Como se dissesse água

Fico imaginando como foi o encontro entre dois antigos desafetos: Saramago e Deus.

– Seja bem-vindo, José. Surpreso em Me ver?
– Pois estou mais surpreso em ter sido aceito aqui no céu.
– E por que Eu não te aceitaria?
– Porque sempre desdenhei do Senhor e desse lugar aqui, ora.
– Mas é exatamente por isso que você está aqui.
– Para uma vingança póstuma Sua, imagino.
– Não, pelo contrário: para Eu te recompensar.
– Me recompensar? Por ter blasfemado o Senhor e Seu filho?
– Você também é meu filho, José.
– Só acredito vendo o teste de DNA.
– E de todos os Meus filhos, é um dos poucos que nunca Me pediu nada.
– Decepcionei-te?
– Não, nem um pouco. Tanto que até te ajudei a ganhar o Prêmio Nobel.
– Votastes em mim? Não sabia que eras membro da Academia…
– Não votei, mas fiz Meus votos.
– Fizestes votos? Então fraudastes a eleição dos suecos, Gajo!
– Não se faça de tolo, José. Agora não há mais motivos para zombar de Mim.
– Pois bem, então já que o Senhor existe, exijo algumas explicações.
– Chegou a sua hora de perguntar.
– Por que deixastes o mundo do jeito em que está?
– Eu o criei para ser de outro jeito.
– Então o criastes para depois o abandonares?
– Não o abandonei. Eu o deixei para vocês tomarem conta.
– O Senhor o deixou para os banqueiros, para os políticos… não para nós.
– Deixei-o para todos, José.
– Mas por que nem todos têm acesso igual às mesmas coisas?
– No início, tinham. E deveriam ter até hoje.
– Então por que o Senhor não intervém?
– Eu já fiz Minha parte. Agora está na mão dos homens.
– Dos homens milionários norte-americanos, suponho.
– Não, esses ficarão com pouco.
– Bom, se esses ficarão com pouco, então quem ficará com muito?
– Você.
– Eu?
– Sim. Não disse que iria te recompensar?
– Mas por que não recompensas as crianças que morrem de fome na África?
– Porque não estou falando de recompensa material.
– E que tipo de recompensa eu mereço, ora pois?
– A eternidade.
– Como assim?
– A partir de agora, José, você é eterno.
– E o que fiz para merecer isso?
– Você se imortalizou. Simples assim.
– Curioso: precisei morrer para ficar imortal.
– Na verdade, você já era eterno antes de vir pra cá.
– Bom, se o Senhor está falando, quem sou eu pra discordar.
– Engraçado… antes de morrer você discordava bastante de Mim.
– Não me leves a mal, mas agora usarei minha eternidade de outra forma.
– “Não tenhamos pressa. Mas não percamos tempo.”
– Conheço essa frase…
– Sim, foi você que escreveu.
– E como a sabes?
– Você deveria saber que Eu sei de tudo.
– Bom, até onde eu sei, acabamos de nos conhecer.
– Pois Eu te conheço desde quando você era serralheiro mecânico.
– E nunca me falou nada?
– Falei sim. Você que não ouviu.
– Se tivesse Te escutado, teria ouvido.
– Se acreditasse em Mim, teria escutado.
– Bom, não vamos transformar isso em uma discussão eterna, vamos?
– De acordo.
– Então o Senhor leu todos os meus livros?
– Todos.
– Ainda bem que não és um crítico literário…
– Pois saiba que gostei bastante do que li.
– Pois não deves entender bem o português, só pode ser.
– Entendo sim. Sou brasileiro, se esqueceu?
– Nunca soube disso.
– É porque você não deve gostar muito de futebol.
– Não mesmo. Mas voltando aos livros, algo que escrevi Te irritou?
– Nada.
– Nem o meu descrédito no Senhor?
– José, Eu nunca fui esse tal Deus em que você não acreditava.
– “Todos os dias tento encontrar um sinal de Deus, mas não encontro.”
– Sim, Eu li essa sua frase também.
– E mesmo assim não mandastes um sinal?
– Se você estivesse falando comigo, teria mandado.
– Se soubesse que o Senhor existia, teria falado.
– “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”
– O Senhor realmente conhece minhas frases… estou surpreso, confesso.
– De todas que você escreveu, só existe uma que não entendi até hoje.
– Então chegou a Sua hora de perguntar.
– É a dedicatória em seu último livro para sua esposa Pilar.
– “À Pilar, como se dissesse água”. Essa?
– Exato. O que quer dizer?
– Esquece. O Senhor jamais entenderia.
– Mas agora temos a eternidade inteira para você me explicar.
– Mesmo assim. A eternidade é pouco tempo para o Senhor entender isso.
– Por que?
– Porque o Senhor nunca amou uma mulher.
– José, José… Você não existe…

Eco Moliterno, VP de Criação da Africa

 

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