ter em casa um que nem o da fábrica.
– Amor, vamos dar uma bimbada?
– Vamos, deixa eu bater o ponto.
 
Um belo dia, a Toyota robotizou tudo e os funcionários foram chamados pro departamento. Jobson tinha uma tara secreta pelo RH, mas ele e Marilu foram lá para se despedir do emprego.
Favas contadas, a vida seguiu.
Jobson acabou no suporte técnico da Microsoft. Marilu papou a concorrência e ganhou vaga na contabilidade da IBM. Carteira assinada, 13º, férias, convênio médico, vale refeição, apê financiado, estabilidade garantida. Resolveram ter filhos.
Veio um casal de gêmeos. Dessa vez a inflexão de Zé Macedo e a submissão de Carmem Cecília não se repetiram. Jobson e Marilu se afinavam e os nomes convergiram naturalmente.
 
Silício e Fibrótica.
 
Com tradições não se brinca.
 
 

 

 

BAILE DE MÁSCARAS

por CLAUDIO ATILIO

Agora elas flanam por aí. Desfilam pela paisagem todas suas cores, formatos, tecidos e significados. As máscaras nos protegem contra o Covid-19, mas em contrapartida nos escancaram.
– Eu mesma costurei, Constança.
– Nossa, que prendada! A minha é importada de Bali, comprei na Oscar Freire.
Janice só pensou – Nojenta de merda, continua metida como sempre…

Cores e estampas revelam personalidade e alma. As pretas são Rock & Roll puro, não resta dúvida. Até os semáforos sabem que jamais o Joey Ramone ou o Iggy Pop usariam uma máscara púrpura ilustrada com joaninhas ou lírios do campo. Em compensação, o Pabllo Vittar ou a Linn da Quebrada devem ter umas trinta e cinco com motivo de arco-íris radiante. E não se trata de preconceito mas sim de uma constatação. Opções de vida e combinações cromáticas ornam. Gritam que um nasceu para o outro.

Avessos ao recato e discrição vasculham a cidade como um sabujo atrás de uma amarela ou laranja. Por outro lado, tradicionalistas e conservadores ficam na dúvida entre a marrom acinzentada e a cinza amarronzada.
– Cleusa, estou atrasado. A Mirtes já passou minha máscara?
– Aqui está, Bartolomeu. E com o vinco engomado, como você pediu.

Para usar uma expressão da moda, o novo normal é mascarado. Antes do Coronavírus apenas hipocondríacos e paranoicos tapavam boca e nariz com qualquer espécie de paninho. Agora, só os incautos e desatinados desprezam o adereço.
– Seu marido é um irresponsável. Vi ele na barraca do pastel completamente sem máscara.
– Não é isso, Babi! O Joesley estava de máscara. Só que caiu calabresa, catchup e vinagrete nela.
– E o que ele fez com o raio da máscara?
– Comeu.

Os tecidos também devem produzir efeitos diversos. É bem provável que uma anteface confeccionada com brim ou lona de circo represente maior proteção para o organismo do que uma de tule ou voil rendado. O grande problema, que tem tirado o sono de costureiros e estilistas, são os óculos. Quem os usa sabe que basta um leve resfolegar para as lentes ficarem completamente embaçadas.
– Querida, adoro o fog londrino.
– Que fog, que londrino o quê, seu pascácio! Pare de respirar e não diga merda.
– Mas se não respirar eu morro, mulher!
– Pois esse é o espírito.

A segunda geração de máscaras virá com sistema de exaustão, onde o ar quente do hálito do infeliz quatro-olhos será trocado por oxigênio líquido. No limite, as fábricas de armações criarão mini limpadores de para-brisas acoplados às hastes.

Sentimentos e emoções humanas também sofrerão uma radical transformação. Um novo e mais atento olhar identificará sinais e sutilezas como o arquear de uma sobrancelha ou uma mexidinha de orelha no sentido de expressar algo.
– Puxa, Duílio! Eu digo que te amo e você… nada! Parece um menir!
– Jandira, eu estou sorrindo.

Mas o grande drama, o maior de todos, virá no final. Antigamente os bandidos eram os mascarados. E agora, como reconheceremos facínoras e malfeitores? Ou será que, na verdade, já não está mais fácil do que nunca apontar o ladrão, com ou sem máscara?

 


 

por CLAUDIO ATILIO

 

DESASSOSSEGO

 
Por Odin, como será que se começa a escrever algo digno de nota sobre um tema desse?
“Acordei desassossegado e bocejei…”
De jeito nenhum, que coisa ridícula! E desassossegado?! Que raio de palavra horrorosa, lotada de s. Será que não tem um cedilha no lugar de um desses? Melhor conferir no Google para não dar nenhuma canelada no vernáculo.
“ Um grande desassossego tomou conta do meu ser…”
Como dizia Bocage, pior a emenda que o soneto. Se alguém ler uma bosta dessa o que vai tomar conta do meu ser é a vergonha, isso sim. Tema lazarento esse, viu. Vamos lá, pensa, pensa, bota esse cazzo desses miolos pra funcionar. Já sei, um conto infantil!
“ Chapeuzinho caminhava pela floresta, viu o lobo e foi tomada por imenso desassossego…”
Nada a ver, cretino! Assim você faz picadinho de um clássico que sobrevive há gerações. Isso vai causar um levante de revoltosos imberbes. Será uma quebradeira só, vão derrubar a Bastilha e a culpa cairá no meu inocente colo. Vamos trocar por um sinônimo que talvez fique melhor.
“ Ariclenes aproximou-se de tio Cosme e isso lhe causou profunda inquietude…”
Inquietude é uma bela palavra. Meio pedante mas é poética, tem ritmo. O problema é que não tenho a mais remota ideia de como fazer deslanchar esse paquiderme duzinfernos. Seria um grande feito se, no máximo, ficasse sem pé nem cabeça. E um soneto hein!
“ Desassossego que invadiste a bruma e sufocaste
Espreitaste a alma que escondeste
Fizeste o encanto que negaste
Reluziste ouro que colheste”
Mano, cadê a latrina? Quanta rima esquisita, credo! E que dramalhão corta-pulsos dos diabos. Esquece essa merda. Vamos partir pro populacho e tascar um trocadilho.
“ Não confunda desassossego com dez a só cego”
Agora vamos falar a verdade, olho no olho. Se a infâmia não tivesse sido inventada essa pérola seria o marco zero. Cara, tritura essa porcaria, pica em pedacinhos e reza para ninguém ler.
Última tentativa. Fábula.
“ Era uma vez uma maria-fedida que vivia num desassossego de dar dó…”
Sem comentários, o silêncio será mais eloquente.
 

 


por CLAUDIO ATILIO

TOC-TOC-TOC

Três da matina. Hora de, há muito, estar enredado nos braços de Morfeu. Debruçado nas teclas do notebook, Stefânio Gatica não pensa assim. Não que seja um insurgente, mas subverter o senso comum é com ele mesmo. São madrugadas e mais madrugadas em claro escrevendo – ou tentando escrever – o romance de suspense e terror que irá riscar Stephen King e Mary Shelley do mapa. Pelo menos é isso o que ele imagina…

Penumbra, crepúsculo e meia-luz já são boa companhia para um escritor. A calada da noite então, nem se fala. Quietude, ausência de ruído e silêncio total, de braços dados com o negro do céu, são o cenário perfeito.

Celular não toca, boa parte dos carros dormem e motoqueiros, que durante o dia zunem pelas vias feito vespas assassinas, sossegam o facho. Enquanto isso ideias brotam.

O apartamento novo ficou um espetáculo. Varanda bacana, sala espaçosa, cozinha completa… coisa de cinema! Talvez um pouco grande demais para um cara solteiro. Pois ele está podendo, ora bolas!

Mas… espera um pouco. Silêncio total?! É isso mesmo que foi dito aqui? Se foi cabe um corretivo.

Stefânio sabe muito bem porque, vira e mexe, o texto empaca feito um jegue. A culpa é do toc-toc-toc, um barulhinho intermitente e irritante que teima em reverberar pelo teto e paredes. Vem do andar de cima, não resta dúvida. É assim noites e noites a fio. Não se trata de ruído alto, muito pelo contrário, mas a insistência o tornou uma tortura.

Uma frase e toc-toc-toc. Um período e toc-toc-toc. No meio do capítulo, toc-toc-toc. Mas que diabos! Não é possível que um sacripanta resolve martelar pregos numa hora dessa. Seria o máximo do desrespeito. Podem ser passos também, um notívago caminhando com sapatos de salto de madeira em plena madruga. De qualquer maneira é o fim da picada.

– E se eu estivesse dormindo, caralho!

Dormir também é uma das idiossincrasias de Stefânio Gatica. Ele prefere o dia. Como a noite é reservada para ofício a cabeça deita no travesseiro com o sol a pino. Mas problema pouco é bobagem, o vizinho de baixo é um vigoroso praticante de bateria. Das dez ao meio-dia o infeliz ouve seus thrash metal num volume desumano. E das duas às cinco da tarde pratica suas podreiras destruindo tambores e pratos.

– O animal irracional ainda vai deslocar o eixo da Terra com essa barulheira insuportável.

Vira pra lá, pra cá, enfia a cabeça embaixo das cobertas… em vão, melhor desistir já que está quase na hora de jantar, tomar banho e começar a escrever.

Meia noite e quarenta e cinco…

Toc-toc-toc.
Toc-toc-toc.
Toc-toc-toc.

– Puta que pariu, vou ligar agora pra portaria!
– Olha, seu Gatica, é complicado. Está muito tarde para interfonar e incomodar os moradores.
– Não quero saber! Liga essa merda, Roniel, ou eu mesmo vou lá, derrubo a porta e mato aquele desgraçado!

Dá cinco minutos e o porteiro retorna a ligação no interfone.

– Olha, seu Gatica, liguei lá. O seu Antenor atendeu e disse, bem bravo, que não está fazendo nenhum barulho.
– Mas como!!!

É bem provável que a loucura acometa de vez Stefânio Gatica. Se não for pelo vizinho será pelo porteiro, o cazzo do Roniel. O negócio é enfiar algodão nos ouvidos. Fica esquisito quando se abafa todo o som ambiente, você ouve a própria respiração. Mas fazer o quê?

Toc-toc-toc…

– Juro que um dia ainda esquartejo esse cretino e o arrasto por cavalos em toda extensão da 23 de Maio.

Num verdadeiro ato de heroísmo, Stefânio Gatica consegue terminar o segundo capítulo. Depois de lutar a noite inteira contra os toc-toc-toc do seu Antenor a batalha matinal é travada com os urros guturais de Max Cavalera.

PRTASKPIMBAPUTZRATAPLUMBAUSKSITKAZATRRRRAPATUMBA!

– Minha santa, eu até entendo que esse moleque tem direito de esmerilhar a batera no meio da tarde, mas acho que vou lá agora mesmo pedir um pouco de compaixão humana.

O insone escritor desce um andar, pelas escadas mesmo. Toca a campainha na esperança de que seja escutada no meio daquela britadeira pretensamente musical. A bateria silencia e a porta se abre. O “moleque” é grande, muito grande. De altura e largura. Veste uma camiseta preta estampada com a frase “Death To Idiots” em vermelho. Vira para baixo com aquele olhar de granito e encara o coitado do vizinho impertinente.

– O que foi?
– Olha, desculpe incomodar, mas será que não daria pra maneirar só um pouquinho nesse bumbo? O problema é…
– Caguei.

A força da batida da porta quase a fundiu com o batente. Stefânio Gatica tomou uma resolução.

– Vou pro sítio.

Era tudo o que precisava. Sem vizinho em cima, em baixo, do lado, apenas a companhia da natureza e dos animais silvestres. Ah… a tranquilidade do campo. Porém – sempre tem um porém – alguns sons intrometidos e inesperados vieram no pacote.

– Que lástima esses cachorros, não calam a maldita boca! Quem consegue dormir com esses latidos?
– Essas vacas duzinfernos tem mesmo que mugir e mugir, não bastava pastar e não me encher os pacová?!
– Coruja piadeira filha duma égua, vou dar um tiro nessa imbecil…
– O que esse demônio desse galo tem na cabeça pra cacarejar desse jeito, logo hoje que resolvi dormir mais cedo!
– Relincha, seu cavalo demente, relincha assim que eu ainda te atropelo.

Não deu. O campo foi pior para a paz interior de Stefânio Gatica do que um show do Sepultura. Voltou para o ap.

– Seja o que Deus quiser!

Pegou estrada, chegou lá pelas duas e tanto da manhã e abriu o notebook para escrever algo até o amanhecer. Ato contínuo…

Toc-toc-toc.

Como a paranóia já estava a milhão nem esperou. Correu para o andar de cima, tocou a campainha e esperou. A porta abriu e lá estava o tal do seu Antenor, que ele nunca tinha visto cara a cara. Um tiozinho murchinho, taciturno e arqueado sobre uma bengalinha. Devia ter uns 95 anos. Stefânio estufou o peito.

– Eu queria saber que raio de barulho é esse que você faz no seu piso toda noite. Marteladas, passos, cambalhotas, que merda é essa?

O velhinho explicou educadamente que no seu apartamento ele só anda de meias ou pantufas e que marteladas estão fora da lista dos seus afazeres domésticos.

– Então me diz uma coisa, seu Antenor, você nunca dorme?
– Durmo durante o dia, de noite fico acordado. Eu sou cego, pode ser que o barulho que lhe incomoda seja o da minha bengala batendo no taco, a que eu uso para me orientar.

Stefânio Gatica não conseguiu muito na venda do apartamento. A pressa não costuma ser boa conselheira nessas coisas.