A mistura do sotaque norte-americano com o português no Rio Grande do Norte

Você já deve ter ouvido falar que o Brasil participou da Segunda Guerra Mundial, que engolfou o mundo entre 1939 e 1945. Fazendo um breve resumo aqui abaixo:
A Segunda Guerra Mundial foi um conflito de guerra total (no qual há mobilização de todos os recursos para a guerra). Envolvendo praticamente todos os países do planeta, fez os Aliados (Reino Unido, França, União Soviética e Estados Unidos) e o Eixo (Alemanha, Itália e Japão) enfrentarem-se na Europa, África, Ásia e Oceania. Após seis anos de conflito, mais de 60 milhões de pessoas morreram.
O Brasil, inicialmente neutro, declarou guerra ao Eixo em 1942, após a ação de submarinos alemães afundarem navios brasileiros no Atlântico. Assim, em troca de empréstimos e apoio para a industrialização, o Brasil cedeu aos EUA bases aéreas no Nordeste e enviou a Força Expedicionária Brasileira (FEB), com mais de 25 mil soldados, para combater na Itália.

Natal, a capital do estado do Rio Grande do Norte, tem uma posição estratégica geográfica muito importante. Foi por isso que o então presidente Getúlio Vargas cedeu-a para receber duas grandes bases americanas: a Base Naval de Hidroaviões e Parnamirim Field – à época, a maior base da Força Aérea norte-americana em território estrangeiro. Sua localização geográfica privilegiada era o ponto mais próximo da América do Sul em relação à Europa e África.

Em 1943, no auge dos conflitos, Parnamirim era o mais congestionado aeroporto do planeta, com até 800 pousos e decolagens num dia de pico. Natal era tão decisiva que ficou conhecida como a “encruzilhada do mundo”.
A cidade recebeu um contingente de 10.000 soldados norte-americanos para lutarem durante o conflito, e esse fato mudou radicalmente a até então pequena capital, que à época possuía 55.000 habitantes. Mais do que uma importante participação durante o conflito armado, a influência cultural dos americanos marcou para a sempre a cidade brasileira.


O historiador Lenine Pinto relata que “dos bares vazava a música das Wurlitzers, das lojas o burburinho de consumidores ávidos e, quando as ruas se esvaziavam, acendiam-se os salões de bailes, fluíam fantasias (…) Naquele tempo as festas sucediam-se freneticamente, dançava-se freneticamente, amava-se freneticamente”.

Natal nunca foi palco de combates. Os submarinos alemães não se aproximaram da cidade e nenhuma bomba inimiga foi lançada sobre suas praias ou ruas. Os únicos tiros ouvidos eram de treinamentos rotineiros dos americanos. A cidade foi, com certeza, o lugar de melhor qualidade de vida para um soldado na guerra.

As pessoas cantarolavam jazz nas ruas da cidade mais badalada do Nordeste. Os cinemas militares recebiam convidados especialíssimos: os próprios astros de Hollywood. “Humphrey Bogart voou de Marrocos para animar uma sessão de Casablanca no cinema aberto da base de hidroaviões. Os artistas eram comissionados para viajar pelos fronts do mundo todo. A presença deles servia para elevar o moral das tropas”, diz o historiador local José Melquíades, de 76 anos.
Bette Davis também visitou Natal, além de Robert Taylor e Tyrone Power. E a orquestra de Glenn Miller tocou no Cine Rex. Para imaginar como foram aqueles anos loucos em Natal, é preciso observar a guerra como um momento de liberação, um evento protagonizado por uma legião de jovens reprimidos que nunca haviam saído de locais rurais como Arkansas, Nevada ou Montana. De repente, no meio do horror de um conflito mundial, eles se descobriram num lugar amistoso, tropical, encantador. O mar, a luz, as relações pessoais, tudo era novo em suas vidas.
A influência cultural dos americanos deixou marcas duradouras, como o uso de expressões em inglês e a introdução da Coca-Cola, jeans e óculos Ray-Ban. O costume de beber refrigerante e mascar chiclete foi incorporado aos hábitos locais e disseminado para o resto do país. Os natalenses se encantavam com o foxtrote e os cigarros Marlboro e Lucky Strike. Festas aos montes, jogatina, bebedeira e “saliências” nas (oportunamente multiplicadas) casas de tolerância…




“Em Natal, quando os marines foram embora, deixaram como herança muitos caboclos de olhos azuis e uma inflação que atingiu desde açougues até a 15 de novembro (rua do meretrício). (…) Natal virava uma ‘Saigon’ ‘avant la letre’, influenciada pela corrupção, zona e sífilis. Sem nenhuma perspectiva de resistência ao invasor, a cidade era um maná para os marines. Compravam de tudo com as suas maravilhosas cédulas verdes e, para variar quebravam o pau por qualquer razão. Treinados para matar com golpes de mão, claro que sempre levavam vantagem nos entreveros com caboclos e curibocas pacíficos e subnutridos.”
Nei Leandro de Castro
Poeta, escritor, jornalista e publicitário
Dentre tantas heranças dos americanos, diz a lenda que a palavra “forró” veio do termo “for all“, que significa “para todos”, por causa das festas abertas que os os militares estadunidenses davam na base de Natal. Existe até um filme com esse nome.

Mas não. Essa é uma lenda urbana de origem desconhecida que, de tão repetida, acabou ganhando um verniz histórico. E o mito é fácil de desconstruir: o termo “forró” (“baile popular em que casais dançam ao som de ritmos nordestinos”) já constava em dicionário por aqui desde 1913 – três décadas antes de o Brasil receber soldados dos Estados Unidos na Base Aérea de Natal.
A origem mais aceita da palavra seria uma redução de “forrobodó”, que também significa “baile popular”, ainda que sem a mesma restrição à região Nordeste. O termo foi dicionarizado em 1899.
Você sabia disso?
Fontes:
diariodonordeste.verdesmares.com.br
tokdehistoria.com.br
papangunarede.com.br
Wikipedia


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