SILÊNCIO

Um conto que nos faz pensar, nos faz refletir e, quem sabe, reavaliar as nossas posturas e prioridades. 

Silêncio

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 por Nacelle Seals

 Poderia ter sido um dia como outro qualquer, mas não foi.

***

 O passado não se extingue. Me sinto impotente e ameaçada diante desta evidência.

O passado fica aqui, grudado.

Descobri que estamos eternamente construindo o passado.

 ***

Preciso de um trabalho melhor.

***

As lembranças não são apenas lembranças, são recordações que insistem em girar e girar na memória. Lembro-me das coisas que eu ouvi e que me marcaram. E que me deixam agora, farta, farta e farta. Não estou aguentando mais.

– Ei! Não faça isso! Você tem que fazer aquilo!

Por que eu não posso fazer isso? O “aquilo” não é, definitivamente, o que eu quero fazer. São as normas da sociedade. O dicionário define que sociedade é a “união de pessoas ligadas por ideias ou por algum interesse comum, conjunto de pessoas de uma mesma esfera; solidariedade de interesses”. Só pode ser uma piada.    

– Você tem que fazer as coisas assim, senão não vai dar certo!

Isso é um conselho? Uma ameaça? Uma praga? Uma estrutura pré-concebida que definiram como sendo ilegal?

– Não me leve a mal! Não se sinta assim!

Quer dizer que a pessoa faz o que quer, fala o que acha que tem que falar e eu não posso nem sequer me sentir desconfortável? Não tenho o direito de sentir o que minha emoção quer atinar? Não tenho o direito de me indignar?

– Sei o que você deve estar pensando e eu já tenho a resposta…

O que é isso? A pessoa se acha na faculdade de pensar com a minha cabeça e, pior de tudo, não apenas pensar, como também encontrar a resposta!!! Por favor, com a minha cabeça penso eu. Por favor, a minha resposta sou eu quem a elabora.

– Você tem que entender!

Posso até entender, mas aceitar não. E do jeito que essa pessoa está falando comigo, está tentando impor que eu aceite a circunstância através do seu pseudo pedido de entendimento. Por favor, não seja ridículo. Não é assim. Posso tentar conviver, mas aceitar não.

O que me restou? Um hiato engolido em seco como uma forma alternativa de adaptação.

Moral da história: não posso falar o que eu entendo que é preciso falar. O que eu ouço tem que ficar num lugar onde a resposta não possa sair. Pior, a resposta tem que sair de acordo com as regras. Muitas pessoas falam coisas que agridem a minha inteligência.

Diante deste panorama, minha salvação é ler. Amo ler. Melhor, eu a-do-ro ler.

Contudo…

Se já não bastasse a algazarra que sai das bocas das pessoas e o ruído gutural das muitas respostas “falidas”… Há os demais tantos outros barulhos desrespeitosos.

Eu quero ler. Eu só quero ler.

Mas alguém liga o aparelho de som no último volume. Eu quero estudar e alguém decide assistir televisão no máximo e, para meu absoluto desespero, muda de canal a cada 5 segundos. Outro alguém buzina, porque está sem paciência para esperar a anciã atravessar a rua. Uma criança começa a berrar porque quer chocolate antes do almoço. Um cachorro late sem parar não sei para quem nem para onde. O gato mia porque quer sair da casa e a gata mia porque está no cio. A vizinha resolve fazer bolo e liga a batedeira. O vizinho com mania de musculação liga o liquidificador dezenas de vezes por dia para preparar suas vitaminas e shakes. No andar de cima, alguém está tendo aulas de trompete e bateria em dias alternados. As vizinhas começam a se comunicar através das janelas, ou seja, aos gritos. O celular toca uma, duas, três vezes, me oferecendo serviços que eu já disse um milhão de vezes que não quero. A Sra. Thris entra sem avisar e sem pedir licença na minha tenda e começa a falar, se queixar, chorar, resmungar… Ela mesma fala e ela mesma responde… E me diz que sou uma adorável “escutadora” de pessoas. Por eu ser tão adorável, ela decide continuar falando, se queixando, chorando e resmungando.

Eu quero ler. Eu só quero ler.

 ***

Eu preciso de uma oportunidade de trabalho melhor.

***

 Poderia ter sido um dia como outro qualquer, mas não foi.

Eu tentei avisar, contudo ninguém me deu atenção.

Stress. Suor. Tremor nas mãos.

Ansiedade. Taquicardia. Medo do futuro.

Taxas, impostos, boletas, notas, contas. Filas e filas. Documentos e papeladas nas mãos das pessoas, cujo destino era para o nada. Não há nexo em nenhum ponto. Entretanto, o que fazer? Presa ao sistema, eu tinha que continuar. Com dor ou sem dor, com enfermidades ou sem enfermidades. Com medo e sem medo.

Angústia.

Onde foi que eu errei?

Acho que acreditei demais em coisas ditas para mim e não me dei ao luxo de raciocinar sobre tais assuntos. Não me dei ao luxo porque não tinha tempo. O tempo é guloso, inexorável, cruel. Nem um segundo de gorjeta. Nada.

Fobia.

É o momento em que você encara sua impotência diante do inevitável. E tudo parece muito perigoso. Muito. Há uma violência disfarçada em meios sorrisos por todos os cantos. Seus desejos estão sujeitos a mudanças em função da imprevisibilidade da vida.

Eu tentei avisar, mas ninguém me deu atenção. Qual o resultado? Eu vou colocar em ação o que eu planejei. Melhor, vou dar vida à minha invenção.

Hoje o céu está meio cinzento, o dia está ideal.

Saio calmamente da fila.

Olho para baixo – ultimamente ando muito cabisbaixa – e me dou conta de que meu tênis está desamarrado. Tenho que encontrar um lugar seguro para amarrar os cordões. Eu posso tropeçar e cair. Bem, eu posso tropeçar e cair em qualquer circunstância, entretanto não vale a pena facilitar. Minha respiração ofegante atrapalha identificar um lugar seguro. É preciso colocar minha mochila para frente, porque onde estou alguém pode me roubar em um piscar de olhos. O desequilíbrio  é tão grande neste mundo que as pessoas roubam tudo:  até papel higiênico. Tenho lá a minha meia dúzia de coisas na minha mochila, que não são coisas de grande valor. O valor dessas coisas é emocional. Quem diria que o celular teria um vínculo emocional? Aqui estão meus amuletos que têm um valor espiritual e energético. Meus documentos que têm o seu valor muito mais psicológico do que qualquer outra coisa. Nos documentos são colocadas fotografias que ajudam a identificar o corpo, mas nem de longe identificam a alma…

Encontro o lugar. Olhando de um lado para o outro, amarro o tênis.

Agora sim, posso caminhar.

Eu estou convicta: será hoje mesmo!

***

 Carros, buzinas, gente gritando, crianças chorando, pessoas gemendo. A poluição parece insuportável. Não parece, ela é insuportável. Moscas. Lixo. Muito lixo.

Não posso me deter nessas coisas, tenho que voltar para casa.

Até poderia ser chamada de casa, mas não é uma casa.

Uma senhora sem dentes, grosseira, sem muito cabelo, vive se queixando de que o governo comeu a herança que seu marido lhe deixou e esse é o motivo pelo qual ela se encontra neste estado. É uma casa tipo sobrado, bem comprida, com os reboques caindo, mal pintada, muros externos pichados  e um quintal. Eu vivo no quintal, numa tenda. É o que meu dinheiro consegue pagar.

Cerca de 90% da população vive o mesmo que a Sra. Thirs. O governo inescrupulosamente não faz outra coisa senão inventar impostos, taxas e multas para arrancar o dinheiro da população.

Ela nem desconfia o que eu faço nas horas livres.

Nas horas efetivas e socialmente aceitas sou jornalista.

Nas horas livres eu estudo química, física, mecânica.

Tanto e tanto investiguei, que eu consegui.

Sabia que ia conseguir. Consegui.

E vai ser hoje. De hoje não passa.

 ***

Será que agora eu consigo um trabalho melhor?

 ***

 Eu pedi ajuda.

Falei com as pessoas. Com todas que eu pude. Tanto fisicamente como virtualmente.

Eu falava sinceramente sobre meu stress, meu cansaço, minhas dores. Além do mais, eu estou doente.

Para receber qualquer apoio eu teria que pagar.

Eu tentava explicar que não podia. Ninguém entendia, ou… não queriam entender.

Qualquer ajuda significa de alguma forma estabelecer algum tipo de união, disponibilizar-se para colaborar. Pode-se traduzir que é necessário que tenha um componente humano. Essa centelha de amparo deveria brilhar dentro do indivíduo na humanidade. Muitas pessoas têm uma rejeição natural quando alguém se mostra necessitado. Comigo, parecia que eu tinha lepra. Chorei, choro em desespero. Na minha mente racional, penso que os seres humanos vêm aqueles menos favorecidos como algo defeituoso, que os homens precisam deixar morrer. As pessoas confundem estar em dificuldades com ser dificultoso. Sei que eu tenho tanto para oferecer, só preciso de alguns meses de auxílio…

Eu preciso de uma oportunidade melhor de trabalho.

Contudo, nada recebi.

Então, é para o nada que eu vou.

 ***

 Ela é ovalada, metálica. Capa de chumbo e borracha. Em seu interior, uma miscelânea que eu espero que seja eficiente.

Um cordão que aciona.

Pesada. Mas não faz mal. Eu posso carregar.

Penso que ao lado do rio é o melhor lugar.

E é para lá que eu me dirijo.

 ***

 Cuidadosamente, eu a retiro da minha mochila tão desgastada.

Olho para o relógio. Os ponteiros marcam meio-dia.

Ótimo.

É justamente a hora em que não há sombra.

Uma parte deve ser acionada agora.

Outra parte às 18 hs, horário em que tudo perde a cor, tudo é acinzentado e indefinido. Hora que os antigos diziam que o mundo perde a alma.

Ninguém emite mais nada.

Emissão: zero.

 ***

Não há problema, eu posso esperar. Seis horas passam voando.

Se não fosse a ansiedade, voaria mais ainda.

Tenho algumas frutas em minha mochila e outro pouco de bolachas.

Sei que a vida em si é generosa. Quem deturpou tudo foram os seres humanos.

Tenho uma especial admiração por livros de símbolos, filosofia, história, mitologia. Eu trouxe o livro de símbolos para me acompanhar. Leio e releio a interpretação simbólica de alguns metais… e percebo como eles seguem inexoravelmente nos acompanhando até hoje!  Não há nada no mundo absolutamente positivo ou absolutamente negativo. Depende dos olhos do observador. E da mente que interpreta, claro. Pelo menos é a minha conclusão quando termino de ler sobre esse metal. Sua cor natural é branca azulada e quando exposto ao ar, se torna cinza. Ele é tóxico, e em contrapartida, protetor. Isolador. Porém, o mais importante: ele é acumulador. Resistente à corrosão. Há quem acredite que a fundição do chumbo começou há 9.000 anos. Dizem que a proximidade com ele aumenta a pressão arterial. Deve ser verdade, minha pressão tem subido bastante ultimamente.

O relógio enfim marca 17h58m.

Chegou o momento.

É agora!

Recepção: zero.

 ***

Puxo delicadamente o cordão da engrenagem e aguardo.

Tapo os ouvidos.

O ar se torna denso. Quase se pode tocar.

A reverberação segue.

Foi ativada a bomba do silêncio.

Dentro de 24 horas, a reverberação tomará conta do planeta Terra. Nada e ninguém mais fará um ruído ou escutará. Se minhas contas estiverem certas, o efeito será por 3 anos.

Eu tentei avisar, entretanto ninguém me deu atenção.

***

 A vida que conhecemos entrou em tumulto.

As pessoas queriam falar – acho que até falavam – mas ninguém podia escutar. Nada mais produzia ruído. Nada.

Não adianta mais gritar e xingar. Não adianta mais buzinar.

Agora as mães não podem mais esperar o choro dos bebês para saber que estão com fome.

Não há mais função para o despertador, agora as pessoas precisam desenvolver os sentidos e perceber seu ritmo biológico e se autoprogramar para acordar. Agora as pessoas são obrigadas a prestar atenção.

É preciso ter paciência. As pessoas não estavam preparadas para isso.

A solução é escrever.

As relações afetivas e familiares estão em profundo processo de reavaliação, porque a maioria descobriu que não tem paciência em relação à ausência de sons.  Agora, quando alguém pega um táxi, tem que escrever num papel o endereço onde se quer ir.

As metas e objetivos nas atividades profissionais agora devem ser escritas.

Lógico, as empresas de telefonia e rádio morreram. A internet virou uma loucura.

O papel “eterno”, aquele que diziam que iria durar para sempre, que podia ser escrito e apagado, teve que ser acelerado em suas pesquisas e posto em circulação.

A música estridente e ofensiva acabou. O triste é que a música boa também se foi.

Os discursos dos políticos tiveram que ser suspensos. Os mais gananciosos estão “discursando” com letreiros. Agora eles terão que mostrar o que prometeram, porque está escrito em letreiros e as pessoas filmaram e fotografaram.

Contudo, agora eu posso ler.

No entanto, com a ausência de som, curiosamente a criminalidade diminuiu. As pessoas estão mais ocupadas em tomar conta do que é seu. Aprenderam a se proteger mais.

A medicina se tornou um caos e há especialistas trabalhando 24 hs em turnos para desenvolver máquinas e equipamentos que possam identificar através das imagens e temperaturas as queixas que não podem mais ser ditas. É estranho, porque no fundo no fundo, o que eu vejo é uma mistura de uso da sensibilidade e praticidade.

Outro dado curioso: com a ausência de sons, algumas pessoas estão envelhecendo aceleradamente e outras estão rejuvenescendo.

Eu sou uma delas, dessas que estão rejuvenescendo. Em seis meses as rugas do meu rosto desapareceram. As manchas da minha pele estão sumindo. Minha vitalidade está diferente. Meu despertar possui uma nova manhã. Este novo amanhecer possui um Sol mais ameno, suas cores estão mais delicadamente rosadas. Sinto falta de uma coisa apenas: do cantar dos passarinhos.

O silêncio tem lá suas vantagens e desvantagens.

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