Me, Tarzan

As Olimpíadas no Rio terminaram, com muitos medalhistas batendo recordes, e outros se aposentando. Um deles foi o fenomenal Michael Phelps, um dos maiores atletas de todos os tempos. Quebrou trinta e sete recordes mundiais e conquistou o maior número de medalhas de ouro olímpicas (oito) em uma única edição, nos Jogos de Pequim de 2008. O que será que ele vai fazer agora, que abandonou a natação? Não se sabe.

Será que vai seguir o caminho de outro nadador que teve uma carreira excepcional, tendo conquistado cinco medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos de 1924 e 1928? Ele estabeleceu 67 recordes mundiais de natação e ganhou 52 campeonatos nacionais, sendo considerado um dos melhores nadadores de todos os tempos.

Estou falando de Johnny Weissmuller, medalhista olímpico na natação, mas que ficou muito mais conhecido por interpretar Tarzan no cinema, depois que se aposentou das piscinas. Ele é o dono do grito imortal:

Janos (Johann) Weiszmueller nasceu em 2 de junho de 1904 na cidade de Szabadfalu, na Romênia, cuja população era uma mistura de rumenos, austríacos, sérvios, húngaros e austríacos. Em 1905, os Weiszmueller tiveram outro filho, Petrus, que nasceu na Pensilvânia, nos Estados Unidos, para onde a família emigrara.

Aos doze anos de idade, Johnny saiu da escola pública e, para ajudar nas despesas da família, trabalhou como mensageiro de hotel e depois como ascensorista, frequentando, nas horas vagas, uma escola de natação. Em 1916, ele entrou para a equipe de natação da YMCA (Young Men’s Christian Association). Pouco tempo depois, encontrou o homem que mudaria sua vida: o técnico “Big Bill” Bachrach, principal treinador do Illinois Athletic Club de Chicago. Johnny começou seu treinamento sob as ordens de Bachrach em outubro de 1920, e se preparou para a Olimpíada.

Durante alguns meses de 1922 e todo o ano de 1923, Johnny venceu prova após prova. Na Olimpíada de 1924, Johnny Weissmuller ganhou medalhas de ouro nos 100 e 400 metros em estilo livre, e uma terceira medalha de ouro integrando a equipe de revezamento para os 800 metros.

No seu retorno aos Estados Unidos, ele descobriu que havia se tornado uma celebridade. Todo mundo queria conhecê-lo, desde o presidente americano até as maiores celebridades do país. Seu treinador vetou a maioria dos convites, mas como era fã de Douglas Fairbanks, aprovou uma visita ao estúdio da MGM.  Durante o almoço, Johnny foi apresentado a um homem chamado Sol Lesser, que o ignorou completamente. Lesser estava tentando convencer Fairbanks a realizar um filme baseado em Tarzan of the Jungle de Edgar Rice Burroughs, porém, Fairbanks não estava interessado. De repente, Fairbanks olhou para Johnny e disse: “E este rapaz? Seu nome é Johnny Weissmuller, ele é um ídolo nacional da natação, e até que se parece com Tarzan, você não acha?”. Lesser se virou e olhou pela primeira vez para Johnny. “Acho que não”, respondeu Lesser. “O que precisamos para este papel é de um astro!”. Assunto encerrado.

Na Olimpíada seguinte, de 1928, ele ganhou mais duas medalhas e nem teve tempo de curtir a fama. Mal chegou em casa e seu treinador o levou a uma competição no Japão. Os treinadores japoneses ficaram muito impressionados com o jovem nadador americano e lhe ofereceram um emprego como treinador de seus estudantes para a próxima Olimpíada, que se realizaria no Japão. Johnny recusou e os japoneses lhe disseram que ele iria se arrepender. Johnny deu uma risada e disse: “Veremos, meu amigo Buster Crabbe estará competindo e eu estou apostando nele”.

Buster Crabbe

Buster Crabbe

Na Olimpíada de 1932, Crabbe ganhou uma medalha de ouro, vencendo por apenas um décimo de segundo o campeão francês Jean Taris. Crabbe comentaria mais tarde que aquele um décimo de segundo mudou sua vida, porque – assim como acontecera com Weissmuller – foi graças à natação que ele foi para o cinema, ao ser contratado em 1933 para viver Tarzan no seriado Tarzan, o Destemido (Tarzan the Fearless).

O grande sucesso veio logo depois ao estrelar o seriado “Flash Gordon” e mais tarde o explorador Buck Rogers, ambos pela Universal Pictures.

Voltando a Weissmuller, antes de Crabbe, ele havia estrelado o longa-metragem Tarzan, o Filho das Selvas (Tarzan, the Ape Man) em 1932, logo após ter abandonado as piscinas. Esse filme foi  foi rodado nos estúdios da MGM com todos os requisitos das produções classe “A”, tendo o departamento de som providenciado o célebre berro, os roteiristas um dialeto tarzânico e, para as cenas mais arriscadas nos cipós, haviam os trapezistas The Flying Codonas (Alfredo e Tony Codona). O roteiro guardava pouca semelhança com o Tarzan de Burroughs e omitia todas as referências à origem do Homem-Macaco, concentrando-se nas relações românticas entre ele e a jovem inglesa Jane Parker, interpretada por Maureen O’ Sullivan.

Jane Parker penetra na selva africana num safári, juntamente com seu pai e dois caçadores, em busca de um misterioso cemitério de elefantes. Tarzan rapta Jane e o safári é capturado por uma tribo de pigmeus. Tarzan vai resgatá-los – com a ajuda de uma manada de elefantes num final excitante. A combinação de Johnny Weissmuller e Maureen O’ Sullivan foi uma mágica absoluta. “Me Tarzan, You Jane” subitamente tornou-se uma expressão conhecida em todo o mundo (embora a verdadeira frase dita por Tarzan tivesse sido “Tarzan, Jane”).

Jane e Tarzan

Jane e Tarzan

Weissmuller interpretou o personagem em 12 filmes, e a derradeira personificação do herói de Burroughs deu-se em Tarzan e as Sereias ( Tarzan and the Mermaids) em 1948. Durante os entendimentos a respeito de novos filmes, Johnny pressionou o estúdio para receber uma participação nos lucros e os produtores  preferiram não renovar o contrato do ator, declarando que ele estava sem forma física para o papel.

O último filme de Tarzan com o antigo campeão olímpico de natação no papel.

O último filme de Tarzan com o antigo campeão olímpico de natação no papel.

Depois de Tarzan, ele interpretou com sucesso a personagem Jim das Selvas na série do mesmo nome, entre 1948 e 1955. Foram dezesseis filmes ao todo, com duração média de setenta minutos cada. Em 1955, a série transferiu-se para a TV, tendo sido feitos vinte e seis episódios de meia hora cada. Já envelhecido e obeso, Weissmuller tentava dar vida a uma personagem atlética e aventureira, e esse final melancólico marcou sua despedida das câmaras.

Jim das Selvas, personagem dos quadrinhos criado por Alex Raymond, o talentoso desenhista de Flash Gordon

Jim das Selvas, personagem dos quadrinhos criado por Alex Raymond, o talentoso desenhista de Flash Gordon

No final dos anos 1950, Weissmuller mudou-se para Chicago, onde fundou uma empresa de piscinas. Seguiram-se outros empreendimentos, a maioria envolvendo Tarzan ou a natação de uma forma ou de outra, mas sem grandes resultados. Aposentou-se em 1965 e, no ano seguinte, juntou-se aos ex-Tarzans Jock Mahoney e James Pierce para a campanha publicitária de lançamento da série de TV Tarzan, estrelada por Ron Ely.

Em 1967 sua imagem foi imortalizada na capa do LP Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles.

Ali está ele, atrás de Ringo e Paul.

Ali está ele, ao fundo, entre Ringo e Paul.

Morreu vítima de um edema pulmonar em Acapulco, no México, em 1984, onde vivia com a sexta esposa.

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3 pensamentos sobre “Me, Tarzan

    • Sempre gostei muito desse personagem. Meu herói quando criança era tb o Ron Ely, e só mais tarde fui conhecer o Johnny Weismuller e Buster Crabbe. Daí, passei a procurar os livros, quadrinhos, depois as versões mais modernas, com o Tarzan do Christopher Lambert, a versão animada da Disney, enfim, sou fãzaço mesmo! Obrigado pelo prestígio da visita.

      Curtido por 1 pessoa

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