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As coisas simples

Quando fui certa vez visitar meu netinho que vive em Dubai – minha netinha Angelina era ainda um projeto -, passei com ele, minha filha e meu genro alguns dos dias mais maravilhosos de minha vida. À parte a felicidade de conviver com eles, de estar perto deles, recebi mais um presente inestimável, que foi o de relembrar a magia que existe nas coisas simples e comuns de nossas vidas.

Fomos um dia passear num aquário maravilhoso que existe no Atlantis, um hotel portentoso no alto do Palm Jumeirah, uma das ilhas artificiais que completam o cenário de mil e uma noites do emirado. Eu e todos os demais visitantes ficamos extasiados com as centenas de espécies de peixes, com todo o cenário submarino montado para recriar as profundezas do oceano, com a iluminação cinematográfica, enfim, com todos os efeitos especiais projetados para embasbacar os adultos.

Parecia mesmo que você estava visitando… as ruínas da Atlântida!

Meu neto Benjamin tinha dois anos e estava correndo por todo o espaço, esmagando o nariz nos vidros que nos separam dos tubarões e das arraias. Em dado momento, ele subiu em um degrau para ver melhor uma das exibições, centenas de peixinhos coloridos entrando e saindo de um verdadeiro castelo de corais, e no meio deles uma enorme família de peixes-palhaços.

Minha filha exclamou:

– Olha, Ben, o Nemo!

Ele tinha um Nemo gigantesco de pelúcia no quarto, e já assistira umas duzentas vezes o desenho-animado da Pixar, então minha filha tinha esperança de que ele se encantasse ao ver um Nemo de verdade.

Não que ele não tenha ficado interessado pelos peixinhos, mas o que verdadeiramente chamou sua atenção foi o jato de água que vinha de cima, de tempos em tempos, renovando a água do aquário  iluminado pela luz do sol que entrava por uma abertura lá no alto.

O jato fabricava milhares de bolhas que reluziam com o brilho do sol e revolviam na água, descendo rapidamente até o fundo e depois subindo pelo meio dos peixinhos e desaparecendo na superfície do tanque. Os olhos do menino estavam arregalados, as mãos espalmadas no vidro e a respiração suspensa, enquanto observava a dança das bolhas de ar. Os peixinhos continuavam nadando ao fundo, mas ele parecia não vê-los, sua atenção estava totalmente absorvida por aquela nuvem de bolhas que se espalhava na água.

Quantas vezes, me perguntei naquele momento, eu dediquei minha atenção a alguma tarefa tão completamente? Com que frequência eu desacelero e procuro redescobrir a maravilha que se esconde nas coisas mais simples da vida… Abrir uma garrafa, lavar as mãos, assistir as bolhas formadas pelo jato de água num aquário?

Havia um estado de graça naquele momento, e imediatamente  eu soube que tinha recebido outro presente.

O tempo tinha parado por alguns segundos para que eu pudesse ver e recordar o que aquele menino ainda não esquecera, por causa das ocupações de uma vida corrida: tudo vale a nossa máxima atenção. Lavar a louça suja, ir ao mercado, fazer a lição, cozinhar o feijão, escovar os dentes, assistir um filme, ler um livro, passear com o cachorro, ouvir uma música… Ou simplesmente ficar parado, observando os passarinhos.

Não há uma coisa ou uma tarefa desimportante. Por mais chata e aborrecida que as coisas possam ser, por mais simples que possam parecer, sempre há uma magia oculta em todas elas, como naquela dança das bolhas coloridas no aquário…

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