Jonny Quest pode virar filme com atores reais

Jonny Quest, aquele clássico personagem da Hanna-Barbera, vai virar filme. Claro, se tudo der certo… Pelo menos, são essas as notícias mais recentes chegando de Hollywood.

O elenco de Jonny Quest, com “Race” Bannon de camisa vermelha, o Dr. Benton Quest de barba, e os meninos Jonny Quest e Hadji (de turbante), com a mascote Bandit.

O diretor deve ser Chris McKay (LEGO Batman: o Filme), e o roteiro estaria sendo escrito por Terry Rossio (que escreveu os roteiros de todos os Piratas do Caribe). 

Jonny Quest, série originalmente exibida entre 1964 e 1965 e mais tarde repaginada nas décadas de 1980 e 1990, acompanha as aventuras de um rapaz que embarca em diversas aventuras extraordinárias ao lado de seu pai, um cientista. Inspirada nos programas de rádio dos anos 1930 e nos gibis da mesma época, a série animada foi responsável por apresentar uma nova faceta da produtora Hannah-Barbera, uma vez que Jonny Quest, diferentemente de outros títulos como Os FlintstonesManda-Chuva, era mais realista e sério.

 O Dr. Benton Quest era convocado para missões perigosas a serviço do governo, sempre envolvendo ciência e mistério, além de espionagem. Roger “Race” Bannon, o guarda-costas, era uma espécie de babá dos meninos, sempre salvando-os de enrascadas. Bandit, o cãozinho do grupo, era, por natureza, curioso e muito assustado, sendo muitas vezes vítima de monstros e animais das selvas.

Para criar os personagens, o estúdio Hanna-Barbera chamou o veterano dos quadrinhos Doug Wildley. Seus cenários criativos marcaram o início de uma nova fase para os desenhos animados, um avanço notável, considerando traços e cores – geralmente muito fortes, condizendo com o roteiro de cada episódio. Como apresentavam cenas rápidas de ação, o trabalho foi grande e o estúdio teve que contratar um maior número de profissionais em relação às produções passadas.

Doug Wildley
Wildley era um quadrinista e ilustrador bastante conhecido na época.
As duas imagens acima mostram os estudos do artista para o personagem e sua família
Arte de Wildley para uma cena crucial de um dos episódios favoritos do público

A abertura parecia a de um filme, inclusive com créditos dos personagens – uma inovação para a época. A música-tema também ajudou na popularização do seriado. 

Apesar do sucesso instantâneo, o estúdio produziu apenas uma temporada da série porque cada episódio era caríssimo de se fazer – afinal, os roteiros eram complexos e a animação era muito realista. Sem mencionar que cada episódio durava cerca de 20 minutos e levava uma eternidade para ficar pronto, atrapalhando, por assim dizer, a produção de outras séries que eram gravadas simultaneamente e sugando os recursos necessários a tantas produções menos complexas e mais rentáveis: Maguila, o Gorila; Formiga Atômica; Esquilo sem Grilo, Sinbad Jr. e outras. Sem mencionar a série mais famosa de todas e que, nos Estados Unidos, ocupava o chamado horário prime-time (  “horário nobre” no Brasil) da rede ABC, derrotando concorrentes como A Feiticeira e Os Monstros.

Jonny Quest ainda recebeu muitas críticas por exibir cenas violentas e monstros assustadores, que podiam “provocar pesadelos nas crianças”.

Infelizmente, todo o esmero da equipe e investimento do estúdio não salvaram a produção, cancelada com apenas 26 episódios.

Mas até hoje seus personagens carismáticos continuam sendo lembrados, seja pelos antigos fãs ou pelos novos, conquistados pelas reprises regulares ou pelos episódios disponíveis na internet.

Jonny era o curioso, intrometido e corajoso menino que encabeçava o elenco. Sempre acompanhado de seu fiel buldogue Bandit, imposto pelo produtor Barbera a fim de agradar à audiência infantil. Tanto que Wildey criou o amigo indiano Hadji como uma maneira de evitar que Jonny passasse o desenho conversando com seu cão.

Adotado pelo pai de Jonny, Dr. Benton Quest, Hadji possuía alguns poderes mágicos que herdou de sua cultura. Mesmo usando eternamente um turbante, o menino não era tratado de maneira leviana pelos roteiros, que o preservavam de abordagens racistas e irrelevantes.

Dr. Quest era protegido pelo grisalho agente (e galã) Roger “Race” Bannon, inspirado no ator Peter Graves, que ficou mundialmente famoso ao estrelar o seriado Missão Impossível.

O grande vilão era o dr. Zin, homenagem aos facínoras de seriados dos anos 1940 e arqui-inimigo mortal do dr. Quest.

E havia espaço ainda para belas mulheres, que davam trabalho a Bannon, que chegou a beijar intensamente a vilã Jezebel Jade, com quem tivera um caso no passado. Isso num desenho feito há mais de 50 anos…

Estudo de Doug Wildley para a bela Jezebel Jade.

Atendendo aos fãs, em 1986 Quest retornou, porém infantilizado em 13 novas (e fracas) aventuras. Em 1997, veio a última série, com 52 episódios, recheada de efeitos de computador (o “Mundo Virtual Quest”) e com os personagens mais envelhecidos. Também não teve apelo.

Tomara que Jonny Quest volte mais interessante em sua estreia nas telonas. Vamos aguardar…

Fontes:

Wikipedia

adorocinema.com.br

infantv.com.br

judao.com.br

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A possível e surpreendente causa para o Alzheimer

Mais de 30 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem de Alzheimer – a forma mais comum de demência. Infelizmente, ainda não há cura para a doença, apenas drogas para aliviar os sintomas.

Ruth Itzhaki*


Períodos de estresse podem reativar o vírus da herpes, e isso pode levar a danos cerebrais no longo prazo

Minha pesquisa mais recente sugere uma forma de tratamento. Encontrei a evidência mais forte até agora de que o vírus da herpes é uma das causas do Alzheimer, sugerindo que medicamentos antivirais eficazes e seguros podem ser capazes de combater a doença. Talvez consigamos até vacinar nossos filhos contra esse mal.

O vírus relacionado à doença de Alzheimer, o HSV1 (vírus mais comum da herpes simples), é conhecido por causar herpes labial. Ele infecta a maioria das pessoas na infância e, em seguida, permanece adormecido no sistema nervoso periférico (parte do sistema nervoso que não contempla o cérebro e a medula espinhal). Às vezes, em momentos de estresse, o vírus é ativado e, em alguns indivíduos, causa feridas na boca.

Descobrimos em 1991 que, em muitos idosos, o HSV1 também está presente no cérebro. E em 1997 mostramos que isso representa um forte fator de risco para Alzheimer quando presente no cérebro de pessoas que têm o gene APOE4.

O vírus pode se tornar ativo no cérebro, possivelmente várias vezes, e isso provavelmente causa danos cumulativos. A probabilidade de desenvolver Alzheimer é 12 vezes maior para os portadores do gene APOE4 que possuem o vírus HSV1 no cérebro do que para quem não apresenta nenhum dos dois fatores de risco.

Mais tarde, descobrimos junto a outros pesquisadores que a infecção por HSV1 das culturas celulares faz com que proteínas anormais beta-amiloides e tau se acumulem. A aglomeração dessas proteínas no cérebro é característica da doença de Alzheimer.

Acreditamos que o vírus HSV1 é um dos principais fatores que contribuem para o Alzheimer e que ele entra no cérebro dos idosos à medida que o sistema imunológico diminui com a idade. Ele estabelece uma infecção latente (dormente), sendo reativada por eventos como estresse, sistema imunológico baixo e processo inflamatório do cérebro provocado pela infecção de outros micróbios.

Essa reativação gera dano direto nas células infectadas e inflamação viral. Sugerimos que reativações recorrentes causem lesões cumulativas, que acabam levando à doença de Alzheimer em pessoas com o gene APOE4.

Provavelmente, em portadores do APOE4, a doença de Alzheimer se desenvolve no cérebro devido a uma maior formação de produtos tóxicos provocada pelo vírus HSV1, ou a uma reparação menor dos danos ocasionados.

Novos tratamentos?

Os dados sugerem que agentes antivirais podem ser usados para tratar a doença de Alzheimer. Os principais agentes antivirais, que são seguros, impedem a formação de novos vírus, limitando assim os danos virais.

Em um estudo anterior, descobrimos que o aciclovir, droga antiviral indicada para o tratamento de herpes, bloqueia a replicação do DNA do vírus HSV1 e reduz os níveis de beta-amiloide e tau gerados pela infecção por HSV1 das culturas celulares.

É importante observar que todos os estudos, incluindo os nossos, mostram apenas uma associação entre o vírus da herpes e o Alzheimer – eles não provam que o vírus é de fato uma causa.

Provavelmente, a única maneira de provar que um micróbio é a causa de uma doença é mostrando que sua ocorrência é drasticamente reduzida ao atacar o micróbio – seja por meio de um agente antimicrobiano ou vacina específicos.

A prevenção bem-sucedida do Alzheimer pelo uso de agentes anti-herpes específicos foi demonstrada em um estudo populacional de larga escala realizado em Taiwan. Espero que dados de outros países, se disponíveis, gerem resultados semelhantes.


Alzheimer

Também chamada de: mal de Alzheimer

Doença progressiva que destrói a memória e outras funções mentais importantes.

Muito comum

Casos por ano: mais de 2 milhões (Brasil)

Pode durar anos ou a vida inteira. As conexões das células cerebrais e as próprias células se degeneram e morrem, eventualmente destruindo a memória e outras funções mentais importantes. Perda de memória e confusão são os principais sintomas.

Idades afetadas:

0-2Nunca
3-5Nunca
6-13Nunca
14-18Nunca
19-40Muito raro
41-60Raro
60+Muito comum

As pessoas podem apresentar vários sintomas:

Na cognição: declínio mental, dificuldade em pensar e compreender, confusão durante a noite, confusão mental, delírio, desorientação, esquecimento, invenção de coisas, dificuldade de concentração, incapacidade de fazer cálculos simples, incapacidade de reconhecer coisas comuns ou perda de memória recente.

No comportamento: agitação, agressão, irritabilidade, mudanças de personalidade, repetição sem sentido das próprias palavras, dificuldade para exercer funções do dia a dia, falta de moderação ou vagar sem rumo e se perder.

No humor: apatia, descontentamento geral, mudanças de humor, raiva ou solidão.

Sintomas psicológicos: alucinação, depressão ou paranoia.

Nos músculos: contrações musculares rítmicas ou incapacidade de coordenar movimentos musculares.

No corpo: inquietação ou perda de apetite.

Também é comum: fala embaralhada, incontinência urinária ou sintomas comportamentais.

O tratamento consiste no uso de medicamentos que melhoram a cognição. Não existe cura, mas os medicamentos e as estratégias de controle podem melhorar os sintomas temporariamente.

Medicamentos: 

Suplemento alimentar – Atua isoladamente ou juntamente a outros tratamentos para melhorar a saúde. Medicamentos que melhoram a cognição – Melhora as funções mentais, reduz a pressão arterial e pode equilibrar o humor.

Como você pode se cuidar:

Exercício físico – Fazer uma atividade aeróbica por 20-30 minutos, cinco dias por semana, melhora a condição cardiovascular. Em caso de lesão, praticar uma atividade que evite usar o grupo muscular ou articulação lesionados pode ajudar a manter a disposição física durante a recuperação.

Especialistas:

Geriatra – Concentra-se na assistência médica a idosos.

Neurologista –Trata doenças do sistema nervoso.

Psiquiatra – Trata transtornos mentais, principalmente com medicamentos.

Clínico geral – Previne, diagnostica e trata doenças.


 

Fontes:

Hospital Israelita Albert Einstein

Ruth Itzhaki*

BBC Future

*Ruth Itzhaki é professora de Neurobiologia Molecular da Universidade de Manchester, no Reino Unido. Este artigo foi publicado originalmente no site de notícias acadêmicas The Conversation e republicado aqui sob uma licença Creative Commons.

A misteriosa organização que matava japoneses no Brasil


As fake news estão em evidência nos últimos tempos, mas não são uma invenção moderna. Em 1946 elas já existiam – e faziam vítimas no Brasil.


A família Mizobe chegou ao Brasil em 1927

Após o fim da Segunda Guerra, um grupo extremista de imigrantes japoneses começou a espalhar o boato de que o Japão não havia perdido a guerra. Segundo eles, as notícias da rendição do imperador japonês em 1945 eram mentiras espalhadas pelos Aliados para minar o moral dos nipônicos.

A crença dos membros do grupo nacionalista Shindo Renmei em sua própria versão da realidade era tão forte que eles assassinavam quem dissesse a verdade. As vítimas eram outros imigrantes, que aceitavam o fato de que o Japão tinha perdido a guerra. Os extremistas os chamavam de “corações sujos” e acreditavam que eles deveriam ser eliminados por amor à pátria.

Entre 1946 a 1947, pelo menos 23 membros da comunidade japonesa no Brasil foram assassinados por causa de seu compromisso com a verdade. E ao menos 147 foram feridos.

O pai de Aiko Higuchi foi um deles.


Aiko Higuchi, com 98 anos, é filha do primeiro imigrante morto pelo grupo Shindo Reimei

A vida na guerra

Em agosto de 1942, o Brasil entrou na Segunda Guerra ao lados dos Aliados – EUA, Reino Unido, França, União Soviética e China, entre outros – contra os países do eixo: Alemanha, Itália e Japão.

Imigrantes desses países eram vistos com desconfiança. Foi uma época difícil para os 160 mil imigrantes japoneses – a maioria dos quais trabalhava na roça.

Aiko Higuchi, na época uma agricultora de 23 anos, vivia em Bastos, no interior de São Paulo. Assim como muitas famílias de imigrantes, a sua tinha vindo para o Brasil em busca de uma vida melhor, quando a menina tinha sete anos.

“Papai deixou o filho mais velho no Japão porque achava que ia ficar 5, 6 anos no Brasil e depois voltaria. A propaganda no Japão era a de que, no Brasil, você ganhava dinheiro fácil.”

A realidade, no entanto, era bem diferente – e a situação da comunidade piorou muito após a entrada do Brasil na guerra.

“Não vinham cartas (do Japão), né? Não pode ouvir rádio. Jornal japonês era proibido. A gente ficava no escuro, não sabia nada do que estava acontecendo”, conta Aiko no sobradinho onde mora hoje no bairro de Santana, em São Paulo. “Não pode falar japonês na rua. Se fala japonês, entra na cadeia”.


Aiko estudou em escola só para imigrantes em Bastos, no interior de SP

Sentada no sofá da sala, ela relembra de detalhes do passado como se tivessem acontecido na semana passada.

Imigrantes não podiam dirigir e não podiam viajar. Escolas foram fechadas e empresas japoneses tiveram o capital confiscado.

Essas condições levaram ao surgimento de grupos que davam apoio para a comunidade. Um deles, no entanto, acabou seguindo um caminho sombrio: o Shindo Reinmei, fundado por Junji Kikawa, um ex-oficial do exército japonês.

Durante a guerra, Kikawa tentou ajudar os esforços de guerra japoneses pressionando os fazendeiros imigrantes para que parassem de produzir seda, que era usada para fazer paraquedas para os Aliados.

Sua organização teve um papel central nos eventos trágicos dentro da comunidade após 15 de agosto de 1945, quando o imperador Hiroito anunciou a rendição do Japão.

A Segunda Guerra havia acabado, com a derrota do Japão. Mas o Shindo Renmei começou a espalhar rumores na comunidade japonesa de que isso era uma grande mentira, inventada pelos Aliados para minar o ânimo dos japoneses.

“Mandavam mensagens falando que Japão tinha ganhado guerra e ia mandar navio para levar japonês de volta”, conta Aiko. “Eles eram, como diz? Fanáticos, né? Maioria eram pessoas com pouca educação em cidades com muitos japoneses: Bastos, Pompeia, Tupã.”

“Aí que Shindo Renmei começou a fazer isso: dizia que quem falasse que Japão perdeu guerra não era japonês. Era traidor.”

Compromisso com a verdade

O Shindo Remei tinha como alvo os membros mais proeminentes da comunidade, que eram mais integrados com os brasileiros e tinham mais acesso à informação.

O pai de Aiko, Ikuta Mizobe, era o gerente de uma cooperativa de agricultores em Bastos, onde a maioria da população era de imigrantes japoneses.

“Papai tinha que falar com os cooperados, era gerente de cooperativa. Tem que falar verdade, né?”, relembra Aiko. “As pessoas vinham perguntar sobre guerra, e ele falava o que sabia: que Japão tenha perdido.”


Ikuta Mizobe era gerente de uma cooperativa de agricultores e foi morto por falar a verdade

“Meu pai recebeu carta com duas palavras: pessoa e coração, cortado com uma faca. Minha mãe queimou a carta. Desde aquele dia eu não consegui mais dormir, toda noite ia pra cama pensando”, diz ela.

Em 1946, Aiko estava casada, vivendo na cidade de Pompeia, com o marido e seu filho recém-nascido, Katsuo Higuchi. Em 7 de março, uma caminhonete chegou a sua casa com uma mensagem. “Meu sogro escreveu bilhete falando que papai tinha machucado pé e mandaram me buscar.”

“Mas quando cheguei à casa da minha mãe, o caixão estava em cima da mesa”, diz dona Aiko, com a voz embargada.

Sangue e lágrimas

“Na noite anterior meu pai tinha saído para dar uma olhada nas orquídeas e fechar o portão, que meu irmão mais novo sempre deixava aberto”, conta Aiko.

“Então ele foi ao banheiro, atrás da casa. Dois homens estavam escondidos. Quando ele estava fechando a porta, eles atiraram. Minha mãe ouviu os tiros e saiu, e viu dois homens fugindo no cavalo.”

“Meu pai nunca fez nada de mal para ninguém, porque Deus não ajuda? Mas a gente sofreu por causa disso, viu? Mamãe falou depois: nunca imaginou que tinha tanto sangue no corpo”, diz Aiko, misturando japonês e português. “Ela limpou meio balde de sangue.”

O pai de Aiko foi a primeira vítima do terrorismo do Shindo Remei. Eles usavam armas e, às vezes, katanas – as espadas tradicionais japonesas.


Membros do Shindo Reimei espalhavam que o Japão não havia perdido a guerra

Anos depois, cerca de 380 imigrantes foram investigados por participarem do Shindo Remei. Muitos foram condenados a penas entre 1 e 30 anos na prisão. Quatorze jovens foram condenados por homicídio. Mas, no fim dos anos 1950, muitos já estavam livres.

Alguns deles chegaram a ser entrevistados para um documentário. Tokuichi Hitaka, que matou um ex-coronel do exército japonês na cidade de São Paulo, explicou porque confessaram quando foram presos.

“Depois do assassinato, eu joguei a arma fora. Na delegacia, o delegado não acreditava que a gente estava confessando. Do ponto de vista dos brasileiros, nós éramos um bando de idiotas. Mas nós acreditávamos que estávamos fazendo nosso dever pela pátria. Nós assumimos o que fizemos, como verdadeiros japoneses”, disse ele, no filme. “Não teria tido nenhum propósito, o que fizemos, se tivéssemos negado.”

Os dois homens que mataram o pai de Aiko também foram presos e condenados.

Ligação

Em 1957, Aiko mudou pra São Paulo, onde vive até hoje.

“Minha mãe guardou muita mágoa no coração a vida inteira, nunca falou muito sobre isso”, conta Katsuo Higuchi, de 72 anos, filho mais velho de Aiko e o único que chegou a ser carregado pelo avô antes de seu assassinato.


A família Mizobe cultivava alimentos em Bastos, no interior de SP

A paz só veio em 2008, quando, aos 88 anos, ela recebeu um telefonema de uma mulher que queria conversar sobre o assassinato de seu pai.

“Era filha do criminoso, que chamava Yamamoto. Ela queria encontrar. Quando ela veio, num domingo, disse que o irmão dela não quis vir porque ficou com medo, achava que eu ia matar ele”, conta Aiko, rindo. “Eu não tinha coragem de matar galinha! Jamais faria isso. Ela veio pedir desculpas, pelo que o pai dela tinha feito. Eu disse para ela: você tem não culpa. Eu não tenho raiva de você. Mas tenho muita raiva do seu pai.”

“Eu só tinha um pai. E minha mãe ficou sozinha, sofrendo.”

O reencontro foi bom para as duas mulheres. Depois de 62 anos, Aiko finalmente conseguiu falar abertamente sobre o que aconteceu e ficar em paz com o seu passado.


O Shindo Renmei e  o contexto histórico


O navio Kasato Maru atracado no Porto de Santos, 1908

Os primeiros imigrantes japoneses chegaram ao Brasil em 1908. A grande maioria deles pretendia fazer fortuna para depois retornar ao Japão.

Os recém-chegados depararam-se com uma terra completamente diferente de sua pátria: língua, costumes, religião, alimentação, clima, enfim, tudo era diferente daquilo que eles estavam acostumados.

Nesse contexto, o imigrante japonês era visto com desconfiança, já que possuía hábitos completamente diferentes dos brasileiros e de outros imigrantes estrangeiros. Os japoneses organizavam-se em comunidades fechadas, poucos aprendiam a língua portuguesa e evitavam contatos com os brasileiros e outras comunidades. Isso contribuiu ainda mais para aumentar a desconfiança contra eles.

Apesar de tudo, o Brasil possuía, já na década de 1930, a maior comunidade de imigrantes japoneses do mundo.


Família de imigrantes japoneses em Bastos, São Paulo, 1930

A ditadura do Estado Novo, implantado por Getúlio Vargas, procurou ressaltar o nacionalismo brasileiro através da repressão à cultura dos imigrantes que formavam comunidades fechadas, como os japoneses e alemães. O decreto nº 383, de 18 de abril de 1938, determinou várias proibições aos estrangeiros: não poderiam participar de atividades políticas, formar qualquer tipo de associação, falar idiomas estrangeiros em público ou usá-los para alfabetização de crianças. A transmissão de programas de rádio em idiomas estrangeiros foi proibida. As publicações impressas (jornais, revistas, livros) em idiomas estrangeiros foram proibidas, a não ser que fossem bilíngues, japonês-português, por exemplo. Como a publicação em japonês ficou muito cara, jornais e revistas deixaram de circular.

Em 1939, uma pesquisa da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, de São Paulo, mostrava que 87,7% dos nipo-brasileiros assinavam jornais em idioma japonês, um índice altíssimo de leitura no Brasil da época. O decreto praticamente acabou com a disseminação de informações na comunidade japonesa, pois boa parte de seus integrantes sequer compreendia o português.

Com o rompimento das relações diplomáticas com o Japão, em 1942, a chegada de novos imigrantes foi proibida, as cartas não mais vinham, os nipo-brasileiros passaram a não poder viajar pelo território nacional ou residir em certos locais (como no litoral) sem salvo-conduto expedido por autoridade policial, e os aparelhos de rádio foram apreendidos, para que não se ouvissem transmissões em ondas curtas do Japão. Durante todo o período da Segunda Guerra Mundial, a falta de informações sobre o Japão passou a ser total.

O grupo extremista

O Shindo Renmei não foi o primeiro nem o único grupo de caráter nacionalista criado por imigrantes japoneses. Haviam outras organizações, mas nenhuma praticou atos terroristas. A maior parte era destinada ao auxílio mútuo da comunidade nipo-brasileira.

Por exemplo, alguns católicos japoneses (Keizo Ishihara, Margarida Watanabe e Massaru Takahashi) criaram, com a aprovação da Igreja Católica e das autoridades do governo, uma caixa beneficente, chamada simplificadamente de “Pia”, com o objetivo de prestar ajuda aos membros pobres da colônia.

Um ex-coronel do exército japonês, Junji Kikawa, participou das atividades da “Pia”. Em 1942, após um violento confronto envolvendo brasileiros e japoneses na cidade de Marília, Junji Kikawa fundou a Shindo Renmei (a “Liga do Caminho dos Súditos”). Em 1944, desligou-se da entidade beneficente “Pia”, pois a diretoria desta opunha-se à propaganda que ele fazia.

Junji Kikawa

  Junji Kikawa imprimia e distribuía panfletos que aconselhavam os agricultores nipo-brasileiros a abandonar ou destruir a produção de seda (usada na fabricação de paraquedas) e hortelã (o mentol derivado era utilizado para tornar a nitroglicerina mais potente). Ocorreram alguns atos de destruição de criação de bicho-da-seda e de plantações de hortelã de agricultores, porém as autoridades policiais não investigaram os fatos devidamente e o assunto foi logo esquecido.

A Shindo Renmei tinha sede na capital e chegou a possuir 64 filiais nos estados de São Paulo e Paraná. Mantinha-se com doações de seus filiados.

A bomba atômica em Nagasaki

Com o fim da Segunda Guerra, muitos integrantes da Shindo Renmei recusaram-se a acreditar nas notícias oficiais sobre a derrota do Japão. Seus objetivos então passaram a ser punir os derrotistas, divulgar a “verdade” (que o Japão venceu ou vencia a guerra) e defender a honra do imperador.

A comunidade nipo-brasileira da época ficou dividida a partir das ameaças realizadas por membros mais fanáticos da Shindo Renmei em:

  • Kachigumi: – os vitoristas, aqueles que acreditavam que a guerra continuava ou que a vitória tinha sido do Japão. Nem todos foram simpatizantes das ações da Shindo Renmei. Era um grupo constituído pelas pessoas mais pobres da comunidade e que ainda desejavam o retorno ao seu país. Eram os mais numerosos.
  • Makegumi: – os derrotistas, pejorativamente chamados de “corações sujos“, eram os que acreditavam na derrota japonesa. Formavam o grupo mais próspero da colônia, eram mais bem informados e melhor adaptados ao Brasil.

Alguns pilantras (conhecidos como lero-lero) forjaram jornais e revistas japonesas com notícias sobre a grande vitória e começaram a vender terras nos “territórios conquistados”. Outros venderam yens, a moeda japonesa praticamente sem valor na época, a preços altos para os que queriam voltar ao Japão. Os boatos espalhados pelos estelionatários aprofundaram ainda mais a confusão de notícias na colônia e causaram enormes prejuízos aos kachigumi, levando alguns ao suicídio.

As fake news de então

Os integrantes da Shindo Renmei acreditavam firmemente que as notícias sobre a derrota e rendição do Japão eram falsas. Assim, criaram uma rede de comunicação para divulgar a “verdade”: que o Japão vencera a guerra. Além de jornais e revistas em japonês, estações de rádio clandestinas foram colocadas no ar.

Um documento falso, com assinatura de Hiroíto e data posterior à rendição oficial, dizia: “Forças de terra e mar prosseguem na guerra”. A Rádio Bastos, uma das dezenas de emissoras piratas da organização, colocava no ar um noticiário surreal, com boletins sobre a rendição de 7,5 milhões de soldados americanos, a nomeação de um novo presidente dos EUA pelo imperador japonês e a conquista da cidade de São Francisco, na Califórnia.

Foi nesse momento que a Shindo elaborou listas com os nomes dos makegumi que deveriam morrer por trair o imperador.

Segundo o DEOPS (a Polícia Política do Estado), as ações punitivas eram coordenadas de uma tinturaria na cidade de São Paulo e eram de lá que saíam os assassinos. E várias pensões no centro da cidade e no bairro oriental abrigavam os criminosos após as ações. 

Esses assassinos, chamados de tokkotai, eram sempre jovens. Primeiro, entregavam ou enviavam cartas exigindo o seppuku (suicídio ritual) dos makegumi que deveriam morrer, pois assim eles poderiam “recuperar a honra perdida”. Deveriam suicidar-se cortando o próprio ventre, sobre o qual depois seria colocada uma bandeira do Japão. As cartas começavam dizendo:

Você tem o coração sujo, então deve ter a garganta lavada. (isto é, deverá ter a garganta cortada por uma espada katana).

Os que se recusavam a cometer suicídio eram executados com armas de fogo e, às vezes, com espadas. Os crimes ocorreram muitas vezes na presença de familiares dos assassinados. Nenhum dos makegumi que recebeu a carta aceitou suicidar-se.

Repressão e término

As histórias de assassinatos, especialmente aqueles com espada katana, espalharam o terror da Shindo Renmei dentro da comunidade nipo-brasileira. Apesar de não ter sido afetada diretamente, o resto da população brasileira reforçou seus preconceitos de que todos japoneses eram fanáticos nacionalistas.

Uma parte da população brasileira reagiu e espancou alguns nipo-brasileiros inocentes ou pertencentes à Shindo Renmei. Confrontos ocorreram em cidades do interior paulista onde havia grande quantidade de imigrantes japoneses, como na região de Tupã, São Paulo.

O exército e o DEOPS realizaram operações de investigação nos estados de São Paulo e do Paraná, e 376 nipo-brasileiros foram identificados. Finalmente, as lideranças da Shindo Renmei e boa parte dos tokkotais foram presos.


A saga kachigumi

Uma breve história dos “vitoristas” japoneses

AGOSTO DE 1942

A Shindo Renmei é fundada em Marília, interior de São Paulo, pelo coronel aposentado Junji Kikawa.

AGOSTO de 1945

O Japão se rende aos Aliados na 2ª Guerra Mundial. A organização clandestina diz que é mentira.

JULHO DE 1946

Ataques deixam 10 mortos em 8 dias. Imigrantes japoneses passam a ser hostilizados.

AGOSTO DE 1946

Reação popular a uma série de atentados na cidade de Tupã transforma a cidade num campo de batalha.

MARÇO DE 1946

Terroristas da Shindo matam o primeiro japonês a reconhecer a derrota: Ikuta Mizobe, em Bastos.

DEZEMBRO DE 1946

Mais de 380 integrantes da Shindo Renmei são condenados. Dez anos mais tarde, todos receberiam anistia.


Fontes:

Leticia Mori e Thomas Pappon – BBC Brasil em São Paulo e em Londres

Superinteressante

Wikipedia

Corações Sujos, de Fernando Moraes, Cia. das Letras

Intestino: seu segundo cérebro


Ele tem 9 metros de comprimento e 500 milhões de neurônios. Controla muito do que você faz e influencia tudo o que você pensa.

Quase todo mundo é ansioso. Segundo a Associação Internacional de Controle do Stress (ISMA), 72% dos trabalhadores brasileiros são estressados. Mais da metade da população está acima do peso e tem problemas de sono – hoje se dorme 1h30 a menos, por noite, que na década de 1990. E nunca houve tanta gente, no mundo, sofrendo de depressão. De onde vem tudo isso? Cada um desses problemas tem suas próprias causas. Mas novos estudos têm revelado um ponto em comum entre todos eles: a sua barriga.

Dentro do sistema digestivo humano existe o que alguns pesquisadores já chamam de “segundo cérebro”, com meio bilhão de neurônios e mais de 30 neurotransmissores (incluindo 50% de toda a dopamina e 90% da serotonina presentes no organismo). Tudo isso para controlar uma função essencial do corpo: extrair energia dos alimentos. Mas novas pesquisas estão revelando que não é só isso. Os neurônios da barriga podem interferir, sem que você perceba, com o cérebro de cima, o da cabeça – afetando o seu comportamento, as suas emoções e até o seu caráter. E o mais incrível é como eles fazem isso. Mas primeiro: que história é essa de neurônios lá embaixo?


Ao longo da evolução, animais foram desenvolvendo uma rede de neurônios no sistema digestivo

Sem energia, não existe vida. Você precisa dela. E, ao contrário das plantas, que se viram com CO2 e luz solar, os animais obtêm energia comendo – e digerindo – outros seres. É um processo fundamental da nossa vida, mas não é nada simples. Tanto que, ao longo da evolução, animais primitivos – como os vermes de 600 milhões de anos atrás – foram desenvolvendo uma rede de neurônios no sistema digestivo. Lá, eles coordenavam o processamento da comida, que graças a isso se tornou mais sofisticado (ou seja, capaz de extrair energia de mais e mais tipos de alimento). E também desempenhavam outra função crucial: detectar e expulsar substâncias tóxicas, evitando que o bicho morresse ao comer algo venenoso. Deu certo. Tão certo que a rede de neurônios digestivos foi aumentando e se sofisticando, até chegar ao que, hoje, é conhecido como sistema nervoso entérico (SNE).


Essa rede de neurônios percorre todo o abdômen: são de 6 a 9 metros

Ele existe em todos os animais vertebrados e, nos humanos, é uma rede de neurônios que percorre todo o abdômen: são de 6 a 9 metros, começando no esôfago, passando pelo estômago e pelo intestino e indo até o reto (os neurônios ficam numa espécie de “forro”, atrás das mucosas que processam os alimentos). Você já nasce com eles, mas o SNE aprende e evolui com o tempo – o que ajuda a explicar por que os bebês nascem com dificuldade para digerir qualquer coisa, até o leite materno.

Quando você coloca na boca aquela batatinha frita do boteco, provavelmente ignora a verdadeira alquimia que está prestes a ocorrer: ao final do processo, a batata será parte de você. Mágico, não? Mas, para que o feitiço ocorra, uma série de processos precisam estar sincronizados. Enquanto você mastiga a batata, o estômago começa a ser preparado para recebê-la. Assim que engole, os neurônios da barriga mandam liberar enzimas e sucos gástricos. São eles também que, algum tempo depois, decidem que a batata já foi suficientemente dissolvida pelo estômago, e pode seguir para o intestino (ou que, ao detectar comida estragada, fazem você vomitar). Ao mesmo tempo, outros neurônios mandam o intestino empurrar o bolo alimentar da refeição passada para abrir espaço. Quando sente que você já comeu o suficiente, o SNE manda o organismo parar de liberar grelina, hormônio que causa a fome. Algumas horas depois, ou no dia seguinte, ele avisa que é hora de ir ao banheiro. E só aí o seu cérebro reassume o comando.

Você pode perguntar: mas e daí? O sistema digestivo não está fazendo mais que a obrigação, certo? Certo. Só que ele vai além – e graças a uma força que nem humana é.

Você e elas

Desde que a ciência descobriu as bactérias (graças ao cientista holandês Antoine van Leeuvenhoek, em 1676), a humanidade sempre desprezou, odiou e temeu essas criaturas. Com alguma razão: podem causar infecções mortais. Mas o fato é que as bactérias nem sempre são nocivas. A maior parte é fundamental para o organismo – tanto que o corpo humano abriga uma enorme quantidade delas. Um homem de 1,70 m e 70 kg possui aproximadamente 30 trilhões de células humanas, segundo um estudo publicado este ano pelo Weizmann Institute of Science, de Israel. E 39 trilhões de bactérias. Ou seja: o seu corpo contém mais células não humanas do que humanas.

Essa população de micro-organismos é chamada de microbiota, e a esmagadora maioria dela vive no sistema digestivo, onde existem 300 espécies de bactéria. Elas moram lá porque, como você, precisam de energia para sobreviver: no caso, a comida que você come. As bactérias da sua barriga são benéficas, ajudam na digestão dos alimentos. Mas também podem provocar efeitos estranhos e surpreendentes. Isso foi demonstrado pela primeira vez em 2011, quando cientistas da Universidade Cork, na Irlanda, descobriram que bactérias da espécie Lactobacillus rhamnosus, encontradas em iogurtes, eram capazes de alterar o comportamento de ratos de laboratório. Os pesquisadores dividiram os ratinhos em dois grupos, alimentados com dois tipos de iogurte: um com essa bactéria e outro sem. Os camundongos que tomaram o iogurte turbinado tiveram o dobro de disposição para atravessar labirintos e nadar. Ratos de laboratório nadam por 4 minutos, em média, antes de desistir de lutar contra a água (eles simplesmente boiam depois disso). Os bichos que tomaram iogurte com L. rhamnosus nadaram 50% mais.


“Talvez, no futuro, os antidepressivos possam ser comprados no supermercado, na forma de iogurte”

Também ficaram mais relaxados, como se tivessem tomado um calmante. Um exame de sangue, feito depois, comprovou que eles tinham 50% menos corticosterona, uma substância ligada ao stress, e melhor distribuição do ácido gama-aminobutírico (GABA), um neurotransmissor que ajuda a conter a ansiedade. Ou seja: as bactérias do iogurte mexeram com o “segundo cérebro” dos ratinhos – que alterou os níveis de várias substâncias e, por sua vez, influenciou o cérebro principal. “A microbiota pode se comunicar com o cérebro”, explica o neurocientista brasileiro Gilliard Lach, do laboratório que fez o estudo. “Talvez, no futuro, os antidepressivos possam ser comprados no supermercado, na forma de iogurte”, acredita.

Para não deixar dúvida, os pesquisadores fizeram um último teste. Pegaram os ratinhos e cortaram seu nervo vago, que conecta o sistema digestivo com o cérebro (e também existe em humanos). E o iogurte turbinado deixou de fazer efeito. Ou seja: eram mesmo os neurônios da barriga, influenciados pelas bactérias, que estavam manipulando o comportamento dos ratinhos.

Em seres humanos, acontece a mesma coisa. Isso ficou provado em 2013, quando cientistas da Universidade da Califórnia recrutaram 36 voluntárias. Elas foram divididas em três grupos. O primeiro tomou iogurte com quatro tipos de bactéria (bifidobacteriumstreptococcuslactococcus e lactobacillus) ao longo de um mês. O segundo consumiu uma bebida que tinha gosto de iogurte, mas não continha essas bactérias. O terceiro não tomou nada – manteve a dieta de sempre. Os cérebros das mulheres foram analisados, em exames de ressonância magnética, antes e depois da experiência. O resultado foi claro. As bactérias modificaram várias regiões que processam sensações do corpo, emoções e até funções cognitivas. Caiu a atividade de regiões como a ínsula (responsável por processar certos estímulos do corpo, como fome) e o córtex somatossensorial (que processa o tato e outros sentidos). E aumentaram as conexões entre a substância cinzenta periaquedutal, que ajuda no controle da dor, e o córtex pré-frontal – a área racional do cérebro. Ou seja: alterações no sistema digestivo provocaram alterações no cérebro.

Os cientistas ainda estão tentando entender de que forma os neurônios ‘abdominais’ agem sobre o cérebro. Mas ficou provado que a barriga realmente pode mandar na cabeça – e, como qualquer pessoa que já teve dor de barriga porque ficou ansiosa sabe, também pode ser influenciada por ela. “É um caminho de duas mãos. Tanto o seu humor pode afetar o aparelho digestivo, quanto o seu aparelho digestivo pode afetar o humor”, diz o médico Carlos Francesconi, professor da UFRGS e especialista em neurogastroenterologia, área da medicina que estuda os neurônios do sistema digestivo. E esses processos são influenciados por bactérias. “Elas exercem um papel regulatório, como se fossem um órgão a mais”, diz Marcio Mancini, chefe do grupo de obesidade do Hospital das Clínicas da USP. Qualquer modificação nesse pool de inquilinos do seu corpo pode provocar um desequilíbrio – e estar na raiz de várias doenças.

Ansiedade, por exemplo. Pesquisadores da Universidade McMaster, no Canadá, descobriram que ratos com maiores níveis de bactérias lactobacillus e bifidobacterium no sistema digestivo são menos ansiosos. E o oposto também é verdadeiro. Os cientistas coletaram bactérias do intestino de um rato ansioso, e injetaram em um ratinho calmo. Os micro-organismos mataram a maior parte das bactérias “boas” – e, como consequência, o camundongo passou a ter comportamento ansioso e nervoso.

Em pessoas, também há indícios de que seja assim. No ano passado, um estudo da Universidade de Oxford avaliou 45 voluntários, divididos em dois grupos. O primeiro recebeu placebo. O outro, doses de um carboidrato chamado galactooligossacarídeo (GOS), naturalmente presente no leite materno e em alimentos como cebola, alho, banana, soja e chicória. Esse carboidrato é o alimento preferido das bactérias lactobacillus e bifidobacterium (as mesmas da pesquisa com ratos). A ideia era turbinar a população desses micro-organismos, e ver se fazia algum efeito sobre as pessoas. Os voluntários que ingeriram o tal carboidrato desenvolveram mais bactérias – e ficaram com níveis 50% mais baixos de cortisol, o hormônio do stress. Também se saíram melhor numa bateria de testes psicológicos, apresentando respostas mais otimistas e menos sinais de ansiedade.

Outros estudos já encontraram relação entre a falta de lactobacillus e doenças como depressão e anorexia. Esses micro-organismos ajudam a manter a camada de muco que protege o intestino. Quando eles não estão presentes, essa barreira fica mais fraca, e surgem pequenas inflamações no intestino – que são encontradas em 35% das pessoas deprimidas. Para tentar entender o porquê, os cientistas autores da descoberta injetaram lactobacilos em ratos. As bactérias protegeram o intestino e produziram efeitos semelhantes aos de remédios antidepressivos.


As bactérias do sistema digestivo também estão relacionadas ao sono.

As bactérias do sistema digestivo também estão relacionadas ao sono. Isso foi descoberto nos anos 1990, quando cientistas da Universidade de Newcastle, na Inglaterra, deram antibióticos para ratos de laboratório durante uma semana. Previsivelmente, os níveis de bactérias despencaram. O surpreendente foi outra coisa: os ratinhos passaram a dormir menos e pior, passando menos tempo na chamada fase REM (movimento rápido dos olhos, em inglês), a fase em que o corpo mais descansa – e, também, em que o indivíduo sonha.

Há estudos mostrando que pessoas com autismo, Parkinson, Alzheimer e obesidade possuem uma seleção diferente de micro-organismos na barriga. Tanto que o transplante de fezes tem sido considerado como possível tratamento para o autismo. Dois pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Pasadena, na Califórnia, descobriram uma relação entre bactérias intestinais e autismo. Pelo menos em ratos. Eles criaram uma ninhada de ratinhos autistas (o que foi feito de um jeito meio cruel: infectaram uma rata grávida com um vírus que ataca os fetos). Depois, analisaram a população de micro-organismos no sistema digestivo deles. Descobriram que era bem diferente da encontrada em ratos normais.

Cientistas da Universidade Columbia e do Hospital Geral de Massachusetts já haviam observado que pessoas autistas costumam ter déficit de um tipo de bactérias, as bacteroides. Também costumam apresentar problemas gastrointestinais.

Se existe mesmo essa relação entre bactérias e autismo, pode haver um tratamento em comum que mire os dois alvos. Os pesquisadores de Pasadena decidiram alimentar os ratinhos autistas com bacteroides. Resultado: os animais pararam de fazer os movimentos repetitivos típicos do autismo severo, e ficaram mais sociáveis e abertos a interações com outros ratos. Ainda é cedo para saber se bactérias – no caso, a falta delas – são as culpadas pelo autismo. Mas, se a hipótese se confirmar, o tratamento desse transtorno pode passar também por um prosaico pote de iogurte.

Em todos esses casos, é preciso fazer mais estudos. “Não se sabe ainda se estamos diante do ovo ou da galinha”, explica Dan Waitzberg, professor de medicina da USP e especialista em aparelho digestivo. Quer dizer: a diferença na população de bactérias pode tanto ser a causa quanto mera consequência dessas doenças. Mas o sistema digestivo, e os bichinhos que moram nele, têm uma conexão nítida com os dois grandes males do mundo moderno: a obesidade e o câncer.

Guerra e paz

A medicina tem feito progresso na luta contra o câncer. Mas vários dos remédios mais modernos estão envoltos em um enigma: funcionam em certas pessoas, mas em outras não produzem o menor efeito. E ninguém sabe o porquê. Uma das respostas pode estar no tipo de bactérias que habitam a barriga de cada pessoa.

O francês Mathias Camaillard e sua equipe da Universidade de Ille, na França, descobriram, após fazer testes em ratos, que uma droga usada no tratamento do melanoma (o câncer de pele mais agressivo) não funciona na ausência das bacteroidales. Os cientistas descobriram isso ao examinar ratinhos tratados com o remédio, que se chama ipilimunab e faz o sistema imunológico atacar o câncer. Ele é usado em casos graves, quando o melanoma já se espalhou pelo corpo, e pode prolongar a vida dos pacientes em cinco anos. Para saber se as bactérias eram mesmo decisivas, a turma de Camaillard fez um novo (e meio nojento) teste: coletou fezes de 25 pacientes humanos, todos portadores de câncer, e injetou no intestino dos ratinhos. Ou seja, transplantou as bactérias dos humanos para os camundongos. Adivinhe só: nos ratos que receberam bacteroidales, o remédio anticâncer começou a fazer efeito, como que por milagre. Não era milagre, claro, mas os cientistas ainda não sabem explicar o resultado. Eles suspeitam que as bactérias ajudem a “acordar” o sistema imune, turbinando o efeito da medicação. No futuro, a ideia é que pacientes com melanoma avançado tenham suas fezes analisadas antes de começar o tratamento. Se o teste apontar que eles carregam poucas bacteroidales no organismo, poderão recebê-las via transplante de fezes.

Em 2009, um estudo liderado pelo médico americano Jeffrey Gordon, da Universidade Washington, em St. Louis, começou a desvendar a relação entre bactérias e obesidade. Ele analisou o sistema digestivo de um grupo de gêmeas com uma característica bem peculiar: em todos os casos, uma irmã era obesa e a outra não. Depois de analisar as bactérias intestinais das 154 voluntárias, os pesquisadores concluíram que as irmãs obesas tinham flora intestinal menos diversa e com menos bacteroidetes. Um resultado instigante, mas ainda restava uma dúvida: essa diferença na quantidade de bactérias era a causa da obesidade, ou o efeito dela?

O grupo decidiu, então, buscar a resposta em experimentos com ratos. Ficou quatro anos fazendo uma experiência que se mostraria revolucionária. Os cientistas pegaram ratinhos recém-nascidos e estéreis, ainda sem nenhum micro-organismo intestinal, e injetaram neles bactérias tiradas de intestinos humanos. Metade dos ratinhos recebeu bactérias “gordas”, ou seja, que haviam sido coletadas nas gêmeas obesas. A outra metade ganhou bactérias “magras”, extraídas do intestino das gêmeas magras.

Todos os ratos comeram a mesma ração, na mesma quantidade. Adivinhe só o desfecho: os bichos que receberam bactérias “gordas” ficaram gordos. E aqueles que receberam bactérias “magras” ficaram magros.

Mais tarde, a equipe repetiu o experimento, mas, dessa vez, uniu os dois grupos de ratos num mesmo espaço. Assim, os animais se contaminaram uns com as bactérias dos outros (pois os ratos têm o lindo hábito de comer fezes). Com o compartilhamento de bactérias, os dois grupos de ratos ficaram magros. Os cientistas também transplantaram bactérias dos ratos magros para os obesos – que ficaram magros. Em suma: os cientistas provaram, de várias formas diferentes, que as bactérias intestinais podem causar, ou prevenir, a obesidade. Em ratos, pelo menos. Não se sabe exatamente o porquê, mas os cientistas acreditam que tenha a ver com as calorias (certos tipos de bactéria turbinam a digestão, permitindo extrair mais energia dos mesmos alimentos).

Um ponto importante: os ratos gordos só emagreciam se recebessem 54 tipos de bactérias do outro grupo. Os cientistas também tentaram transferir menos espécies, apenas 39 tipos, e não deu certo – os ratos continuaram gordos. Isso significa que a chave está na diversidade de bactérias dentro do corpo. Mas a vida moderna está acabando com elas.

Nova cura, nova doença

De 5% a 10% da população mundial tem úlcera gástrica, um ferimento na parede do estômago que nunca cicatriza completamente, causa dores fortes e, em casos graves, pode matar. É uma doença crônica e incurável, cujo tratamento sempre consistiu em tomar Antak (cloridrato de ranitidina): um remédio paliativo, que reduz a produção de suco gástrico – e, com isso, as dores – e se tornou o medicamento mais vendido do mundo na década de 1980.

Até que um dia um médico desconhecido, que se chamava Barry Marshall e trabalhava num hospital da Austrália, apareceu com uma ideia: a úlcera, na verdade, era causada pela proliferação excessiva da Helicobacter pylori, que ele havia encontrado no estômago de pacientes com úlcera. Ninguém levou a sério, e Barry não podia fazer estudos em seres humanos (pois isso significaria condená-los a uma vida de dores). Desesperado, ele fez o impensável: infectou a si mesmo com a tal bactéria. Como seria de se esperar, desenvolveu úlcera – que então curou, em uma semana, com um antibiótico. Barry havia descoberto a cura, simples e definitiva, para uma doença que afetava dezenas de milhões de pessoas. Um conto de fadas da medicina moderna.

Mas essa vitória também teve um lado ruim. Estudos mais recentes sugerem que a H. pylori também desempenha um papel importantíssimo para o organismo: controla a produção de grelina, o hormônio que controla a sensação de fome. Foi isso o que descobriu o médico Martin Blaser, da Universidade de Nova York. “Eu tenho acumulado mais e mais evidências de que o desaparecimento desse micróbio (a H. pylori) pode estar contribuindo para epidemias atuais”, escreve no livro Missing Microbes: How the Overuse of Antibiotics Is Fueling Our Modern Plagues (“Micróbios sumidos: como o uso excessivo de antibióticos está alimentando as pragas modernas”, ainda sem versão em português). Ele descobriu que a H.pylori, que até os anos 1980 era comum no estômago dos americanos, hoje se tornou rara. E é isso que pode estar fazendo as pessoas comerem mais e engordarem – porque, sem essa bactéria, o sistema digestivo não dá o sinal para a pessoa fechar a boca.

Para o pesquisador, a relação da humanidade com os antibióticos é similar ao de outras invenções revolucionárias, como o motor à combustão. Começou ótimo, revolucionou o mundo, mas acabou produzindo grandes efeitos colaterais (como o efeito estufa, a poluição das grandes cidades e as guerras por petróleo). Os antibióticos podem seguir pelo mesmo caminho. Embora sejam fundamentais para controlar infecções, podem estar ajudando a criar novos problemas. “A perda da diversidade da microbiota nos nossos corpos está cobrando um preço terrível. E será pior no futuro”, escreve Blaser.

Nem todo mundo é tão pessimista. Há quem acredite que, entendendo a importância das bactérias, aprenderemos a conviver com elas de outra forma e controlá-las usando menos remédios. “Em 20 ou 30 anos, vamos ter um chip implantado no corpo que será lido pelo computador do médico. Ele vai poder analisar o perfil do indivíduo e receitar uma alimentação personalizada para tratar determinadas doenças”, projeta Dan Waitzberg, da USP. O jogo da humanidade contra as bactérias pode, no máximo, terminar empatado. Não devemos ceder, mas também não podemos querer exterminá-las. Afinal, elas são parte de nós. A maior parte.

Fonte:

Por Sílvia Lisboa e Bruno Garattoni, Superinteressante

O primeiro zoo de São Paulo

Imagem histórica de elefantes banhando-se no lago da Aclimação, reproduzida do livro “Jardim da Aclimação e o Zoológico”. Livro conta história do criador do Parque da Aclimação, o médico, agricultor e político Carlos Botelho, que idealizou o local em 1892.  Reprodução. 

O Parque da Aclimação tinha camelos, elefantes e até uma onça-pintada

O bairro da Aclimação, na região mais central da cidade de São Paulo, é de classe média e tem hoje uma presença marcante da cultura sul-coreana. A tradição asiática é vista em restaurantes, lojas, igrejas e comércios tipicamente orientais, promovendo uma grande diversidade cultural e criando um ambiente único na cidade – e fica pertinho da Liberdade, o bairro oriental.

A Aclimação surgiu diretamente ligada ao Parque da Aclimação, uma área verde incrustada em meio a altos edifícios e uns poucos sobrados residenciais, sobreviventes de outros tempos.

Tudo começou em 1892, quando um médico piracicabano, chamado Carlos José Botelho, após comprar terras na região, decidiu criar um imenso jardim, chamado de Jardim D’Acclimatation de Paris, inspirado no parque francês de mesmo nome que ele havia conhecido quando estudou na França.

Dr. Carlos Botelho

No local havia espaço para exposição de gado leiteiro holandês, fato que atraiu o interesse de grandes pecuaristas brasileiros. Dizem os moradores mais antigos que os visitantes podiam até tomar leite de vaca tirado na hora e comprar laticínios naquela que foi a primeira leiteria da cidade!

O acesso ao parque se fazia por dois portões de ferro fundido. Ao entrar pelo portão principal, o visitante logo observava uma larga e bem cuidada alameda sombreada por árvores frondosas, que circundavam o lago em toda sua extensão, por uma distância de dois quilômetros.

Estacionamento dos visitantes do Jardim da Aclimação. Ao fundo, do lado direito, um descampado…
Foi nesse descampado, por onde passavam córregos, é que foi criado um lago.

Esse lago  foi formado a partir do represamento de córregos da região, no qual haviam canoas para passeios.

Alameda que circundava o recém-criado lago, onde se podia passear de canoa.
As colunas que sustentavam os portões de ferro da entrada principal ainda existem, mas perderam as esculturas em relevo. A bilheteria que se vê na foto foi derrubada e a área hoje faz parte do terreno ocupado por uma biblioteca pública.

A alameda dividia o jardim em duas partes: na maior ficavam as diversões (como o salão de baile, o ringue de patinação e as barracas de tiro ao alvo), o bosque com o lago e o estábulo; na outra estava instalado o zoológico.

Esse local, aliás, era uma atração à parte.

O primeiro zoo da cidade contava com estrelas do reino animal, como o camelo Gzar e o urso-polar Maurício – cuja jaula era resfriada com barras de gelo que vinham da fábrica da cervejaria Antárctica, que ficava na Água Branca –  e vários outros animais, como hienas, cobras e até uma onça pintada.

Uma das diversões mais populares no parque era dar uma volta no camelo.

Vale um registro: em 1920, uma sucuri com cerca de 5 metros de comprimento escapou do espaço em que ficava exposta e dez homens participaram da operação de captura do réptil.

Registro do momento da captura da sucuri fugitiva.

As pessoas podiam ainda passear de charrete puxada por uma lhama e as crianças adoravam dar voltas ao redor do lago numa carrocinha puxada por um burrico.

Naquela época, havia só dois parques em toda a cidade, o da Luz e o da Aclimação. O da Aclimação ficava longe do centro, por isso era preciso inovar constantemente para atrair público.

Por isso, quando o zoo foi inaugurado, uma maciça campanha de divulgação anunciou a novidade. Maciça para a época, claro… Com anúncios nos jornais e nos bondes.


Anúncio direcionado à comunidade italiana em São Paulo: peixe elétrico e urso polar faziam sucesso no parque

O zoo  também tinha como objetivo a criação e reprodução de animais de várias espécies. E as atrações foram se sucedendo, com a abertura de um aquário anexo ao zoo. O parque ainda abrigava um posto botânico e era sede da Sociedade Hípica Paulista.

Com o afluxo de pessoas para a região, iniciou-se a urbanização do bairro e por volta de 1916 várias ruas começaram a ser abertas, recebendo cada uma o nome de pedras preciosas, como Turmalina, Topázio, Diamante, Ágata, Safira, Esmeralda, Rubi, e outras receberam nomes dos planetas do sistema solar como Júpiter, Urano, Saturno.

Casarão na rua Turmalina. 

Em 1939, o Jardim da Aclimação, cuja área era de 182 mil metros quadrados, foi comprado pelo então prefeito Prestes Maia, pois os filhos de Botelho passavam por dificuldades financeiras e não conseguiam mais manter o parque. 

Na década de 1950, a área ganhou uma biblioteca, uma Concha Acústica, um playground e um campo de futebol. O bairro foi se desenvolvendo ao redor do parque e se tornando eminentemente residencial.

Vista do lago, com a muralha de prédios no horizonte.

A partir de 1970, a expansão imobiliária fez surgir muitos edifícios, marcando a verticalização do bairro, o aumento da população e o consequente crescimento do comércio.

No decorrer da década de 1980, a associação dos moradores do bairro e dos defensores do parque, juntamente com entidades ecológicas, mobilizaram-se e conseguiram o tombamento do Parque da Aclimação, feito pelo Condephaat – Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico e Arquitetônico.

Atualmente, o parque recebe cerca de 7.000 visitantes aos finais de semana.

Curiosidades

  • O Parque da Aclimação tem hoje 112 mil m² de área verde, algo como menos de 70% de sua área original;
  • Foram registradas 85 espécies de fauna, 88 espécies de flora das quais copaíba, pau-brasil e pinheiro-do-paraná estão ameaçadas, e 65 espécies de aves;
  • Três esculturas de Arcângelo Ianelli (1922 – 2009) – pintor, escultor, ilustrador e desenhista brasileiro, natural da cidade de São Paulo – estão distribuídas pelo parque em meio ao verde: “Dança Branca”, O Retorno” e “Forma Corrompida”;
  • O criador do parque, o médico e pesquisador Carlos Botelho, foi secretário da Agricultura de São Paulo e, entre suas grandes realizações, foi o responsável pelo início da imigração japonesa no Brasil. O primeiro navio, com 781 japoneses, chegou a Santos em 1908. Vieram trabalhar na agricultura de café e o contrato de imigração entre os dois países foi firmado entre o Sr. Ryu Mizuno, Diretor Presidente da Cia. de Imigração Kôkoku do Japão, e pelo Dr. Carlos Botelho.

Mulheres e Cerveja, uma história que vem de longe

Não pense que só os barbudos com cara de lenhador apreciam a cerveja. Mulheres e cervejas têm uma relação que vem de milênios!

Cerveja é coisa de mulher há mais de 10.000 anos!

Pois foram elas que fizeram as primeiras cervejas, segundo achados arqueológicos importantes. E um dos mais antigos registros encontrados é o chamado Hino à Ninkasi, um poema dedicado à deusa suméria… da cerveja!

Representação moderna de Ninkasi.

Era mais do que um poema, na verdade era uma receita, explicando como fermentar uma espécie de sopa que foi uma das bases da alimentação dos sumérios, usando grãos, frutos, mel e tâmaras. Segundo a crença, era Ninkasi quem preparava esse alimento tão importante, para eles, quanto o pão.

O Código de Hamurabi, conjunto de leis escritas por volta de 1772 a.C. pelos babilônios, indicava que as mulheres eram donas das tavernas e vendiam as cervejas que elas mesmas produziam.

Os babilônios também reconheciam o papel das mulheres no preparo da bebida.   Os hieróglifos dessa época descrevem as mulheres fazendo cerveja e bebendo-as através de uma espécie de canudo. Essas cervejeiras desenvolveram esses objetos para atravessar a camada de “espuma” formada na fermentação, e que flutuava no topo das tinas de barro.

O nome da bebida veio dos gregos

Ceres era a deusa da agricultura e dos grãos e, por conta disso, da cerveja. É de seu nome que surgiu a palavra cerveja, que vem do grego Ceres Visia, ou seja, “Aos olhos de Ceres”.

Para os gregos, a bebida alcoólica era um fenômeno divino, pois não se sabia como ocorria a fermentação. Por isso era usada como uma ponte entre o mundo dos homens e o mundo dos deuses.

Os egípcios também também reservavam às mulheres o papel de fazer a cerveja.  Mas, com o aumento das “fábricas” no país – talvez por conta do aumento de consumo… – elas foram substituídas pelos homens e colocadas em outras funções.

As cervejeiras no mundo antigo

As mulheres germânicas fabricavam cervejas nas florestas, para escapar dos invasores romanos, assim como o faziam mulheres por toda a Europa antiga.

Não haviam mulheres cervejeiras apenas na Europa, porém. Os povos nativos da África, da América do Norte ou dos Andes da América do Sul também permitiam que as mulheres fossem as fabricantes da bebida, usando o que tivessem à mão: flores, cactos, sementes, o que quer que fermentasse e resultasse em bebida alcoólica.

Até a Revolução Industrial, as mulheres europeias alimentavam seus maridos e crianças com cervejas de baixo teor alcoólico e ricas em nutrientes, como suas ancestrais faziam quando não tinham o pão.

A cerveja e as bruxas

Algumas cervejeiras mais… digamos… empoderadas produziam mais do que suas famílias precisavam e vendiam o excedente. Acontece que, pelas leis de então, isso não era permitido e os homens passaram a tomar conta da produção e venda.

Os homens construíram cervejarias e formaram redes de comércio internacional.  E, na medida em que a Idade das Trevas abriu caminho ao Renascimento, as cervejeiras perderam sua relevância e muitas mulheres foram até processadas como bruxas!

Claro, não se pode provar que exista uma conexão entre as cervejeiras e as ilustrações que se usavam para “promover” a caça às bruxas. Mas as imagens dos caldeirões fumegantes,  vassouras (que eram penduradas fora da porta para indicar que havia cerveja), gatos (para perseguir e afastar ratos dos grãos) e chapéus pontudos (para serem vistos acima da multidão no mercado) permanecem até hoje.

Por volta de 1700, as mulheres já tinham quase que interrompido totalmente a fabricação de suas cervejas, e sua associação à bebida foi sendo gradualmente dissipada.

Foi então que se cristalizou a imagem de que “cerveja é coisa pra homem“.

Desde a metade do século XVIII, não se permitiu mais mulheres produzindo a bebida nas cervejarias e somente em meados dos anos 1960 que elas foram aceitas novamente na produção – embora continuassem a consumir a bebida ou a produzi-la em escala doméstica em diversas regiões do planeta.

Hoje em dia…

As pressões de várias camadas da sociedade estão conseguindo, lentamente, diminuir a objetificação da mulher na propaganda das cervejas. Além disso, mulheres estão ocupando muitas posições de relevância na indústria.

Nada mais natural que elas mostrem aos barbudos e às cervejarias que esse espaço é delas desde o começo…

 

Fontes: G1, Wikipedia, thebeerplanet.com.br

Inglês americano e britânico: tem diferença?

Assim como acontece com o Português falado no Brasil em relação ao de Portugal, o Inglês também tem diferenças quando se está na Inglaterra ou nos Estados Unidos. As diferenças entre inglês britânico e americano não se resumem ao sotaque ou pronúncia, porém.

A principal diferença  acaba sendo a predominância maior do praticado nos Estados Unidos. Claro, há maior presença cultural americana em todo o mundo: filmes, seriados, música, games, quadrinhos…

Exatamente o que acontecia até o final do século XIX, quando a Inglaterra era a superpotência mundial e espalhava sua cultura pelo planeta.

As diferenças entre o inglês britânico e o americano se devem, muitas vezes, ao contexto e à história de determinado termo para seu uso, como o caso do metrô: subway para os americanos, underground e tube para os britânicos. 

A lista de termos diferentes entre o inglês falado nos dois países é enorme

Português Inglês Americano Inglês Britânico
acostamento (de estrada) shoulder hard shoulder
advogado lawyer solicitor, barrister
agenda appointment book diary
aluga-se for rent to let
apartamento apartment flat
armário closet wardrobe
aspas quotation marks speech marks
auto-estrada freeway motorway
avião airplane aeroplane
balas candy sweets
banheiro lavatory/bathroom toilet
batatas fritas  french fries chips
batatas fritas (em fatias finas) potato chips crisps
beringela eggplant aubergine
biscoito, doce cookie biscuit
bombeiros fire department fire brigade
borracha de apagar eraser rubber
calçada sidewalk pavement, footpath
calças pants trousers
caminhão truck lorry
caminhão de lixo garbage truck dustbin lorry
carona ride lift
carteira de habilitação driver’s license driving-licence
carteiro mailman postman
centro (de uma cidade) downtown city centre, town centre
CEP zipcode postcode
cinema movie theater cinema
código de acesso DDD area code dialing code
conta corrente checking account current account
corpo docente faculty academic staff
currículo resume curriculum vitae
curso de graduação undergraduate school degree
diretor (de escola) principal head teacher, headmaster
elevador elevator lift
estacionamento parking lot car park
fila line queue
futebol soccer football
gasolina gas (gasoline) petrol
lanterna flashlight torch
lixo garbage litter
mamãe mom, mommy mum, mummy
matemática math maths
metrô subway underground, tube
pneu tire tyre
recepção front desk reception
refrigerante pop, soda soft drink, pop, fizzy drink
telefone celular cell phone mobile phone
tênis tennis shoes, running shoes, sneakers trainers
térreo first floor ground floor (US: 1st, 2nd, 3rd, …, UK: ground, 1st, 2nd, …)

Mas as diferenças não se resumem a termos. Há diferenças de ortografia, também. Quer ver?

Inglês AmericanoInglês Britânico
center, theater, liter, fibercentre, theatre, litre, fibre
realize, analyze, apologizerealise, analyse, apologise
color, honor, labor, odorcolour, honour, labour, odour
catalog, dialogcatalogue, dialogue
jewelry, traveler, woolenjewellry, traveller, woollen
skillful, fulfillskilful, fulfil
checkcheque (bank note)
curbkerb
programprogramme
specialtyspeciality
storystorey (of a building)
tiretyre (of a car)
pajamaspyjamas
defense, offense, licensedefence, offence, licence
burned, dreamedburnt (or burned), dreamt (or dreamed)
smelled, spelledsmelt (or smelled), spelt (or spelled)
spoiledspoilt (or spoiled)
inquiryenquiry (or inquiry)
skepticalsceptical
inflectioninflexion

Viu só? Pensou que essa confusão fosse apenas entre brasileiros e portugueses?