A última vez que Walt Disney apareceu na telinha

Walt Disney faleceu em 15 de dezembro de 1966, mas continuou ativo e trabalhando até o final.

Em outubro daquele ano, Disney gravou uma chamada para o filme que iria estrear em breve, “Follow Me, Boys!” (Nunca é Tarde Para Amar, no Brasil), com Fred MacMurray e um jovem ator de 15 anos que Walt previa que faria muito sucesso no futuro, Kurt Russell.

Russell com Chris Pratt em cena de “Guardiões da Galáxia – Vol. 2”

Nessa chamada, cujo título seria “An Evening with Walt Disney” e que nunca foi ao ar por conta da trágica notícia da morte de Walt, duas semanas depois da estreia nacional do filme, ele explica que não poderia estar presente na première no Radio City Music Hall, em Nova York, porque estava em meio às filmagens de “Blackbeard’s Ghost” (O Fantasma de Barba Negra, no Brasil) e que estrearia apenas dois anos depois.

Ele continua, falando bastante sobre um filme musical que estrearia em julho de 1967, estrelado por seu ator favorito, Fred MacMurray, e destaca uma das canções – que não aparece no segmento que mostro a vocês. Walt devia gostar muito desse “The Happiest Millionaire”, ou Quando o Coração Não Envelhece, porque sorri várias vezes durante sua explicação.

Veja a última vez que Walt apareceu diante de uma câmera.

Como eu disse no início, Walt se manteve em atividade até o final, honrando a fama de workaholic que tinha.  Além dos filmes que ele menciona no vídeo, estava trabalhando na produção de “The Love Bug” ( Se Meu Fusca Falasse) que foi o último longa live-action que ele aprovou.

Ao mesmo tempo, estava envolvido em dois longa-metragens de animação e que foram também suas últimas participações em produções de seu estúdio. “The Jungle Book” (Mogli, o Menino-Lobo), lançado em 1967 e que foi um enorme sucesso de crítica e de bilheteria.

E “The Aristocats” (Os Aristogatas), produzido em 1968 e lançado em 1970, uma mistura de A Dama e o Vagabundo e 101 Dálmatas, só que com gatos em vez de cachorros. Por ocasião de sua morte, Walt estava supervisionando o roteiro e a criação dos personagens.

Mas não era só com o cinema ou a TV que Walt se envolvia. Nos meses que antecederam sua morte, ele fazia contínuas reuniões com sua equipe da Disneylândia, avaliando as novas atrações e colocando suas ideias.

E já estava supervisionando sua mais ambiciosa empreitada, a criação do Walt Disney World, inaugurado só em 1971.

Abrangendo mais de 11.000 hectares, tem hoje quatro parques temáticos, dois parques aquáticos, vinte e sete resorts temáticos, dois spas e centros de ginástica, cinco campos de golfe e outros locais de lazer, esporte, compras e entretenimento. Magic Kingdom foi o primeiro parque do complexo, seguido de EPCOT, Disney’s Hollywood Studios e Disney’s Animal Kingdom, abertos entre as décadas de 1980 e 1990.

Walt queria complementar o parque que ele tinha na Califórnia, inaugurado em 1955. Além de hotéis e um parque temático similar à Disneylândia, os planos originais de Disney incluíam um “Protótipo Experimental da Comunidade do Amanhã”, o EPCOT, uma cidade planejada que serviria como um laboratório de experiências para inovações para a vida nas metrópoles. Mas, no final, o EPCOT não saiu exatamente como ele sonhara.

Lendas e fatos

Walt tinha a reputação de ser um visionário e várias lendas surgiram depois de sua morte, de que teria formulado planos de longo alcance para depois que partisse: como ser congelado para que ele pudesse ser revivido quando a ciência encontrasse a cura para a doença que o matou; ou que teria criado uma lista de filmes que nunca deveriam ser lançados em vídeos caseiros; ou que teria preparado um filme para ser assistido por seus executivos sobre como administrar a empresa em sua ausência…

A realidade, no entanto, é que todas essas lendas não têm a ver com a personalidade de Walt Disney, que deixou os aspectos comerciais da administração da empresa para seu irmão Roy e não deu muita importância ao que aconteceria depois de sua morte.

Legends Plaza, nos estúdios Disney em Burbank.

Embora Walt fosse sempre a força motriz por trás dos esforços criativos da Disney, na época de sua morte ele estava pensando principalmente em dois grandes projetos que iam além das telinhas ou telonas. Além do já mencionado EPCOT, ele ainda reservava um tempo para avaliar a mais nova atração da Disneylândia, “Piratas do Caribe”. E seu mais recente sonho era a criação de um resort de inverno no Mineral King Valley, na Califórnia, perto do Parque Nacional da Sequoia (um projeto que acabou sendo descartado devido à oposição de grupos ambientalistas).

Walt simplesmente não tinha nem o tempo e nem a inclinação para fazer planos para os caminhos que sua empresa deveria seguir depois de sua morte. Não gostava de falar sobre a morte – nem comparecia a funerais! – e muito menos sobre a sua. Tanto que não fez nenhum esforço para selecionar ou preparar um sucessor!

Seu falecimento pegou a empresa de surpresa, porque nem ele nem ninguém fez qualquer preparação para isso, mesmo quando Walt soube que estava com câncer. Nem o irmão de Walt, Roy, sabia o que ele estava fazendo, porque, como escreveu o biógrafo Bob Thomas: “Walt não queria que ninguém, inclusive seu irmão mais velho, xeretasse em seus projetos futuros”.

A realidade é a melhor resposta a essas lendas todas: a Walt Disney Productions afundou por muitos anos após a morte de Walt (a ponto de quase se tornar vítima de uma aquisição hostil no início dos anos 1980) precisamente porque ninguém sabia o que ele teria feito, e simplesmente reciclaram as mesmas ideias em vez de embarcar em novos esforços criativos.

O estúdio produziu uma série de animações ruins, como Oliver e sua Turma ou Robin Hood, e comédias sem graça como O Fusca Enamorado.

Temos que perguntar: se Walt estava de fato orientando seu estúdio do além-túmulo por meio de vídeos gravados antes de sua morte, por que eles passaram tantos anos acumulando fracassos em todos os segmentos? Até mesmo o fantasma dele poderia ter feito melhor do que isso…

Na verdade, foi Roy Disney quem reuniu executivos da companhia uma semana após a morte de seu irmão Walt para discutir o futuro da empresa e que continuou trabalhando bem após a aposentadoria, para ver a primeira fase do Walt Disney World ser inaugurada.

E o filho de Roy, Roy E. Disney – falecido em 2009 – , foi uma das forças orientadoras por trás da revitalização do grupo, que começou com a contratação de Michael Eisner como CEO e Frank Wells como presidente da Walt Disney Productions em 1984.

Foi dessa gestão criativa e inovadora que surgiram A Pequena Sereia, A Bela e a Fera, Pocahontas, O Rei Leão ou Toy Story, e filmes interessantes e divertidos como Rocketeer, Querida, Encolhi as Crianças, George o Rei da Floresta ou Duelo de Titãs.

É deles todo o crédito pelo renascimento da Disney e por plantarem as sementes que germinaram no sucesso contínuo até os dias de hoje.

Roy Disney, sobrinho de Walt
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Por que os personagens da Disney não têm pais?

Eu trabalhei na Editora Abril durante muitos anos, primeiro escrevendo histórias em quadrinhos com os personagens de Walt Disney, e mais tarde como diretor editorial dos gibis, além de livros e revistas de colorir – não só com os personagens Disney.

Durante todo esse tempo, as pessoas sempre me perguntavam o motivo do Huguinho, Zezinho e Luisinho não terem pais, vivendo sempre com seu tio Donald. Ou, indo mais fundo, qual seriao motivo dos personagens que aparecem nos filmes também não terem mães ou pais?

O que eu respondia segue abaixo, mas aqui de forma mais elaborada e aprofundada, porque na ocasião o tempo sempre se mostrava muito curto para que eu pudesse me alongar.

Em primeiro lugar, não foi Walt Disney quem criou esse conceito de deixar os pais ausentes em suas histórias. Esse é um recurso literário muito utilizado nas obras voltadas às crianças e jovens, e é muito evidente já nos contos dos irmãos Grimm. A ausência dos pais permite que os personagens sejam aventureiros, libertando-os do controle da mãe (ou do pai). Afinal, que pai deixaria que os filhos saíssem pelo mundo correndo riscos?

Além disso, é possível perceber que esses personagens “órfãos” amadurecem mais rapidamente, justamente por não existir uma figura de pai ou mãe que o proteja. O sucesso literário mais recente, e que confirma essa regra, é Harry Potter…

Já nos contos de Grimm os pais e as mães quase não apareciam.

Essa “ferramenta”, digamos assim, dá excelentes oportunidades de roteiros. Porque a ausência de pais não significa, necessariamente, que eles estejam mortos, mas apenas que são irrelevantes naquela história que se pretende contar – e eles podem surgir em novas histórias. Há também o contrário: é justamente a ausência de um pai que pode ser o mote da transformação e amadurecimento do personagem, que citei antes. Por exemplo, em “O Rei Leão” é a morte do pai de Simba que muda tudo, levando o vilão ao trono e obrigando o herói a enfrentar esse trauma e reivindicar sua posição.

Especificamente em Disney, há uma outra boa razão para que pais e mães não apareçam com frequência. A maior parte das animações da Disney são adaptações de histórias antigas muito conhecidas, e que já no original não traziam os pais do herói:

Há ainda casos em que um dos pais aparecia e logo morria, como no já citado “Rei Leão”, ou em “Bambi”, que perde a mãe logo no começo da história.

Já em filmes como “Alice no País das Maravilhas”, não se sabe se os pais estão vivos ou mortos e eles nem são citados em nenhum momento… E isso não faz diferença nenhuma. E um exemplo que destoa de todos os outros é “Peter Pan”, no qual a família de Wendy aparece e ainda tem um papel importante na história.

Tudo bem, eu demonstrei que Disney não tem “nada contra pais e mães”, mas sei que as pessoas querem mesmo saber sobre os sobrinhos do Donald, porque acham estranho eles passarem a vida com o tio. Bem, segundo o que apareceu numa tira de jornal há muitos anos, a irmã (ou prima, essa parte é confusa) de Donald pede que Donald fique com os meninos durante algum tempo, porque o pai deles está no hospital por causa de uma brincadeira dos monstrinhos…

Existe até uma carta dela explicando os motivos desse pedido:

Bem, a irmã do Donald, pelo jeito, resolveu deixar os meninos lá por tempo indefinido… O que deu origem a todo um universo ligado ao Donald, e daí surgiram personagens inesquecíveis: Tio Patinhas, Margarida, Gastão, Prof. Pardal, os Metralhas e etc etc etc.

Mais uma vez, a ideia de um personagem ter sobrinhos não é exclusividade Disney. O Pica-Pau tem, o Scooby-Doo, o Popeye. E o motivo é muito simples e de ordem prática. O personagem deve continuar solteiro, mas precisa de crianças para interagir e darem ideias para novos roteiros. E, se por acaso o sobrinho não agradar, é mais fácil sumir com ele do que com um filho!

Enfim, não existe nenhuma motivação satânica da Disney de querer acabar com a família, como pregam alguns sites malucos por aí. E nem existe verdade naquele mito bastante difundido de que a justificativa para a ausência de pais  – ou, mais especificamente, de mães – nas histórias envolve a própria mãe de Walt, Flora Disney.

É uma história trágica, de fato.

Elias e Flora Disney, pais de Walt

No final dos anos 1930, Walt Disney começava a percorrer seu caminho de sucesso.  Depois da grande bilheteria de “Branca de Neve”, ele e seu irmão Roy decidiram realizar o sonho de todo garoto pobre, dar uma casa aos pais, Flora e Elias.  E compraram uma bela residência perto do Estúdio Disney, em Burbank. Menos de um mês depois de se mudar, Flora queixou-se a Walt e Roy que a fornalha no porão, que aquecia a casa durante o rigoroso inverno, tinha problemas de funcionamento. Walt mandou funcionários do Estúdio para consertar, e tudo aparentemente tinha ficado bem.

Mas, infelizmente, o problema não fora devidamente corrigido. Na manhã do dia 26 de novembro de 1938, quando a governanta chegou para trabalhar, ela passou mal com o cheiro de gás na casa e abriu todas as portas e janelas. Na sequência, procurou os patrões e encontrou os pais de Walt desacordados. Elias havia encontrado a esposa no banheiro e, ao tentar carregá-la para fora, também desmaiou.

O socorro foi chamado. Elias e a governanta, chamada Alma Smith, foram internados com sinais de intoxicação, mas conseguiram sobreviver. Flora Disney, porém, já estava morta quando os paramédicos chegaram à residência.

Claro que Walt se sentiu mal por isso, embora nunca comentasse o assunto. As pessoas é que especulavam que ele se sentia culpado “por ter comprado a casa, por ter mandado seus funcionários consertar e acabaram fazendo um serviço mal feito, e que por tudo isso a ideia de ele ter contribuído para a morte da mãe o deixou com esse trauma e que é por isso que, nos filmes, ou a mãe não aparece ou morre logo no começo”.

Apesar de Walt não ter tido culpa desta inesperada tragédia, ele teria vivido assombrado pela culpa deste incidente e daí nas suas histórias haver sempre a morte do símbolo materno.

 

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Acho essa teoria tão sem sentido (quem a difundiu se esqueceu de todos os contos de fada adaptados por Disney, como citei acima…) quanto a de que Walt  teria pedido que congelassem seu corpo para ser descongelado no futuro. Segundo a própria filha, Diane, disse: “Meu pai nunca nem ouvira falar de criogenia”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fontes:

Wikipedia

megacurioso.com,br

nytimes.com

huffingtonpost.com

eonline.com

raopo.com.br

hopesandfears.com

thesun.co.uk

disneytheory.com

 

 

 

 

HOLLYWOOD CONTRA HITLER

Hitler não era o semianalfabeto que a propagada dos aliados fez o mundo acreditar. Ele era uma pessoa instruída e um leitor voraz. Segundo amigos, vivia sempre com um livro debaixo do braço e tinha pilhas de livros em casa.

Claro, quantidade não é e nunca foi sinônimo de qualidade, e é bem possível que ele tenha interpretado de forma errada os escritos do filósofo Arthur Schopenhauer, por exemplo, um de seus ícones. Mas o líder nazista era um sujeito educado e inteligente, isso não se pode negar. E aprendemos que líderes educados e inteligentes, e ainda carismáticos e donos de uma oratória convincente, podem provocar grandes mudanças.

Para o bem e para o mal.

Quando Hitler passou a usar maciçamente os então modernos meios de comunicação de massa, como rádio e cinema, para propagar a ideologia nazista, o mundo começou a perceber que ele poderia ser perigoso. Os filmes de propaganda, dirigidos pela cineasta preferida do Führer Leni Riefenstahl, eram extremamente bem feitos. Além de exaltar a figura de Hitler, a superioridade alemã e de sua raça Ariana, eles também a inseriram na história do cinema, com suas técnicas novas de enquadramento, ângulos de câmera, iluminação e nus.

No vídeo abaixo, alguns excertos do filme mais conhecido, O Triunfo da Vontade. Neles estão presentes as principais figuras do nazismo e todos os elementos da arte da propaganda do regime.

O famoso diretor americano Frank Capra percebeu o tremendo poder dessa brilhante peça de propaganda quando a assistiu, em 1943. Ele surpreendeu-se com o cinema produzido pelo Terceiro Reich.

Na sua opinião, o longa-metragem de Riefenstahl, mais do que a celebração do congresso do partido nazista na cidade de Nuremberg, em 1934, representava uma convocação sedutora à obediência e à agressão. “Estamos mortos. Acabados. Não podemos ganhar essa guerra”, declarou. Mas logo decidiu usar as mesmas armas e produziu sete documentários para as Forças Armadas americanas: “Vamos deixar os nossos jovens escutar os nazistas e japas gritarem as suas reivindicações de pertencimento a uma raça superior, e os nossos soldados vão saber por que eles estão em uniformes”, declarou o diretor. Why We Fight, o título da série, explicava por que a guerra contra a Alemanha, a Itália e o Japão era indispensável para a liberdade, usando inclusive trechos de “O Triunfo da Vontade”.

O trailer a seguir é do lançamento da série em DVD, em 2011:

Capra não esteve sozinho no combate ideológico ao nazifascismo. Ele e outros quatro realizadores de Hollywood formaram um grupo a serviço do governo dos EUA.  As razões alegadas por Capra, John Ford, John Huston, William Wyler e George Stevens para se alistar são usuais: o chamado do dever e o fascínio pela aventura.  

Capra foi o único dos realizadores a trabalhar para as Forças Armadas sem pisar em um campo de batalha. A atuação fora do front poupou-lhe danos físicos e psicológicos. Wyler, por exemplo, ficou praticamente surdo depois de filmar dentro de um bombardeiro. Huston voltou para os EUA com transtorno de estresse pós-traumático. Dirigiu Let There Be Light (1946), um documentário a respeito da “neurose da batalha” ou “aniquilação do espírito”. As Forças Armadas censuraram o filme por mais de 35 anos…

Stevens também se traumatizou. Em quase três décadas, o diretor de O Diário de Anne Frank (1959) calou-se sobre a sua experiência na liberação do campo de concentração de Dachau em 1945. Quando se pronunciou, ele citou A Divina Comédia. “Era como se vagasse por uma das visões infernais de Dante.” Enquanto desviava de cadáveres e de sobreviventes de corpos esqueléticos, Stevens filmou tudo o que testemunhava. O material serviu como prova contra os nazistas nos julgamentos de Nuremberg. 

Ford foi o primeiro dos cinco a se arriscar quando registrou o ataque aéreo dos japoneses ao Atol de Midway, no Oceano Pacífico. Enquanto filmava The Battle of Midway (1942), foi atingido por estilhaços. As imagens tremidas, a perspectiva distorcida e o foco turvo criaram um modelo mais realista, incorporado aos documentários de guerra que o sucederam. 

Five Came Back é o título que se deu a esses cinco documentários desses fabulosos diretores, e que mudaram a história do cinema.

Para demonstrar a tremenda influência da técnica desses diretores sobre os filmes posteriores, basta dizer que os primeiros 25 minutos de O Resgate do Soldado Ryan (1998), de Steven Spielberg, se devem às filmagens do Dia D dirigidas por Ford e Stevens. A estética de A Batalha de San Pietro, de John Huston, influenciou Platoon (1986), de Oliver Stone, e Guerra ao Terror (2009), de Kathryn Bigelow.

Mas a contrapropaganda produzida por Hollywood não se limitou aos documentários. Mesmo antes de os Estados Unidos entrarem oficialmente na guerra, a Warner Bros., um dos maiores estúdios da época, lançou em 1941 o filme antinazista estrelado por Gary Cooper, Sargento York, no qual um jovem pacifista abre mão de sua crença para matar e salvar outras vidas.

Os Estados Unidos ainda mantinham relações diplomáticas com a Alemanha, em 1940, e embora muitos militares e políticos pressionassem o presidente Roosevelt a abandonar sua neutralidade, a população era fortemente contra a entrada do país em mais uma guerra (isso só foi mudar em 1943, depois do ataque japonês a Pearl Harbor). Mas Charlie Chaplin não podia perder a oportunidade de ridicularizar o ditador alemão.

Aproveitando uma série de ataques por parte dos nazistas sobre sinagogas e lojas de judeus situadas na Alemanha, fato conhecido como a “Noite dos Cristais”, Chaplin produziu O Grande Ditador em 1940. O filme foi censurado em vários países, inclusive aqui no Brasil, e deixou Hitler furioso.

Hoje, é um clássico do cinema:

Mas Hollywood tinha outras armas em seu “exército”, e uma das mais poderosas foi Walt Disney. Disney teve seu estúdio “engajado” no esforço de guerra. Além de ver diversos de seus animadores convocados para lutar, se viu contratado pelas Forças Armadas para produzir filmes de treinamento e propaganda. Um dos mais celebrados produtos do front cultural do conflito foi o curta animado A Face do Führer, propaganda antifascista que venceu o Oscar de melhor curta de animação de 1943.

Na trama, Donald acorda na Alemanha Nazista, ao som de uma canção que exalta Adolf Hitler, num quarto cercado de suásticas. Logo de manhã, ele saúda Hitler, Hirohito e Mussolini.

Forçado a sair da cama, ele logo se veste com a indumentária nazista e toma seu terrível café da manhã. O pão, envelhecido, está tão duro que é preciso fatiá-lo com um serrote. Logo, Donald é obrigado a ler o livro Mein Kampf, escrito pelo Führer. Acuado, Donald é levado até a fábrica de armas, onde terá de trabalhar “48 horas por dia”, “como um escravo”, para Hitler. A cena na qual o pato tem de atarraxar bombas é uma clara alusão ao clássico Tempos Modernos, de Chaplin. Ao final, Donald felizmente acorda do que se revela ter sido um pesadelo. “Eu estou feliz por ser um cidadão dos Estados Unidos da América”, diz, ufanista.

Usar todas as suas armas foi a maneira que Hollywood encontrou para se contrapor á sofisticada máquina de propaganda nazista.

Mas a ofensiva dos Aliados não se limitou a isso. Quando foi preciso vencer essa guerra, a BBC teve uma ideia engenhosa: contar a verdade sem vernizes. A médio prazo, a sobriedade e o respeito aos fatos e à objetividade levaram a melhor sobre os discursos exaltados de Goebbels e Hitler.

Mas essa é uma história para uma outra vez…

“Branca de Neve” completa 80 anos: algumas histórias

O lançamento do longa de animação “Branca de Neve e os Sete Anões” completa 80 anos em 2017. A produção da Disney teve sua estreia no Carthay Circle Theatre, em Hollywood, em 21 de dezembro de 1937, seguido do seu lançamento em todo os Estados Unidos em janeiro. Como todo clássico, há muitas histórias sobre sua produção pioneira. Veja algumas delas…

Para financiar a produção de “Branca de Neve e os Sete Anões”, Walt Disney pegou vários empréstimos e hipotecou, inclusive, sua própria casa. Até sua mulher, Lillian, achava que a animação seria um completo fracasso. Além disso, seu irmão Roy Disney tentou convencê-lo a desistir do filme.

Dunga tinha sido originalmente criado para ser um tagarela, mas os produtores e o próprio Walt não conseguiram encontrar uma voz que ficasse adequada para o anão careca. Em vez de falar, Dunga, às vezes, choraminga, sendo ingênuo e frequentemente alvo de brincadeiras dos demais. Ele também é o único do sete anões que não tem barba.

“Loucura de Disney”: assim era chamada na época a produção de “Branca de Neve e os Sete Anões”. O orçamento inicial da animação era de US$ 250 mil, muito maior do que qualquer outra produção da Disney até então. No final, o gasto atingiu mais de US$ 1,4 milhão, uma quantia enorme hoje em dia, imagine para 1937! Após o filme ser um sucesso, Walt Disney usou os lucros para construir os estúdios da Disney em Burbank.

A estreia do filme, em 1937, contou com a presença de estrelas de Hollywood, como Cary Grant, Shirley Temple, Judy Garland, George Burns, Charlie Chaplin, Marlene Dietrich e Ginger Rogers. Na época, em entrevista ao jornal “Los Angeles Times”, Chaplin disse, ao se referir ao anão Dunga, que a “Disney havia criado um dos maiores comediantes de todos os tempos”.

“Branca de Neve e os Sete Anões” foi um dos primeiros 25 filmes escolhidos para ser preservado na Biblioteca do Congresso Americano, em 1989, pelo Registro Nacional de Filmes (National Film Registry). Em 2008, o Instituto Americano do Cinema o escolheu como o mais importante filme de animação de todos os tempos.

“Branca de Neve e os Sete Anões” foi o primeiro filme com uma trilha sonora oficial. A animação da Disney, que é baseada no conto de fadas “Branca de Neve”, dos Irmãos Grimm, concorreu ao Oscar de melhor trilha sonora na premiação de 1938. O longa foi também o primeiro filme totalmente animado a ser lançado pela Disney.

Uma versão inicial da história incluía uma cena em que a rainha Má capturava o príncipe e o mantinha preso em seu castelo. Outra cena que ficou fora da versão final era uma em que os anões apareciam tomando ruidosamente a sopa e, em seguida, Branca de Neve os ensinava a comer como cavalheiros.

A atriz e dubladora americana Adriana Caselotti recebeu US$ 970 pela dublagem de Branca de Neve, o que equivaleria hoje a cerca de US$ 20.000,00, ou pouco mais de R$ 60.000,00 à cotação do dia. Apenas para efeitos de comparação, um dublador/locutor profissional no Brasil, com muitos anos de experiência e bastante requisitado para comerciais, pode chegar a um salário de cerca de R$ 10.000,00. Walt Disney firmou um estrito contrato com Caselotti, impedindo que ela “emprestasse” sua voz a outras produções, com exceção de pequenas participações em “O Mágico de Oz” (1939) e “A Felicidade Não Se Compra” (1946). Ela continuou fazendo a voz de Branca de Neve em várias ocasiões, gravando aos 75 anos, inclusive, “I’m Wishing” para o poço de desejos na Disneylândia.

A dançarina, coreógrafa e atriz americana Marge Champion serviu de inspiração para que os animadores da Disney (seu então marido, Art Babbitt, era animador e supervisionou grande parte da filmagem de referência) criassem a heroína de “Branca de Neve e os Sete Anões”. Marge também serviu de referência para a criação da Fada Azul em “Pinóquio” (1940).

As vozes da Rainha Má e da Bruxa Velha foram dubladas pela mesma atriz: a americana Lucille LaVerne. Para que a Bruxa tivesse uma voz completamente diferente, Lucille removeu um implante dentário, para fazer a dublagem. La Verne morreu menos de uma década depois de dublar a Rainha Má e a Bruxa Velha. Ela faleceu aos 72 anos em 4 de março de 1945, na Califórnia.

 

 

 

 

Fonte:

UOL

Westworld e os parques temáticos mais incomuns!

Existe uma nova série da HBO que está começando a chamar a atenção de todo mundo. Não apenas pela aposta da emissora em elegê-la como a nova “Game of Thrones”, seja em termos de repercussão quanto de faturamento – e, por isso, só na primeira temporada, teriam investido mais de US$ 100 milhões! Mas também porque o assunto “parque temático” vem despertando a imaginação das pessoas.

Para quem não sabe do que estou falando, farei um breve resumo dessa nova série, chamada Westworld.

O enredo de Westworld fala de um parque temático futurístico para adultos, dedicado à diversão dos ricos. Um espaço que reproduz o Velho Oeste, povoado por androides programados pelo personagem de Anthony Hopkins (sim, ele mesmo, em sua estreia num seriado para a TV!) para acreditarem que são humanos e vivem no mundo real.

Lá, os clientes podem fazer o que quiserem, sem obedecer a regras ou leis. No entanto, quando uma atualização no sistema das máquinas dá errado, os seus comportamentos começam a sugerir uma nova ameaça, à medida que a consciência artificial dá origem à “evolução do pecado”.

O seriado é uma “releitura”, digamos assim, de um antigo sucesso do cinema de mesmo nome. Escrito e dirigido em 1973 por Michael Crichton (de Jurassic Park), mostrava um parque temático que simulava o Velho Oeste e onde os habitantes eram robôs. Nesse Westworld, a graça era duelar contra robôs. Yul Brynner fazia o papel de um desses robôs, o vilão principal, programado para perder sempre… Só que um dia, ele sofre um “tilt” e…

Devemos os parques temáticos como conhecemos a Walt Disney. Foi ele que, um dia, enquanto aguardava as filhas pequenas se divertirem no carrossel de um parque de diversões, se perguntou se um lugar desses não deveria privilegiar todas as idades. Dessa ideia surgiu, em 1955, a “Disneylândia”, considerado o pioneiro em alinhar temas específicos à diversão de todos, de crianças dos “8 ao 80 anos”.

O tempo passou e, como toda grande ideia, parques temáticos proliferaram por todas as partes do mundo. E não apenas para crianças. Assim como no Westworld da ficção, existem parques voltados para o público adulto – ou recomendados aos adultos – espalhados por aí. Ousados, bizarros, parece até que existe um mundo paralelo dos parques temáticos! Confira:

Jeju Loveland: um parque erótico

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Na real, ele é um parque de exposição permanente de esculturas eróticas localizado na Coreia do Sul. São 140 esculturas e algumas instalações interativas. Agora você se pergunta: como a ideia desse parque surgiu? As esculturas do parque começaram a ser criadas em 2002 por formandos de uma universidade da ilha de Jeju, inspirados pela fama da ilha. Que ganhou a vocação de centro de cultura sexual depois da guerra da Coreia, quando o local tornou-se destino preferencial para casais em lua-de-mel. Os casamentos de então eram arranjados e os casais sentiam-se constrangidos, pois não se conheciam ou tinham qualquer intimidade anterior. Por causa desse desconforto, alguns hotéis da ilha adotaram profissionais “quebradores de gelo”, facilitadores “pedagógicos” da relação conjugal. E a Loveland ganhou esse nome pois, aos poucos, tornou-se uma referência de educação sexual.

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O parque tem estátuas de tudo quanto é tipo. Posições sexuais das mais diversas e membros de todos os tamanhos e formatos. O mais próximo de uma atração que o visitante irá encontrar são as exposições interativas, como a do “ciclo da masturbação”. Não há outros brinquedos, shows ou paradas para curtir, como na Disney, o que torna a visita ao local relativamente rápida – cerca de 40 minutos, de acordo com o site oficial. Pelo menos a entrada é baratinha (em torno de 27 reais). Somente pessoas acima de 18 anos podem entrar no parque; há recreação e um playground para crianças aguardarem do lado de fora.

The World Butterfly Eco Garden

É até complicado falar sobre esse lugar, por ser controverso. Dividido em duas seções, The World Butterfly Eco Garden na China apresenta o maior jardim de borboletas do mundo. A outra seção, conhecida informalmente como o “Reino das Pessoas Pequenas”, é uma área do parque onde acontecem performances cômicas estreladas por… Pessoas com nanismo! Mais de 100 anões podem ser vistos nos cenários de casas em forma de cogumelo.

Essa comunidade, “supervisionada” por um imperador, imperatriz e um parlamento, foi criada em 2009, e todos os moradores se apresentam duas vezes ao dia cantando, dançando, ou mesmo realizando algum esporte ou acrobacia. O criador do parque e seus defensores afirmam que dão emprego – com bom salário – a pessoas que, de outra forma, seriam incapazes de encontrar trabalho. Quem critica acredita que estão tratando o nanismo como uma atração exótica e explorando as condições dos trabalhadores.

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The Holy Land Experience

Quando voltar a Orlando, em vez de visitar o Mickey ou o Harry Potter, passe uma tarde bíblica… Que tal? (aliás, não precisa ir tão longe para fazer isso… Em Buenos Aires há um parque temático similar…). Estou falando do The Holy Land Experience, que traz a arquitetura e temas da antiga cidade de Jerusalém no primeiro século. Quem visitou disse que é muito louco você poder tirar fotos de Jesus andando sobre a água ou escalar uma parede que é a arca de Noé…

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O parque recria todos os cenários da vida de Jesus conforme relatado na Bíblia. Há a tumba onde ele morreu, o Mar da Galileia com fontes dançantes e, claro, o momento mais aguardado da visita: a reconstituição diária da crucificação de Jesus Cristo, um show ao vivo de uma hora e meia de duração. Pertinho do complexo Walt Disney World Resort, o parque temático fica aberto quase todos os dias do ano e sua entrada custa quase a metade do vizinho.

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BonBon Land

Inaugurado em 1992, o BonBon Land é a versão trash da Disney. A cerca de duas horas de Copenhagen, na Dinamarca, sua temática gira em torno de personagens de desenhos animados. O que ocorre é que eles não são nada fofinhos e educados. Ao contrário, são estranhos e perturbadores, tudo por conta da inspiração em BonBon, empresa de doces na Dinamarca que faz doces com base em personagens estranhos.

Para dar uma ideia, seu doce mais popular é chamado de “Dog Fart”, ou “Peido de Cachorro”, e ele está presente no parque, adaptado em uma das quatro montanhas-russas. Mas a coisa não para por aí… Outras atrações trazem cavalos fazendo cocô, formigas urinando, ratos vomitando e muitos animais estilizados de maneira sexualizada.

É um parque temático completo com mais de trinta brinquedos, incluindo passeios de barco, splashs e elevadores de queda. É um sucesso de público e já foi expandido diversas vezes ao longo de sua história para ter mais novidades. Um dia no BonBon Land custa 75 reais por pessoa – e é gratuito para crianças pequenas.

 

Você vê, neste nosso mundo, há gosto para tudo, não é mesmo?

 

 

 

 

 

 

 

 

Fontes:

 

ligadoem serie.com.br

zupi.com.br

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A História da Menstruação contada pela Disney

A Segunda Guerra Mundial foi um período trágico no século XX. Não apenas por ter convulsionado a Ásia e a Europa e provocado milhões de vítimas, mas também por ter criado um período de grandes dificuldades econômicas para todo o planeta.

Os Estados Unidos só entraram diretamente na guerra em 1941, depois do ataque japonês em Pearl Harbor. Mas, antes disso, o país vinha apoiando os aliados, principalmente a Inglaterra, enviando armas, alimentos e munição por navio. Esse esforço de guerra, bastante ampliado mais tarde, canalizou os recursos do país para a produção de armamentos, navios e aviões, e treinamento dos soldados.

Isso, evidentemente, afetou as empresas americanas e a Walt Disney Productions foi uma delas. Além de ver o mercado europeu praticamente desaparecer, muitos dos animadores do estúdio foram convocados para as Forças Armadas. Um contrato exatamente com o governo acabou salvando a empresa. Por esse contrato, Disney deveria produzir centenas de horas de animação e milhares de desenhos e insígnias para todas as frentes do governo.

Afinal, os esforços de guerra eram válidos e aceitáveis. E todos sabiam que uma guerra de propaganda estava sendo travada em todos os fronts, portanto nenhuma oportunidade poderia ser dispensada para consolidar o moral do país.

A ilustração acima, para a edição de setembro de 1942 da revista Coronet, mostrava os personagens Disney na linha de frente, como milhares de outros nos campos de batalha da Europa e Ásia. O Donald, como marinheiro, simboliza que a caneta é agora igual à espada, enquanto outros personagens representam uma variedade de papéis em tempo de guerra: os porquinhos simbolizam o poder da indústria, Minnie é uma voluntária da Cruz Vermelha, Dunga compra bônus de guerra, Flor é membro do serviço de guerra química e Tambor é sinalizador do exército. O tigre voador e o esquadrão mosquito representam as mais de 1.200 insígnias criadas nos estúdios Disney.

Esse período fez com que Disney e seus criativos mergulhassem em temáticas até então distantes das produções costumeiras. Eles criaram projetos para o Departamento de Tesouro, incentivando a poupança. Campanhas de higiene e escovação de dentes, de doação de sangue, de racionalização dos alimentos (na época da guerra, além do petróleo, o país sofreu com racionamento de açúcar, café, carne, laticínios, etc etc) e muitas e muitas outras.

Depois da guerra,  Walt embarcava de novo em suas grandes produções para o cinema e começava a desenhar seu projeto mais ambicioso, a construção da Disneylândia, sonhando ao mesmo tempo em explorar aquela novidade que surgia, a televisão.

Os filmes-pacote produzidos até então, como “Alô Amigos” ou “Você já foi à Bahia” (acima), que consistiam de 3 ou 4 média-metragens de produção mais rápida e mais barata, e filmados ao mesmo tempo que as encomendas do governo, não davam muito lucro. E dinheiro era o que o estúdio mais precisava.

Aproveitando as competências aprendidas na produção dos curta-metragens, eles foram oferecer seus serviços para as grandes empresas, criando então filmes educativos sob encomenda e inaugurando, por assim dizer, essa prática que até então não era disseminada. Seriam o que hoje chamamos de “comerciais de TV”, só que mais compridos e exibidos nos cinemas, ou em projeções fechadas para públicos específicos.

Essa vertente não durou muito. Primeiro, porque Walt estava mais interessado em expandir a produção para o cinema, tanto em longa-metragens de animação (“Alice no País das Maravilhas”) quanto documentários e “live-actions” (ele começava a planejar “Vinte Mil Léguas Submarinas”). Segundo, porque vários animadores tinham saído dos estúdios para trabalhar na concorrência, alguns até fundando seu próprio estúdio, a UPA.

Mas alguns desses filmes sobreviveram ao tempo, como “A História da Menstruação”.

“The History of Menstruation” foi encomendado em 1946 pela Companhia Cello-Kotex International (atual Kimberly-Clark) e exibido para cerca de 105 milhões de estudantes americanos em aulas de educação sobre a higiene feminina. Ele foi considerado o primeiro filme a usar a palavra “vagina”.

Imagine que, naquele tempo, as pré-adolescentes não recebiam muita informação sobre sexualidade, o que poderia causar espanto em muitas delas quando a primeira menstruação chegava. O assunto ainda era um tabu para as mães.

O curta, de dez minutos, foi feito sob consultoria de um ginecologista, algo que aumentava a credibilidade da produção, e foi ainda distribuído com um livro chamado Very Personally Yours, que tinha informações sobre o assunto e anúncios sobre absorventes e coisas do gênero.

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O curioso é ver a visão bastante antiquada e recatada que se tinha sobre sexualidade, tanto que não há referências a sexo ou reprodução, apenas as questões comuns sobre o processo menstrual e higiene. Outro ponto curioso é notar que a narradora afirma que a menstruação não tem nada de misterioso e estranho… E o filme mostra mulheres em atividades “normais”, como cavalgando, tomando banho ou dançando durante o ciclo menstrual. Como não há referência a sexualidade, tudo é apresentado mais como um problema de higiene, tanto que a menstruação é branca, e não vermelha.

E, claro, como o projeto era patrocinado, nos anúncios do Kotex no livreto, as meninas eram desencorajadas a usar o absorvente interno, cujo mercado era dominado pelo Tampax, da concorrente Procter & Gamble.

Seja como for, o valor histórico e nostálgico de assistir a uma produção dessas da Disney é inquestionável.

Desfrute dessa experiência agora:

 

O nome do pato

Eu queria ter contado esta história há tempos, e só não o fiz antes porque me faltavam alguns dados históricos — que consegui agora graças a uma mãozinha de meu prezado tio Fábio, um colecionador de preciosidades. O assunto é sério — aquela eterna disputa, tão comum em multinacionais, entre os brasileiros com mania de mudar tudo e os globalizadores em geral (ou seja, qualquer executivo instalado acima da linha do Equador), que acreditam que um entendimento é sempre possível, desde que seja em inglês.

Onde está a verdade? Naquela mistura de bom senso e criatividade, duas coisas que vivem se atropelando quando o assunto é “o Brasil contra o mundo ou vice-versa”. Eu vivi uma situação dessas há dez anos, quando estávamos implantando um novo processo no Brasil e trombei de frente com um Boeing lotado de americanos e mexicanos. Eles se bandearam para cá só para ter a certeza de que nenhuma alteração seria feita, por mínima que fosse, e eu estava convencido de que, sem o jeitinho tupiniquim, nada daquilo iria funcionar. Após muitas e muitas horas de árduas e infrutíferas discussões, finalmente consegui encontrar um exemplo que eles entenderam: Walt Disney.


A história que eu contei para eles foi a seguinte: em 1950, quando os personagens de Disney chegaram ao Brasil, havia uma importante decisão a tomar — como eles se chamariam por aqui? Quase ninguém sabia falar inglês direito no país naquela época, especialmente as crianças, que eram o público-alvo das publicações. Num tempo em que nomes de artistas como John Wayne e Jerry Lewis eram pronunciados jon vâine e jérri lévis, seria prudente manter os nomes originais de personagens como Gyro Gearloose e Scrooge McDuck?

Outros países haviam tido essa mesma dificuldade antes do Brasil, e nem sempre as soluções haviam agradado às duas partes. Por isso, era preciso tomar cuidado para evitar o que ocorrera com personagens de outras editoras — como na Argentina, onde pruridos idiomáticos haviam feito com que o marinheiro Popeye fosse rebatizado de “Spaghetti” e Batman se tornasse “El Murciélago”. Podiam até ser nomes sugestivos, mas, como ponderavam os executivos da matriz — e muitos continuam ponderando com todo furor –, não adianta nada ganhar em apelo regional se, com isso, perde-se em algo muito mais importante: a força mundial de uma marca.

Victor Civita, fundador da Editora Abril, com as provas de uma das primeiras edições da revista "O Pato Donald".

Victor Civita, fundador da Editora Abril, com as provas de uma das primeiras edições da revista “O Pato Donald”.

O primeiro time de tradutores e redatores da então recém-criada Editora Abril adotou o que hoje seria chamado de “estratégia global regionalizada”. O passo inicial dos brasileiros foi garantir a benevolência da turma da Disney, e isso foi conseguido com a promessa de manter o nome original dos dois principais personagens. Assim, Mickey ficaria sendo Mickey e Donald ficaria sendo Donald (parece óbvio, mas, na Itália, Mickey já era Topolino e Donald era Paperino — e na Suécia Mickey havia virado Musse Pigg!).

Capa da "O Pato Donald" número 1, lançada em 1950.

Capa da “O Pato Donald” número 1, lançada em 1950.

E aí veio a aplicação prática das três regrinhas elementares da boa globalização:

1. Não mudar o que não precisa ser mudado
Pluto seria Pluto, porque já era um nome bom, pronunciável e sonoro.


2. Mudar o que obviamente precisa ser mudado
Gyro Gearloose se tornaria o Professor Pardal. Uncle Scrooge McDuck viraria Tio Patinhas e The Beagle Boys seriam os Irmãos Metralha. Mais do que caracterizar personagens, nos anos seguintes esses três nomes se tornariam sinônimos populares de gente que inventa o que não é preciso (Professor Pardal), de pão-duro (Tio Patinhas) e de gangues das mais variadas espécies (Irmãos Metralha).


Nacionalizar nomes é algo bem mais complexo do que aparenta ser. Gladstone Gander, o nosso “Gastão”, é Narciso Bello na Espanha, Panfilo Ganso no México e Gontrand Bonheur na França. Ou seja, “Gastão”, mais que uma tradução ou uma adaptação, é uma aula de simplicidade.

O mesmo ocorre com o Tio Patinhas, que na França se chama Oncle Balthazar Picsou, na Alemanha, Onkel Dagobert Duck, na Suécia, Farbror Joakim von Anka, e na Itália, Zio Paperon De Paperoni.

3. Mudar parcialmente o que pode ser sutilmente melhorado
Aí começam as sutilezas. Mickey Mouse não precisaria do “Mouse” no Brasil, onde “rato” é meio pejorativo e “camundongo” é muito longo, e por isso ficou só Mickey. Mas Donald Duck ficava melhor com o “Pato” antes do nome. E sua eterna namorada, Daisy Duck — Pata Margarida, em tradução literal –, soava melhor sem a “pata” e ficou só Margarida. Nada mais que a aplicação do bom senso.


Nas empresas, não é raro que os pioneiros que contribuíram com grandes ideias no passado sejam esquecidos depois de algum tempo. Felizmente, a história do desembarque bem-sucedido dos personagens da Disney no Brasil ficou documentada. Jerônimo Monteiro, o primeiro tradutor e redator da Editora Abril, batizou o Tio Patinhas e os sobrinhos de Donald, Huguinho, Zezinho e Luisinho — no original eles eram Huey, Dewey e Louie (e a filha pré-adolescente de Jerônimo Monteiro, Terezinha, foi quem sugeriu o nome “Irmãos Metralha”).

Depois de Jerônimo, viriam Alberto Maduar, criador dos nomes do Professor Pardal, do Lampadinha, do Gastão e da Maga Patalójika (que era Magica De Spell em inglês), e Álvaro de Moya — desde sempre, a pessoa que mais entende de história em quadrinhos no Brasil.

Lampadinha

Lampadinha

Maga Patalójika

Maga Patalójika

A tradição de acertar nomes de personagens teve seu último grande momento na década de 70, quando chegou ao Brasil o primeiro livro de Calvin & Hobbes, e o nome do tigre foi abrasileirado para “Haroldo”. É só olhar para ver que ele tem mesmo cara de Haroldo, e não de Hobbes. Mas personagens mais recentes — Beavis & Butthead, os Simpsons, a turma sádica de South Park ou Dilbert — mantiveram os nomes originais. Seria interessante saber como aquela gente talentosa, de achados antológicos como “Recruta Zero” e “Brucutu”, encontraria uma definição bem brasileira — e bem marota — para “Butthead”… coisa que jamais saberemos porque, ultimamente, a globalização virou rua de mão única. E isso só leplime a cliatividade, como ponderaria Hortelino Trocaletra. Digo, Elmer Fudd.

 

 

Max Gehringer é autor do livro Máximas e Mínimas da Comédia Corporativa

Correção – há uma informação errada no texto, no último parágrafo, observada pelo jornalista e expert em quadrinhos Marcelo Alencar. As tiras de Calvin & Hobbes começaram a ser publicadas em 1985, e não na década de 70.