Conheça o homem por trás do Pacheco, o torcedor mais chato da seleção

Aos 72 anos, Natan Pacanowski soa cansado ao levantar o telefone. Ele informa que não está muito bem. Acabou de voltar do hospital. Ele tem um problema sério nos rins e faz hemodiálise três vezes por semana.

Mas se você perguntar se ele foi o Pacheco da Copa de 82, a voz de Natan Pacanowski se inflama.

“Eu fui o Pacheco, sim. Você já viu meu site? Vou te passar o endereço. Época boa aquela! Tem várias fotos no meu site. Vou me ajeitar aqui, vamos conversando.”

Ele se ajeita na cama. E conta como contrabandeava cigarro para a seleção brasileira que tentaria o tetracampeonato mundial na Espanha.

Telê Santana tinha proibido os jogadores de fumar. Fumar não era coisa de atleta.

Mas Natan, embrulhado naquela fantasia bizarra de Pacheco, levou pacotes de Holliwood para dentro da seleção.

No avião que levava o time à Europa, Serginho Chulapa virou cliente de Natan. E Natan não esquece o calote que levou de Chulapa.

O calote de Serginho Chulapa

Diz Natan: “Eu estava na frente do avião, todo mundo da companhia aérea me bajulando, aí chega o Serginho Chulapa e diz: ‘Essa coisa de avião me deixa meio tenso, sabe como é. Você quer fazer um negócio comigo? Você me dá um pacote de Hollywood e eu te dou a camisa do nosso primeiro jogo.'”

Natan deu o pacote. E está esperando a camisa até hoje.

Mas ele adora falar sobre aqueles meses de verão em que viajou pra Europa de graça e ficou famoso no Brasil inteiro.

Em terminologia moderna, dá pra dizer que Natan Pacanowski ‘causou’ na Copa de 1982. Ele tinha sido escolhido para encarnar o protagonista de uma campanha publicitária das lâminas de barbear Gillette.

Ele vestiu uma fantasia esquisita e virou um sujeito cabeçudo, de medidas desproporcionais, que estava sempre rindo. Era um torcedor fanático, o camisa 12 da seleção, seu torcedor número um.

Ele deveria torcer como se não houvesse dia seguinte. Ele deveria fazer festa na chegada dos jogadores em cada aeroporto, em cada hotel, em cada estádio. Ele devia levar a marca da empresa para todos os cantos da Espanha. Ele não podia fazer cara feia, ele não podia ver tempo ruim.

Ele fez tudo isso. E fez ainda mais. Chegou a invadir o campo de treinamento para agarrar os jogadores. Chegou a ser expulso do gramado. Chegou a pegar uma bandeira, subir em uma estrutura da arquibancada e agitá-la lá de cima, despertando preocupações quanto a sua própria segurança.

Quando o Pacheco estava por perto, todo cuidado era pouco. Medrado Dias, diretor da CBF e chefe da delegação, achou aquilo demais. “Ele me chamou no canto e disse: ‘Ô cara, manera aí, bicho, você está aparecendo mais do que os jogadores'”, relembra Natan.

“Mas eu tinha sido pago para aparecer, esse era meu trabalho.”

O trabalho de Natan deu frutos, quem diria, ao idioma. Hoje, três décadas depois daquela viagem à Espanha, a língua portuguesa abriga o conceito de “pachequismo”, que significa um nacionalismo cego, exacerbado, beirando a xenofobia; ser Pacheco é torcer pela seleção como se o futebol brasileiro fosse indiscutivelmente o melhor do mundo.

Natan Pacanowski não faz ideia, mas o que ele fez em 1982 desbancou o que o maior escritor em língua portuguesa tinha feito no século 19. Esse carioca de raízes polonesas virou figura central na etimologia centenária do substantivo pachequismo.

No livro “A Correspondência de Fradique Coutinho”, publicado em 1900, Eça de Queirós criou um político chamado Pacheco, que era tido por seus pares como um gênio, mas nunca fazia nada que justificasse a fama de grande intelectual.
Por causa desse personagem, pachequismo virou “agir ou falar de maneira pomposa e aparentemente profunda, sendo, no entanto, medíocre.” Hoje, essa acepção parece não ser muito usada nem mesmo em Portugal. No Brasil, o sentido moderno de pachequismo é indissociável de conceitos como fanatismo, nacionalismo, bairrismo e seleção brasileira.
A gênese

Wilson José Perón tinha vinte e poucos anos quando deu o sopro vital ao personagem. A Gillette não tinha planos de ser patrocinadora daquela Copa, mas gostou da ideia da agência Alcântara Machado (que hoje sob o nome AlmapBBDO é uma das maiores do país).

Perón mostrou os esboços para a direção da companhia, e a presidente da Gillette no Brasil viajou até Boston, nos EUA, atrás da verba necessária para tocá-la. “Eu batizei o boneco de Pacheco porque gostava da pronúncia desse nome… era sonoro… Pacheco!”, afirma Perón, que hoje vive em Sorocaba (SP).

Ele lembra que havia uma piada na época que relacionava o nome Pacheco ao apresentador da TV Globo Pedro Bial — ele não se lembra muito bem, contudo. Mas sua inspiração ao criar o torcedor maluco foi seu pai que era doente, roxo pelo Corinthians.

Perón não conhecia Natan Pacanowski, que trabalhava como promotor de vendas na Gillette no Rio de Janeiro quando foi chamado à sala da direção. Achou que seria demitido. Mas a primeira coisa que ouviu foi o oposto.

“Natan, você quer ir pra Europa de graça?”

Ele disse que sim. Os diretores começaram a explicar que ele encarnaria o Pacheco. Ele balançava a cabeça. A fantasia seria feita pelos figurinistas do Sítio do Pica-pau Amarelo. Sim. Ele viajaria junto da seleção graças a um acordo com a CBF. Ele tiraria fotos. Sairia na televisão e nos jornais de todo o país. Sim, sim, sim…

A estreia do personagem com o time foi em Uberlândia (MG), na despedida da seleção antes da Copa, um amistoso contra a Irlanda, muita chuva. O estádio estava lotado. O presidente João Figueiredo estava lá. Pacheco subiu ao gramado, correu ao lado dos jogadores e…

… escorregou numa poça d’água, caiu de perna aberta, virou gozação em todo estádio, mas ganhou a simpatia da torcida. Até o presidente foi lhe cumprimentar depois do jogo. Natan ficou com a perna bamba e apertou a mão do general. O ditador desejou sorte. Natan ficou ainda mais nervoso.

O retorno

Quando Paolo Rossi fez o que fez no estádio do Sarriá, enquanto o Brasil inteiro chorava a derrota da seleção de Zico, Sócrates, Falcão e Telê, a derrota do futebol mais bonito jamais visto, Natan/Pacheco também se amarguravam.

Não apenas por motivos puramente esportivos, porém.

Natan já tinha sido avisado pela direção da Gillette que, graças ao sucesso da campanha, ele viajaria a todas as sedes da empresa ao redor do mundo apresentando o personagem. Só havia uma condição: o Brasil precisava ser campeão.

Isso não era problema. Pacheco, como bom Pacheco, tinha certeza que o Brasil seria campeão, não havia time melhor que aquele — e depois da vitória (fora o baile) sobre a Argentina, o tetra era só uma questão de tempo.

Mas então aconteceu Paolo Rossi, os três gols de Paolo Rossi, a tragédia no estádio Sarriá em Barcelona. Mais um fantasma a assombrar o futebol brasileiro naquele jejum de 24 anos sem títulos mundiais. E o Pacheco despossuiu Natan.

De volta à sede carioca da Gillette, um diretor lhe disse: “Como o Brasil não fez aquele último gol, nós vamos lhe dar um Gol.”

E foi esse o pagamento de Natan por ter vivido Pacheco: um Gol “de bunda quadrada”, o carro queridinho do Brasil no início da década de 80.

“E se o Brasil fosse campeão”, ele conjectura, “eu teria viajado o mundo inteiro pra apresentar a campanha, eu já estava contando com isso! Hoje eu estaria muito bem, com uns três apartamentos. Ou quatro. Eles me dariam um prêmio melhor, foi uma campanha muito positiva pra empresa.”

O personagem de fato havia feito sucesso no país, mas uma publicação em especial pegava bastante no pé da criatura. Era “O Pasquim”, jornal satírico muito popular na época, com o qual colaboravam figuras importantes do humor e do jornalismo nacional.

Um texto de 2010 atribuído a Laerte de Araújo de Lima e publicado no blog “6858 km de futebol” conta detalhes sobre o retorno do Pacheco ao país:

“Quando chegou ao Brasil, Natan deparou-se com uma enorme charge, na primeira página do Pasquim. Ela exibia o Pacheco, com a camisa 24 e o título: ‘Este veado secou o Brasil’.

Daí em diante, o Pacheco sumiu de circulação e nunca mais reapareceu.

 

Fonte:

http://copadomundo.uol.com.br/

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