Quando São Paulo elegeu um rinoceronte

Muito em breve, teremos eleições para prefeito e vereador em todo o país. Será o momento de ouvirmos de novo aquele monte de promessas, de gente sendo aliciada para votar neste ou naquele candidato, de discussões e bate-bocas sobre qual o melhor candidato, torcidas organizadas, passeatas e comícios. E a volta do horário político na TV… ARGH!

Nada que seja diferente do que vem acontecendo no país desde o final da ditadura militar. E nada diferente do que acontecia antes dos militares assumirem o poder, em 1964.

O cordial povo brasileiro sempre se viu seduzido por promessas bonitas e elegeu inúmeros crápulas. Depois, ficou chorando e reclamando que “o governo é isso e aquilo”, esquecendo-se de que o “governo” foi eleito justamente… Pelo povo brasileiro.

Poucas vezes ele reagiu, porém. Uma dessas vezes foi em 1959… Getúlio Vargas havia morrido. O governador de São Paulo era Ademar de Barros, uma espécie de antepassado político de Paulo Maluf.

Ademar de Barros
Ademar de Barros

Uma das “tradições” da política brasileira é a do “rouba, mas faz”, sobre o governante que enfrenta denúncias de corrupção ao longo do mandato, mas é querido pelo povo por causa das obras que realiza. Foi deputado, prefeito da capital e governador do Estado de S. Paulo, e até hoje é identificado com esse lema, que dizem ter sido criado pelo próprio Ademar e copiado anos depois pelos correligionários do Maluf. Ademar de Barros, durante toda a sua carreira de 34 anos na política, colecionou feitos administrativos e suspeitas de desvio de dinheiro público. Fez escola, não?

Voltando, o eleitorado estava revoltado com a Câmara Municipal que, para variar, não estava se comportando muito bem. No meio de tudo isso, havia o rinoceronte Cacareco, que, vale dizer, era uma fêmea, apesar do nome.

Cacareco estava nas notícias porque saíra do Rio de Janeiro, emprestado por seis meses, para abrilhantar a inauguração do Zoológico de São Paulo, que ocorria naquele mesmo ano. Os seis meses iam se passando e os paulistas cogitavam a ideia de dar um calote e não devolver o rinoceronte.

No meio de um mar de lama da Câmara Municipal, em pleno período eleitoral, o assunto era o rinoceronte. Não que os políticos da época não ajudassem. Havia um de 230 kg, cujo slogan era “vale quanto pesa”. Outro andava por aí com uma onça e dizia: “eleitor inteligente vota no amigo da onça”.

Então, Cacareco ficou cada dia mais popular. Todos os jornais só falavam dele.

Uma conhecida fábrica de brinquedos chegou até a lançar uma miniatura do bicho!

O jornalista Itaboraí Martins brincou com isso, lançando a candidatura de Cacareco ao cargo de vereador. E não é que a ideia pegou?

Naquela época, a eleição era na base do papel e do envelope. O eleitor recebia um envelope das mãos do mesário e, dentro dele, botava a cédula do seu candidato, fosse ele quem fosse. Houve uma adesão gigantesca à candidatura de Cacareco e várias gráficas, de brincadeira, imprimiram cédulas com o nome do bicho. Muita gente achou legal ir pra rua e fazer campanha em nome do rinoceronte.

O que aconteceu a seguir parece piada, mas Cacareco recebeu cerca de 100 mil votos! Parece pouco diante do eleitorado de hoje, mas preste atenção no restante dos números. O candidato mais votado naquela eleição não teve mais que 110 mil votos e mesmo o partido que elegeu a maior bancada teve, ao todo, 95 mil votos.

Sua excelência, o rinoceronte Cacareco, nem pôde comemorar, coitado. Dois dias antes da eleição, o bicho foi devolvido para o zoo do Rio, sem muito alarde, como se fosse um anarquista subversivo.

O estrago, porém, já havia sido feito. Cacareco ganhou até as páginas do jornal “The New York Times”, que citava um eleitor:

– É melhor eleger um rinoceronte do que um asno.

Cacareco não foi o único animal a sair “candidato”. Houve o também famoso Macaco Tião, em Jaboatão elegeram um bode, mas por conta da quantidade de votos obtidos, o rinoceronte tornou-se o mais famoso caso de “voto de protesto” da história.

 

 

 

 

 

Fonte:

R7

 

Publicado por Julio

Uma pena eu não ter nascido herdeiro ou milionário. Pois tenho um grande potencial pra isso.

4 comentários em “Quando São Paulo elegeu um rinoceronte

  1. Tenha certeza já começaram, não com dentaduras ou óculos mas com restos de asfalto da transolimpica, rssss.
    Pena que não temos mais esse direito, até isso nos tiraram. 😦

    Curtido por 1 pessoa

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