Codex Gigas

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Os Mistérios da “Bíblia do Diabo”

O Codex Gigas, conhecido também como a “Bíblia do Diabo“, é um dos manuscritos medievais mais fascinantes e enigmáticos da história. Seu tamanho, o conteúdo diversificado e as lendas que o cercam tornaram essa “Bíblia” um objeto de estudo e curiosidade contínuos. Pra saber mais, continue lendo!

Origem e História

Escrito no início do século XIII, entre os anos de 1204 e 1230, o Codex Gigas teve sua origem no mosteiro beneditino de Podlažice, localizado na Boêmia, região que hoje faz parte da República Tcheca . A autoria é atribuída a um único monge, conhecido como “Herman, o Recluso” (Hermanus Inclusus), um título que sugere uma vida de isolamento e dedicada à criação desta obra monumental.

A trajetória do Codex Gigas ao longo dos séculos é tão rica quanto sua própria história. Inicialmente, devido a dificuldades financeiras do mosteiro de Podlažice, o manuscrito foi penhorado aos monges Cistercienses de Sedlec por volta de 1245. Em 1295, foi readquirido e levado para o mosteiro de Břevnov. De 1477 a 1593, ficou na biblioteca de um mosteiro em Broumov, até ser transferido para Praga em 1594, onde se tornou parte da coleção do Imperador Rodolfo II .

Um dos momentos mais dramáticos de sua história ocorreu em 1648, no final da Guerra dos Trinta Anos, quando a coleção de Rodolfo II foi saqueada pelo exército sueco. O Codex Gigas foi levado para a Suécia, onde permaneceu na Biblioteca Nacional em Estocolmo durante 359 anos! Em 2007, o manuscrito retornou a Praga por empréstimo, sendo exibido na Biblioteca Nacional Tcheca durante um ano. Atualmente, está de volta à Biblioteca Nacional da Suécia.

Características Físicas

O Codex Gigas é, sem dúvida, o maior manuscrito medieval existente. Suas dimensões são impressionantes: 92 centímetros de altura, 50 centímetros de largura e 22 centímetros de espessura. O peso total do livro é de aproximadamente 75 quilos!

O manuscrito é composto por 310 folhas de velino, um tipo de pergaminho feito de pele de animal. Estima-se que, para fazer essas folhas, usou-se a pele de cerca de 160 animais, provavelmente bezerros ou vitelos. Há indícios de que algumas páginas foram removidas da versão original, e não se sabe o que essas páginas perdidas continham.

Conteúdo Diversificado

O conteúdo do Codex Gigas é uma verdadeira enciclopédia do conhecimento medieval. A parte que mais se destaca é a versão completa da Vulgata Latina* da Bíblia. Mas, além de outros textos bíblicos, o Codex contém uma série de escritos variados, como, por exemplo:

Etymologiae, de Isidoro de Sevilha: uma compilação do conhecimento da Antiguidade e do início da Idade Média.

Antiguidades Judaicas e Guerras dos Judeus, de Flávio Josefo: são obras históricas que detalham a história do povo judeu.

Chronica Boemorum (Crônica dos Boêmios), de Cosmas de Praga: é uma crônica que narra a história da Boêmia.

Tratados Médicos: diversos textos sobre práticas e conhecimentos medicinais da época.

Textos Menores: são diversos alfabetos, orações, fórmulas de exorcismo, um calendário com datas de celebração de santos locais e registros de eventos relevantes, além de uma lista de nomes (acredita-se que sejam de benfeitores e monges do mosteiro de Podlažice) .

Todo o manuscrito é escrito em latim e apresenta uma incrível uniformidade na caligrafia, o que levou muita gente a espalhar que foi escrito em um dia apenas. No entanto, os especialistas modernos estimam que a obra teria levado entre 20 e 30 anos para ser concluída por um único escriba, considerando o tempo necessário para a preparação do velino, a escrita em si e a criação das iluminuras .

A Lenda da “Bíblia do Diabo”

A lenda mais famosa é a de sua criação. Conta-se que o monge foi condenado a ser emparedado vivo por ter seus muitos pecados revelados. Para escapar desse destino terrível, ele convenceu seus superiores a oferecer a ele uma segunda chance, prometendo que escreveria, em uma só noite, um livro que reunisse todo o conhecimento humano.

Os outros monges concordaram e o infrator começou a escrever o livro. Vendo que seria impossível completá-lo, ele começou a rezar – não para Deus, mas sim para Lúcifer. O diabo ouviu as suas preces e, com um estalar de dedos, o livro estava pronto. Em agradecimento, o monge teria entregado sua alma e desenhado o demônio. Outras versões da história contam que o próprio demo teria feito o desenho.

Embora essa lenda seja bastante difundida e tenha dado ao Codex seu apelido sinistro, a interpretação histórica sugere uma realidade diferente. A palavra latina “Inclusus”, que aparece em uma dedicatória no final do livro (“Hermanus Inclusus“), provavelmente se refere a um monge que se dedicou à reclusão voluntária para penitência e trabalho, e não a uma condenação por emparedamento. A Inquisição, inclusive, nunca proibiu o Codex, e ele foi estudado por diversos acadêmicos ao longo dos séculos .

O Retrato do Diabo

Mas um dos elementos mais icônicos do Codex Gigas é a impressionante ilustração do Diabo, que ocupa uma página inteira (página 577). A figura, com cerca de 50 centímetros de altura, retrata o Diabo sozinho, em uma pose agachada, com chifres, garras e uma expressão ameaçadora.

As páginas que antecedem o retrato do Diabo são mais escuras e os caracteres nelas estão mais apagados do que no restante do manuscrito. Isso se deve à natureza do velino, que escurece com a exposição à luz. Ao longo dos séculos, a curiosidade em ver a famosa imagem do Diabo levou a uma maior exposição dessas páginas, por isso elas são mais escuras .



*A Vulgata Latina é a tradução da Bíblia para o latim, realizada por São Jerônimo no século IV, e que se tornou a versão padrão e mais influente da Escritura para a Igreja Católica por séculos, sendo conhecida pela sua linguagem popular (“vulgar”), acessível ao povo comum, e autenticada pelo Concílio de Trento. Ela é fundamental por ser a primeira a traduzir o Antigo Testamento diretamente do hebraico e do grego, consolidando o texto bíblico para o Ocidente

Codex Gigas – Wikipédia

Codex Gigas A «Bíblia do Diabo – Patrimonio Ediciones

UOL

Códex Gigas | Meer

The Enigmatic Legacy of the Codex Gigas: Unveiling the Devil’s Bible – Medium

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