Cartas Ao Meu Livro Que Não Foi Escrito

Meu livro não escrito implorou que eu lesse estas cartas para ele.

Por Clene Salles

Querido livro,

Não sei em que momento você começou; nem me lembro como, quando, onde, e o motivo que eu quis que você exista… 

Talvez tenha sido numa lembrança que nunca se dissolveu por completo, numa cena da vida que ficou girando por dentro. Houve a tentativa de encontrar paz para isso, mas não consegui. Talvez numa frase ouvida ao acaso, dessas que parecem pequenas por fora, mas abrem um vão (cheio de micro explicações) por dentro de quem escuta, no caso, eu mesma; até rabisquei alguns post-its. 

Só sei que você existe antes da página.

Existe no que retorna, insiste, no que não se acomoda. Como uma experiência sem arquitetura, quase num bordado fantasmagórico. Não tem forma estável, não tem começo definido, mas já espírito, já chama, já pede algum tipo de conexão, porque quer enviar sua mensagem.

Durante muito tempo, eu achei que precisava compreender você inteiro antes de começar. Hoje suspeito que não. Talvez seja justamente o contrário: talvez eu só venha a entender você quando aceitar o risco de tocar sua/minha matéria imperfeita.

Você ainda não foi escrito, mas já modificou a minha maneira de olhar.

Olho para a página em branco, e só suspiro. 

✦ ✦ ✦

Querido livro,

Preciso lhe confessar uma coisa: eu o adiei mais vezes do que gostaria de admitir.

Nem sempre por falta de tempo. Nem sempre por cansaço. Muitas vezes, por receio. Um medo mais teatral do que parece. Tenho vergonha de não conseguir fazer justiça ao que sinto quando penso em você.

Há ideias que, dentro de nós, parecem vastas. Será que você me entende? Respiram de um jeito próprio, como se tivessem espessura, relevo, temperatura. Então vem o susto: e se, ao passarem para a linguagem, perderem grandeza ou a relevância? E se aquilo que em mim parece vivo demais, no papel parecer estreito, opaco, insuficiente?

Talvez eu tenha confundido cuidado com recuo.

Quem sabe, eu tenha chamado de prudência aquilo que, no fundo, era o velho temor de me ver em voz alta.

Você esperou muito por causa disso.

Por favor, não cerre tanto, dessa forma aí, as suas sobrancelhas para mim. Não é só você que está indignado, irritado… 

✦ ✦ ✦

Querido livro,

Houve noites em que quase comecei.

O caderno aberto. O cursor aceso. A inspiração parece estar tão longe… 

A primeira frase andando pelo quarto antes de chegar à mão. Às vezes, eu me sentava diante da possibilidade com uma seriedade quase solene, como se o instante exigisse alguma espécie de pureza que a vida real nunca oferece. O que eu disse, espere aí. Melhor, o foi mesmo o que eu escrevi? Pureza? E os tão aclamados personagens cinzentos, vilões… como são construídos?

Bastavam poucos minutos até a dúvida entrar. E se não for isso? E se já tiver sido dito melhor? E se eu estiver exagerando a importância deste texto, matéria, ensaio, ou sei lá eu? E se não houver sustância suficiente para sustentar tantas páginas?

É curioso como a mente sabe sabotar com voz de uma pseudo lucidez. 

Ela nem sempre passa do limite no tom da voz. Muitas vezes, fala baixo, com aparência de argumento sensato. Faz-se passar por critério, por maturidade, por exigência estética. E assim o que era impulso vira suspensão, o que era início volta a ser espera.

Você conhece esse movimento. Eu também.

✦ ✦ ✦

Querido livro,

Durante muito tempo, tratei você como se dependesse de uma estação ideal da vida.

Uma fase mais limpa, mais organizada, menos interrompida. Um intervalo em que o mundo finalmente me deixaria em paz o bastante para eu lhe oferecer atenção inteira. Esperei por dias mais largos, por menos ruído, por uma espécie de margem que nunca chegava.

Agora começo a perceber uma coisa incômoda: a vida não funciona dessa maneira.

Ela não se arruma para receber um livro. Ela segue com seus atrasos, suas urgências, seus desvios, suas contas, suas fadigas, seus pequenos desastres domésticos e emocionais. Se eu for esperar uma calmaria absoluta, talvez o que amadureça não seja o texto, mas o silêncio. Hum… Até pensei agora em escrever um ensaio sobre a maturidade do silêncio: que tal escrever sobre uma anciã com seu xale, com sua xícara de chá fumegante de alecrim, se aquecendo com suas pantufas de coelhinho, falando do inexorável que é o tempo? Pronto, comecei de novo…

Possivelmente escrever seja menos um acontecimento ideal e mais um gesto de insistência. Algo que se faz entre frestas, sem triunfalismo, sem cenário perfeito. Vamos lá, livro, me ajude a escrever as não-perfeiçoes da vida…

Você não precise de uma vida pronta, apenas precise que eu pare de usá-la como desculpa. Até eu já estou cansada de desculpas, imagine você!

Ah… Quero te contar algo, meu querido Livro Que Não Foi Escrito… Deixei de usar post-it e bloco de anotações e comecei a anotar as ideias num caderno 14×21 (fica mais fácil para levar na mochila, bolsa), além disso é espiral – daí eu encaixo a caneta. 

Bem, daqui em diante, meus amigos e amigas, vocês devem continuar a ler no blog da Clene!

Porque lá, além da continuação desse texto maravilhoso, há muitos outros temas e dicas interessantíssimos!

Seu livro existe, mesmo que ainda não tenha páginas

Se estas cartas tocaram alguma parte do que você vem adiando, talvez seja hora de dar forma ao que está no rascunho.

Entre em contato para saber mais sobre a Mentoria Literária para Escritores/as Iniciantes.

Olá, eu sou Clene Salles, Ghost Writer, Copydesk, Tradutora

Eu Ajudo Você A Escrever O Seu Livro

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E-mail: clenesalles@gmail.com

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SOBRE O AUTOR

Júlio A. Filho, escritor brasileiro de literatura infanto-juvenil, fantasia e não-ficção. Seu mote é simples: “contar histórias é quem eu sou”.

Autor da série infantil “O Outro Lado dos Bichos”, que reinventa o olhar sobre os animais com humor e imaginação, e também do livro “Riquezas do Brasil”, que apresenta de forma acessível e encantadora os patrimônios culturais e naturais do nosso país reconhecidos pela UNESCO.

Lançou também “Onde a Verdade se Esconde” e “Terra Líquida”.

São histórias que exploram o silêncio, o poder e as consequências das escolhas.

São livros que transitam entre o suspense e o mistério (“Onde a Verdade se Esconde”) e a ficção científica ( “Terra Líquida”), onde os personagens estão diante de dilemas morais, segredos difíceis de encarar e sociedades que revelam seus verdadeiros limites em momentos de crise.