BATE-PROSA

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Por AURÉLIO DE OLIVEIRA

 

EU SOU DO TEMPO QUE…

Eu sou do tempo em que São Paulo não era uma cidade… era a cidade! Do tempo da praça da Sé e da praça Clóvis, divididas por um conjunto de prédios antigos que começava com o maior arranha-céu daquela região: o edifício Mendes Caldeira, nas esquinas da Sé com a Santa Teresa. Era um predião de 30 andares com o símbolo da Mercedes na cobertura. Mas em 1975 foi pro beleléu na primeira implosão da cidade. Era o metrô chegando no centro.

Subindo a Sé, a partir do Mendes Caldeira, tinha o Edifício Santa Helena, que abrigava um teatro do mesmo nome e o Cine Múndi. No meu tempo de office-boy já não funcionavam mais. Mas foram superbadalados na década de 1920. Foram demolidos em 1971, também por causa do metrô.

Subindo mais, chegando na esquina ao lado da catedral, tinha o Bar e Lanches Catedral, famoso entre a molecada que trabalhava no centro. Na porta desse boteco tinha um carinha que vendia esfihas abertas. Era o João das Esfihas. Meu… o cara era viado! (Naquele tempo a gente não falava gay!)

Sabe que o sacana fazia?

Ele usava uma calça cujos bolsos não tinham fundo. Então ele pedia pra molecada que chegava lá enfiar a mão naquele bolso pra passar a mão na bunda dele. Aí ele dava uma esfiha de graça! Todo dia fazia a maior fila de office-boys lá! Eu mesmo, muitas vezes, apertei as bochechas glúteas do João… e ainda negociava: uma “bochecha”, uma esfiha. Duas “bochechas”, duas esfihas!

Eu sou do tempo em que camelôs, em São Paulo, eram bem poucos. Alguns marcantes, como a mulher que ficava o dia inteiro na esquina da Sé com a Direita gritando: “ABC e a tabuada! ABC e a tabuada!”. Tinha um tiozinho que ficava na José Bonifácio vendendo um corinho dobrado que se colocava debaixo da língua pra fazer imitação de gato ou de passarinho. Depois de umas “miadas” ele gritava: “É “doi” por ‘quinhento’!”.

Por falar em gato, tinha aquele malaco que ficava na Patriarca também vendendo esses corinhos. Só que ele tinha uma técnica mais apurada que o tiozinho. O malandro tinha um pedaço de pau, uma caixa de papelão e o corinho debaixo da língua. Ele dava umas pauladas na caixa e imitava um gato berrando. Meu… todo mundo parava achando que tinha um gato dentro da caixa. Juntava uma pá de gente esperando no que aquilo ia dar. E tome paulada na caixa, e tome o “gato” berrando… depois de algum tempo ele revelava o corinho e vendia o peixe dele! Era uma diversão!

Os camelôs eram verdadeiros artistas! E convincentes também!

Eu sou do tempo do cara que vendia “aparelhinhos de raio X” na Quintino Bocaiuva. Era um palito de sorvete, tipo Kibon, com um buraquinho numa das extremidades. Dentro do buraquinho tinha um pedacinho de plástico. Só isso! Ele conseguia convencer a todos presentes que, olhando por aquele buraquinho, dava pra olhar através de qualquer coisa! “Não requer prática nem tampouco habilidade…” dizia ele com voz articulada “… com este aparelho, qualquer criança mexe, qualquer criança brinca!” Aí ele pegava uma banana e chamava alguém (já combinado, claro!). Dava o “aparelho” para a pessoa e segurava a banana na altura dos olhos dela. “O que você vê aqui, cavalheiro?”. A pessoa olhava, olhava e, de repente, exclamava: “Nossa… to vendo a massa da banana!” E ele se virava pra todos e dizia, conquistador: “Não é mágica, não é feitiçaria… é ciência pura, desenvolvida pelos russos na 2ª. Guerra Mundial!”  (O cara caprichava!). E aí vinha o golpe final! “Imaginem vocês, cavalheiros, na praia, lendo um jornal tranquilamente. Basta colocar o aparelho entre as folhas e ficar olhando as mulheres de maiô… hein? hein?”. Com essa, uns três ou quatro fulanos já combinados pediam “fascinados” pra comprar. Isso porque muita gente, por desconfiança ou timidez, só ficavam olhando. Estimulados pelos “amigos” do camelô, acabavam comprando. Deviam pensar: “Vai saber… e se for verdade?”.

Meu… fala sério! Juntava gente pra caramba em volta pra ver o tal aparelho. A lábia do cara era fantástica! Ele venderia tranquilamente geladeiras no Polo Norte. As pessoas, como que fascinadas e atingidas em cheio pela curiosidade, compravam aquele palito de sorvete por mil cruzeiros!

Cara… eu sou do tempo do bonde!

Eu ia pra casa num bonde aberto da linha 4 – Ipiranga. Ele descia a Clóvis, a Rangel Pestana e ia pelo Cambuci (rua da Glória, Lavapés e Independência e depois entrava na Dom Pedro). Eu ficava mudando de lugar, andando pelo estribo, sempre que o cobrador se aproximava pra não pagar a passagem.

Mas isso já é outra história dos meus tempos de office-boy nessa nossa boa e velha São Paulo! A gente vai se falando…

 

https://www.saopauloantiga.com.br/edificio-mendes-caldeira/

 


 

 

ERA SÓ O QUE ME INFARTAVA – 3ª parte

As madrugadas no terceiro andar do Hospital João 23 chegavam às raias do angustiante. O silêncio no corredor só era quebrado, vez ou outra, pelo andar ligeiro das três enfermeiras de plantão. Entravam e saíam dos quartos para as medicações e voltavam para a área reservada a elas, cercada por um balcão.

Eu, no leito 308-1, infartado, insone, ficava deitado olhando para cima e me desesperando. Imaginando coisas. Olhando uma mancha de umidade no teto que parecia um dragão voador. Ficava desejando ardentemente que algo, de repente, pudesse acontecer e quebrar aquela monotonia mórbida de pequenos gemidos distantes ou de ruídos longínquos e incompreensíveis.

Ao meu lado, o morador de rua com broncopneumonia dormia sem emitir nenhum som. Apenas ressonava baixinho… se pelo menos ele roncasse! Aí eu poderia ficar contando quantas vezes ele roncaria em 10 minutos… sei lá! Até dar sono. Muita gente conta carneirinhos. Eu poderia contar os roncos do meu  vizinho. Seria uma distração. Ou então se o dragão soltasse uma labareda…

Eu sempre gostei do inusitado. Do nonsense. Sabe quando um paradigma é quebrado? Quando algo sai fora dos eixos? Quando o repente sem sentido substitui a normalidade? Pois é… era isso que eu queria muito naquele momento.

Imaginei, então, um grito repentino e gutural vindo do fundo do corredor.

Lá é o quarto 302, onde está internado o Genésio, um caso sério de alcoolismo e drogas pesadas. Pulo da cama num salto e corro em direção do 302. O que eu vejo na porta do quarto revira-me as entranhas numa repentina e insuportável ânsia de vômito. A enfermeira Jacira, caída junto ao batente, agoniza com olhos vidrados de terror. Segura o pescoço com as mãos que, rasgado de lado a lado, jorra sangue no corredor. Olho pra dentro do quarto e lá está o Genésio, nu, babando um líquido viscoso e segurando uma ampola com agulha. A mão está coberta de sangue, os olhos congestionados e da sua boca, de dentes amarelos e irregulares, ecoa um riso demoníaco…

Não, não! Exagero de imaginação! O Genésio, coitado, não tinha força nem pra fazer cocô quanto mais pra subjugar a enfermeira Jacira, gorda feito um tonel. Não… vamos imaginar outra coisa não tão dramática!

Eu poderia imaginar um motim! Sim, um motim… um repentino ato de rebeldia aqui no terceiro andar. Hummm… a ideia me entusiasma! Até já estou vendo o velho Bruno do 301 entrando no meu quarto. Italiano musculoso, peludo feito um Tony Ramos, alto, testa taurina, nariz de batata e portador de um aneurisma crônico. Ele entra e me cutuca com o dedo que mais parece o cabo de uma enxada.

— Está na hora, andiamo!

— Estão todos aí? — disse pulando da cama.

— Andiamo presto! Tome… fique com isto! — disse ele dando-me uma ampola carregada com um líquido vermelho.

— O que é isto? Sangue?

— Isso… do Zezé do HIV, do 305… “tiramo” sangue dele e “enchemo” questi ampolas de injezione que vamu usá come arma, capisci?

Lá fora, o time de amotinados está completo. Além de mim e o italiano Bruno, estão o alcoólatra Genésio; o Aparício, do 303, infartado como eu; o “seu” Radamés, do 307, com colite isquêmica e usando apenas uma fralda geriátrica, se apoia em seu pedestal de soro; e a única mulher entre os rebeldes… dona Filó, com catarata, é empurrada por mim numa cadeira de rodas.

O corredor está em silêncio e a nossa conversa é na base do sussurro. As três enfermeiras de plantão, Jacira, Odete e Carla, sem muito o que fazer às 3 da matina, estão na sala de convivência assistindo o Dr. House.

— Cadê o Zezé? — pergunto a todos.

— Ficou na cama… — respondeu o Aparício — …depois de tirar tanto sangue, ficou com fraqueza.

O italiano tomou a frente do grupo e abriu os braços. Parecia uma enorme cruz carnosa e peluda saindo da bata branca.

— Escuita que te digo io! — disse ele — vamu pigá elas de surpresa y fazê nostras reivindicazione, capisci? Sono solo 3 infermieri! Io fico com Jacira, la donna gorda, perche io soi masi troncudo! Aparizio, tu fica com a Odete, masi magrinha, y Genedzio fica con a Carla coxuda. Tcherto? Andiamo presto!

Todos assentimos com a cabeça e, lentamente pelo corredor vazio, aquela exótica farândola de batas brancas, pedestal de soro, fralda geriátrica e cadeira de rodas foi caminhando em direção da sala de TV. Cada um segurando sua ampola com sangue do Zezé. O italiano Bruno, como um búfalo comandando sua manada, ia à frente, mostrando sua enorme e peluda bunda saindo de trás da bata. Não era uma visão agradável, confesso. Chegamos. O italiano virou para nós, sussurrando:

— Tutti pronti?

Balançamos  a cabeça e o italiano invadiu a sala de TV. Entramos todos atrás dele. A gorda Jacira se levantou num pulo (“Mas o que é isto?”), mas foi imediatamente dominada pelos braços musculosos do italiano, que segurou-a por trás. Apavorada, ela viu com o rabo dos olhos a agulha da injeção apontada para seu pescoço. Odete e Carla estancaram paralisadas, com as agulhas de Genésio e Aparício apontadas para elas.

— O… o… que tem nessas… ampolas? — balbuciou Jacira apavorada.

— Questo é il sangue du Zezé do HIV, bela!

— Ficaram loucos, é? — perguntou Odete num ímpeto de coragem.

— Queremos ser atendidos em nossas reivindicações… — gritou o “seu” Radamés, puxando um pouco a fralda que estava caindo e revelando o rego da bunda — … senão o sangue do Zezé vai comer solto aqui!

— Vá bene… signore Orelio… — disse Bruno virando-se pra mim — parla pra questas ragazzas u qui nós queremos! Parla!

— Bem… — disse eu ajeitando o soro de dona Filó que, com as mãos trêmulas de Parkinson, empunhava a sua ampola em direção do nada! — … nós queremos mais sal na comida e…

— Muito me admira o sinhô, “seu” Aurélio… — cortou a baiana Carla — … um hôme bunito, góshtoso, intéligente… fazer parte duma presepada dessa! Ôxi, Jesus me defenda…

— Dona Filó… — continuei, sem me deixar levar pelo “góshtoso e intéligente” — quer uma TV só pra ela. O Genésio quer tomar uma espremida de limão com 51 antes das refeições; “seu” Aparício quer direito a visita íntima; “seu” Radamés quer fazer cocô e não consegue e…

— … e io quero massa in tutti las refeizones, capisci? — completou Bruno.

Foi nesse momento que começou um angu de caroço! O segurança do 3º andar, que tinha ido tomar café, entrou de repente na sala de TV (O que está acontecendo aqui?). Todos viraram a ampola na direção dele. Jacira aproveitou a deixa deu um empurrão no italiano, que caiu em cima da cadeira de dona Filó, que virou em cima de mim fazendo-me bater a cabeça. Desmaiei! Genésio se atirou contra o guarda, derrubando-o. O segurança caiu sacando o revólver e a arma acabou disparando. O tiro, caprichosamente, atingiu o alarme de incêndio que disparou um ruído ensurdecedor. Os sprinklers no teto de todos os andares começaram a jorrar água por todo o hospital.

Todos saíram correndo pra fora da sala de TV. Começou um Deus nos acuda! Em todos os andares, pacientes saíam de seus quartos e caiam pelos corredores repletos de água. Iam se arrastando puxando as mangueirinhas de soro e medicação presas nos braços, pernas… parecia o inferno de Dante. Havia gritos de socorro misturados com o ruído estridente do alarme. Ao longe ouviam-se sirenes dos bombeiros e viaturas da polícia. Na confusão da sala de TV, dona Filó agarrou meu braço gritando… “acorda, seu Aurélio… acorda!”

 Acorda, “seu” Aurélio… eita que tá na hora da injeção! Vamos! Vamos!

Não!!! O sangue do Zezé, não!

— Misericórdia, “seu” Aurélio… andou sonhando é? Eu, hein? Jesus me defenda!

 Era a baiana Carla, arrancando meu cobertor e segurando uma ampola. Sentei na cama esfregando os olhos. Caraca… preciso por um freio na minha imaginação!

A baiana empurrou a agulha no acesso grudado em meu braço e, com um sorriso que só as baianas têm, injetou a medicação.

 De repente, um grito repentino e gutural veio do fundo do corredor…

— Que foi isso? — perguntou Carla assustada.

— Nem queira saber! — disse eu, deitando novamente.

 


 

ERA SÓ O QUE ME INFARTAVA – 2ª PARTE

Depois que voltei do Hospital São Paulo, onde fiz  o cateterismo femoral, internaram-me novamente no João 23 na Moóca. O infarto em si não foi tão dramático quanto essa viagem de ambulância, com direito a alta velocidade, sirene ligada e o escambau. Parecia que eu estava num filme e que, a qualquer momento, as portas traseiras se abririam e minha maca de rodinhas se soltaria e rolaria avenida abaixo. Correria em alta velocidade, com aquela maca desgovernada, passaria por sinais fechados em perigosos cruzamentos, subiria nas calçadas, derrubaria bancas de camelôs até que, finalmente, seria estancado por um repentino fio entrelaçado nas bordas da maca. Era o Homem Aranha, surgido do alto de um edifício. “Aonde pensa que vai, malandragem?” teria dito ele em meio a uma multidão estarrecida.

Não foi nada disso!

A ambulância entrou no pátio do hospital e os enfermeiros tiraram a minha maca com a casualidade de um funcionário da Granero descarregando seus caixotes.

Levaram-me direto para o terceiro andar e alojaram-me num dos quartos que contava duas camas. Puseram-me na da esquerda em companhia de um rapaz, morador de rua, com broncopneumonia. Fizemos amizade rapidinho e ele riu muito quando chegou a bóia e eu reclamei da comida com a mocinha. Disse a ela que levasse de volta aquela quentinha com arroz sem sal e abobrinha cozida e me trouxesse um espaguete a parisiense com salada de aspargos.

Ela me perguntou se o meu problema era no coração ou na cabeça. E saiu rindo, a insensível!

Depois de instalado e medicado, fui dar um rolê pelo corredor. Muito bom o hospital e, mais uma vez, me surpreendi com o SUS. Boas instalações, gente competente… tinha até uma sala de convivência, com uma TV de plasma, jogos e revistas de montão. Eu quase não saía de lá… tanto que as enfermeiras tinham de ir lá para me avisar da medicação.

— “Seu” Aurélio… tá na hora da injeção!

— Pode ser aqui? Estou vendo um filme e…

— Se o senhor tiver uma bunda bonita para que todos aqui apreciem…

— Ok, vamos para o quarto!

Foi nessa sala que eu conheci o Genésio, internado no 305. Tinha 34 anos e uma aparência de 68. Estava lá por complicações causadas pelo excesso de cachaça e drogas pesadas. Tinha um aspecto franzino, pele ressecada cobrindo braços e pernas fininhos e frágeis. Tinha um olhar bovino de grandes olhos congestionados, mas era um olhar doce e gentil e falava devagar, com grandes pausas entre uma palavra e outra. Às vezes não falava coisa com coisa. A pinga e o crack tinham prejudicado bastante seu raciocínio.

Num desses dias, entrei na sala de convivência e lá estava ele sentadinho no sofá sem se encostar, com as mãos segurando dois joelhos ossudos. Cumprimentou-me com ternura etílica:

— Oi “Sorélio… estava aqui… esperando a Namaria Braga… gosto das comidas… que… ela faz! Só não… gosto desse… desse… papagaio metido!

— Eu também, Genésio, eu também… — disse, sentando-me ao seu lado —… aliás, com essa comidinha aqui do hospital, só Jesus na causa, como dizem em Arraial d’Ajuda.

—Verdade… só Ele pra dar força e… vontade… da gente… continuar vivendo.

Nesse dia eu estava pra receber algumas visitas, entre elas meu amigo Jesus Dias, dos tempos da Editora Abril. Diretor de arte de alto calibre e amigo de longa data e de exaustivas jornadas de trabalho.

Então, estávamos eu e o Genésio assistindo “Namaria” quando, de repente, entrou o segurança do 3º andar na sala:

—“Seu” Aurélio… tem visita pro senhor lá no seu quarto.

—Ah, sim, obrigado… disse o nome?

—Jesus!

—Obrigado… estou indo!

Levantei-me e olhei em direção do Genésio para me despedir. Seus olhos congestionados estavam arregalados, sua expressão denotava um quê de surpresa e admiração. Segurou o queixo com uma das mãos e exclamou:

—Orra, meu!

Virou meu amigo de vez, o interesseiro!

 

 


 

ERA SÓ O QUE ME INFARTAVA 1

O que leva a gente sentir uma dor no peito? Um tipo de dor assim… como se as mãos de um estivador estivessem apertando seu coração. Você já sentiu isso?

Já senti esse tipo de dor muitas vezes… seja por causa de amigos, de patrões, sócios, colegas de trabalho… de namoradas então, nossa! Quantas vezes!

Quantos patrões, para quem dediquei corpo e alma no trabalho, já me passaram a perna? Quantos colegas de trabalho, carreiristas, já me deram um nó? Quantas namoradas já me deixaram falando sozinho, frustrado, decepcionado…

Algumas pessoas sabem ferir quando querem e a dor que elas provocam nos enchem de mágoa.

É uma dor terrível no coração… e às vezes demora passar!

Semana passada, ao entrar no Metrô Anhangabaú, senti uma pontada terrível no peito. “De novo?”, pensei… e fui me lembrando de todas as vezes que fui magoado por alguém. Não havia nenhum acontecimento recente que me levasse a alguma desilusão.

Estranhei…

Então, por que essa dor?

Desci as escadas rolantes pulando de dois em dois degraus, entrei no trem e fui pra Moóca. Na casa de minha irmã, ela e meu cunhado decidiram me levar ao hospital e lá tive o diagnóstico: infarto do miocárdio!

Respirei aliviado… ainda bem que foi só isso!

 


*ESCLARECIMENTO – para que os amigos, parentes e alunos não fiquem preocupados, este texto foi escrito há alguns anos, ok?


 

 

HINOS

de músicas e letras

Nunca me esqueci da última Copa do Mundo, quando eu parei tudo pra assistir França x Peru. Começaram os hinos, e nesses momentos, eu sempre acho o seguinte (na minha singela opinião): só há dois hinos legais de se ouvir. O nosso e o da França. Claro, por uma questão de ufanismo e ardor cívico cada um gosta do hino de seu país. Mas musicalmente falando, os hinos brasileiro e francês empolgam, têm uma melodia atraente… são músicas que já se começa a gostar na primeira vez que se ouve. Inevitável ficar acompanhando o ritmo batendo a ponta dos pés. Com a mão não, porque essa ou está no peito ou está batendo continência.

O da França, a Marselhesa, é muito massa como se diz aqui no Arraial! O lendário 5º Beatle, produtor da maior banda deste e de outros planetas, George Martin, usou a beleza harmônica dos primeiros compassos desse hino para enfatizar a mensagem de amor (All You Need Is Love) criada por John Lennon. Não sem razão! Até o russo Tchaikovsky, em sua peça orquestral Abertura 1812, usa trechos da Marselhesa pra comemorar a vitória russa sobre Napoleão. É um hino porreta, sem dúvida!

Mas olha… tirando o ufanismo, o patriotismo… que isso, como o pomo de Adão, já nasce com a gente, eu acho o nosso hino o mais legal de todos, mais que da França até. Mesmo ouvindo teorias conspiratórias como aquela que diz que Francisco Manuel da Silva, o compositor, teria se inspirado na abertura de O Barbeiro de Sevilha, de Rossini. Dane-se! Também é um hino porreta e todo mundo gosta! A Marselhesa também, dizem, teria sido inspirada por seu compositor, Rouget de Lisle, no Concerto nº 25 de Mozart. Tudo bem… o que é bom e bonito tem de ser imitado!

A única coisa que sempre me causa estranheza no hino brasileiro é a letra: é um ufanismo sem fim, um orgulho exacerbado… traduzido em vocábulos que a gente jamais usaria no dia a dia. Deve ser a mesma coisa em outros hinos… não sei! Digo não sei porque no hino francês, por exemplo, nunca passei do Busanfant de la patrie.

Claro, não se discute o conteúdo editorial da letra, ou seja, a sua mensagem. Mas o nosso hino precisava ser com essas palavras? Meu… carinha prolixo esse Osório Duque Estrada, o letrista! Passei toda a minha infância sem saber o significado de “mais garrida”. Na escola, na hora do “mais garrida”, a gente aumentava o volume da voz e gritava “margarida”, lembram? Garrida pra mim, se não significasse “enfeitada”, está mais pra nome de princesa… Garrida Plácida, filha de Lábaro II, o impávido, rei de Flâmula.

“Lábaro”… tenha dó! Porque não falou “bandeira” de uma vez? Lábaro pra mim parece o nome de uma doença degenerativa extremamente contagiosa.

— Você soube do Jurandir? Sumiu…

— Está internado…

— Nossa! O que ele tem?

— Lábaro! Começou com uma manchinha…  já tá o corpo todo!

— Crendeuspai!

“Florão” então, nem se fale! Não tem nada que ver com “um enfeite em forma de flor”. Pra mim, poderia ser o sistema de defesa das Abespas, inseto pertencente à família dos Floriatus espectum. Fazem seus ninhos nas regiões pantanosas do Camboja. Quando ameaçados, esses insetos atacam ferozmente cravando o seu florão na pele no intruso, causando lesões graves e paralisia muscular. Ficaria mais coerente!

 “Clava forte” (porrete); “impávido” (tranquilo, calmo); “fulguras” (brilha, reluz); “penhor” (garantia, segurança)… e por aí vai!

Acabou o jogo. Embora vitoriosa, a França comete a vergonhosa imprudência de deixar o Peru de fora… eu, hein?  

 


 

MANCHAS DE CÂNDIDA…

O que mais irritava no Ribeiro é que a Selminha não se irritava nunca!

Exageradamente ordeira, extremamente compreensiva e completamente apaixonada por ele.

Seu closet era uma mistura de irritação e primor! Uma camisa em cada cabide por ordem de cores, as mais escuras na frente e, dentro de cada uma, a gravata com a cor correspondente. Ternos, paletós esportes, blazers, calças… sociais de um lado, esportes de outro. Tudo combinando de maneira perfeita e irritante e o que é pior: sentia-se impotente para não concordar com aquele arranjo. Era irrepreensível! Fora aquele aborrecido aroma de alfazema e benjoim!

A sapateira era uma constante ameaça à sua paciência! Primeiro estavam os sapatos… engraxados e brilhando! Uma vez espremeu um cravo usando aquele de cromo alemão como espelho! Depois vinham os tênis e, finalmente, os chinelos. Todos os calçados com o cadarço ajeitados caprichosamente dentro de cada um!

A gavetinha onde ela guardava as meias parecia uma caixa da Ferrero Rocher… e ele olhava aquelas bolotas bem feitinhas de bombons-meias com ódio mortal.

Sempre à hora da janta era um Deus nos acuda! O prato de porcelana, o guardanapo de linho branco rigorosamente dobrado ao lado. Deve ter usado um esquadro, a desgraçada! Os talheres em perfeito 90 graus com a mesa, a taça para o vinho, outra para água… e para irritar mais ainda a Selminha sempre fazia as comidas que ele mais gostava. Outro dia teve ganas de afogá-la no maravilhoso bobó de camarão na moranga que ela fizera. Só não foi às vias de fato porque estava delicioso! Desgraçadamente gostoso!

Nem a procurava mais para o sexo. Não conseguia sentir tesão vivendo daquele jeito! Mas a Selminha nunca reclamava. Resignada, nunca exigia a menor atenção sexual! Ribeiro andava pelo próprio apartamento como quem estava andando sobre papel de seda. Sempre tinha a sensação de estar dentro de uma matéria da revista Casa Cláudia.

E o banheiro então… e o banheiro!!! Meu Deus… nunca tinha coragem de macular aquele antro de assepsia… mesmo nas necessidades mais prementes.

Que inveja que tinha do Brandão, casado com a Denise. A Denise sim é que era mulher… que só lavava a louça quando a última xícara tinha acabado de ser usada! O Pestana também… casado com a Janete! O Pestana dizia que o prato de maior sucesso da Janete era o seu famoso rim chocolatado com creme de banana… uma simples menção e o Pestana já ligava pro restaurante chinês. Vida boa a deles, viu… isso sem falar que tanto o Pestana quanto o Brandão fumavam dentro de casa batendo cinza no carpete e o scambau!

Uma vez decidiu jogar duro com a Selminha. Foi para a sala com uma torrada carregada de geléia de morango e, de propósito, melecou as mãos. Esperou um momento em que a Selminha estivesse olhando e zás! Limpou as mãos na cortina! Quando olhou pra ver a reação da mulher, ela tinha se materializado atrás dele! Estava com um pedaço de papel toalha e um sorriso nos lábios:

— Que bom, meu amor… eu estava mesmo pensando em mandar essa cortina pra lavanderia. Tome, meu querido… use esse papel toalha… essa cortina está muito suja!

Aquilo foi demais!

Mas um belo dia… e sempre há um belo dia… Selminha, logo de manhã, ao colocar sucrilhos pra ele na tigelinha de porcelana, derramou uma lágrima sentida. Ele, claro, ficou preocupado:

— Que foi, meu bem? Aconteceu alguma coisa?

— Sim! Terrível…

— Conta pra mim, conta… — estava paciente aquela manhã.

— Aquela sua camisa azul da prússia que você comprou em Paris…

— O que tem ela?

— Eu… eu…

— Fala meu bem…

— Eu… oh! Meu Deus… que desgraça! — lágrimas escorriam.

— Meu bem, se você não me disser…

— Eu… eu… manchei a sua camisa com três gotas de cândida…

— O quê???? Você manchou aquela minha camisa???

Ela desabou num choro compulsivo e desesperador:

— Sim! Sim! Sim! Eu manchei sua camisa… — caiu de joelhos e abraçou as pernas dele — … me perdoa, meu amor, me perdoa…

Ele ajudou-a a se levantar e cravou nela o olhar mais terno que ele conseguiu arrumar naquele instante…

— Meu amor… — disse ele —… isso é maravilhoso! Maravilhoso!

— Marav…?

Não deu tempo de ela falar alguma coisa… ele, num abraço envolvente, beijou-a na boca como nunca havia beijado antes. Deitou-a na mesa, em cima de sucrilhos, queijo, manteiga, frutas… rasgou-lhe a roupa e amou-a ali mesmo como nunca a havia amado antes. Fechou o zíper, ajeitou a gravata, deu um beijo na mulher e saiu assobiando!

Selminha, ainda deitada na mesa, estava com um estranho sorriso nos lábios. Caramba… ele nunca fizera isso com ela! Olhou o moleton rasgado, tirou os sucrilhos grudado nas costas e sorriu novamente! Respirou fundo… uau! A melhor trepada que já dera e, veja só, por causa de uma mancha de cândida!

A partir daquele momento mágico, revelador… as coisas mudariam naquela casa! Os dias foram passando e a pia da cozinha cada vez mais cheia de louça suja… e tome sexo! Seu closet agora era uma zona total, um festival de camisas, camisetas e cuecas socadas de qualquer jeito. Tome sexo! A gavetinha de meias, agora, não tinha apenas meias… tinha chave de fenda, pacotinhos de OB, frascos de remédios, abridor de latas, uma caixinha de Knorr… e tome sexo! A casa recendia a cigarro e bebida… e tome sexo!

O Brandão e o Pestana, dizem, quase morreram de inveja…

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