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Família Trapo

Eu era criança ainda quando via meus pais se esbaldarem de rir com a “Família Trapo”, que passava na TV Record em 1966, 1967. Passei a assistir também, e me lembro de terem atuado por lá os maiores astros da época, como Pelé, Jair Rodrigues, Ronnie Von, entre tantos outros. A maior atração era o Ronald Golias, que fazia o Bronco Dinossauro, o cunhado folgado que infernizava a vida do chefe da família, o Peppino… Era hilário, e inspirou tantos outros programas similares da TV brasileira. 

Encontrei este texto, de Paulo Senna, que contextualiza esse programa histórico:

“O programa “Família Trapo”, nome extraído da família Von Trapp, de “A Noviça Rebelde”, teve como idealizadores Jô Soares e Carlos Alberto de Nóbrega, era gravado e foi exibido, em preto e branco, pela TV Record, canal 7 (SP), de 1967 a 1971, todos os domingos, às 20h. Dirigido e produzido por Manoel Carlos, que passou a revezar as funções com Nilton Travesso e Tuta de Carvalho a partir de 1969.

A história era simples e tinha a família de Peppino Trapo (Otelo Zeloni) e sua mulher Helena (Renata Fronzi); Verinha (Cidinha Campos); e pelo irmão, Sócrates (Ricardo Corte Real), como base. Além deles, somavam-se diversos convidados especiais, como Pelé, Hebe Camargo e Elizeth Cardoso.

Porém, era em torno do atrapalhado irmão de Helena, o cunhado folgado Carlos Bronco Dinossauro (Ronald Golias), que chamava com desdém o mordomo Jô Soares de “lacaio”, que giravam grande parte das histórias engraçadas da semana. O programa era gravado ao vivo, numa única sessão, e era inevitável que os improvisos fossem ao ar. Estava aberto o caminho para que Bronco com o bordão “Essa família vai mal!”, improvisasse à vontade, frequentemente deixando os colegas de cena atônitos. Ele modulava a voz, falava com um acento caipira do interior de São Paulo, distorcia e criava palavras, cortava sílabas para melhor enfatizar a ignorância do personagem. Como o programa era gravada ao vivo, numa única sessão, era inevitável que os improvisos fossem ao ar. Pensem agora num ator que não escolhia lugar para loucuras, por várias vezes interrompeu os diálogos do programa para ir ao banheiro, assim era Golias, que sempre avisava: “Já volto!”. Zeloni aproveitava a deixa para gozá-lo. “Está todo mundo sentindo o cheiro. Ninguém suporta a peste!”. A plateia gargalhava. 

Ricardo, Golias e Pelé.

A plateia era animada e enchia as dependências do Teatro Record-Consolação. Os ingressos eram cobrados, e mesmo assim havia uma grande disputa por um lugar para acompanhar as engraçadas aventuras da divertida e confusa família. Aliás, as pessoas aglomeradas na rua chegavam a parar a Rua da Consolação. Após um incêndio no Teatro o programa passou a ser feito nos estúdios da TV Record (na Av. Miruna), e depois no Teatro Record-Centro, ex-Teatro Paramount e atual Teatro Renault, em São Paulo.

No início, ele tinha muito da simplicidade do bairro paulista da Moóca, mas mesmo assim passou a ser transmitido para os cariocas pela TV Rio, canal 13. O sucesso estrondoso provocou mudanças no segundo ano da série. Então, os autores Jô Soares e Carlos Alberto de Nóbrega, resolveram criar um texto onde a família receberia uma bolada da loteria e com isso acabavam mudando para uma casa maior e também ganhava um novo personagem, o mordomo Gordon, vivido pelo próprio Jô Soares.

Já no terceiro ano de exibição do programa, apareceu na casa dessa engraçada família uma moça, chamada Assunta, vivida pela comediante Dercy Gonçalves, que se apresentava como a noiva do Bronco. Ela ficou apenas dois meses no programa, mas em compensação junto com Golias quase matavam seu público e os colegas de elenco de tanto rir. A gente não sabia mais o que fazia parte do texto e o que era improviso da dupla, principalmente nas cenas em que estavam apenas os dois no palco.

O escritor Manoel Carlos enviou para o Blog Nostalgia um depoimento sobre o programa:

— A “Família Trapo” foi um programa enriquecedor para todos nós que participamos dele. Não nasceu para ser o que acabou sendo, pois passou por várias transformações enquanto era elaborado. O resultado foi fruto de muita conversa, entre nós – realizadores -, e os autores Jô Soares e Carlos Alberto de Nóbrega. O programa continua dando muitos filhotes, alguns de grande sucesso, como “A Grande Família”, “Sai de Baixo” e “Toma lá, dá cá”. É natural que um programa gere outros e não vejo nisso nada de negativo. Fui um dos produtores e diretores da “Família Trapo” durante todo o tempo em que ela permaneceu no ar, pela TV Record. Se tínhamos na época o Golias como curinga, temos agora o Falabella, que é um artista extraordinário. A fórmula é inesgotável e sempre fará sucesso, se realizada com talento, como é o caso do “Toma lá, dá cá” — revelou o nosso querido Maneco.

Essa é a opinião de alguém que entende muito do assunto. Porém, não podemos esquecer que aqueles foram momentos inesquecíveis da televisão brasileira e que dificilmente poderão ser substituídos. Quem não viu, talvez ache que estou exagerando, mas podem acreditar: era puro humor. Tanto que o programa ficou no ar durante quatro anos e até hoje sua formula é imitada. Porém, na “Família…” quase todos traziam elementos teatrais em seu sangue, mas os vários sitcoms que esse programa inspirou está longe dessa teatralidade, que seria vista atualmente como amadorística ou ingênua, pelos altamente tecnocráticos fabricantes de risos de hoje. Já não se imita a “Família Trapo”, mas se faz imitação da imitação da “Família Trapo”.

Dizem que a TV Record dispõe de apenas dois episódios da série, os demais teriam se perdido em incêndios, ou sido desgravados para reaproveitamento de fitas”.

Todas as informações deste texto e as imagens que o  ilustram foram pesquisadas em sites da Internet e no Blog
de Rafael Capanema. 

No link a seguir, coloquei um trecho do programa com Pelé. Dá para sentir a “vibe” do pessoal…Aqui!

ATUALIZAÇÃO – uma correção foi feita pelo próprio Ricardo Côrte Real, conforme se comprova nos comentários: o programa era gravado às sextas e ia ao ar nos sábados, e não domingos.

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2 comentários em “Família Trapo”

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