A revista que foi a primeira publicação da Editora Abril

Na minha infância, as revistinhas, como eram chamadas, serviam para nosso lazer, numa época em que a TV ainda não estava tão presente como hoje. Esses quadrinhos nos levavam para o espaço (Flash Gordon), para o Velho Oeste (Zorro, Roy Rogers), para aventuras com crianças (Bolinha, Luluzinha, Pimentinha), para o meio da selva (Jim das Selvas, Tarzan) e muito mais.





Mas as “revistinhas” que marcaram minha vida, e que ajudaram a definir quem eu sou, foram as dos personagens de Walt Disney, que eram publicadas pela Editora Abril. Eu explico a seguir.

(Mas deixa eu fazer um parênteses, e depois eu continuo…)
A primeira revista da Editora Abril foi, justamente, “O Pato Donald”, lançada em julho de 1950.

Foi essa “revistinha” que originou um dos maiores grupos editoriais do mundo então. Depois do “Pato”, vieram publicações como “Manequim”, “Capricho”, “Playboy”, “Quatro Rodas”, “Veja” (que foi a maior revista semanal de notícias do Brasil e a terceira mais vendida no planeta) e muitas outras revistas importantes, além da ampliação das revistas Disney, com o lançamento de “Zé Carioca”, “Mickey”, “Tio Patinhas” e vários outros.
Victor Civita, fundador da empresa, parafraseava a famosa frase de Walt Disney (“Tudo começou com um rato”), dizendo que, na Abril, “Tudo começou com um pato”.
(fecha parênteses)
Histórias em quadrinhos era algo mágico para mim, e para as outras crianças da minha idade. Eu desenhava minhas próprias histórias, mesmo sem saber ler, fazendo “flip books” com os homens-palito, tipo este (claro que não era tão legal assim):
Quando chegou o momento de ir pra escola, minha mãe me deu os gibis da Disney para que eu aprendesse a ler, e chegasse às aulas um pouco mais alfabetizado. E meu universo se ampliou… agora eu podia entender as histórias que antes eu só acompanhava pelas imagens, e comecei a viajar nas aventuras do Donald e Tio Patinhas, nas histórias de detetive do Mickey e nas malandragens do Zé Carioca
Meu pai passou a me levar ao cinema, onde as aventuras ganharam outra dimensão, com som e movimento. Conheci o Peter Pan, os Dálmatas, a Bela Adormecida, o rei Artur, a Branca de Neve.
Mas um nome me chamava a atenção: Walt Disney. Ele estava em todos os cantos daquele meu mundinho: aparecia na capa de minhas revistas, estava nos cartazes dos filmes, aparecia no meu programa favorito aos sábados: “Disneylândia“! Quem era ele?
Como meu pai sempre foi um leitor ávido, e eu peguei esse “vício”, ele comprava enciclopédias, assinava jornal, assinava a revista “Seleções do Reader’s Digest” e foi nela que, um dia, li uma reportagem sobre esse homem.
Foi minha segunda grande descoberta, depois de aprender a ler. Eu vi que era possível um cara concretizar tudo aquilo que estivesse em sua imaginação! Eu decretei, no alto dos meus 11 ou 12 anos, que eu ia ser desenhista de quadrinhos, e dos quadrinhos Disney!
Comecei a treinar em casa, copiando os desenhos das revistas. Porque a minha meta era enviar esses desenhos para o próprio Walt Disney nos Estados Unidos, pedindo emprego!
Mas… em 1966, veio a notícia de que o papai Walt havia falecido. Meu mundo desabou. Como iam ficar os filmes, os gibis, o programa de TV… minha futura carreira?

Logo ficou claro que tudo isso ia continuar, e então meu plano prosseguiu. Tudo bem, meu sonho de conhecer o papai Walt Disney tinha acabado, mas a empresa dele não. Se bem que as produções que saíam depois de seu falecimento não pareciam tão legais para mim, então pensei em ajudar aquele pessoal.
Passei a criar meus personagens, os roteiros e a desenhar as histórias. Finalmente, em 1968, tomei coragem e mandei pra eles uma HQ com um personagem megaoriginal (um homem das cavernas que tinha armas de fogo implantadas nos punhos… não me pergunte como isso havia acontecido porque eu não tinha chegado nessa parte… e nem vem com Wolverine porque eu nunca tinha lido uma HQ dele!). Esse meu personagem ia salvar a empresa… Ia ter gibis com ele, desenhos no cinema e na TV, seria uma nova atração nos parques! E, finalmente, eu seria chamado a conhecer os estúdios e a Disneylândia.
Minha professora de inglês ajudou a verter os textos e mandei a carta com os desenhos. Demorou uns 200 anos para vir a resposta, mas ela veio. Junto com alguns postais como prêmio de consolação, do Bambi, Mogli, Pateta, etc ( a carta e um dos postais seguem abaixo) …


Nova decepção! Fiquei desnorteado por dias… como eu poderia prosseguir na minha carreira se ninguém ajudava? Como eu poderia aprender a desenhar direito se não tinha aulas de arte na escola, e meu pai não podia me pagar uma escola de desenho?
A vida prosseguiu, fui pra faculdade, tentei algumas atividades que se aproximavam de arte (só na minha cabeça… fui fazer mapas de sinalização no Detran… qualquer dia conto essa história!) e continuei minhas HQs com meus personagens… e também continuei a ler gibis, especialmente os da Disney, e comprei livros sobre Walt.
Até que, um belo dia, veio a terceira grande descoberta na vida: uma moça que era assistente do meu pai contou que o irmão dela trabalhava fazendo “desenhinhos” na Editora Abril!
Foi a quarta grande revelação! Eu não sabia que parte das HQs Disney eram feitas no Brasil!
Fui lá na editora com o nome dele num papel (era no prédio que aparece na foto lá em cima), ele viu meus trabalhos, recomendou que eu escrevesse as histórias e deixasse os desenhos pra lá (só mais tarde aceitei que estavam ruins, mesmo) e foi o que eu fiz.

Resumindo: fui contratado pela Abril como roteirista de histórias em quadrinhos – escrevi cerca de 300 delas até mudar de função – , ganhei prêmios de Melhor Roteiro do Ano, o nosso Oscar interno… e saí da editora como Diretor Editorial depois de mais de 20 anos!
Tudo porque um dia minha mãe me ajudou a entender o que o Donald estava fazendo naquela historinha, lendo os balões.
E a magia Disney me alimenta até hoje.
PS- o “nosso Oscar”, naquela época, premiava com uma viagem-estágio em alguma empresa que tivesse a ver com o negócio da editora. Viagem com todas as despesas pagas! Adivinha qual empresa escolhi?
Eu realizei meu sonho!

Fontes:
tailorbrands.com
creativosonline.org/
Wikipedia


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