O Trem dos Órfãos

O trem dos orfãos

Foi lançado um livro que minha parceira e amiga Clene Salles (https://www.facebook.com/Clene.Salles?fref=ts) me ajudou a traduzir e que traz uma história incrível, e o mais impressionante, baseada em fatos reais.

“O Trem dos Órfãos” conta a história de Vivian Daly, uma senhora de 91 anos, que decide se livrar de seus pertences antigos e acaba recebendo a ajuda de Molly, uma adolescente órfã e rebelde, que está disposta a prestar serviços para não acabar no reformatório. Revivendo cada momento marcante de sua história, Vivian conta para Molly sobre sua família irlandesa pobre, que foi de navio para Nova York em busca de uma nova vida e acabaram todos mortos em um incêndio. Sendo a única sobrevivente, ela foi levada para o Meio-Oeste americano por um trem com outras centenas de crianças que teriam seu destino decidido pela sorte. Ou seriam adotadas por boas famílias ou teriam uma existência de sofrimento e trabalho pesado.

Esse roteiro já seria suficientemente rico para dar um belo livro se fosse apenas ficção, mas a autora se inspirou no “verdadeiro” trem dos órfãos para criar uma obra dramática e inspiradora.

Você já imaginou um trem cheio de crianças órfãs saindo de Nova York e se dirigindo para os confins do país, para ver se seriam adotadas pelos fazendeiros que ou estavam idosos demais para cuidar de suas terras, ou queriam mão-de-obra barata – e a adoção dessas crianças serviria para isso?

Pois é, eu achava que isso era uma história inventada, mas de fato aconteceu…Entre 1854 e 1929, quando o último Trem dos Órfãos viajou para o Oeste, mais de 250.000 crianças órfãs foram levadas das grandes cidades para viver nas comunidades rurais no interior do país.

Os trens que levavam crianças abandonadas dos grandes centros, como Nova York ou Boston, para as regiões menos povoadas dos Estados Unidos é um acontecimento pouco comentado, mas teve um profundo impacto na cultura americana. Apesar de muitas crianças terem sofrido maus tratos e serem obrigadas a trabalhos forçados, outras encontraram novos lares e novas vidas. Dois desses órfãos chegaram a ser governadores; um serviu como parlamentar no Congresso dos Estados Unidos; e outro chegou a ser juiz na Suprema Corte de Justiça.

Mas, de onde surgiram esses trens, e esses órfãos todos?

Em meados de 1850, um onda de imigrantes chegou à Nova York no tempo em que a cidade era a maior dos Estados Unidos, vindos da Europa em busca de uma vida melhor. Essas famílias chegavam geralmente com filhos pequenos e iam morar no Lower Manhattan (onde hoje se situam a Little Italy e a Chinatown), amontoando-se nos cortiços como o da fotos abaixo.

Esses cômodos abrigavam (“abrigar” é modo de dizer) às vezes 15 pessoas, sem ventilação adequada, sem banheiros e, no inverno, sem aquecimento adequado… Os pais se deparavam com a falta de emprego e com a pobreza. As doenças eram muito comuns e, quando o pai morria, as esposas tinham poucas opções de sustento dos filhos (quando também não morriam). Elas iriam trabalhar como costureiras em regime de semi-escravidão, ou se prostituíam, e o resultado era que os filhos acabavam na ruas, abandonados ou órfãos.

Um jornal de Nova York, em 1875, alertou que haviam mais de 10.000 crianças vivendo nas ruas. Sujas, descalças, sem luvas ou agasalhos no inverno, roubavam, mendigavam, vendiam jornais e não sabiam nem ler ou escrever.

Foi nessa época que o pastor Charles Loring Brace decidiu criar um programa para ajudar essas crianças. Sabendo que o Oeste do país era pouco povoado e acreditando que muitas famílias poderiam querer adotar crianças para ajudar em casa ou nas fazendas, começou a acomodar centenas de órfãos num trem que viajaria para essa região, anunciando, nos lugarejos por onde passasse, que qualquer pessoa poderia adotar uma daquelas crianças durante a sua passagem.

Enquanto as viagens não eram organizadas, as crianças eram recolhidas das ruas e instaladas em orfanatos.

Nos orfanatos, eram alimentadas e vestidas, e tinham uma cama onde dormir. Quando o trem estava para partir, as crianças recebiam uma nova muda de roupa, tomavam banho e eram alimentadas, para que quando chegassem nas estações de trem das cidades – onde se organizava uma “exposição” das crianças às famílias interessadas – elas estivessem apresentáveis.

Se as crianças não fossem escolhidas naquela parada, voltavam ao trem em fila – por tamanho, os maiores por último – e a viagem continuava, até que não restasse mais nenhuma criança para ser adotada. Caso restasse, essa criança voltaria ao orfanato, para aguardar uma nova oportunidade de viajar.

O que mais amedrontava os pequenos passageiros é que eles não sabiam para onde o trem se dirigia, e nem qual o destino que os aguardava. Corriam entre eles histórias de outras crianças que tinham sido adotadas simplesmente para trabalhar no campo de sol a sol, sendo obrigadas a dormir no estábulo com os cavalos e comer batatas – e mais nada.

Essas histórias eram verdadeiras, infelizmente. Apesar das boas intenções do pastor Brace, de salvar as crianças abandonadas, o projeto também acabou trazendo marcas profundas para muitas daquelas pessoas: além de serem levadas para trabalhar em regime escravo ou como empregadas das famílias, outras acabaram devolvidas ou colocadas na rua por falta de recursos dos que as acolheram.

Um estudo da National Orphan Train Complex (Kansas) revela que um em cada 25 americanos descende do Trem dos Órfãos.

Mas não há estimativas sobre o quanto essa iniciativa – apesar de ter conseguido bons lares para muitos meninos e meninas abandonados em Boston ou Nova York- contribuiu para o aumento de crianças de rua em estados como Kansas, Iowa ou Nebraska, três dos que estavam entre os mais visitados pelos trens…

PS- Tenho que fazer um agradecimento especial à Mayara Facchini (https://www.facebook.com/mayarafacchini?fref=ts), que foi a editora que me convidou a traduzir o livro que conta essa história. 

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8 pensamentos sobre “O Trem dos Órfãos

  1. Existem pessoas que aparecem na vida da gente e que nos marcam de forma inesquecível. Você é uma dessas pessoas incríveis e maravilhosas, sempre lembrada!

    Curtido por 1 pessoa

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