“O Senhor dos Anéis”, estrelando os Beatles e com direção de Stanley Kubrick?

Cartaz do filme-que-não-existiu… Mas que poderia ter existido!

Você pode não acreditar, mas houve um tempo em que as pessoas liam livros, muitas pessoas, inclusive os grandes artistas, cantores e até bandas de rock. Esse era o caso dos Beatles, e de John Lennon em especial.

No auge da popularidade, Lennon atuou em “Como eu Ganhei a Guerra”, uma comédia britânica de humor negro, e isso despertou nele a ideia de atuar como Gollum numa adaptação de O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, e quase concretizada mais tarde.

Estamos falando de 1967, 1968, quando as turnês da Beatlemania tinham se tornado exaustivas para os quatro Beatles e eles estavam mais interessados em explorar novos limites na música e na arte, em geral.

Os Beatles saindo de um de seus últimos shows em estádios.

Os Beatles saindo de um de seus últimos shows em estádios.

O final de seu última turnê, no Candlestick Park em agosto de 1966, em São Franscisco (EUA) aconteceu apenas um ano após a estreia de seu segundo filme, Help!. E o lançamento de Rubber Soul alguns meses depois marcou efetivamente a guinada do grupo, tanto musical quanto em sua imagem pública.

Ao fim da turnê de 1966, os Beatles se separaram durante três meses para um período de “descompressão”, e foi assim que cada um deles embarcou em uma jornada de descobertas individuais e projetos solo. George Harrison revelou, muitos anos depois, que foi nessa época que ele realmente “saiu” dos Beatles e iniciou seu período de autodescoberta que levou, finalmente, à dissolução da banda. Ele e sua esposa Patti viajaram à Índia para que George tivesse outras aulas de cítara e aprendesse mais sobre o povo e a cultura da antiga colônia britânica. Mal sabia ele que essa viagem seria o início de sua conversão ao hinduísmo.

Paul ficou na Inglaterra, visitando as galerias de arte e assistindo peças de teatro, exposições e happenings. Paul sempre foi workaholic, e aproveitou o tempo de “folga” para compor a trilha de um filme, “The Family Way”, que se tornou o primeiro projeto solo oficial de um dos Beatles.

Ringo, por sua vez, ficou curtindo a vida doméstica com sua esposa e o filho bebezinho Zak. E John foi estrelar a comédia de Richard Lester mencionada mais acima, filmada na Espanha.

Foi lá que John retornou ao seu espírito de nostalgia por Liverpool, que tinha começado um ano antes com “In My Life”, e compôs “Strawberry Fields Forever”, uma viagem à área de Liverpool onde ele brincava quando criança.

A carreira cinematográfica da banda sofreu uma interrupção durante os anos seguintes, enquanto eles se concentravam em seus novos álbuns, mas, por contrato, ainda deviam um terceiro filme à United Artists…

O terceiro filme

Claro que os dois primeiros filmes foram enormes sucessos de bilheteria, mas os Beatles precisavam de um tempo para recarregar as baterias. Não só isso, mas de fato ansiavam por novos desafios, especialmente no cinema,  onde eles poderiam atuar.

Se formos avaliar com critério, Magical Mystery Tour foi um especial de TV caótico;  Yellow Submarine teve quase nenhum envolvimento do grupo, além das canções e uma rápida aparição no final do filme, e Let it Be foi um documentário.

No final de 1967, a coisa estava preta. O empresário Brian Epstein tinha falecido, Magical Mystery Tour tinha sido um fiasco e a banda estava embarcando em sua primeira grande aventura empresarial sem o mínimo conhecimento administrativo, a Apple Corps. No início, a corporação tinha cinco divisões: Apple Records, Apple Electronics, Apple Publishing, Apple Retail e Apple Films.

Em meados de fevereiro de 1968, a banda estava relaxando na Índia e compondo uma quantidade sem precedentes de novas canções que depois apareceriam no White Album. Foi nessa época que o gerente da Apple Films, Denis O’Dell, ouviu dizer que J. R. R. Tolkien estava a fim de negociar os direitos para cinema de sua épica trilogia, “O Senhor dos Anéis”, que já era um fenômeno cultural. Denis foi à Índia e explicou aos patrões a situação, informando que esse filme poderia ser aquele com o qual pagariam seu débito contratual com a United Artists.

John, ainda considerado pelos colegas de banda como seu intrépido líder, e baseado na crença e no ego de que tudo era possível para os Beatles, foi o mais entusiástico apoiador da ideia de se fazer um filme baseado na trilogia de Tolkien. Sua abordagem era bem simples: George, mais espiritualizado, faria Gandalf; Paul, com seu ar inocente e agradável seria Frodo Baggins; o divertido e leal Ringo seria o fiel companheiro de Frodo, Sam; e John faria a desonesta criatura Gollum.

De repente, e sem saber, John talvez já viesse treinando para ser Gollum desde o início da década, quando ele brincava no palco, entre uma canção e outra, com sua versão do “Corcunda de Notre Dame”, só para tirar uma com a cara dos outros Beatles…

As discussões avançaram quanto aos diretores considerados para a aventura: David Lean, Stanly Kubrick e Michaelangelo Antonioni. Lean era conhecido por seu “Lawrence da Arábia”, Antonioni por “Blow Up” e Kubrick por “Spartacus”. Lennon estava pensando alto e imaginava o que cada um deles faria com sua produção.

Kubrick era o preferido, por sua obsessão com perfeição e que o fazia refilmar até 70 vezes uma cena, o que combinava com a própria obsessão de Lennon.

Os Beatles na época em que sonhavam com sua versão de "O Senhor dos Anéis".

Os Beatles na época em que sonhavam com sua versão de “O Senhor dos Anéis”.

Ele e Paul abordaram Kubrick nos estúdios da MGM em maio de 1968, que educadamente recusou. Primeiro, alegando ser impossível então filmar as três partes da trilogia ao mesmo tempo, e em segundo lugar, por estar muito concentrado em seu próximo filme… “2001, Uma Odisseia no Espaço”. David Lean também recusou, ocupado na pré-produção de “A Filha de Ryan”.

Na verdade, porém, a United Artists estava mais interessada na bilheteria que os Beatles poderiam gerar e não em seus dotes como atores. O filme iria precisar de um álbum com a trilha, possivelmente oito novas canções, e isso também iria dar muito lucro. John começou a discutir essas novas músicas com a banda enquanto os Beatles gravavam o “White Album”, e o clima que ele queria, segundo a lenda, era o de canções como “A Day in the Life” e “I am the Walrus”. Fica fácil imaginar como seria a balada dos Hobbits, por exemplo…

Mas… Apesar de todos os esforços dos Beatles, Tolkien recusou-se a vender os direitos de sua obra à Apple Records e, ironicamente, vendeu-os à… United Artists, que lançou a versão de Ralph Bakshi dez anos depois – mas isso é outra história.

JRR Tolkien em 1968.

JRR Tolkien em 1968.

A pergunta que se faz é: por quê Tolkien foi contra os Beatles adaptarem sua trilogia? Talvez a resposta esteja numa carta escrita há mais de 50 anos. Nela, Tolkien reclama “do rádio, da TV, dos cachorros e das scooters, da buzina dos carros e do barulho, que começa desde cedo e vai até as duas da manhã. Além disso, em uma casa vizinha, vive um membro de um grupo de jovens que evidentemente desejam se tornar os novos Beatles. Naqueles dias em que eles decidem ensaiar, o barulho é indescritível”.

A recusa de Tolkien frustrou os planos da banda e da United Artists em ter um terceiro filme com os Beatles. Outras ideias foram discutidas nos escritórios da Apple, até que finalmente todos chegaram a um acordo e Let it Be cumpriu o contrato…

Cá entre nós, seria muito melhor assistir a versão dos Beatles para “O Senhor dos Anéis”, né não?

 

 

 

 

 

 

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s