O maior golpista da História

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Ele vendeu um país que não existia

Gregor MacGregor, até o nome parece golpe…

Existem personagens reais que mereciam um filme, que faria tanto sucesso quanto a história de Frank Abagnale Jr. (de “Prenda-me se for Capaz”).

Leonardo di Caprio em “Prenda-me se for Capaz”

Estou me referindo ao homem da foto que abre o post, Gregor MacGregor, um aventureiro, soldado, impostor e vigarista escocês, cuja vida parece algo saído da ficção.

Esse malandro viveu no século 19, participou da emancipação da Venezuela, tentou arrebatar a Flórida da Espanha e ainda tapeou a coroa britânica, vendendo um país que não existia!

Nascido na Escócia, em 1776, MacGregor juntou-se à Marinha Britânica aos 17 anos para lutar contra Napoleão. Aos 25, ouviu falar de Simon Bolívar, cruzou o oceano e passou os 6 anos seguintes lutando ao lado dele pela independência da Venezuela. Ao partir, não apenas tinha sido promovido a general como estava casado com a prima do Libertador.

Josefa Antônia, prima de Simon Bolívar

A certa altura, foi encarregado de capturar um porto na Flórida para servir como base de suprimentos. O escocês viajou aos EUA para arrecadar fundos e voluntários, em nome da revolução. Alguns políticos americanos lhe deram apoio e o encorajaram a assumir o controle de toda a Flórida, sob domínio da Espanha. Eles diziam que a maioria da população, não sendo de origem espanhola, o apoiaria e isso levaria o governo de Washington a ajudá-lo.

MacGregor reuniu centenas de homens e levantou grandes somas de dinheiro de investidores, em troca de terras e, em 1817, partiu para conquistar a Ilha Amélia, um pedaço de terra habitado por piratas e contrabandistas.

Acreditando que não encontraria resistência, desembarcou com oitenta homens e tomou de surpresa o forte de San Carlos, defendido por apenas cinquenta soldados, sem precisar disparar um único tiro. A República das Flóridas foi então proclamada, criando-se uma bandeira e cunhando-se moedas com a pomposa inscrição Amelia veni vidi vici (Amélia, eu vim, eu vi, eu venci).

As moedas da “República das Flóridas”, cunhadas pelo “conquistador” Gregor MacGregor…

Mas era uma república vazia. A maioria dos habitantes fugiu para o continente ou para a atual Geórgia, ignorando sua oferta de permanecer como governador autoproclamado. Isto levou os EUA não só a não enviar a ajuda que tinham prometido, como também a proibir a saída do grosso das tropas, que ainda não tinham partido. Dessa forma, MacGregor ficou com quase nenhum exército para continuar a campanha.

Sua república durou apenas 3 meses e o “governador” fugiu em uma escuna, foi para Nassau, nas Bahamas, e conseguiu evitar pagar os empréstimos aos investidores… Depois de se alistar nas forças britânicas que iriam reforçar o exército de Bolívar, ele participou de uma fracassada invasão inglesa do Panamá, em 1819.

O forte de Portobelo, no Panamá, que foi conquistado pelas tropas chefiadas por MacGregor, logo retomado pelos espanhóis. Os soldados foram fuzilados mas o “líder” conseguiu escapar.

MacGregor agora era repudiado por Bolívar, que ordenou seu enforcamento; ele também não conseguiu encontrar refúgio na Jamaica, cujas autoridades o colocaram na lista de procurados.

De alguma maneira não muito clara, ele conseguiu retornar a Londres, e organizou a próxima etapa de suas aventuras: a Costa do Mosquito, entre as atuais Nicarágua e Honduras, um lugar que os espanhóis tinham ignorado por conta de sua insalubridade e da hostilidade dos nativos.

A Costa dos Mosquitos recebeu esse nome por conta dos nativos, chamados Miskitos.

Na realidade, esses nativos eram uma mistura dos povos originários e escravos fugitivos. O Reino Unido havia concedido, aos líderes dos Miskitos, o status fantasioso de “reis” desde o século 17, para impedir a legitimidade legal da Espanha. Um deles se autodenominava George Frederic Augustus I e se considerava descendente de alguns poucos colonos ingleses que se estabeleceram lá há muito tempo, até que o tratado anglo-espanhol de 1786 os forçou a partir.

Quando MacGregor voltou a Londres, em 1820, apresentou-se à sociedade como o Cacique de Poyais, um título que o monarca lhe teria dado junto com autoridade sobre o território de mesmo nome, um pouco maior que o País de Gales. A campanha publicitária desenvolvida pelo escocês foi ótima e deu origem a certificados de propriedades das terras de Poyais e até à moeda do país fictício…

O certificado de propriedade
Dólar do Banco de Poyais

O vigarista garantia que era um reino próspero, com bom clima, terras férteis e rico em ouro, com uma capital chamada San José, dotada de um porto, um parlamento, uma catedral e um teatro. E que teria vindo à Inglaterra em busca de investidores e colonos ansiosos por uma nova vida. Por incrível que pareça, todo mundo acreditou…

Dois navios partiram, em 1822 e 1823, seguindo coordenadas rumo a um ponto isolado da Costa do Mosquito e, à bordo, ia a futura elite de Poyais – mercadores, médicos, advogados, militares e até um banqueiro, que iria dirigir o banco do país -, gente que tinha comprado cargos no governo, além de camponeses que haviam vendido suas fazendas para comprar latifúndios de faz-de-conta. O escocês?

Deu a desculpa do “avisa lá que eu vou chegar mais tarde” e se mandou.

Ao desembarcarem, os britânicos tiveram uma surpresa: a moderna capital, San José, não existia.

Foto recente da Costa do Mosquito… imagina a cara dos britânicos quando chegaram, há 200 anos…

Não havia nenhuma cidade, nenhum clima ameno, nenhuma terra utilizável, nenhum rio cheio de pepitas de ouro. Nem mesmo os nativos eram amigáveis ​​e o Rei George Frederic Augustus não só não sabia quem era esse MacGregor, como ordenou que eles deixassem seu reino!

Quando os homens do rei foram expulsar os invasores, apenas 50 ainda estavam vivos… a fome, os animais selvagens e as doenças tropicais levaram mais de 200 colonos. Uma escuna transportou os sobreviventes de volta à Inglaterra, chegou a tempo de avisar que Poyais não existia, e a Marinha Real impediu que outros cinco navios partissem!

Mas o malandro do MacGregor não foi atingido pelo escândalo. Para os sobreviventes, a culpa não era dele, era de seus representantes comerciais… ele também tinha sido enganado!

Nos anos seguintes, o vigarista continuou vendendo terras em Poyais, ainda que atraísse cada vez menos incautos. Seu tempo havia passado.

Quando a esposa Josefa morreu, em 1838, ele decidiu voltar para a Venezuela, solicitando cidadania e sua antiga patente militar no exército, com direito a salários atrasados ​​e uma pensão por seus serviços prestados ao país. Bolívar havia morrido oito anos antes, então não poderia testemunhar contra ele, falando de seus muitos golpes.

Em vez disso, um velho companheiro de armas, agora Ministro da Defesa, intercedeu em seu nome perante o Senado. O presidente deu sua aprovação e aquele carismático escocês se tornou um venezuelano aposentado, um membro respeitado da comunidade.

Ele morreu em Caracas em 1845, e foi enterrado com honras como herói nacional, naquela que foi sua última e definitiva obra-prima. Que tesouro esses cineastas estão perdendo!
 

Fontes:

superabril.com.br

wikipedia

labrujulaverde.com

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