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Relembre fatos marcantes dos 70 anos de TV no Brasil

A televisão surgiu em 1950 no Brasil, importando o que o rádio tinha de melhor. Nos anos 1970, ganhou transmissão em cores. E ao longo de 70 anos de história, lançou manias e paixões nacionais.

“Boa noite. Está no ar a televisão do Brasil!”

Garoto vestido como índio, o símbolo da TV Tupi e Lia de Aguiar e Dionisio Azevedo, em cena de ‘Sua vida me pertence’, primeira telenovela brasileira (1951). Esta produção em 15 capítulos, entretanto, era exibida apenas duas vezes por semana, e não de segunda à sexta-feira, formato usualmente adotado pelo gênero — Foto: Divulgação/Site do artista

Assim, uma logomarca com um pequeno índio anunciava a primeira transmissão brasileira, em 18 de setembro de 1950, pela TV Tupi.

O empresário e jornalista Assis Chateaubriand, fundador da Tupi, foi também o primeiro difusor dos aparelhos em um país que já tinha a tecnologia, mas carecia de famílias com recursos para comprá-los. E de aparelhos pra serem vendidos… Montes de pessoas se aglomeravam em padarias e outros lugares de São Paulo para assistir ao primeiro programa ao vivo, “TV na Taba”, na noite daquele 18 de setembro. O programa reuniu artistas que vinham do cinema e do rádio, mas se tornariam grandes símbolos da televisão, como Lima Duarte, Hebe Camargo, Lolita Rodrigues e Mazzaropi, e foi comandado por Homero Silva.

Essa primeira transmissão no País foi feita para apenas 200 aparelhos. Hoje, são mais de 100 milhões ligados em uma das maiores indústrias criativas do mundo.

Mas senta que lá vem história…

Um mês antes da inauguração, durante uma reunião, o engenheiro americano Walther Obermüller, responsável técnico, perguntou informalmente quantos aparelhos de TV havia no País. O pai da iniciativa,  Assis Chateaubriand, poderoso empresário, respondeu: nenhum.

Chatô tentou importar os aparelhos, mas pelo trâmite legal eles levariam dois meses para chegar. O empresário pediu a ajuda do então presidente Eurico Gaspar Dutra, mas o prazo para a entrega seria o mesmo. A saída foi contrabandear 200 aparelhos, prometendo o primeiro ao próprio presidente Dutra. Os outros 199 foram espalhados em pontos públicos da cidade de São Paulo…

A linha do tempo da televisão no País teve uma série de marcos históricos.

Em 1953, nascia TV Record; em 1954 foram transmitidas as primeiras partidas de futebol e o País se reuniu na frente da telinha para chorar a morte do presidente Getúlio Vargas. Em 1963, o programa de auditório de Silvio Santos começou a ser exibido nas tardes de domingo pela TV Paulista. Em 1965, entrou no ar a TV Globo. A TV Bandeirantes veio em 1967; dois anos depois, foi a vez da TV Cultura. Com o videotape, a televisão não precisava mais ser 100% ao vivo, e a qualidade dos programas começou a crescer. Surgiram atrações de sucesso como “Rancho Alegre”, humorístico estrelado por Mazzaroppi; o “Grande Teatro Tupi”, com peças televisionadas; o jornalístico Repórter Esso, que se autointitulava “testemunha ocular da história”; “O Céu é o Limite”, show de perguntas e respostas com Aurélio Campos…

Inauguração da primeira TV do Brasil, com transmissão ao vivo, a TV Tupi de São Paulo.

Logo a televisão passou a fazer parte essencial do cotidiano do brasileiro.

Humor e novelas

Nos anos 1960 a TV brasileira foi dominada pelo humor. Foi nessa década em que surgiram nomes como José Vasconcelos e Chico Anysio, prodígio que havia participado aos 16 anos de um concurso na rádio Guanabara, no Rio de Janeiro. O destaque de um de seus quadros, “A Escolinha do Professor Raimundo”, levou Chico a ganhar o seu próprio programa, “Tim Tim por Tantan” e, depois, o “Chico Anysio Show”. A próxima estrela do humor na TV seria o exótico Chacrinha, personagem do apresentador Abelardo Barbosa. Sua fama era tão grande que ele logo ganhou dois programas de auditório semanais: “Discoteca do Chacrinha”, às quartas-feiras, e “Buzina do Chacrinha”, aos domingos. Programas de auditório como o de Chacrinha e Silvio Santos marcaram para sempre a história da TV brasileira. No programa “Noites Cariocas”, na TV Rio, outro comediante conquistava seu espaço: Ronald Golias, dirigido por Carlos Alberto da Nóbrega – que até hoje apresenta o humorístico “A Praça é Nossa”, no SBT.

Chacrinha
Chico Anysio

Novelas

Em 1963 nascia o formato mais brasileiro da TV: a telenovela. com a primeira produção a ser exibida diariamente, 2-5499 Ocupado, produzida e exibida pela Rede Excelsior, estrelada por Tarcísio Meira e Glória Menezes. Desde então, o público se rendeu aos folhetins exibidos diariamente. Entre as produções de grande audiência, a mais marcante foi “O Direito de Nascer”, exibida em parceria pela TV Tupi e TV Rio. É provável que ela seja até hoje, em números relativos, o maior sucesso de todos os tempos: seu último capítulo teve 99,75% dos televisores ligados.

No dia 26 de abril de 1965 às 10:45, entrava no ar o canal de TV que mudaria o mercado brasileiro: a TV Globo, com a transmissão do programa infantil Uni Duni Tê. Também estavam na programação dos primeiros dias a série infantil Capitão Furacão e o telejornal Tele Globo, embrião do atual Jornal Nacional. Os primeiros oito meses da TV Globo foram um fracasso, o que levou à contratação de Walter Clark, na época com 29 anos, para o cargo de diretor-geral da emissora. Clark foi um dos grandes responsáveis pelo sucesso da emissora, junto com José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni. Aos poucos, instalava-se na emissora carioca o conceito que viria a ser conhecido como “Padrão Globo de qualidade”, imposição estética e técnica que a levaria a superar as concorrentes e garantiria um crescimento astronômico nas décadas seguintes.

Enquanto a TV Record apostava no Festival da Música Popular Brasileira, que revelaria nomes como Elis Regina, Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, a Tupi e a Globo investiam nas novelas. A Tupi emplacou “Beto Rockefeller”; a Globo, “Irmãos Coragem”, de Janete Clair, com um elenco de jovens estrelas como Tarcísio Meira, Glória Menezes, Cláudio Marzo, Regina Duarte e Cláudio Cavalcanti. Os anos 1970 trouxeram para a Globo novos nomes do humor, como Jô Soares, Agildo Ribeiro e Paulo Silvino, além de Os Trapalhões. É nessa década que ocorreu também uma grande revés para a emissora: apesar de diversas tentativas, a novela “Roque Santeiro”, de Daniel Filho, com Lima Duarte, Francisco Cuoco e Betty Faria, foi proibida pela Ditadura Militar – a história só seria exibida em 1985, em um remake. O prejuízo só não foi maior graças à sequência de novelas de grande audiência, como “Selva de Pedra”, “Pecado Capital” e “Escrava Isaura”.

Nos anos 1980, o mercado estava em ebulição: Silvio Santos comprou o canal TVS, que viraria o SBT; a Bandeirantes investia pesado no esporte, com a contratação do narrador Luciano do Valle; a Rede Manchete contratou Maytê Proença a peso de ouro para lançar a minissérie “Marquesa de Santos”; a TV Record foi comprada pelo Bispo Edir Macedo, dono da Igreja Universal do Reino de Deus. Novos apresentadores caíam no gosto do público: Xuxa Meneghel, com foco no público infantil e Fausto Silva, na Globo; Gugu Liberato, no SBT.

Nos anos 1990 com a chegada da TV a cabo por assinatura, o mercado renasceu com um número enorme de canais, como a MTV, voltada ao público jovem, e a GloboNews, canal de notícias 24 horas no ar.

Foi uma mudança tão grande que algo semelhante só aconteceria anos depois, com a chegada ao Brasil do mercado de streaming. Mas essas já são cenas dos próximos 70 anos…

 

 

 

 

 

 

 

 

Fontes:

UOL

Wikipedia

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A pegadinha da Tv Record

O cantor Duke Hazlett, sósia de Frank Sinatra, que participou de pegadinha da Record em 1963
O cantor Duke Hazlett, sósia de Frank Sinatra, que participou de pegadinha da Record em 1963

Houve um tempo, na pré-história da televisão no Brasil, em que era possível fazer uma pegadinha que enganasse uma cidade inteira. Claro, isso acontecia apenas porque não existia internet, nem telefones celulares – e a telefonia fixa era restrita e precária. Ou seja, as notícias demoravam a circular e a apuração delas também era mais difícil e lenta.

Um dos casos mais famosos aconteceu em março de 1963, época em que a TV Record era a líder inconteste de audiência. Proporcionalmente, sua penetração em todas as camadas da população, e por consequência a popularidade de seus astros, era muito maior do que a TV Globo de hoje. Foi lá, em seus programas e festivais de música, que surgiram e se consolidaram artistas como Caetano Veloso e Chico Buarque, apenas para citar dois nomes. E foi lá que a Jovem Guarda mudou a música e os costumes dos jovens de então, com o programa do mesmo nome apresentado por Roberto Carlos.

Voltando a março de 1963, após vários anúncios, um mistério movimentou a cidade de São Paulo: quem seria a grande atração internacional que viria ao Brasil para se apresentar na Record? O fato é narrado pelo radialista e pesquisador Fernando Morgado no livro Blota Jr. – A Elegância no Ar (Matrix Editora), lançado no ano passado.

Durante um mês, a emissora, que completaria dez anos, exibiu incontáveis chamadas em sua programação e publicou anúncios nos principais jornais e revistas revelando as novidades para aquele ano. Uma delas era o programa “Convidados Bombril”, apresentado por Blota Jr. (1920-1999), lendário apresentador que comandou dezenas de programas na Record.

Blota Júnior
Blota Júnior

Os anúncios traziam uma frase misteriosa: “Em fins de março, o ‘astro’ que você esperou por 10 anos para poder ver”. Afinal, quem poderia ser? Frank Sinatra (1915-1998)? Yves Montand (1921-1991)? Os jornalistas faziam suas apostas e se esforçavam para tentar descobrir antes de 31 de março, o domingo para quando estava marcada a apresentação. Quando esse tão aguardado dia chegou, dezenas de repórteres se posicionaram em torno da sede da Record, mas nenhum deles conseguiu ver o tal “astro”. O jeito foi esperar a noite chegar e ligar a TV.

De acordo com Morgado, faltavam poucos minutos para a meia-noite quando Blota Jr. surgiu no vídeo, anunciando que, finalmente, seria desfeito o mistério que causou tanto alvoroço em São Paulo e no restante do Brasil. “Em seguida, a câmera focalizou uma cortina translúcida. Projetada nela, estava a silhueta de um homem que começou a cantar acompanhado pela orquestra da Record. Quem estava vendo e ouvindo poderia jurar: era Frank Sinatra, the voice, em carne e osso”, conta.

Apesar do alvoroço momentâneo, era um ledo engano: após o segundo número musical, Blota Jr. invadiu a cena para fazer uma revelação.

“Logo as cortinas se abriram e surgiu Duke Hazlett, considerado, por muitos anos, o mais perfeito sósia de Sinatra em todo o mundo. Depois disso, só restou ao Doutor, como era conhecido o apresentador, desejar um feliz primeiro de abril para todos”, explica Morgado.

Evidentemente, de acordo com o pesquisador, muitos jornalistas da época não viram graça nenhuma na pegadinha…

 

 

 

Fonte:

THELL DE CASTRO

noticiasdatv.uol.com.br

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Rede Globo 50 anos: verdades e mentiras

A Rede Globo, fundada em abril de 1965, é uma rede de televisão assistida por cerca de 150 milhões de pessoas diariamente, sejam elas no Brasil ou no exterior, por meio da TV Globo Internacional. A emissora é a segunda maior rede de televisão comercial do mundo, atrás apenas da norte-americana American Broadcasting Company (ABC) – que faz parte da Disney – e é uma das maiores produtoras de telenovelas do planeta. A emissora alcança 98% do território brasileiro, cobrindo 5.482 municípios e cerca de 99% da população.

É inegável que, nesses 50 anos, a Globo se tornou líder incontestável em todos os horários, faixas, praças e nos principais indicadores de interesse do mercado comercial,  e faz parte do cotidiano dos brasileiros todos os dias através de suas novelas, jornalísticos, atrações esportivas ou de entretenimento.

Quando ela foi fundada, nos anos 1960, já existiam outras emissoras. Em 1965, por exemplo, a TV Excelsior já estava em operação. A TV Tupi, existente desde 1950; a TV Cultura, de 1960; e a TV Record, de 1953, já estavam no mercado. Shows, jornais, humorísticos e novelas não eram novidades, mas a forma pela qual a Globo trabalhou sua programação foi o que a levou à liderança.

Como não podia deixar de ser, esse meio século gerou inúmeras histórias, muitas verdadeiras, e outras tantas mentirosas. Vamos elencar abaixo algumas delas:

VERDADES

Globo apoiou a ditadura

Golpe de 64
Brasil, Rio de Janeiro, RJ. 31/03/1964. Tanque do exército para próximo à casa do presidente deposto, João Goulart, nas Laranjeiras. O Golpe de 64 submeteu o Brasil a uma ditadura militar que durou até 1985.

A Globo não só apoiou como cresceu à sombra da ditadura militar. A emissora aquiesceu, propagou e jamais questionou quem estava no governo militar.

Teve apoio do governo e da Embratel para virar a maior TV do país

Onde a Embratel elevava suas antenas, nos mais longínquos rincões do território nacional, a Globo também lucrava e passava a ter uma anteninha. Com isso, ela se tornou a primeira emissora do país a ter rede nacional  – a maior cobertura do país e uma das maiores do mundo em alcance de público. Anos antes, por pressão de políticos de oposição (leia-se Carlos Lacerda), a emissora teve de romper o contrato que firmara com o grupo Time Life, que na época lhe emprestou US$ 6 milhões para investir em infraestrutura, o que era um dinheirão e faria com que saísse na frente da ainda incipiente TV brasileira. Em troca, a Globo daria uma fatia de seus lucros para o grupo estrangeiro. Uma sociedade não permitida pela lei.

Editou debate eleitoral para ajudar Collor

Isso foi “confessado” recentemente pelo próprio Boni, antigo manda-chuva da emissora. Porém, o que pouco se fala, e é confirmado por vários ex-funcionários que lá estavam, em 1989, é que a primeira edição do debate era favorável a Lula. Quem a fez foi um editor “petista de carteirinha”. Mas sua edição foi tão péssima que acabou gerando uma contra-reação na emissora. Refizeram tudo e ocorreu uma guinada completa. O fundador Roberto Marinho chegou a admitir, mais tarde, que preferia Collor a Lula.

Comprou programas que nunca exibiu só para a concorrência não tê-los
Durante décadas a Globo teve acesso exclusivo a produções estrangeiras graças a seu incrível poderio econômico. Não se sabe ao certo quantos programas os brasileiros jamais viram em outras emissoras devido a essa prática. Até hoje, comentam-se os esforços para comprar os direitos de Chaves e Chapolim, que dificilmente seriam inseridos na sua grade de programação. Neste ano mesmo, do seu 50 º aniversário, comprou os direitos da série “Agentes da SHIELD” – enorme sucesso na TV paga – para exibi-lo de madrugada…
Foi ajudada a ter novo império na TV paga e impedir a ascensão de outras TVs no setor

Alguém tem dúvida? Primeiro a Globo era uma das donas da operadora Net. Quando a TV paga chegou ao Brasil, a emissora tratou de ajudar a si mesma e se espalhou rapidamente feito vírus pela TV por assinatura. Com bons canais, é verdade, como a GloboNews, mas também com muita porcaria. Hoje, a Globo tem propriedade ou parceria em quase 50 canais pagos, incluindo um monopólio de pay-per-view. Quando o governo mandou a emissora sair da Net, por desrespeitar o mercado, a Globo saiu, mas continuou sendo beneficiada não só pela Net, mas também pela Sky. Uma verdadeira ação entre amigos, que impede até hoje outras TVs de ter mais canais fechados. Quando alguém tenta, come o pão que o demônio fermentou, como a FoxSports bem sabe…

Fez Gloria Perez, Benedito Ruy Barbosa e Walter Negrão rescindirem contrato com o SBT

Foi a única vez que a Globo tomou um susto grande na área de dramaturgia. Numa de suas jogadas de mestre, Silvio Santos “furtou” Gloria Perez, Benedito Ruy Barbosa e Walter Negrão de uma só vez. O SBT passaria a investir pesado em novelas, e para isso precisava dos melhores escritores. Só que os novelistas nem chegaram a sentar na cadeira no SBT, porque a Globo os fez rescindir contrato. Tiveram de pagar uma multa milionária a SS, e até hoje parte dessa ação ainda corre na Justiça.

Obrigou o SBT a pagar multa milionária pela rescisão do contrato assinado com Gugu

Anos antes desse episódio envolvendo os novelistas, a Globo também deu uma rasteira em Silvio Santos. Gugu Liberato estava no auge da carreira, seu contrato venceu e a Globo o tirou do SBT – enquanto Silvio Santos estava viajando aos EUA, para variar. Quando voltou, Silvio Santos pegou Gugu a tiracolo e o levou até a sala do doutor Roberto, onde fez algo inédito: implorou que o concorrente devolvesse sua estrela. Alegou que estava com uma grave doença nas cordas vocais, que talvez tivesse de se aposentar, isso se não ficasse mudo para sempre ou mesmo morresse… Doutor Roberto aceitou, mas cobrou cada centavo da multa, que Silvio pagou sem pestanejar.

Criou uma linguagem visual única e inédita, que fez escola no mundo todo

Isadora Ribeiro na abertura do "Fantástico", criação de Hans Donner.
Isadora Ribeiro na abertura do “Fantástico”, criação de Hans Donner.

A Globo foi a primeira emissora a mexer com o logotipo-símbolo da empresa, além de lhe dar uma trilha (o plim-plim) e estilizá-lo dimensionalmente. O pai disso se chama Hans Donner, 66 anos, alemão naturalizado brasileiro e gênio da linguagem visual. Seu trabalho em vinhetas e linguagem visual se tornou paradigma e foi copiado por emissoras e outras empresas ao redor do mundo. Pode-se dizer que toda a linguagem visual e gráfica no Brasil é dividida em Antes e Depois de Hans Donner. Uma curiosidade: a Pacific Data Images, grande estúdio de computação gráfica que hoje constitui a Dreamworks Animation (estúdio que criou “Shrek”, “Kung Fu Panda” e outros sucessos), colaborou nas primeiras vinhetas de Donner.

Tem a melhor programação da TV aberta brasileira

Podemos criticar a Globo por tudo, mas ela ainda é a melhor TV aberta do Brasil. Não vende sua grade de programação para ninguém, tem bons programas e apresentadores em todas as faixas horárias e ainda nada de braçada em termos de audiência. Não há nenhuma emissora que ameace seu reinado. Mesmo TVs como a Record, que até tentaram combatê-la, afundaram em estratégias de pura imitação da própria Globo, que tem os melhores filmes, atrizes, atores, roteiristas, apresentadores, e, o que é melhor, o respeito total dos maiores anunciantes do país. A Globo é uma potência de conteúdo jornalístico, dramatúrgico e de entretenimento. Se nada mudar, esse reinado continuará por mais 50 anos.

MENTIRAS

Jamais exibiu comercial com artista de outra emissora

Isso até foi verdade um tempo, mas acabou depois que Jô Soares foi para o SBT. O apresentador estrelava um sem-número de comerciais de produtos nacionalmente conhecidos, empresas ricas, e a Globo não podia abrir mão desse faturamento por causa de uma regra tola.

Punia artistas que a trocassem por TVs concorrentes: eles jamais voltariam a pisar na Globo 

Outra lenda que foi verdade por um tempo, principalmente quando Sergio Chapelin foi para o SBT apresentar um programa de auditório, “Show sem Limites”, que chegou a derrotar o “Viva o Gordo” e o seriado “Casal 20”, concorrentes no horário. A Globo boicotou as inserções comerciais com a locução de Chapelin, mas um ano depois, ele mesmo chegava à conclusão de que não tinha a “pegada” de apresentador de auditório e sua praia era mesmo o jornalismo, voltando para a Globo em 1984. A emissora até tentou fazer essa regra valer de novo anos atrás, quando a Record tirou vários artistas e profissionais para investir em novelas. Boa parte voltou e está mais que prestigiada: Marcelo Serrado, Gabriel Braga Nunes, Vanessa Gerbelli… Sem falar em outros profissionais técnicos.

Globo criou todas as suas estrelas

Bobagem. Antes de ser global, Faustão foi lançado na TV pela humilde Gazeta, e depois foi da Record e da Band; Ana Maria Braga veio da Record; Serginho Groismann, da Band; Xuxa, da TV Manchete, assim como Angélica; Luciano Huck veio da Band.

Ator Mário Gomes é internado com cenoura no ânus

Essa não só é a maior mentira em toda a história da Globo, mas a mais pérfida e doentia. Foi uma invenção de um diretor da Globo, Daniel Filho, segundo o próprio Gomes; Daniel Filho jamais a negou. Gomes se envolveu com Betty Faria, então casada com o diretor, que se vingou espalhando a história. “Foi uma tentativa de assassinato”, disse Gomes, que foi estigmatizado, apontado nas ruas e ficou longe das telas por muito tempo. Voltou, mas jamais como o galã dos anos 70. Neste link, para quem quiser ler, uma entrevista recente com Mário Gomes, onde ele conta esse evento.

Parou de vender os domingos para o Silvio Santos porque ele dava mais audiência que a emissora

SS no quadro "Boa noite, Cinderela", na TV Globo na década de 1970.
SS no quadro “Boa noite, Cinderela”, na TV Globo na década de 1970.

Muitos jovens não sabem que Silvio Santos já foi da Globo. Nos anos 1970,  Silvio ocupava até 10 horas aos domingos e já estava milionário por causa do Baú da Felicidade. Também tinha um ibope absurdo – dizem que dava 90 pontos em 1969. Empatando com a novela “Selva de Pedra”, que teria a mesma audiência… Mas a verdade é que a Globo não o tirou do ar por causa disso, e sim porque ele ganhava muito mais do que rendia para a emissora. Silvio foi para a Tupi, mas o programa era transmitido também pela Record e pela TVS (que acabara de ganhar do governo; depois ela viraria o SBT).

Teve envolvimento nos incêndios ocorridos na  TV Excelsior no final dos anos 1960

O que é curioso é que, nos anos 1990, sabe-se lá o porquê, essa “culpa” passou a ser atribuída por alguns “estudiosos” da televisão brasileira à Fundação Cásper Líbero (TV Gazeta). Tudo conversa mole. O primeiro “incêndio” atingiu pouco mais de uma mesa da emissora. O segundo, porém, foi devastador, mas naquele tempo não havia sistemas e regras de segurança como hoje.

Boni foi o “inventor” do padrão Globo de Qualidade 
Walter Clark é o de barba, na foto. O de óculos seria o banqueiro José Luiz de Magalhães Lins e, ao lado dele, Roberto Marinho.

Essa mentira está estampada até hoje em muitos livros e guias de estudantes. Boni de fato ajudou a implantar o padrão, mas a origem dele é o acordo (irregular) assinado entre a emissora e o grupo norte-americano Time Life. A Globo recebeu da Time um tratado sobre qualidade e implantou seus itens, que incluíam a excelência em programação. Além disso, o “padrão” foi implantado também por Walter Clark (1936-1977). Essa conduta encareceu bastante os custos da emissora, mas por outro lado agregou um valor infinito às suas produções –especialmente as novelas.

Inventou o formato das novelas televisivas 

direito de nascer elenco1

Novelas já existiam antes de a Globo sequer ser gestada. No Brasil havia a TV Tupi, e a Excelsior, que tiveram novelas de sucesso (na foto acima, o elenco de “O Direito de Nascer”, da TV Tupi). Por outro lado, a Globo elevou o conceito de novela a um patamar completamente superior à concorrência, justamente pelo padrão de qualidade. Aos poucos atraiu os melhores quadros da dramaturgia, os melhores técnicos, os melhores iluminadores, cenografistas, ou seja, melhorou o que já existia.

Globo tem o poder de derrubar qualquer político de seu cargo

Até alguns anos atrás, até que se pode dizer que sim, mas hoje já não é mais. O que a emissora fez, e faz, graças a seus ótimos repórteres, é desvendar falcatruas e crimes. Por outro lado, essa prática já gerou um mártir. Tim Lopes (1950-2002) foi assassinado por traficantes do Complexo do Alemão, que descobriram um equipamento de gravação escondido em suas roupas.

Globo ignora completamente a programação das outras emissoras

Tanto é mentira que o “Encontro com Fátima” é inspirado pelo “Hoje em Dia”, da Record. O “Bem Estar”, por sua vez, só veio meses depois de um quadro fixo semelhante já exibido no matinal da Record. No final do ano passado a Globo sofreu outro chacoalhão com os telejornais matinais da concorrência, especialmente o “Notícias da Manhã”, do SBT. A Globo teve de se virar e criar algo semelhante.

Globo não deixa seus artistas participar de programas em outras emissoras

É uma meia-verdade, para sermos honestos. Tony Ramos estava em 2014 no palco do SBT para receber o Troféu Imprensa, assim como Lília Cabral. Outros artistas já foram liberados ou deram entrevistas em locais públicos ao “Pânico na Band”, por exemplo, sem que sofressem qualquer sanção.

 

Não sou mais um espectador assíduo da TV aberta, como já fui. Por uma soma de fatores, entre eles a falta de tempo, coisas melhores para fazer, a internet, a TV a cabo… Mas reconheço que a TV Globo teve – e tem – um papel fundamental na formação cultural do povo brasileiro, em sua grande maioria habituado a ver o mundo pela TV.

Exatamente por isso, fica a minha torcida para que ela utilize seu imenso poder, alicerçado em seus 50 anos de atuação, no resgate de muitos valores de nosso povo, que ficaram para trás em nome da busca sem limites pela audiência.

 

Fontes:

Na Telinha

UOL/ Ricardo Feltrin

Rede Globo