As grandes frases que nunca foram ditas

Estava lá outro dia lendo uma revista quando, num artigo, eles diziam que a famosa frase “Houston, nós temos um problema”, (Houston, we have a problem) como falava Tom Hanks no filme “Apollo 13” (1995), nunca existiu.

Na verdade, a frase era “Houston, tivemos um problema”, como se pode ver na transcrição das conversas entre os astronautas da Apollo 13 e o comando da operação em Houston, Texas:

Tudo bem, a diferença pode parecer pequena, mas no espaço, a centenas de milhares de quilômetros da Terra, o tempo do verbo no presente pode sugerir que o problema ainda teria solução.  Quando, na verdade, os astronautas sabiam que a explosão que afetou o módulo de comando e os impediria de pousar na Lua tinha deixado sua nave num estado crítico, sem conserto…

Mas há outras frases famosas e que nunca foram ditas como a gente conhece. Veja alguns exemplos a seguir:

Se não têm pão, que comam brioches”, atribuída a Maria Antonieta.

Ela nunca foi dita por Maria Antonieta. A confusão começou em 1783, quando Jean-Jacques Rousseau, em sua autobiografia, afirmou que uma grande princesa ficou conhecida por dizer a frase “Se o povo não tem pão, que coma brioche”. Maria Antonieta, no entanto, só tinha 12 anos quando o livro foi escrito, e só se casaria com Luís XIV três anos depois. Os registros históricos disponíveis, entretanto, mostram que, na época de sua coroação, Maria Antonieta se preocupava com a situação dos pobres. Numa de suas cartas à mãe, ela chega até a criticar o alto preço do pão. Especula-se que Rousseau na verdade se referia a Maria Teresa de Espanha.

“Que seja eterno enquanto dure”, por Vinícius de Moraes.

Como assim? Se é eterno, dura para sempre! O poetinha nunca escreveria uma besteira dessas. O que está lá é:

Soneto de Fidelidade

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinicius de Moraes, “Antologia Poética”, Editora do Autor, Rio de Janeiro, 1960, pág. 96.

Ele quis dizer que a quantidade de amor não tenha fim enquanto o amor durar…

Outra famosa frase conhecida traz as “forças ocultas” de Jânio Quadros.

  

Quando Jânio renunciou, em agosto de 1961, quem sabe depois de uma reunião acalorada com Juanito Caminador, disse na realidade que fora levado a esse ato por “forças terríveis”! Não se sabe porque, talvez por alguma transcrição apressada, o fato é que a expressão “forças ocultas” é a que foi consagrada na História.

A próxima seleção não é bem uma frase, mas uma lenda urbana: HAL, do filme de Stanley Kubrick “2001 Uma Odisseia no Espaço” (1968), seria uma referência  à IBM.

Aquelas pessoas que imaginam conspirações por todos os lados (seriam as mesmas que disseram que Paul McCarney tinha morrido?) espalharam que HAL seria uma referência de Arthur Clarke (autor da história) à IBM, a gigante multinacional da época, porque as letras no alfabeto que antecedem IBM são… HAL. De nada adiantou o autor desmentir, explicando que HAL significava apenas Heuristic Algorithmic.

E, para finalizar, trago a seguir talvez as duas frases que nunca foram ditas mais famosas de todas.

“Play it again, Sam!”

A frase “Play it again, Sam” nunca foi dita no filme “Casablanca” (1942). Ela é uma daquelas que você conhece sem nem mesmo ter assistido ao filme. Na verdade, Rick, interpretado por Humphrey Bogart, diz: You played it for her, you can play it for me. Play it. (Você tocou para ela, pode tocar para mim. Toque!) ao pianista. Já Ilsa (Ingrid Bergman) diz em outra cena: Play it, Sam. Play ‘As time Goes By’.  Não se sabe muito bem quem popularizou a fala errada, mas supõe-se que foram os Irmãos Marx, que usam essa fala na comédia “Uma Noite em Casablanca”  (1946), e depois Woody Allen, que em 1972 lançou “Play it again, Sam” , longa-metragem em que faz homenagem à clássica película e chegou ao Brasil com o nome de “Sonhos de um Sedutor”.

“Elementar, meu caro Watson

Li tudo que Conan Doyle escreveu com Sherlock Holmes (porque sou fã) e essa frase não existe nos livros. O mais próximo a ela foi um diálogo entre Holmes e Watson logo no início de O Corcunda, de 1893. O detetive começa a conversa se referindo ao companheiro como “Meu caro Watson…”. Depois da fala de Watson, Sherlock responde: “Elementar”. Em A Caixa de Papelão, do mesmo ano, ele diz: “Superficial, meu caro Watson”. Ou seja, o grande detetive da Baker Street realmente diz “elementary” e “my dear Watson” – mas nunca os dois juntos.

A frase apareceu em 1929 no filme “O Retorno de Sherlock Holmes”, mas acabou se tornando popular graças à série radiofônica The New Adventures of Sherlock Holmes (que pode ser ouvida aqui), veiculada entre 1939 e 1947 na rádio NBC nos Estados Unidos, que ajudou imortalizar de vez a frase do famoso investigador.

Elementar, meu caro leitor…

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