A morte dos shopping centers

O fotógrafo Seph Lawless (pseudônimo) publicou recentemente um livro com imagens de shoppings centers abandonados nos Estados Unidos. A obra Black Friday mostra a decadência de um modelo de negócio que cresce no Brasil, mas já acende um alerta preocupante por aqui. Segundo pesquisa do Ibope, os 36 empreendimentos inaugurados no ano passado abriram em média com metade das lojas fechadas por falta de locatários.

De acordo com a Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce), atualmente cerca de 500 centros comerciais deste tipo operam no Brasil, e o número crescerá para 530 até o fim do ano – a maioria desses novos empreendimentos estão localizados fora das grandes capitais. E pode ser esse um dos problemas. Conforme a pesquisa,  muitos centros comerciais foram abertos em mercados que não tinham demanda suficiente.

Entre os shoppings inaugurados entre setembro e dezembro de 2014, a taxa média de ocupação em 21 deles foi de apenas 38%. Segundo Fabio Caldas, coordenador de pesquisa na área de shoppings do Ibope Inteligência, o ritmo de crescimento do varejo não acompanhou o avanço dos shoppings.

Nos Estados Unidos, cerca de 15% no shoppings vão falir ou serão transformados em outros espaços comerciais nos próximos dez anos, principalmente aqueles que não têm uma grande loja de departamentos como chamativo para consumidores, segundo pesquisa da Green Street Advisors. O processo de “morte” destes ícones foi retratado por Lawless como uma representação da falência do estilo de vida americano.

Em entrevista recente, durante a divulgação de seu livro, o fotógrafo conta a motivação de suas fotos:

“Acredito que a sociedade americana fracassou. Meu país não é mais socialmente ou economicamente viável, e a maioria dos americanos é facilmente guiada como ovelhas por um governo federal tirânico. Meu país está enfraquecido e minhas fotografias expõem essa fraqueza. O governo não é muito fã do meu trabalho. Eles prefeririam que os americanos e o mundo pensassem que a América ainda é forte e vibrante. Minha arte oferece uma descrição mais precisa do país. Uma revelação mais honesta da América.”

E explica ainda porque usa um pseudônimo:

“Uso um nome fictício por medo do meu governo. Em novembro passado, o Centro Nacional de Antiterrorismo divulgou um documento interno alertando que meu trabalho está expondo vulnerabilidades de segurança e que pode ajudar terroristas. Ameaçadoramente intitulado ‘Exploração urbana oferece visão sobre vulnerabilidades da infraestrutura’, o documento diz que fotos, vídeos e diagramas postados por Seph Lawless e outros  poderiam ser usados por terroristas para ‘identificar remotamente alvos em potencial'”.

Deixando de lado a eventual paranoia de Lawless, o que não se pode negar é que esse início de crise tem inspirado reflexões sobre o modelo de negócio até de quem depende dele — como, por exemplo, a cadeia de lojas Gap, dos Estados Unidos. “Nós já estamos assumindo a decadência dos shoppings. É um modelo de negócio que funcionou durante um determinado espaço de tempo”, disse Glenn Murphy, o CEO da Gap, em recente entrevista, referindo-se aos aspectos negativos dos shoppings — estacionamentos lotados, preços e custos elevados, ambiente fechado e concentração de pessoas em áreas reduzidas.

Murphy alerta para uma tendência irreversível: o aumento significativo das compras online. No último trimestre de 2014, o volume de compras online nos Estados Unidos atingiu 6% do total gasto em varejo, praticamente dobrando em relação ao mesmo período de 2006. O gargalo para um crescimento ainda maior e em mais velocidade é a logística. Se os serviços de armazenagem e de entrega se tornarem mais eficientes, estima-se que o total do volume de compras online mais que dobre nos próximos três anos.

Mas o impacto das compras online é apenas a superfície da questão.

A verdade é que, desde a crise financeira de 2008, o varejo nos Estados Unidos tem perdido força progressivamente, ao mesmo tempo em que começam a surgir movimentos, reflexões e pensadores que combatem o consumismo excessivo que tem caracterizado a última década. “O modelo consumista atingiu seu limite e se tornou uma atividade preocupada apenas com resultados imediatos, produzindo uma estupidez sistemática que impede uma visão em longo prazo”, diz o filósofo francês Bernard Stiegler, autor do livro Uma Nova Crítica à Política Econômica.

Esse discurso tem sido sustentado por grupos dedicados à questão do aquecimento global, referindo-se aos recursos naturais finitos e à necessidade de transformação da sociedade de consumo. Ou como diz Amitai Etzioni, professor de política internacional da Universidade George Washington, em Washington, DC, Estados Unidos:

“O consumo excessivo nos leva a comprar casas maiores, carros mais caros, roupas mais transadas e tecnologias mais fascinantes que prometem felicidade, mas nunca entregam. Apenas provocam o desejo de mais, sempre mais. E aos poucos, esse consumo começa a roubar sua vida e a consumir nossos recursos limitados”.

 

 

Fontes:

economia.terra.com.br

virgula.uol.com.br

Wikipedia

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4 pensamentos sobre “A morte dos shopping centers

  1. Pingback: Peixes dominam shopping abandonado na Tailândia | O TRECO CERTO

  2. Tive loja em Shopping durante 5 anos. O problema da maioria dos Shopping´s é a falta de transparência na cobrança dos encargos de locação que sufoca o lojista . Atraem os pequenos e médios empresários com falsas promessas de movimento e lucratividade e depois os transformam em quase escravos (dedicação de segunda a domingo – 12 horas por dia) com ameaças de despejo, perda do investimento e penhora dos bens dados em garantia na locação. A ausência de transparência e falta de ética de vários empreendedores está potencializando uma massa crítica que aumenta a cada ano a qual vem influenciando vários outros empresários a não se instalarem em Shopping. Resultado, inúmeros empreendimentos com baixa ocupação.

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