O Primeiro Grande Case de Merchandising do Brasil

Imagine o Brasil dos anos 1960 descobrindo o Rock: isso foi a Jovem Guarda.
Liderado por Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa, o movimento foi a primeira grande explosão de cultura pop adolescente no país. Se você visse um carango bacana na rua ou um look com jaqueta de couro, era sinal de que o papo era barra limpa. Misturando guitarras elétricas e muita “rebeldia comportada”😉 , os ídolos ditaram o que os jovens ouviam e vestiam. Ter um papo firme com a galera era regra, e quem não acompanhava o ritmo não entendia que aquela revolução musical era, literalmente, uma brasa, mora?
TRADUÇÃO:
- Carango: substitui “carro”.
- Barra limpa: passa a ideia de algo legal/tranquilo.
- Papo firme: indica algo sério ou autêntico.
- Uma brasa, mora?: o fechamento clássico, que significa “algo incrível, entende?”.
“Quero que Vá tudo pro Inferno” foi o hino de 1966.
Mas o sucesso da Jovem Guarda não ficou restrito apenas ao programa de TV (na Record, que era a TV Globo da época) aos discos e aos rádios (como ainda não existia Spotify, a moçada ouvia os sucessos nas rádios, mesmo).

Muito antes da era dos influenciadores digitais, o Brasil viveu uma revolução de marketing liderada pelo publicitário Carlito Maia. Ele transformou esses ídolos em marcas de consumo, criando o que muitos consideram o primeiro grande “case” de merchandising do país.
O Legado de Walt Disney e a Inspiração Global
Para entender esse fenômeno, precisamos olhar para Walt Disney. Nos anos 1930, Disney percebeu que o público queria levar o Mickey Mouse para casa. Ao licenciar o famoso relógio do Mickey em 1933, ele salvou o fabricante da falência e provou que o personagem era maior que apenas os desenhos animados.

primeiro dia, na Macy’s!
Três décadas depois, os Beatles repetiram esse sucesso brutal com a “Beatlemania“, inundando o mercado com perucas, botas, brinquedos e acessórios.

Foi bebendo dessa fonte internacional que Carlito Maia adaptou a estratégia para a realidade brasileira.
O Nascimento das Marcas: Calhambeque, Tremendão e Ternurinha
Trabalhando com a imagem de Roberto Carlos, Erasmo e Wanderléa, Carlito Maia criou marcas que viraram febre nacional:
- Calhambeque: Inspirada em um dos maiores hits de Roberto Carlos, a marca aproveitava a imagem do ídolo para vender desde roupas até itens de uso pessoal, consolidando-o como o maior modelo de conduta para os jovens.
A criançada era maluca pelos produtos com a imagem do calhambeque, do RC e, se tivesse o disco, era melhor ainda. Eu mesmo tive um desses, 😁! Em 1965, a caneta Sheaffer fez uma ação promocional que ficou famosa: na compra de uma caneta, a pessoa recebia um flexi disc (um disco de papelão ou plástico flexível) com o sucesso “O Calhambeque”! O disquinho era colado em um cartão de papelão com a imagem do cantor e podia ser tocado em vitrolas comuns da época… como eu precisava de uma caneta, pedi o dinheiro ao meu pai e comprei!

Roberto Carlos virou modelo de sua marca Calhambeque…


As outras duas marcas de sucesso da Jovem Guarda foram:
- Tremendão: O apelido de Erasmo Carlos virou sinônimo de moda jovem masculina, com foco em botas e jaquetas.
- Ternurinha: A marca associada à Wanderléa ditava o comportamento e o vestuário das jovens da época. Ela popularizou saias bem curtas, cerca de “quatro dedos abaixo do quadril”, algo escandaloso demais para a época e que cutucava as mulheres da geração anterior.

Por que esse Merchandising foi Revolucionário?
Diferente de modelos anteriores, a Jovem Guarda vendia um estilo de vida. Pela primeira vez no Brasil, houve uma integração perfeita entre a TV, o cinema e as prateleiras das lojas. Os fãs não queriam apenas ouvir a música; eles queriam usar as roupas e os anéis de seus ídolos.
E os jovens brasileiros tiveram produtos criados especificamente para eles, permitindo que se diferenciassem da moda dos adultos através do uso de roupas e acessórios associados aos seus ídolos. Empresas como a Staroup e a Confecções Camelo lançaram coleções oficiais que se esgotavam rapidamente.
O merchandising da Jovem Guarda representou o nascimento do mercado de consumo juvenil no Brasil, sendo o primeiro movimento a transformar ídolos musicais em marcas licenciadas de sucesso em massa. Ele profissionalizou a relação entre mídia e varejo, provando que era possível vender não apenas discos, mas um estilo de vida completo — da roupa ao comportamento — criando um modelo de negócio que moldaria a publicidade e o entretenimento brasileiro nas décadas seguintes.
BÔNUS
Veja algumas imagens de anúncios e capas de revistas da época:










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