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Rede Globo 50 anos: verdades e mentiras

A Rede Globo, fundada em abril de 1965, é uma rede de televisão assistida por cerca de 150 milhões de pessoas diariamente, sejam elas no Brasil ou no exterior, por meio da TV Globo Internacional. A emissora é a segunda maior rede de televisão comercial do mundo, atrás apenas da norte-americana American Broadcasting Company (ABC) – que faz parte da Disney – e é uma das maiores produtoras de telenovelas do planeta. A emissora alcança 98% do território brasileiro, cobrindo 5.482 municípios e cerca de 99% da população.

É inegável que, nesses 50 anos, a Globo se tornou líder incontestável em todos os horários, faixas, praças e nos principais indicadores de interesse do mercado comercial,  e faz parte do cotidiano dos brasileiros todos os dias através de suas novelas, jornalísticos, atrações esportivas ou de entretenimento.

Quando ela foi fundada, nos anos 1960, já existiam outras emissoras. Em 1965, por exemplo, a TV Excelsior já estava em operação. A TV Tupi, existente desde 1950; a TV Cultura, de 1960; e a TV Record, de 1953, já estavam no mercado. Shows, jornais, humorísticos e novelas não eram novidades, mas a forma pela qual a Globo trabalhou sua programação foi o que a levou à liderança.

Como não podia deixar de ser, esse meio século gerou inúmeras histórias, muitas verdadeiras, e outras tantas mentirosas. Vamos elencar abaixo algumas delas:

VERDADES

Globo apoiou a ditadura

Golpe de 64
Brasil, Rio de Janeiro, RJ. 31/03/1964. Tanque do exército para próximo à casa do presidente deposto, João Goulart, nas Laranjeiras. O Golpe de 64 submeteu o Brasil a uma ditadura militar que durou até 1985.

A Globo não só apoiou como cresceu à sombra da ditadura militar. A emissora aquiesceu, propagou e jamais questionou quem estava no governo militar.

Teve apoio do governo e da Embratel para virar a maior TV do país

Onde a Embratel elevava suas antenas, nos mais longínquos rincões do território nacional, a Globo também lucrava e passava a ter uma anteninha. Com isso, ela se tornou a primeira emissora do país a ter rede nacional  – a maior cobertura do país e uma das maiores do mundo em alcance de público. Anos antes, por pressão de políticos de oposição (leia-se Carlos Lacerda), a emissora teve de romper o contrato que firmara com o grupo Time Life, que na época lhe emprestou US$ 6 milhões para investir em infraestrutura, o que era um dinheirão e faria com que saísse na frente da ainda incipiente TV brasileira. Em troca, a Globo daria uma fatia de seus lucros para o grupo estrangeiro. Uma sociedade não permitida pela lei.

Editou debate eleitoral para ajudar Collor

Isso foi “confessado” recentemente pelo próprio Boni, antigo manda-chuva da emissora. Porém, o que pouco se fala, e é confirmado por vários ex-funcionários que lá estavam, em 1989, é que a primeira edição do debate era favorável a Lula. Quem a fez foi um editor “petista de carteirinha”. Mas sua edição foi tão péssima que acabou gerando uma contra-reação na emissora. Refizeram tudo e ocorreu uma guinada completa. O fundador Roberto Marinho chegou a admitir, mais tarde, que preferia Collor a Lula.

Comprou programas que nunca exibiu só para a concorrência não tê-los
Durante décadas a Globo teve acesso exclusivo a produções estrangeiras graças a seu incrível poderio econômico. Não se sabe ao certo quantos programas os brasileiros jamais viram em outras emissoras devido a essa prática. Até hoje, comentam-se os esforços para comprar os direitos de Chaves e Chapolim, que dificilmente seriam inseridos na sua grade de programação. Neste ano mesmo, do seu 50 º aniversário, comprou os direitos da série “Agentes da SHIELD” – enorme sucesso na TV paga – para exibi-lo de madrugada…
Foi ajudada a ter novo império na TV paga e impedir a ascensão de outras TVs no setor

Alguém tem dúvida? Primeiro a Globo era uma das donas da operadora Net. Quando a TV paga chegou ao Brasil, a emissora tratou de ajudar a si mesma e se espalhou rapidamente feito vírus pela TV por assinatura. Com bons canais, é verdade, como a GloboNews, mas também com muita porcaria. Hoje, a Globo tem propriedade ou parceria em quase 50 canais pagos, incluindo um monopólio de pay-per-view. Quando o governo mandou a emissora sair da Net, por desrespeitar o mercado, a Globo saiu, mas continuou sendo beneficiada não só pela Net, mas também pela Sky. Uma verdadeira ação entre amigos, que impede até hoje outras TVs de ter mais canais fechados. Quando alguém tenta, come o pão que o demônio fermentou, como a FoxSports bem sabe…

Fez Gloria Perez, Benedito Ruy Barbosa e Walter Negrão rescindirem contrato com o SBT

Foi a única vez que a Globo tomou um susto grande na área de dramaturgia. Numa de suas jogadas de mestre, Silvio Santos “furtou” Gloria Perez, Benedito Ruy Barbosa e Walter Negrão de uma só vez. O SBT passaria a investir pesado em novelas, e para isso precisava dos melhores escritores. Só que os novelistas nem chegaram a sentar na cadeira no SBT, porque a Globo os fez rescindir contrato. Tiveram de pagar uma multa milionária a SS, e até hoje parte dessa ação ainda corre na Justiça.

Obrigou o SBT a pagar multa milionária pela rescisão do contrato assinado com Gugu

Anos antes desse episódio envolvendo os novelistas, a Globo também deu uma rasteira em Silvio Santos. Gugu Liberato estava no auge da carreira, seu contrato venceu e a Globo o tirou do SBT – enquanto Silvio Santos estava viajando aos EUA, para variar. Quando voltou, Silvio Santos pegou Gugu a tiracolo e o levou até a sala do doutor Roberto, onde fez algo inédito: implorou que o concorrente devolvesse sua estrela. Alegou que estava com uma grave doença nas cordas vocais, que talvez tivesse de se aposentar, isso se não ficasse mudo para sempre ou mesmo morresse… Doutor Roberto aceitou, mas cobrou cada centavo da multa, que Silvio pagou sem pestanejar.

Criou uma linguagem visual única e inédita, que fez escola no mundo todo

Isadora Ribeiro na abertura do "Fantástico", criação de Hans Donner.
Isadora Ribeiro na abertura do “Fantástico”, criação de Hans Donner.

A Globo foi a primeira emissora a mexer com o logotipo-símbolo da empresa, além de lhe dar uma trilha (o plim-plim) e estilizá-lo dimensionalmente. O pai disso se chama Hans Donner, 66 anos, alemão naturalizado brasileiro e gênio da linguagem visual. Seu trabalho em vinhetas e linguagem visual se tornou paradigma e foi copiado por emissoras e outras empresas ao redor do mundo. Pode-se dizer que toda a linguagem visual e gráfica no Brasil é dividida em Antes e Depois de Hans Donner. Uma curiosidade: a Pacific Data Images, grande estúdio de computação gráfica que hoje constitui a Dreamworks Animation (estúdio que criou “Shrek”, “Kung Fu Panda” e outros sucessos), colaborou nas primeiras vinhetas de Donner.

Tem a melhor programação da TV aberta brasileira

Podemos criticar a Globo por tudo, mas ela ainda é a melhor TV aberta do Brasil. Não vende sua grade de programação para ninguém, tem bons programas e apresentadores em todas as faixas horárias e ainda nada de braçada em termos de audiência. Não há nenhuma emissora que ameace seu reinado. Mesmo TVs como a Record, que até tentaram combatê-la, afundaram em estratégias de pura imitação da própria Globo, que tem os melhores filmes, atrizes, atores, roteiristas, apresentadores, e, o que é melhor, o respeito total dos maiores anunciantes do país. A Globo é uma potência de conteúdo jornalístico, dramatúrgico e de entretenimento. Se nada mudar, esse reinado continuará por mais 50 anos.

MENTIRAS

Jamais exibiu comercial com artista de outra emissora

Isso até foi verdade um tempo, mas acabou depois que Jô Soares foi para o SBT. O apresentador estrelava um sem-número de comerciais de produtos nacionalmente conhecidos, empresas ricas, e a Globo não podia abrir mão desse faturamento por causa de uma regra tola.

Punia artistas que a trocassem por TVs concorrentes: eles jamais voltariam a pisar na Globo 

Outra lenda que foi verdade por um tempo, principalmente quando Sergio Chapelin foi para o SBT apresentar um programa de auditório, “Show sem Limites”, que chegou a derrotar o “Viva o Gordo” e o seriado “Casal 20”, concorrentes no horário. A Globo boicotou as inserções comerciais com a locução de Chapelin, mas um ano depois, ele mesmo chegava à conclusão de que não tinha a “pegada” de apresentador de auditório e sua praia era mesmo o jornalismo, voltando para a Globo em 1984. A emissora até tentou fazer essa regra valer de novo anos atrás, quando a Record tirou vários artistas e profissionais para investir em novelas. Boa parte voltou e está mais que prestigiada: Marcelo Serrado, Gabriel Braga Nunes, Vanessa Gerbelli… Sem falar em outros profissionais técnicos.

Globo criou todas as suas estrelas

Bobagem. Antes de ser global, Faustão foi lançado na TV pela humilde Gazeta, e depois foi da Record e da Band; Ana Maria Braga veio da Record; Serginho Groismann, da Band; Xuxa, da TV Manchete, assim como Angélica; Luciano Huck veio da Band.

Ator Mário Gomes é internado com cenoura no ânus

Essa não só é a maior mentira em toda a história da Globo, mas a mais pérfida e doentia. Foi uma invenção de um diretor da Globo, Daniel Filho, segundo o próprio Gomes; Daniel Filho jamais a negou. Gomes se envolveu com Betty Faria, então casada com o diretor, que se vingou espalhando a história. “Foi uma tentativa de assassinato”, disse Gomes, que foi estigmatizado, apontado nas ruas e ficou longe das telas por muito tempo. Voltou, mas jamais como o galã dos anos 70. Neste link, para quem quiser ler, uma entrevista recente com Mário Gomes, onde ele conta esse evento.

Parou de vender os domingos para o Silvio Santos porque ele dava mais audiência que a emissora

SS no quadro "Boa noite, Cinderela", na TV Globo na década de 1970.
SS no quadro “Boa noite, Cinderela”, na TV Globo na década de 1970.

Muitos jovens não sabem que Silvio Santos já foi da Globo. Nos anos 1970,  Silvio ocupava até 10 horas aos domingos e já estava milionário por causa do Baú da Felicidade. Também tinha um ibope absurdo – dizem que dava 90 pontos em 1969. Empatando com a novela “Selva de Pedra”, que teria a mesma audiência… Mas a verdade é que a Globo não o tirou do ar por causa disso, e sim porque ele ganhava muito mais do que rendia para a emissora. Silvio foi para a Tupi, mas o programa era transmitido também pela Record e pela TVS (que acabara de ganhar do governo; depois ela viraria o SBT).

Teve envolvimento nos incêndios ocorridos na  TV Excelsior no final dos anos 1960

O que é curioso é que, nos anos 1990, sabe-se lá o porquê, essa “culpa” passou a ser atribuída por alguns “estudiosos” da televisão brasileira à Fundação Cásper Líbero (TV Gazeta). Tudo conversa mole. O primeiro “incêndio” atingiu pouco mais de uma mesa da emissora. O segundo, porém, foi devastador, mas naquele tempo não havia sistemas e regras de segurança como hoje.

Boni foi o “inventor” do padrão Globo de Qualidade 
Walter Clark é o de barba, na foto. O de óculos seria o banqueiro José Luiz de Magalhães Lins e, ao lado dele, Roberto Marinho.

Essa mentira está estampada até hoje em muitos livros e guias de estudantes. Boni de fato ajudou a implantar o padrão, mas a origem dele é o acordo (irregular) assinado entre a emissora e o grupo norte-americano Time Life. A Globo recebeu da Time um tratado sobre qualidade e implantou seus itens, que incluíam a excelência em programação. Além disso, o “padrão” foi implantado também por Walter Clark (1936-1977). Essa conduta encareceu bastante os custos da emissora, mas por outro lado agregou um valor infinito às suas produções –especialmente as novelas.

Inventou o formato das novelas televisivas 

direito de nascer elenco1

Novelas já existiam antes de a Globo sequer ser gestada. No Brasil havia a TV Tupi, e a Excelsior, que tiveram novelas de sucesso (na foto acima, o elenco de “O Direito de Nascer”, da TV Tupi). Por outro lado, a Globo elevou o conceito de novela a um patamar completamente superior à concorrência, justamente pelo padrão de qualidade. Aos poucos atraiu os melhores quadros da dramaturgia, os melhores técnicos, os melhores iluminadores, cenografistas, ou seja, melhorou o que já existia.

Globo tem o poder de derrubar qualquer político de seu cargo

Até alguns anos atrás, até que se pode dizer que sim, mas hoje já não é mais. O que a emissora fez, e faz, graças a seus ótimos repórteres, é desvendar falcatruas e crimes. Por outro lado, essa prática já gerou um mártir. Tim Lopes (1950-2002) foi assassinado por traficantes do Complexo do Alemão, que descobriram um equipamento de gravação escondido em suas roupas.

Globo ignora completamente a programação das outras emissoras

Tanto é mentira que o “Encontro com Fátima” é inspirado pelo “Hoje em Dia”, da Record. O “Bem Estar”, por sua vez, só veio meses depois de um quadro fixo semelhante já exibido no matinal da Record. No final do ano passado a Globo sofreu outro chacoalhão com os telejornais matinais da concorrência, especialmente o “Notícias da Manhã”, do SBT. A Globo teve de se virar e criar algo semelhante.

Globo não deixa seus artistas participar de programas em outras emissoras

É uma meia-verdade, para sermos honestos. Tony Ramos estava em 2014 no palco do SBT para receber o Troféu Imprensa, assim como Lília Cabral. Outros artistas já foram liberados ou deram entrevistas em locais públicos ao “Pânico na Band”, por exemplo, sem que sofressem qualquer sanção.

 

Não sou mais um espectador assíduo da TV aberta, como já fui. Por uma soma de fatores, entre eles a falta de tempo, coisas melhores para fazer, a internet, a TV a cabo… Mas reconheço que a TV Globo teve – e tem – um papel fundamental na formação cultural do povo brasileiro, em sua grande maioria habituado a ver o mundo pela TV.

Exatamente por isso, fica a minha torcida para que ela utilize seu imenso poder, alicerçado em seus 50 anos de atuação, no resgate de muitos valores de nosso povo, que ficaram para trás em nome da busca sem limites pela audiência.

 

Fontes:

Na Telinha

UOL/ Ricardo Feltrin

Rede Globo

 

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