BATE-PROSA

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Por AURÉLIO DE OLIVEIRA

PLANETA SÃO PAULO, A FELIZ CIDADE!

O título é provocante! Muitos não concordarão, outros apoiarão. Sei lá! Eu tenho um conceito bastante particular de felicidade. Acho que uma das características principais da felicidade é a vida bem vivida, completa, com experiências suficientes para se contar histórias. Sejam elas boas ou más, tristes ou alegres enfim… histórias vividas! São Paulo é uma cidade feliz porque vive uma tremenda história… uma não, muitas histórias!

Desde Anchieta, Nóbrega e o cacique Tibiriçá, com a Vila de São Paulo de Piratininga, essa cidade foi sendo repartida em povoados, que se transformaram em vilas e bairros cada um com uma história diferente pra contar. Hoje, são pequenas cidades e grandes histórias dentro da metrópole. Há bairros em São Paulo com uma população superior a de muitos municípios brasileiros. Assim como há muitos países que não têm nem a metade do número de habitantes que tem São Paulo.

Com todo esse tamanho e com toda essa gente, só pode ser feliz essa cidade que consegue ser um arquipélago cultural! Porque ela envolve, num só abraço gigantesco, a tudo e a todos… origens, raças, credos, sotaques, violência, tráfego caótico, deseducação urbana e social… tudo isso e muito mais numa espécie de amálgama humanitário. Todos convivem, não sem queixas, claro, mas também não sem orgulho, em meio aos muitos prós e contras de que é feita São Paulo, onde os prós, quase sempre, ofuscam os contras.

Por isso que alguma coisa aconteceu no coração do baiano Veloso quando, pela primeira vez, cruzou a Ipiranga com a São João… era felicidade, mas ele não entendeu. Não entendeu a poesia concreta das esquinas paulistanas, principalmente as quatro esquinas do cruzamento por ele eternizado. Também não percebeu as paulistanas que, cá pra nós, nunca foram deselegantes! Ok, meu bom baiano, eu sei… foi um difícil começo como é pra qualquer um que chega e tem de encarar essa cidade frente a frente. A letra da sua música também foi muito difícil no começo e até hoje, quando encarada frente a frente, muita gente fica meio que boiando com aquele negócio de “deuses da chuva”, “oficinas de florestas” e “áfricas utópicas”. Muito diferente de Narciso que acha feio o que não é espelho, o paulistano adora o que não é compreensível. Por isso ama a sua música, ainda que não entenda direito essas belas imagens tão bem costuradas e que sugerem leituras diferentes. Bem apropriadas para uma cidade que também tem as mais variadas interpretações! Uma cidade onde o Brasil e o mundo inteiro, incluindo gregos, troianos e baianos, pode curtir numa boa.

Assim, na juventude de seus 467 anos, eu vejo você como uma menina elegante, de poesia concreta… um sonho feliz de cidade, que todos aprendem a chamar de realidade. Porque, como já cantou o paraense Billy Blanco… São Paulo que amanhece trabalhando… São Paulo que não sabe adormecer… São Paulo é uma cidade com os pés no chão e não na areia. Areia só aos fins de semana ou feriados prolongados! E olhe lá…

Parabéns, querida… eu ainda não consegui ser um baiano. Porque é muito difícil deixar se ser paulistano…

Um dia, há quase 5 anos, deixei essa cidade para trás! Não só a cidade, mas muitas coisas e pessoas importantes na minha vida. Usei uma das saídas principais, Cumbica… mas saí de mansinho, sem bater a porta e já levando no coração um monte de saudades. Mas agora estou de volta! Porém, mais uma vez, não estarei aí no dia 25 de janeiro para, quem sabe, comer um pedaço de bolo lá no Bexiga. Se tudo der certo estarei por aí em fevereiro e nunca será tarde demais para festejar a cidade que um dia me pariu e fez de mim um paulistano. É verdade… dei meu primeiro berro ali no Ipiranga, ao lado do famoso riacho onde, 129 anos antes, D. Pedro também daria o seu grito.

São Paulo é minha fiel testemunha do quanto eu fui feliz por ter nascido nela, embora nunca percebesse essa felicidade! Normal, só damos valor quando estamos longe… seja na geografia, seja nas lembranças do passado.

Nessas homenagens a Sampa falta um elemento importante na história de seus 467 anos: os indivíduos anônimos que saíram de suas terras longínquas e vieram com sua fome e sua esperança tentar vencer na PaulicEia Desvairada. A maioria desses cidadãos veio do Nordeste (nosso ex-presidente é um deles), os quais, não importando de que estado nordestino tenham vindo, acabaram, sendo conhecidos simplesmente por “baianos” ou “bahia”, engrossando o filão de pobreza da cidade, cantado e recantado pelo grande Adoniran Barbosa. Mas jamais olvidemos que a eles e suas mãos calejadas se devem a construção de edifícios, viadutos, praças, monumentos e avenidas que fazem São Paulo ser o que é hoje.

 


SAFÁRIS

Você, folheando uma revista no barbeiro, de repente vira uma página e lá está a foto de dois animais. Um deles, segurando uma carabina automática com mira telescópica, caminha em direção do outro animal, deitado e sem vida.

O que está em pé com a arma é um animal humano e, certamente, da espécie irracional, porque os há aos bandos. Irracional porque mata pelo simples prazer de matar e depois adora tirar uma foto onde aparece cheio de pose, arrogância e cruel vaidade. Se raciocinasse não faria isso!

Já o animal que está deitado e morto é um rinoceronte adulto. Se em vida era irracional há controvérsias. Porque eu não tenho notícias de nenhum rinoceronte que tenha matado por prazer. Acho que o único problema de um rinoceronte é apenas o de layout.

Mas os caçadores, que adoram fazer safáris, não estão lá muito preocupados com a aparência dos bichos. Gastam rios de dinheiro, empreendendo expedições pelas selvas, para sustentar a prazerosa sanha pela morte sem razão e pelo troféu embalsamado na parede. Adoram contar vantagens sobre suas façanhas nas savanas africanas.

Conde Philip Richmond, um biliardário do Reino Unido, era exatamente assim. Duas vezes por ano, investia pesado em safáris e, sempre na volta de uma expedição, promovia festas espetaculares em sua luxuosa mansão londrina nos arredores de Kensington. Nessas ocasiões, o conde fazia o que mais gostava, além dos safáris. Contar suas aventuras para os convidados e regozijar-se com as expressões de surpresa e espanto com seus atos de coragem e ousadia em plena selva. Oh, sim, aquilo fazia valer a pena o dinheiro gasto!

Certa noite, o conde caçador recebia seus convidados na mansão Richmond, que estava luminosa. O amplo salão principal fervilhava de convidados, era a nata do high society de Londres, em mais uma recepção pós-safári. Garçons desfilavam suas bandejas servindo generosamente Dalmore 62, para quem quisesse whisky. Os que tomavam cerveja, se serviam da Vieille Bon Secours, mas havia quem preferisse vinho e o garçom oferecia o Chateau d’Yquem… e eu aqui, escrevendo isto tudo e tomando minha dosezinha de Fogo Paulista.

O burburinho elegante e refinado no salão era temperado pela textura jazzística saída de um trio vindo especialmente de New Orleans para a ocasião. Ao som de Night and Day, o conde Richmond, num bem cortado tuxedo Givenchy, com sua taça de coquetel Winston, flanava pelo salão cumprimentando e recebendo cumprimentos por outra bem sucedida expedição.

Em frente  à lareira, encimada pela enorme cabeça de um antílope, estava lady Emily Grant admirando o majestoso animal. O conde, claro, não perdeu a oportunidade:

— Emily, querida… disse ele encostando na lareira — … vejo que está admirando uma de minhas conquistas e…

— Oh, conde Philip, lindo esse cervo… — disse com afetação.

— Antílope… Tanzânia, 1992.

— Como? Ah, sim…

Riram os dois, já num clima etílico, e o conde explicou, em detalhes como ele, de seu jipe, a uma velocidade de quase 70 quilômetros por hora, conseguira abater o animal. Ela, já quase abatendo mais uma dose de vinho, estava impressionada:

— Nossa, conde Philip, quantos perigos o senhor deve passar numa caçada, não? Eu nem consigo imaginar…

— Verdade my dear… — respondeu fazendo sinal ao garçom.

— Senhor?

— Traga-me mais um Winston e você, Emily, mais um vinho?

— Oh, sim, sim… diga-me, conde, qual o maior perigo que já teve de enfrentar nessas suas caçadas?

— Ah, sem dúvida foi no Quênia, 2003. Era noite. Eu havia me afastado do acampamento para satisfazer minhas necessidades mais prementes e me perdi!

— Oh…___ fez Lady Emily — … e depois conde?

— Fiquei andando em zigue-zague, procurando o caminho de volta, que até esqueci do que tinha ido fazer ali… foi quando escutei…

— Escutou? Escutou o quê, conde?— perguntou ela sempre afetada.

— Um rugido ao longe, fugidio… mas meus treinados ouvidos perceberam que vinha em minha direção. Era algo assim… 

E ele reproduziu o ligeiro rugido: 

— Groar! 

Duas senhoras e um casal, amigos de lady Emily, encostaram junto a ela, todos festivos, rindo e…

— Psiu!!!— fez lady Emily com o dedo nos lábios  — Conde Philip está contando uma de suas aventuras…

O casal e as duas senhoras silenciaram. Mais algumas pessoas se juntaram ao grupo.

— E depois, conde… perguntou Lady Emily… — conseguiu satisfazer suas neces…

— Não! Estava mais preocupado com aquele rugido se aproximando, vindo em minha direção… eu já sabia que se tratava de um leão… e ele rugiu novamente, agora mais próximo!

E ele , novamente, imitou o leão:

— GROAAAR!

O “groar”, agora, saíra um pouco mais alto. Mais pessoas se juntaram ao grupo. Até um dos garçons ficara ali, empalmando a bandeja e escutando a aquela incrível narrativa.

— Oh, my God, conde…— exclamou lady Emily — … e depois?

— Sim, sim… e depois, e depois? — disseram todos, incluindo o garçom, dando um golinho rápido num Dalmore 62.

 A essas alturas, não passou desapercebido ao conde que sua plateia estava maior, o que o deixou mais entusiasmado ainda.

— Conde Philip… — gritou alguém — não nos deixe nesse suspense… e depois?

— Sim, conde, e depois? — disseram todos, incluindo o garçom dando mais um gole no Dalmore 62. Mais gente chegava ao grupo.

— Empunhei minha carabina mas… oh, vocês não vão acreditar!

— O que foi? O que foi? — perguntaram todos.

— Havia deixado minha munição no acampamento!!! E o leão rugiu novamente, agora mais perto ainda…

E ele, colocando seu coquetel sobre a lareira e abrindo os braços, rugiu alto como um leão, com toda a força de seus pulmões:

GROAAAAAAARRRRRRRR!!!

O terceto de jazz parou de tocar na hora. Os três músicos se juntaram ao grupo. Mais dois garçons se juntaram àquele primeiro e ficaram os três, cada um com seu copo, acompanhando a narrativa do conde. O salão estava, agora, em silêncio total.

— Oh, conde Philip…. — exclamou lady Emily quebrando aquele silêncio — … e o que aconteceu? Diga-nos, por favor…

O conde Philip Richmond balbuciou tragicamente:

— Fiz cocô nas calças! 

Houve um velado “oh” geral… todos trocando olhares significativos.  

— Ora, ora, conde…— disse lady Emily querendo poupar o destemido, ousado e corajoso caçador de algum embaraço — … numa situação dessa isso aconteceria com qualquer um aqui. Não é verdade, amigos? 

Ouviu-se um burburinho de assentimento. Sim, numa situação dessas, quem poderia prever… 

— Não, não, não… — gemeu o conde Philip Richmond, ainda de braços abertos, imóvel — … eu me caguei agora, imitando o leão!

Desce a cortina!

 

  


 

 

 MANIAS

Quero começar esta crônica com Sérgio Chapelin.

Entram os acordes de “Freedom of Expression” da famosa desconhecida banda “The J. B. Pickers” e uma computação gráfica formando o logotipo do Globo Repórter. Entra o Chapelin fazendo suas mãos dançarem no ar, literalmente …

“Manias… por que as temos? Como aparecem? Quando se manifestam? Quem são essas pessoas que adquirem os hábitos mais estranhos? No próximo segmento, você vai conhecer o caso do enfermeiro aposentado Juvenal que ganhou, entre os mais chegados, o apelido de Juvenalça, porque tinha a estranha mania (e prazer) de ir a final de velórios apenas para ajudar a carregar o caixão até o local do enterro.”

Obrigado, Chapelin… eu assumo a partir daqui.

Mas que lúgubre fascínio ou mórbido prazer Juvenalça sentia ao carregar um féretro? Que estranha compulsão era aquela? Como começou?

Bem, essa mania começou no dia em que ele carregara o caixão com o corpo da sua mulher, dona Helga, que o fizera comer o pão que o diabo amassou… aquela cobra! Que Deus a tenha porque o diabo não aguentaria! Começou a sentir um repentino deleite, uma subterrânea euforia… porque Juvenal, já sabia ele,  não estava carregando apenas um caixão, mas o símbolo pétreo de sua liberdade e, finalmente, sua paz. Já via seus pés sobre a mesinha de centro, a cervejinha quando quisesse, uma dosezinha de conhaque misturada com café… tudo sem aquelas tempestades domésticas provocadas por aquela cobr… ex-rainha do lar, pra não dizer mandona.

Juvenal ajudou a carregar o caixão da esposa com semblante triste… por fora! Porque por dentro estava radiante! Mas tinha de manter as aparências…

— Meus pêsames, Juva… coitadinha!

— Pois é… que se há de fazer…

Algum tempo depois, Juvenal soube da morte de um velho amigo! Foi ao velório logo de manhã para se despedir e, na hora do enterro, ajudou a carregar o caixão. Ao ajudar a levantar o esquife, agarrado a uma das alças, Juvenal sentiu uma espécie de êxtase… um súbito espasmo de prazer, como se fosse um orgasmo fugidio. Descobriu, naquele momento, que estava sentindo o mesmo arrebatamento que sentiu no enterro daquela cobr… sua mulher!  Percebeu que estava reciclando todo o prazer que sentira ao carregar o caixão da esposa.

Feitas as últimas homenagens ao amigo, Juvenal saiu do cemitério com uma estranha sensação de felicidade. Sim senhor, uma sensação indescritível! Foi como se tivesse experimentado uma droga alucinógena pela segunda vez e agora, viciado, queria mais!

Assim, passou a frequentar, com volúpia, o obituário do jornal da cidade e, aleatoriamente, escolhia um defunto. Anotava o horário e sempre chegava uma ou duas horas antes do enterro. Entrava na câmara ardente com uma expressão compungida por fora e uma enorme euforia por dentro… como um viciado preparando a seringa e a colher.

Ninguém estranhava aquela figura de terno e gravata, até porque um velório é um evento dos mais democráticos e permissivos. Não é como um casamento, por exemplo, em que sempre tem alguém que, desconfiado, pergunta:

— O senhor é parente do noivo ou da noiva?

— Eu sou o noivo! Ora, francamente…

Essa situação jamais aconteceria num velório e Juvenalça sabia disso e sentia-se tranquilo. Mas sempre tem um curioso de plantão:

— O senhor conhecia o falecido?

— Oh, sim, sim…— respondia Juvenalça balançando a cabeça tristemente — um grande amigo dos velhos tempos. Ainda esta semana conversamos…

— Mas o doutor Valdemar estava em coma há mais de um mês…

Juvenalça não caía do tipo. Depois de muitos velórios, adquiriu uma espécie de criatividade compulsiva:

—  Vejo que o senhor não conhece o tema Projeção do Corpo Astral e Projeciologia, do qual sou um perito. Mantinha seguidos contatos com o Vardema em coma…

— Com quem?

— Com o Vardema… era como eu chamava o Valdemar nos velhos tempos!

— Ah, sim…

E Juvenalça, rapidinho, ia para a beira do caixão com o ar compungido… “grande Vardema!”. Na hora de fechar o caixão, Juvenalça já agarrava uma das alças e não permitia que ninguém fizesse isso em seu lugar. “Essa alça é minha, ninguém tasca!” e lá ia ele, carregando o féretro e sentindo todos os prazeres que aquela “droga” lhe proporcionava.

Mas um belo dia, que sempre os há (adoro essa expressão!), Juvenalça dormiu no ponto, ou melhor… cochilou num dos cantos do velório e acordou com a choradeira dos parentes do defunto quando já estavam colocando a tampa. Levantou num pulo e foi pra beira do caixão na ânsia de agarrar uma das alças.

Oh, miséria! Oh, desgraça!

Todas as alças já estavam ocupadas! E aquele grupo de seis pessoas saiu com o caixão da câmara ardente em direção dos túmulos, acompanhadas de carpideiras que iam pranteando o morto.

Juvenalça foi atrás, também se lamentando. Mas não pelo morto… simplesmente porque ninguém cedeu uma alça pra ele.

— O senhor não gostaria que eu carregasse um pouco? Deve estar cansado…

— Não, obrigado… vou acompanhar meu irmão até o fim!

Juvenalça não desistiu!

Ia rodeando o pequeno grupo de carregadores pedindo pra um, pedindo pra outro…

— Posso ajudar? Talvez…

— Não, obrigado! Eu levo meu primo… pode deixar!

Depois de muito insistir, Juvenalça foi, aos poucos, ficando para trás… ninguém cedeu uma mísera alça daquele mísero caixão pra ele. Foi andando mais devagar até que parou de vez e ficou olhando aquelas pessoas se afastarem com o caixão.

Não podia acreditar! O terno, a gravata e até flores ele levara… tudo em vão! Isso nunca acontecera antes e pior… começaram uns relâmpagos, trovões e uma chuva forte!

Como um viciado impedido de se drogar, Juvenalça, com toda a força de seus pulmões, com toda a raiva que estava sentindo por aquela abstinência, ensopado pela chuva, gritou para o grupo e o caixão que já iam a uma certa distância:

— EI, VOCÊS AÍ DO CAIXÃO!!!

O grupo, pego de surpresa, parou e virou-se em direção do Juvenalça.

— ENFIA ESSE DEFUNTO NO…

Um repentino e ensurdecedor trovão ecoou encobrindo a voz de Juvenalça. Até porque esta é uma crônica de respeito…

 


 

 

 

DÁ-LHE NEGÃO!
 
Meu bom amigo e jornalista Décio Trujilo, ao fazer uma bela postagem sobre futebol, escreveu “Salve Pelé” por três vezes. Não sem razão. Até fiquei me questionando: será que somente aqueles com mais de 50 anos se lembrem daquele que, sem favor nenhum, foi o melhor jogador de futebol de todos os tempos? Que até agora, 2018, ano de Copa do Mundo, ainda não houve nenhum como ele? Uma pena… este país que, por cinco vezes já foi a “pátria de chuteiras”, relegue ao esquecimento seu maior ídolo!
Uma ocasião, meu saudoso amigo jornalista e médico desportivo Osmar de Oliveira enviou-me um e-mail com um vídeo anexado que causou-me três sensações inequívocas: de deslumbramento, de orgulho e, como brasileiro que ama o futebol, de vergonha.
O vídeo faz um ligeiro resumo da extraordinária carreira do mais completo e perfeito jogador de futebol de todos os tempos cujo nome, Pelé, é pequeno demais para representar tamanha grandeza. Mas tamanho de nome não é importante… Maradona tem um nome maior que o próprio ego e no entanto foi apenas um craque, como muitos que temos e tivemos por aqui.
Para aqueles que não viveram a era Pelé, assistir a esse vídeo é entrar, ainda que por alguns minutos, no maravilhoso universo do verdadeiro futebol arquitetura, do futebol pintura, escultura enfim… do verdadeiro futebol-arte!
A primeira sensação de deslumbramento ficará por conta da técnica apuradíssima de Pelé… com aquelas “matadas” de bola no peito, dribles desconcertantes de todos os tipos, cabeceios de impulsão… incrível! Pelé, às vezes, jogava com as pernas dobradas para melhorar o equilíbrio em função do centro de gravidade do seu corpo, é mole?
Olha… tem um gol de “bicicleta” nesse vídeo que até hoje, acredito, aquele goleiro não sabe de onde veio a bola. Quando ele a viu ela já estava no fundo do gol. As imagens não mentem… é só conferir!
Infelizmente, para o gol mais bonito do Pelé, segundo ele próprio, não há imagem… foi visto apenas por aqueles privilegiados que estavam no campo do Juventus na Moóca em agosto de 1959. O jogo foi pelo Campeonato Paulista entre Juventus e Santos onde Pelé, nesse gol, parecia acionista principal da Ramenzoni distribuindo “chapéus”, um para cada zagueiro e outro para o goleiro… completando a jogada com uma bela cabeçada direto pro gol! Fantástico! Se eu fosse esses zagueiros e o goleiro, eu diria pro juiz que iria até ali fazer xixi e nunca mais voltaria em campo!
Quer dizer… é impossível a gente não sentir orgulho, minha segunda sensação ao assistir o vídeo, em ter nascido no mesmo país que Pelé. Ele excedeu a todas as expectativas que se espera de um bom jogador de futebol. Jogou 1375 partidas e marcou 1284 gols. Numa só partida, em novembro de 64, quando o Santos enfiou 11 gols no Botafogo de Ribeirão Preto só o Pelé marcou 6 gols… foi o seu recorde de gols numa só partida.
Pela seleção brasileira ele jogou 115 vezes e marcou 95 gols! Também foi autor daquele golaço num jogo contra o Fluminense em junho de 61 que deu origem à famosa placa afixada no Maracanã. Hoje qualquer gol bonito a gente diz que foi um “gol de placa”, expressão essa, eu não sabia, inventada pelo finado Joelmir Beting.
Quer mais? Com apenas 17 anos foi campeão mundial (1958), com apenas 21 (1962) foi bicampeão. Jogou 4 copas do mundo e ganhou três! Em 2000 foi eleito pela FIFA como o Atleta do Século, a frente de Diego Maradona. Até guerra civil o Pelé já parou… foi lá no Congo Belga em 1969, quando o Santos fazia uma excursão pela África e aquele país estava dividido pela guerra. Os caras interromperam o combate só pra ver o negão jogar em duas partidas de exibição.
Mas ao lado do deslumbramento e do orgulho, também tive um ligeiro sentimento de vergonha porque acho que o Pelé nunca teve, após sua aposentadoria como futebolista, o reconhecimento que ele merece. Os americanos caem de quatro pelos seus ídolos do esporte, não importando a época em que atuaram… seja do beisebol, seja do futebol americano ou do basquete.
A molecadinha que nasceu ontem e que gosta de jogar beisebol sabe quem foi Babe Ruth, o maior jogador de beisebol de todos os tempos e que atuou de 1915 a 1935… foi o Pelé deles nesse esporte.
Se você perguntar pra outra molecadinha que gosta de basquete se sabe quem foi Michael Jordan não se surpreenda pela resposta positiva. Eu já não tenho muita certeza se a molecadinha que nasceu ontem no Brasil e que gosta de jogar futebol sabe alguma coisa sobre o rei do futebol.
Mas também nos EUA divulga-se muito os ídolos dos esportes. Em todo lugar vendem-se miniaturas dos jogadores, pôsteres e mil e um badulaques lembrando esses ídolos. Eu nunca vi um bonequinho, um chaveirinho ou sei lá o quê homenageando o Pelé. Se existiram, porque sumiram? Só o Café Pelé que, acho, era dele mesmo; e o Pelezinho do desenhista Maurício de Souza que, infelizmente, também caiu no esquecimento. Não sei se é uma questão de cultura ou de mídia, sei lá… mas no quesito reconhecimento e divulgação de seus ídolos os americanos dão de dez a zero nos brasileiros.
Até mesmo esse apelido, Rei do Futebol, nem fomos nós brasileiros que demos ao Pelé… foram os franceses após a Copa de 58, dando início a essa verdadeira lenda viva e fazendo do Pelé uma das personalidades mais conhecidas do mundo durante o século XX.
Durante algum tempo, foi comum pintar no planeta futebol a seguinte questão: “Quem foi melhor… Pelé ou Maradona?”. Parece incrível, mas entre a molecada de hoje em dia a maioria das respostas eram em favor de Maradona e, atualmente, citam Messi, Neymar e Cristiano Ronaldo, grandes craques, mas precisam tomar muita canelada ainda pra se equiparar ao Pelé.
Alguns mais espertinhos diziam que era difícil responder a essa pergunta porque ambos jogaram em épocas diferentes. Bobagem! O tempo pode ter mudado as técnicas, algumas regras… mas a relação entre um jogador e a bola sempre será a mesma e essa “intimidade” entre ambos sempre dependerá de talento e arte… que Maradona teve, verdade seja dita. Mas Pelé teve muito mais e sobrando! Também é bobagem ficar comparando os dois e indagando quem foi melhor ou quem fez mais pelo futebol. Basta ver a carreira de cada um. A carreira do Maradona, em muitos momentos, nunca foi flor que se cheirasse!
Olha… não me surpreende que a Argentina considere o seu ídolo o maior craque de todos os tempos. Eles estão certos e o Brasil deveria seguir esse exemplo. O que me surpreende é o Maradona acreditar nisso! Depois outra: a gente nem precisaria pensar no Pelé pra disputar esse “quem é quem” no futebol com o Maradona… bastaria o Zico ou o Falcão, tão bons quanto o craque argentino e, me parece, contemporâneos.
Alguns de vocês podem até lembrar que o Pelé andou falando bobagens como “o povo não sabe votar”; que “Romário deveria se aposentar”; que Ronaldo estava acima do peso em 2006; e outras cositas mais! Entendam que quem disse essas coisas não foi o Pelé… foi o cidadão Edson Arantes do Nascimento.
O Pelé… o rei do futebol, o amante da bola, aquele que só deu alegrias ao futebol brasileiro já tinha ficado na História. Quer saber? Uma lenda viva como ele jamais conseguiria ficar imune às polêmicas; e depois de jogar o que ele jogou, acho que ele tinha o direito de falar o que pensava e até de cantar desafinado tocando aquele violãozinho meia boca dele.
Meu saudoso amigo Osmar de Oliveira costumava dizer que nunca houve, não há, nem haverá um jogador de futebol como o Pelé! Nem adianta tentar procurar. Bem… assistam ao vídeo e depois me digam se o doutor estava certo ou não! Eu acho que estava…
 

 

 


DIFERENÇAS

 

Ele, Osório, está com 84 anos. Ela, Anita, também.

Foram namorados no início dos anos 60, mas namoraram apenas três meses. O suficiente para descobrirem que, entre ambos, havia uma tremenda diferença de valores, de visão, de gostos… de tudo! Menos de idade… ainda que ela fosse apenas 4 meses mais velha.

Ele gostava de rock… Bill Haley and his comets, Chuck Berry, James Brown… acabou virando um visceral beatlemaníaco. Ela odiava rock, som de guitarra, música em alto volume… amava bossa nova, João Gilberto, Tom, Vinicius.

Quase nunca iam ao cinema. Nunca dava certo. Porque ela amava os musicais… Fred, Gene, Connors e ele adorava terror e far west… Wayne, Lancaster, Karloff, Lugosi, Lee…

Nunca iam a restaurantes. Nem pensar! Às vezes ele, carnívoro de se deliciar com cutícula,  ia sozinho na L’osteria do Piero comer um filé a parmegiana. Ela, vegetariana de mostrar crachá, às vezes ia sozinha no Almanara comer charutinhos de folhas de uva e abobrinha recheada com arroz marroquino.

Beber, ele só bebia destilados… whisky, vodka, qualquer tipo de Schnaps e até Arak, se tropeçasse numa garrafa. Ela odiava bebidas fortes, mas às vezes tomava um cálice de vinho do porto. Vez ou outra, no almoço ou na janta (nunca nos dois), se permitia uma dose de Adriano Ramos (ela evitava pronunciar Pinto).

 Livros… ele devorava Sidney Sheldon, pocket books de far west e era assíduo frequentador de Seleções, particularmente “Flagrantes da Vida Real” e “Piadas de Caserna”. Ela lia e relia Camus, Hugo, Eça e, somente no cabeleireiro, folheava (apenas folheava) algum exemplar de Cláudia.

Claro que esse namoro era impraticável, mas chegaram a cogitar casamento. Quem sabe uma vida a dois os ajudasse a um entendimento, à prática de um exercício de concessões. Um cede aqui, outro cede ali… por quê não?

Bem, ele queria um casamento na igreja, com padrinhos, madrinhas, chuva de arroz e rega-bofe no salão de festa da igreja. Ela queria algo mais discreto. Somente casamento civil e apenas a participação de ambas as famílias. No final, apenas um drink com Adriano Ramos P…

Não chegaram a um acordo. Mesmo porque ele queria fazer a lua de mel acampando na praia de Perequê… churrasquinho, caipirinha de vodka, violão em volta da fogueira. Iriam de moto. Ela adoraria ir de carro para um chalé em Campos do Jordão… chocolate quente, biscoitos amanteigados e bombons trufados.

Por isso, não se casaram. Separaram-se e nunca mais se viram. A vida os levou para caminhos diferentes. Apesar disso, o amor, essa força misteriosa que sempre inquietou a humanidade, ainda manteve, por anos a fio, uma pequena chama-piloto acesa no coração de cada um.

Quase 60 anos depois, eis que um belo dia, que sempre os há, ele decidiu ir almoçar na L’osteria do Piero. Domingo, casa cheia. Não havia mesas vazias. Empurrando o andador, ele se aproximou de uma mesa com apenas uma ocupante. Caberiam duas pessoas tranquilamente.

Perguntou a ela se poderia ocupar uma das cadeiras. Ela, cortando um pequeno naco de seu filé a parmegiana, assentiu delicadamente tomando um pequeno gole do seu Ballantines 12 anos. O garçom o ajudou a sentar-se, colocando seu andador ao lado do andador dela.

Ele pediu brócolis ao alho e óleo e um peixe grelhado. “E pra beber, senhor?” Pediu uma dose de vinho do porto… Adriano Ramos… Adriano Ramos… não se lembrava do nome completo do vinho.

— Pinto! — completou ela

O garçom anotou o pedido e se retirou. Ele virou-se para ela, semicerrando o olhar…

— Sabe… ___ disse ele — … por um momento pensei que você fosse uma pessoa que conheci há muitos anos. Mas quando eu vi você comendo esse filé e tomando whisky eu disse… não, não pode ser ela.

— Engraçado… — disse ela passando o guardanapo nos lábios — eu também tive a mesma impressão. Mas quando vi você pedindo brócolis e peixe, também pensei… não, não pode ser ele.

— Pois é… e você tomando um whisky e falando “Pinto”… eu disse: realmente não é ela mesmo!

— Sim… eu tomei muito Adriano Ramos Pinto, mas hoje prefiro um 12 anos de boa marca! Em casa, eu tomo Jack Daniell’s ouvindo o Sargeant Peppers…

— Sério?— perguntou ele — Ouvi muito os Beatles. Hoje prefiro ouvir Tom e aquela batida suave do violão do João Gilberto…

— Mas que indelicadeza a nossa!— disse ela estendendo a mão — Nem nos apresentamos! Meu nome é Anita… e o seu?

Ele estendeu a mão, perplexo…

— Osório!

Numa fração de segundo, que durou uma eternidade, as mãos se apertaram, ambos os corações dispararam e um filme, de edição frenética, passou rapidamente para os dois… Bill Haley, Tom Jobim, Beatles, Gene Kelly, John Wayne, saladas, filés, Sidney Sheldon, Eça de Queirós, Ramos Pinto, Schnaps, chocolate quente, bombons…

Soltaram-se as mãos. Ela cortou mais um pedaço do filé e ofereceu a ele. Aceitou, tomando um gole do whisky dela. Ela espetou um brócolis do prato dele e deu um gole no Adriano dele.

— Depois deste almoço… — disse ela com olhos molhados e brilhantes — … a gente poderia dar um passeio pela alameda aí fora…

— No meu andador ou no seu? — respondeu ele, com um sorriso triste.

 


EU SOU DO TEMPO QUE…

Eu sou do tempo em que São Paulo não era uma cidade… era a cidade! Do tempo da praça da Sé e da praça Clóvis, divididas por um conjunto de prédios antigos que começava com o maior arranha-céu daquela região: o edifício Mendes Caldeira, nas esquinas da Sé com a Santa Teresa. Era um predião de 30 andares com o símbolo da Mercedes na cobertura. Mas em 1975 foi pro beleléu na primeira implosão da cidade. Era o metrô chegando no centro.

Subindo a Sé, a partir do Mendes Caldeira, tinha o Edifício Santa Helena, que abrigava um teatro do mesmo nome e o Cine Múndi. No meu tempo de office-boy já não funcionavam mais. Mas foram superbadalados na década de 1920. Foram demolidos em 1971, também por causa do metrô.

Subindo mais, chegando na esquina ao lado da catedral, tinha o Bar e Lanches Catedral, famoso entre a molecada que trabalhava no centro. Na porta desse boteco tinha um carinha que vendia esfihas abertas. Era o João das Esfihas. Meu… o cara era viado! (Naquele tempo a gente não falava gay!)

Sabe que o sacana fazia?

Ele usava uma calça cujos bolsos não tinham fundo. Então ele pedia pra molecada que chegava lá enfiar a mão naquele bolso pra passar a mão na bunda dele. Aí ele dava uma esfiha de graça! Todo dia fazia a maior fila de office-boys lá! Eu mesmo, muitas vezes, apertei as bochechas glúteas do João… e ainda negociava: uma “bochecha”, uma esfiha. Duas “bochechas”, duas esfihas!

Eu sou do tempo em que camelôs, em São Paulo, eram bem poucos. Alguns marcantes, como a mulher que ficava o dia inteiro na esquina da Sé com a Direita gritando: “ABC e a tabuada! ABC e a tabuada!”. Tinha um tiozinho que ficava na José Bonifácio vendendo um corinho dobrado que se colocava debaixo da língua pra fazer imitação de gato ou de passarinho. Depois de umas “miadas” ele gritava: “É “doi” por ‘quinhento’!”.

Por falar em gato, tinha aquele malaco que ficava na Patriarca também vendendo esses corinhos. Só que ele tinha uma técnica mais apurada que o tiozinho. O malandro tinha um pedaço de pau, uma caixa de papelão e o corinho debaixo da língua. Ele dava umas pauladas na caixa e imitava um gato berrando. Meu… todo mundo parava achando que tinha um gato dentro da caixa. Juntava uma pá de gente esperando no que aquilo ia dar. E tome paulada na caixa, e tome o “gato” berrando… depois de algum tempo ele revelava o corinho e vendia o peixe dele! Era uma diversão!

Os camelôs eram verdadeiros artistas! E convincentes também!

Eu sou do tempo do cara que vendia “aparelhinhos de raio X” na Quintino Bocaiuva. Era um palito de sorvete, tipo Kibon, com um buraquinho numa das extremidades. Dentro do buraquinho tinha um pedacinho de plástico. Só isso! Ele conseguia convencer a todos presentes que, olhando por aquele buraquinho, dava pra olhar através de qualquer coisa! “Não requer prática nem tampouco habilidade…” dizia ele com voz articulada “… com este aparelho, qualquer criança mexe, qualquer criança brinca!” Aí ele pegava uma banana e chamava alguém (já combinado, claro!). Dava o “aparelho” para a pessoa e segurava a banana na altura dos olhos dela. “O que você vê aqui, cavalheiro?”. A pessoa olhava, olhava e, de repente, exclamava: “Nossa… to vendo a massa da banana!” E ele se virava pra todos e dizia, conquistador: “Não é mágica, não é feitiçaria… é ciência pura, desenvolvida pelos russos na 2ª. Guerra Mundial!”  (O cara caprichava!). E aí vinha o golpe final! “Imaginem vocês, cavalheiros, na praia, lendo um jornal tranquilamente. Basta colocar o aparelho entre as folhas e ficar olhando as mulheres de maiô… hein? hein?”. Com essa, uns três ou quatro fulanos já combinados pediam “fascinados” pra comprar. Isso porque muita gente, por desconfiança ou timidez, só ficavam olhando. Estimulados pelos “amigos” do camelô, acabavam comprando. Deviam pensar: “Vai saber… e se for verdade?”.

Meu… fala sério! Juntava gente pra caramba em volta pra ver o tal aparelho. A lábia do cara era fantástica! Ele venderia tranquilamente geladeiras no Polo Norte. As pessoas, como que fascinadas e atingidas em cheio pela curiosidade, compravam aquele palito de sorvete por mil cruzeiros!

Cara… eu sou do tempo do bonde!

Eu ia pra casa num bonde aberto da linha 4 – Ipiranga. Ele descia a Clóvis, a Rangel Pestana e ia pelo Cambuci (rua da Glória, Lavapés e Independência e depois entrava na Dom Pedro). Eu ficava mudando de lugar, andando pelo estribo, sempre que o cobrador se aproximava pra não pagar a passagem.

Mas isso já é outra história dos meus tempos de office-boy nessa nossa boa e velha São Paulo! A gente vai se falando…

 

https://www.saopauloantiga.com.br/edificio-mendes-caldeira/

 


 

 

ERA SÓ O QUE ME INFARTAVA – 3ª parte

As madrugadas no terceiro andar do Hospital João 23 chegavam às raias do angustiante. O silêncio no corredor só era quebrado, vez ou outra, pelo andar ligeiro das três enfermeiras de plantão. Entravam e saíam dos quartos para as medicações e voltavam para a área reservada a elas, cercada por um balcão.

Eu, no leito 308-1, infartado, insone, ficava deitado olhando para cima e me desesperando. Imaginando coisas. Olhando uma mancha de umidade no teto que parecia um dragão voador. Ficava desejando ardentemente que algo, de repente, pudesse acontecer e quebrar aquela monotonia mórbida de pequenos gemidos distantes ou de ruídos longínquos e incompreensíveis.

Ao meu lado, o morador de rua com broncopneumonia dormia sem emitir nenhum som. Apenas ressonava baixinho… se pelo menos ele roncasse! Aí eu poderia ficar contando quantas vezes ele roncaria em 10 minutos… sei lá! Até dar sono. Muita gente conta carneirinhos. Eu poderia contar os roncos do meu  vizinho. Seria uma distração. Ou então se o dragão soltasse uma labareda…

Eu sempre gostei do inusitado. Do nonsense. Sabe quando um paradigma é quebrado? Quando algo sai fora dos eixos? Quando o repente sem sentido substitui a normalidade? Pois é… era isso que eu queria muito naquele momento.

Imaginei, então, um grito repentino e gutural vindo do fundo do corredor.

Lá é o quarto 302, onde está internado o Genésio, um caso sério de alcoolismo e drogas pesadas. Pulo da cama num salto e corro em direção do 302. O que eu vejo na porta do quarto revira-me as entranhas numa repentina e insuportável ânsia de vômito. A enfermeira Jacira, caída junto ao batente, agoniza com olhos vidrados de terror. Segura o pescoço com as mãos que, rasgado de lado a lado, jorra sangue no corredor. Olho pra dentro do quarto e lá está o Genésio, nu, babando um líquido viscoso e segurando uma ampola com agulha. A mão está coberta de sangue, os olhos congestionados e da sua boca, de dentes amarelos e irregulares, ecoa um riso demoníaco…

Não, não! Exagero de imaginação! O Genésio, coitado, não tinha força nem pra fazer cocô quanto mais pra subjugar a enfermeira Jacira, gorda feito um tonel. Não… vamos imaginar outra coisa não tão dramática!

Eu poderia imaginar um motim! Sim, um motim… um repentino ato de rebeldia aqui no terceiro andar. Hummm… a ideia me entusiasma! Até já estou vendo o velho Bruno do 301 entrando no meu quarto. Italiano musculoso, peludo feito um Tony Ramos, alto, testa taurina, nariz de batata e portador de um aneurisma crônico. Ele entra e me cutuca com o dedo que mais parece o cabo de uma enxada.

— Está na hora, andiamo!

— Estão todos aí? — disse pulando da cama.

— Andiamo presto! Tome… fique com isto! — disse ele dando-me uma ampola carregada com um líquido vermelho.

— O que é isto? Sangue?

— Isso… do Zezé do HIV, do 305… “tiramo” sangue dele e “enchemo” questi ampolas de injezione que vamu usá come arma, capisci?

Lá fora, o time de amotinados está completo. Além de mim e o italiano Bruno, estão o alcoólatra Genésio; o Aparício, do 303, infartado como eu; o “seu” Radamés, do 307, com colite isquêmica e usando apenas uma fralda geriátrica, se apoia em seu pedestal de soro; e a única mulher entre os rebeldes… dona Filó, com catarata, é empurrada por mim numa cadeira de rodas.

O corredor está em silêncio e a nossa conversa é na base do sussurro. As três enfermeiras de plantão, Jacira, Odete e Carla, sem muito o que fazer às 3 da matina, estão na sala de convivência assistindo o Dr. House.

— Cadê o Zezé? — pergunto a todos.

— Ficou na cama… — respondeu o Aparício — …depois de tirar tanto sangue, ficou com fraqueza.

O italiano tomou a frente do grupo e abriu os braços. Parecia uma enorme cruz carnosa e peluda saindo da bata branca.

— Escuita que te digo io! — disse ele — vamu pigá elas de surpresa y fazê nostras reivindicazione, capisci? Sono solo 3 infermieri! Io fico com Jacira, la donna gorda, perche io soi masi troncudo! Aparizio, tu fica com a Odete, masi magrinha, y Genedzio fica con a Carla coxuda. Tcherto? Andiamo presto!

Todos assentimos com a cabeça e, lentamente pelo corredor vazio, aquela exótica farândola de batas brancas, pedestal de soro, fralda geriátrica e cadeira de rodas foi caminhando em direção da sala de TV. Cada um segurando sua ampola com sangue do Zezé. O italiano Bruno, como um búfalo comandando sua manada, ia à frente, mostrando sua enorme e peluda bunda saindo de trás da bata. Não era uma visão agradável, confesso. Chegamos. O italiano virou para nós, sussurrando:

— Tutti pronti?

Balançamos  a cabeça e o italiano invadiu a sala de TV. Entramos todos atrás dele. A gorda Jacira se levantou num pulo (“Mas o que é isto?”), mas foi imediatamente dominada pelos braços musculosos do italiano, que segurou-a por trás. Apavorada, ela viu com o rabo dos olhos a agulha da injeção apontada para seu pescoço. Odete e Carla estancaram paralisadas, com as agulhas de Genésio e Aparício apontadas para elas.

— O… o… que tem nessas… ampolas? — balbuciou Jacira apavorada.

— Questo é il sangue du Zezé do HIV, bela!

— Ficaram loucos, é? — perguntou Odete num ímpeto de coragem.

— Queremos ser atendidos em nossas reivindicações… — gritou o “seu” Radamés, puxando um pouco a fralda que estava caindo e revelando o rego da bunda — … senão o sangue do Zezé vai comer solto aqui!

— Vá bene… signore Orelio… — disse Bruno virando-se pra mim — parla pra questas ragazzas u qui nós queremos! Parla!

— Bem… — disse eu ajeitando o soro de dona Filó que, com as mãos trêmulas de Parkinson, empunhava a sua ampola em direção do nada! — … nós queremos mais sal na comida e…

— Muito me admira o sinhô, “seu” Aurélio… — cortou a baiana Carla — … um hôme bunito, góshtoso, intéligente… fazer parte duma presepada dessa! Ôxi, Jesus me defenda…

— Dona Filó… — continuei, sem me deixar levar pelo “góshtoso e intéligente” — quer uma TV só pra ela. O Genésio quer tomar uma espremida de limão com 51 antes das refeições; “seu” Aparício quer direito a visita íntima; “seu” Radamés quer fazer cocô e não consegue e…

— … e io quero massa in tutti las refeizones, capisci? — completou Bruno.

Foi nesse momento que começou um angu de caroço! O segurança do 3º andar, que tinha ido tomar café, entrou de repente na sala de TV (O que está acontecendo aqui?). Todos viraram a ampola na direção dele. Jacira aproveitou a deixa deu um empurrão no italiano, que caiu em cima da cadeira de dona Filó, que virou em cima de mim fazendo-me bater a cabeça. Desmaiei! Genésio se atirou contra o guarda, derrubando-o. O segurança caiu sacando o revólver e a arma acabou disparando. O tiro, caprichosamente, atingiu o alarme de incêndio que disparou um ruído ensurdecedor. Os sprinklers no teto de todos os andares começaram a jorrar água por todo o hospital.

Todos saíram correndo pra fora da sala de TV. Começou um Deus nos acuda! Em todos os andares, pacientes saíam de seus quartos e caiam pelos corredores repletos de água. Iam se arrastando puxando as mangueirinhas de soro e medicação presas nos braços, pernas… parecia o inferno de Dante. Havia gritos de socorro misturados com o ruído estridente do alarme. Ao longe ouviam-se sirenes dos bombeiros e viaturas da polícia. Na confusão da sala de TV, dona Filó agarrou meu braço gritando… “acorda, seu Aurélio… acorda!”

 Acorda, “seu” Aurélio… eita que tá na hora da injeção! Vamos! Vamos!

Não!!! O sangue do Zezé, não!

— Misericórdia, “seu” Aurélio… andou sonhando é? Eu, hein? Jesus me defenda!

 Era a baiana Carla, arrancando meu cobertor e segurando uma ampola. Sentei na cama esfregando os olhos. Caraca… preciso por um freio na minha imaginação!

A baiana empurrou a agulha no acesso grudado em meu braço e, com um sorriso que só as baianas têm, injetou a medicação.

 De repente, um grito repentino e gutural veio do fundo do corredor…

— Que foi isso? — perguntou Carla assustada.

— Nem queira saber! — disse eu, deitando novamente.

 


 

ERA SÓ O QUE ME INFARTAVA – 2ª PARTE

Depois que voltei do Hospital São Paulo, onde fiz  o cateterismo femoral, internaram-me novamente no João 23 na Moóca. O infarto em si não foi tão dramático quanto essa viagem de ambulância, com direito a alta velocidade, sirene ligada e o escambau. Parecia que eu estava num filme e que, a qualquer momento, as portas traseiras se abririam e minha maca de rodinhas se soltaria e rolaria avenida abaixo. Correria em alta velocidade, com aquela maca desgovernada, passaria por sinais fechados em perigosos cruzamentos, subiria nas calçadas, derrubaria bancas de camelôs até que, finalmente, seria estancado por um repentino fio entrelaçado nas bordas da maca. Era o Homem Aranha, surgido do alto de um edifício. “Aonde pensa que vai, malandragem?” teria dito ele em meio a uma multidão estarrecida.

Não foi nada disso!

A ambulância entrou no pátio do hospital e os enfermeiros tiraram a minha maca com a casualidade de um funcionário da Granero descarregando seus caixotes.

Levaram-me direto para o terceiro andar e alojaram-me num dos quartos que contava duas camas. Puseram-me na da esquerda em companhia de um rapaz, morador de rua, com broncopneumonia. Fizemos amizade rapidinho e ele riu muito quando chegou a bóia e eu reclamei da comida com a mocinha. Disse a ela que levasse de volta aquela quentinha com arroz sem sal e abobrinha cozida e me trouxesse um espaguete a parisiense com salada de aspargos.

Ela me perguntou se o meu problema era no coração ou na cabeça. E saiu rindo, a insensível!

Depois de instalado e medicado, fui dar um rolê pelo corredor. Muito bom o hospital e, mais uma vez, me surpreendi com o SUS. Boas instalações, gente competente… tinha até uma sala de convivência, com uma TV de plasma, jogos e revistas de montão. Eu quase não saía de lá… tanto que as enfermeiras tinham de ir lá para me avisar da medicação.

— “Seu” Aurélio… tá na hora da injeção!

— Pode ser aqui? Estou vendo um filme e…

— Se o senhor tiver uma bunda bonita para que todos aqui apreciem…

— Ok, vamos para o quarto!

Foi nessa sala que eu conheci o Genésio, internado no 305. Tinha 34 anos e uma aparência de 68. Estava lá por complicações causadas pelo excesso de cachaça e drogas pesadas. Tinha um aspecto franzino, pele ressecada cobrindo braços e pernas fininhos e frágeis. Tinha um olhar bovino de grandes olhos congestionados, mas era um olhar doce e gentil e falava devagar, com grandes pausas entre uma palavra e outra. Às vezes não falava coisa com coisa. A pinga e o crack tinham prejudicado bastante seu raciocínio.

Num desses dias, entrei na sala de convivência e lá estava ele sentadinho no sofá sem se encostar, com as mãos segurando dois joelhos ossudos. Cumprimentou-me com ternura etílica:

— Oi “Sorélio… estava aqui… esperando a Namaria Braga… gosto das comidas… que… ela faz! Só não… gosto desse… desse… papagaio metido!

— Eu também, Genésio, eu também… — disse, sentando-me ao seu lado —… aliás, com essa comidinha aqui do hospital, só Jesus na causa, como dizem em Arraial d’Ajuda.

—Verdade… só Ele pra dar força e… vontade… da gente… continuar vivendo.

Nesse dia eu estava pra receber algumas visitas, entre elas meu amigo Jesus Dias, dos tempos da Editora Abril. Diretor de arte de alto calibre e amigo de longa data e de exaustivas jornadas de trabalho.

Então, estávamos eu e o Genésio assistindo “Namaria” quando, de repente, entrou o segurança do 3º andar na sala:

—“Seu” Aurélio… tem visita pro senhor lá no seu quarto.

—Ah, sim, obrigado… disse o nome?

—Jesus!

—Obrigado… estou indo!

Levantei-me e olhei em direção do Genésio para me despedir. Seus olhos congestionados estavam arregalados, sua expressão denotava um quê de surpresa e admiração. Segurou o queixo com uma das mãos e exclamou:

—Orra, meu!

Virou meu amigo de vez, o interesseiro!

 

 


 

ERA SÓ O QUE ME INFARTAVA 1

O que leva a gente sentir uma dor no peito? Um tipo de dor assim… como se as mãos de um estivador estivessem apertando seu coração. Você já sentiu isso?

Já senti esse tipo de dor muitas vezes… seja por causa de amigos, de patrões, sócios, colegas de trabalho… de namoradas então, nossa! Quantas vezes!

Quantos patrões, para quem dediquei corpo e alma no trabalho, já me passaram a perna? Quantos colegas de trabalho, carreiristas, já me deram um nó? Quantas namoradas já me deixaram falando sozinho, frustrado, decepcionado…

Algumas pessoas sabem ferir quando querem e a dor que elas provocam nos enchem de mágoa.

É uma dor terrível no coração… e às vezes demora passar!

Semana passada, ao entrar no Metrô Anhangabaú, senti uma pontada terrível no peito. “De novo?”, pensei… e fui me lembrando de todas as vezes que fui magoado por alguém. Não havia nenhum acontecimento recente que me levasse a alguma desilusão.

Estranhei…

Então, por que essa dor?

Desci as escadas rolantes pulando de dois em dois degraus, entrei no trem e fui pra Moóca. Na casa de minha irmã, ela e meu cunhado decidiram me levar ao hospital e lá tive o diagnóstico: infarto do miocárdio!

Respirei aliviado… ainda bem que foi só isso!

 


*ESCLARECIMENTO – para que os amigos, parentes e alunos não fiquem preocupados, este texto foi escrito há alguns anos, ok?


 

 

HINOS

de músicas e letras

Nunca me esqueci da última Copa do Mundo, quando eu parei tudo pra assistir França x Peru. Começaram os hinos, e nesses momentos, eu sempre acho o seguinte (na minha singela opinião): só há dois hinos legais de se ouvir. O nosso e o da França. Claro, por uma questão de ufanismo e ardor cívico cada um gosta do hino de seu país. Mas musicalmente falando, os hinos brasileiro e francês empolgam, têm uma melodia atraente… são músicas que já se começa a gostar na primeira vez que se ouve. Inevitável ficar acompanhando o ritmo batendo a ponta dos pés. Com a mão não, porque essa ou está no peito ou está batendo continência.

O da França, a Marselhesa, é muito massa como se diz aqui no Arraial! O lendário 5º Beatle, produtor da maior banda deste e de outros planetas, George Martin, usou a beleza harmônica dos primeiros compassos desse hino para enfatizar a mensagem de amor (All You Need Is Love) criada por John Lennon. Não sem razão! Até o russo Tchaikovsky, em sua peça orquestral Abertura 1812, usa trechos da Marselhesa pra comemorar a vitória russa sobre Napoleão. É um hino porreta, sem dúvida!

Mas olha… tirando o ufanismo, o patriotismo… que isso, como o pomo de Adão, já nasce com a gente, eu acho o nosso hino o mais legal de todos, mais que da França até. Mesmo ouvindo teorias conspiratórias como aquela que diz que Francisco Manuel da Silva, o compositor, teria se inspirado na abertura de O Barbeiro de Sevilha, de Rossini. Dane-se! Também é um hino porreta e todo mundo gosta! A Marselhesa também, dizem, teria sido inspirada por seu compositor, Rouget de Lisle, no Concerto nº 25 de Mozart. Tudo bem… o que é bom e bonito tem de ser imitado!

A única coisa que sempre me causa estranheza no hino brasileiro é a letra: é um ufanismo sem fim, um orgulho exacerbado… traduzido em vocábulos que a gente jamais usaria no dia a dia. Deve ser a mesma coisa em outros hinos… não sei! Digo não sei porque no hino francês, por exemplo, nunca passei do Busanfant de la patrie.

Claro, não se discute o conteúdo editorial da letra, ou seja, a sua mensagem. Mas o nosso hino precisava ser com essas palavras? Meu… carinha prolixo esse Osório Duque Estrada, o letrista! Passei toda a minha infância sem saber o significado de “mais garrida”. Na escola, na hora do “mais garrida”, a gente aumentava o volume da voz e gritava “margarida”, lembram? Garrida pra mim, se não significasse “enfeitada”, está mais pra nome de princesa… Garrida Plácida, filha de Lábaro II, o impávido, rei de Flâmula.

“Lábaro”… tenha dó! Porque não falou “bandeira” de uma vez? Lábaro pra mim parece o nome de uma doença degenerativa extremamente contagiosa.

— Você soube do Jurandir? Sumiu…

— Está internado…

— Nossa! O que ele tem?

— Lábaro! Começou com uma manchinha…  já tá o corpo todo!

— Crendeuspai!

“Florão” então, nem se fale! Não tem nada que ver com “um enfeite em forma de flor”. Pra mim, poderia ser o sistema de defesa das Abespas, inseto pertencente à família dos Floriatus espectum. Fazem seus ninhos nas regiões pantanosas do Camboja. Quando ameaçados, esses insetos atacam ferozmente cravando o seu florão na pele no intruso, causando lesões graves e paralisia muscular. Ficaria mais coerente!

 “Clava forte” (porrete); “impávido” (tranquilo, calmo); “fulguras” (brilha, reluz); “penhor” (garantia, segurança)… e por aí vai!

Acabou o jogo. Embora vitoriosa, a França comete a vergonhosa imprudência de deixar o Peru de fora… eu, hein?  

 


 

MANCHAS DE CÂNDIDA…

O que mais irritava no Ribeiro é que a Selminha não se irritava nunca!

Exageradamente ordeira, extremamente compreensiva e completamente apaixonada por ele.

Seu closet era uma mistura de irritação e primor! Uma camisa em cada cabide por ordem de cores, as mais escuras na frente e, dentro de cada uma, a gravata com a cor correspondente. Ternos, paletós esportes, blazers, calças… sociais de um lado, esportes de outro. Tudo combinando de maneira perfeita e irritante e o que é pior: sentia-se impotente para não concordar com aquele arranjo. Era irrepreensível! Fora aquele aborrecido aroma de alfazema e benjoim!

A sapateira era uma constante ameaça à sua paciência! Primeiro estavam os sapatos… engraxados e brilhando! Uma vez espremeu um cravo usando aquele de cromo alemão como espelho! Depois vinham os tênis e, finalmente, os chinelos. Todos os calçados com o cadarço ajeitados caprichosamente dentro de cada um!

A gavetinha onde ela guardava as meias parecia uma caixa da Ferrero Rocher… e ele olhava aquelas bolotas bem feitinhas de bombons-meias com ódio mortal.

Sempre à hora da janta era um Deus nos acuda! O prato de porcelana, o guardanapo de linho branco rigorosamente dobrado ao lado. Deve ter usado um esquadro, a desgraçada! Os talheres em perfeito 90 graus com a mesa, a taça para o vinho, outra para água… e para irritar mais ainda a Selminha sempre fazia as comidas que ele mais gostava. Outro dia teve ganas de afogá-la no maravilhoso bobó de camarão na moranga que ela fizera. Só não foi às vias de fato porque estava delicioso! Desgraçadamente gostoso!

Nem a procurava mais para o sexo. Não conseguia sentir tesão vivendo daquele jeito! Mas a Selminha nunca reclamava. Resignada, nunca exigia a menor atenção sexual! Ribeiro andava pelo próprio apartamento como quem estava andando sobre papel de seda. Sempre tinha a sensação de estar dentro de uma matéria da revista Casa Cláudia.

E o banheiro então… e o banheiro!!! Meu Deus… nunca tinha coragem de macular aquele antro de assepsia… mesmo nas necessidades mais prementes.

Que inveja que tinha do Brandão, casado com a Denise. A Denise sim é que era mulher… que só lavava a louça quando a última xícara tinha acabado de ser usada! O Pestana também… casado com a Janete! O Pestana dizia que o prato de maior sucesso da Janete era o seu famoso rim chocolatado com creme de banana… uma simples menção e o Pestana já ligava pro restaurante chinês. Vida boa a deles, viu… isso sem falar que tanto o Pestana quanto o Brandão fumavam dentro de casa batendo cinza no carpete e o scambau!

Uma vez decidiu jogar duro com a Selminha. Foi para a sala com uma torrada carregada de geléia de morango e, de propósito, melecou as mãos. Esperou um momento em que a Selminha estivesse olhando e zás! Limpou as mãos na cortina! Quando olhou pra ver a reação da mulher, ela tinha se materializado atrás dele! Estava com um pedaço de papel toalha e um sorriso nos lábios:

— Que bom, meu amor… eu estava mesmo pensando em mandar essa cortina pra lavanderia. Tome, meu querido… use esse papel toalha… essa cortina está muito suja!

Aquilo foi demais!

Mas um belo dia… e sempre há um belo dia… Selminha, logo de manhã, ao colocar sucrilhos pra ele na tigelinha de porcelana, derramou uma lágrima sentida. Ele, claro, ficou preocupado:

— Que foi, meu bem? Aconteceu alguma coisa?

— Sim! Terrível…

— Conta pra mim, conta… — estava paciente aquela manhã.

— Aquela sua camisa azul da prússia que você comprou em Paris…

— O que tem ela?

— Eu… eu…

— Fala meu bem…

— Eu… oh! Meu Deus… que desgraça! — lágrimas escorriam.

— Meu bem, se você não me disser…

— Eu… eu… manchei a sua camisa com três gotas de cândida…

— O quê???? Você manchou aquela minha camisa???

Ela desabou num choro compulsivo e desesperador:

— Sim! Sim! Sim! Eu manchei sua camisa… — caiu de joelhos e abraçou as pernas dele — … me perdoa, meu amor, me perdoa…

Ele ajudou-a a se levantar e cravou nela o olhar mais terno que ele conseguiu arrumar naquele instante…

— Meu amor… — disse ele —… isso é maravilhoso! Maravilhoso!

— Marav…?

Não deu tempo de ela falar alguma coisa… ele, num abraço envolvente, beijou-a na boca como nunca havia beijado antes. Deitou-a na mesa, em cima de sucrilhos, queijo, manteiga, frutas… rasgou-lhe a roupa e amou-a ali mesmo como nunca a havia amado antes. Fechou o zíper, ajeitou a gravata, deu um beijo na mulher e saiu assobiando!

Selminha, ainda deitada na mesa, estava com um estranho sorriso nos lábios. Caramba… ele nunca fizera isso com ela! Olhou o moleton rasgado, tirou os sucrilhos grudado nas costas e sorriu novamente! Respirou fundo… uau! A melhor trepada que já dera e, veja só, por causa de uma mancha de cândida!

A partir daquele momento mágico, revelador… as coisas mudariam naquela casa! Os dias foram passando e a pia da cozinha cada vez mais cheia de louça suja… e tome sexo! Seu closet agora era uma zona total, um festival de camisas, camisetas e cuecas socadas de qualquer jeito. Tome sexo! A gavetinha de meias, agora, não tinha apenas meias… tinha chave de fenda, pacotinhos de OB, frascos de remédios, abridor de latas, uma caixinha de Knorr… e tome sexo! A casa recendia a cigarro e bebida… e tome sexo!

O Brandão e o Pestana, dizem, quase morreram de inveja…

7 comentários

  1. Zorėio, textos maravilhosos, bem humorados. Adorei o da São Paulo antiga,do centrão, bondes, camelôs e otras cositas mas. Como nasci na velha Sampa, 1944, em frente ao Largo do Arouche, tenho várias histórias também. E não esqueço dos nossos almoços no português da Rua Itambé, na Vila Buarque. Lembra disso?

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    1. Grande Mario Rubial, como eu poderia esquecer? Num desses almoços, me lembro de um não sei onde, mas que tinha cliente junto. eu me lembro de ter contado a história de um tio meu que fazia uma viagem de trem de Ourinhos para São Paulo. No bagageiro, acima de sua cabeça, estava sua malinha e um pote de mel que não coube na malina e ficou do lado de fora. Durante a viagem o pote tombou e, a noite toda, ficou pingando mel no ombro dele. Quando acordou, já na Estação Júlio Prestes, ele estava com o ombro endurecido e cristalizado de mel. Ele achou que estava tendo um derrame… lembra disso, Mário?

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      1. Lembro de cada detalhe da nossa convivência na Divisão Infantil da Abril. Até das revoadas de pombos, quando você, como um apóstolo de Cristo, parava em frente dos penosos e, num gesto triunfal dizia:
        – Voem!
        Imediatamente voavam, às dezenas, como obedecendo o Mestre Aurélio.
        He,he,he…Isto ainda ai render!

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  2. Caraca, Aurélio! estás afiadíssimo. Linda crônica sobre o casal de velhinhos e seus andadores. Parabéns!

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  3. Aurélio, adorei o texto sobre o aniversário de Sampa. Tenho apenas uma implicância com a música do mesmo nome, cantada pelo Caetano. Primeiro que “a deselegância discreta das tuas meninas”, era das meninas baianas, pô! E depois, todos atribuem o nome Sampa a ele. Coisa nenhuma. Salvo engano, começou com os mineiros chamando Belo Horizonte de Belô. E como consequência, São Paulo, virou Sampa. Creio que via Pasquim. E você está escrevendo cada vez melhor!

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