O segredo nazista brasileiro

É década de 1930 no Brasil. Um time de futebol com jogadores negros ostenta uma bandeira com o Cruzeiro do Sul — e a suástica nazista. O gado da fazenda está marcado com o mesmo símbolo. Um retrato de Hitler está na parede do casarão. A foto do tal time foi encontrada na fazenda Cruzeiro do Sul, cujo nome explica a constelação que a nomeia. Mas e a suástica?

Campina do Monte Alegre é uma cidade de 5.000 pessoas, no interior de São Paulo. Ali, o rancheiro José Ricardo Rosa Maciel, o Tatão, descobriu um segredo que ficou escondido por 70 anos. “Eu cuidava dos porcos numa casa antiga. Um dia, eles quebraram uma parede e escaparam. Notei que os tijolos tinham caído. Foi um choque enorme.” Os tijolos tinham a marca da suástica. A parceira de Tatão, Senhorinha Barreta da Silva, estudava na Universidade de São Paulo e levou uma das peças para seu professor de história, Dr. Sidney Aguilar Filho.

TATÃO MOSTRA OS TIJOLOS DA FAZENDA (FOTO: GIBBY ZOBER)

“Fui até a fazenda, onde encontrei uma profusão de insígnias com a suástica, não só nos tijolos, mas em fotografias da época, marcas nos animais, bandeiras. Também achei uma história paralela sobre a transferência de 50 meninos de dez anos que foram tirados de um orfanato no Rio de Janeiro e levados para Campina do Monte Alegre em 1933. Nessas duas histórias, estava a presença da ideologia nazista”, afirma Aguilar Filho.

Depois de oito anos de pesquisa, apresentou em 2011 a tese “Educação, autoritarismo e eugenia: exploração do trabalho e violência à infância desamparada no Brasil (1930-1945)”. As crianças foram tiradas do orfanato Romão de Mattos Duarte, da Irmandade de Misericórdia. O primeiro grupo, com dez, saiu em 1933, depois mais 20 e outro de 20. Elas ficaram sob a custódia de Osvaldo Rocha Miranda, um dos cinco filhos do industrial Renato Rocha Miranda. A família era dona do famoso Hotel Glória e estava entre as mais ricas e influentes da então capital do Brasil. Com outros dois irmãos, Osvaldo era membro da Ação Integralista Brasileira, organização extremista de direita.

“Minha pesquisa se focou em que sociedade era essa, que Brasil era esse”, explica Aguilar Filho.  “Era uma cultura extremamente racista e preconceituosa. Na geração seguinte à abolição da escravatura, a estética era extremamente marcada pelo racismo. Com os olhos de hoje, é muito chocante”, diz Aguilar Filho.

EUGENIA BRASILEIRA

O artigo 138 da Constituição da época estabelecia que era função do Estado promover educação baseada em crenças eugênicas, ele aponta. No fim dos anos 1930, a Alemanha era o principal parceiro econômico do Brasil. Havia também, como consequência, fortes laços políticos, ideológicos e culturais. Aqui estava o maior partido nazista fora da Alemanha, com mais de 40 mil afiliados.

Aloysio da Silva e Argemiro dos Santos estavam na primeira leva. “Eles relatam um tratamento muito rígido, sujeito a punição física, sem permissão para deixar a fazenda sozinhos ou sem autorização, trabalho intensivo, com pouca ou nenhuma remuneração. Aloysio se refere a uma infância roubada e fala de escravidão. Argemiro não usa a palavra, mas confirma o uso sistemático da palmatória, violência física, chicotadas e punições”, afirma Aguilar Filho.

O TIME DE FUTEBOL DO CRUZEIRO DO SUL ERGUE A BANDEIRA COM O SÍMBOLO NAZISTA (FOTO: REPRODUÇÃO)

Maurice Rocha Miranda, sobrinho bisneto de Otavio e Osvaldo, nega que as crianças fossem “escravas” e diz que sua família deixou de apoiar os nazistas muito antes da Segunda Guerra.

Mas a história dos dois sobreviventes — que nunca mais se encontraram — é curiosamente similar. Ainda vivendo perto da Cruzeiro do Sul, Aloysio, 90, relembra quando foi levado do orfanato. Com doces e “lábia”, Osvaldo disse que daria a eles uma nova vida. “Ele prometeu o mundo. Mas não era nada daquilo. Nós recebemos enxadas, uma cada. Para tirar o capim, para limpar a fazenda. Fiquei preso porque me enganaram. Fui trapaceado. Esquentou meu sangue”, diz Aloysio. Os meninos eram chamados por números. Aloysio era o 23. Dois cães de guarda mantinham os garotos comportados.

Outro sobrevivente, Argemiro dos Santos, 89, vive em Foz do Iguaçu. “Na fazenda havia fotografias de Hitler, e o tempo todo você era forçado a saudar com o ‘anauê’, a saudação alemã”, ele diz. O “anauê” era, na verdade, a saudação dos integralistas, gesto idêntico ao “sigheil” da Alemanha hitlerista.

Numa dessas ironias da vida, Argemiro escapou da fazenda para se juntar à Marinha, indo à Europa lutar contra o führer cujos admiradores foram seus captores…

 

 

 

 

 

Fontes:

BBC

Galileu

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Primeiro shopping da América Latina, Iguatemi completa 50 anos

De ponto micado na época da inauguração, em 1966, o centro comercial se tornou o metro quadrado comercial mais caro da América Latina

O Shopping Iguatemi na época da inauguração

O Shopping Iguatemi na época da inauguração

Idealizado pelo construtor Alfredo Mathias, o empreendimento foi erguido no terreno de uma chácara da família Matarazzo. Ficava num trecho da Rua Iguatemi – daí o seu nome – que anos mais tarde foi transformado na Avenida Faria Lima. Mathias vendia cotas aos interessados em churrascos promovidos no próprio canteiro de obras.

Mas os lojistas não levavam fé no empreendimento. Na época da inauguração, em novembro de 1966, os consumidores gostavam mesmo era de flanar pelas butiques chiques da Rua Augusta. Assim, a novidade de apostar num centro comercial não chegou a ser das mais empolgantes para os empresários. O resultado foi uma disputa para ficar nos lotes mais próximos da entrada. Eles acreditavam que a freguesia jamais caminharia até as lojas dos fundos.

Manequim posando no point mais chique dos anos 1960: Paulista com Augusta. Ao fundo, o antigo cine Astor no Conjunto Nacional.

Manequim posando no point mais chique dos anos 1960: Paulista com Augusta. Ao fundo, o antigo cine Astor no Conjunto Nacional.

 

No dia da inauguração, a festa com artistas famosos como Chico Anísio, Chico Buarque, Nara Leão e Eliana Pittman atraiu cerca de 5.000 pessoas, todo mundo curioso para saber do que se tratava aquele novo empreendimento na cidade. Dentre as festas de inauguração, foi organizado um Campeonato de Autorama.

Com o passar dos anos, os consumidores migraram para os centros comerciais, que, depois do sucesso do Iguatemi, se espalharam pela cidade e pelo país; e enquanto as vizinhanças da antiga rua Iguatemi se valorizaram, mudando a paisagem do bairro, as grifes saíram da rua Augusta e ela entrou em decadência como o “point” da elegância.

Hoje, onde havia esse osto de gasolina bem em frente a Shopping Iguatemi, há uma moderno e enorme prédio de escritórios.

Hoje, onde havia esse posto de gasolina bem em frente a Shopping Iguatemi, há uma moderno e enorme prédio de escritórios.

Quem conhece o centro comercial certamente passou pelas rampas na entrada. E há uma explicação para elas. Privilegiar luz e ventilação naturais é um dos objetivos do projeto arquitetônico. Além de esteticamente interessantes, as rampas foram um meio de integrar o térreo ao 1º piso – e, assim, deixar tudo mais arejado. O ambiente nesse espaço, cujo pé-direito no ponto mais alto chega a 18 metros, lembra o de uma rua arborizada. Nos demais andares, construídos depois, reina o ar condicionado, mesmo.

Ontem e hoje

Na inauguração, havia 75 lojas. Cinco anos depois, já operava com 160, com um fluxo de clientes que começava a se aproximar de 1 milhão de pessoas/mês. Hoje, são 314 lojas e mais de 1,5 milhão visitantes/mês.

Algumas curiosidades durante esses 50 anos:

  • Na década de 1990, o shopping sorteava um BMW para os consumidores durante as compras de Natal, algo inédito na época
  • O Empório Armani foi a primeira marca estrangeira a entrar no Iguatemi, em 1998.
  • Em 1994, um incêndio destruiu completamente o Cine Iguatemi. Ninguém se feriu. Depois do incidente, os cinemas passaram a exibir instruções de segurança
  • Em 2001 foi a vez da joalheria Tiffany & Co estrear em solo brasileiro. A Louboutin veio oito anos depois, em março de 2009, com a sua primeira loja na América Latina
  • No fim da década de 1980 e início dos anos 1990, o Iguatemi passou a anunciar ofertas na televisão para aumentar o movimento e as compras às segundas-feiras
  • No Dia das Mães. mais de 15 mil tulipas são espalhadas pelo shopping.
  • Nos últimos anos, o shopping figurou no ranking dos 20 endereços mais caros do varejo mundial, ao lado dos balados 5ª Avenida (Nova York) e Champs-Elysées (França).

 

 

 

Quem matou Dana de Teffé?

Desaparecida em 1961, a socialite Dana de Teffé foi vista pela última vez entrando no carro do advogado Leopoldo Heitor de Andrade Mendes, com quem faria uma viagem do Rio de Janeiro para São Paulo. Principal suspeito de tê-la matado, ele contou três histórias diferentes.

Desaparecida em 1961, a socialite Dana de Teffé foi vista pela última vez entrando no carro do advogado Leopoldo Heitor de Andrade Mendes, com quem faria uma viagem do Rio de Janeiro para São Paulo. Principal suspeito de tê-la matado, ele contou três histórias diferentes

Parece enredo de novela… Eu era criança quando essa história estava em todas as revistas e jornais da época. Um caso rumoroso e que eu, ainda pequeno, não entendia muito bem. Só sabia que uma mulher rica e bonita tinha sumido.

O que teria acontecido à socialite Dana de Teffé? Ela foi vista pela última vez na noite de 29 de junho de 1961, entrando no carro do advogado Leopoldo Heitor, com quem faria uma viagem do Rio de Janeiro para São Paulo.

Linda, poliglota – falava seis línguas – rica e bem relacionada, tinha então 48 anos. Heitor, 38. Nascida na antiga Tchecoslováquia, ela fugiu para a Itália aos 15 anos, depois de perder os pais e a irmã na Segunda Guerra Mundial. Lá, tornou-se amante do tenente-coronel Ettore Muti, morto em um atentado durante um passeio dos dois pelas cercanias de Roma. Logo, ela migrou para a Espanha e, em 1944, casou-se com o dentista Umberto Dias. Quatro anos depois, trocou a Espanha pelo México e conheceu seu terceiro marido, o jornalista Carlos Denegri. Em outubro de 1951, já separada dele, veio para o Brasil. Desembarcou na alta sociedade carioca, onde, em um jantar de gala, foi apresentada ao diplomata brasileiro Manuel de Teffé Von Hoonholtz – sobrinho do Barão de Teffé -, de família muito rica, por quem se apaixonou instantaneamente. Contando com Ettore Muti, que se separou da mulher para ficar com ela, era seu quarto casamento. Os dois ficaram casados até 1961.

Para cuidar da papelada do desquite (ainda não existia divórcio no Brasil), constituíram um escritório de advocacia. O advogado responsável pela parte de Dana na divisão de bens era Leopoldo Heitor…

O advogado do Diabo

Famoso por motivos não necessariamente dignificantes, Heitor era uma figura polêmica. Na primeira vez em que seu nome surgiu no noticiário policial, estava atrelado ao rumoroso crime da ladeira do Sacopã, no Humaitá, zona sul do Rio.

O Advogado do Diabo, Leopoldo Heitor

No dia 6 de abril de 1952, o bancário Afrânio Arsênio de Lemos foi encontrado morto com três tiros dentro de seu Citroën preto. A polícia recolheu no local um retrato de Marina de Andrade Costa, namorada do tenente da FAB Alberto Bandeira.

Marina Costa

Marina Costa

Várias versões foram levantadas para explicar o caso, que a essa altura havia ganhado enorme projeção na mídia. Leopoldo Heitor, que adorava um holofote, apareceu na delegacia dizendo que um cliente seu era testemunha ocular do crime. Depois de algum suspense, trouxe para depor um suposto amigo da vítima, chamado Walton Avancini. O depoente contou uma história cheia de voltas, que juntava um pouco de tudo o que já havia se especulado na mídia, e terminava por incriminar o tenente Bandeira.

Graças a Avancini e a uma série de outras testemunhas de ocasião, Bandeira acabou sendo condenado a 15 anos de prisão, em um processo considerado anos mais tarde ilegítimo pelo Supremo Tribunal Federal (Bandeira já havia cumprido sete anos de prisão e deixado a cadeia). Leopoldo Heitor ganhou a alcunha de “advogado do diabo”. Em 1957, voltou às manchetes por envolvimento na falsificação de um cheque de 18 milhões de cruzeiros. Acuado, ele fugiu com a mulher para a Argentina e ficou lá até 1960, quando a sentença já havia sido revogada.

As vidas se cruzam

Por todo esse histórico, os amigos de Dana de Teffé recomendaram muita prudência quando perceberam que Leopoldo Heitor se aproximava cada vez mais dela. Um dia, Heitor disse à cliente que havia arrumado para ela um posto de representante para a América Latina da empresa Olivetti, de máquinas de escrever. Dana acreditava que seu dinheiro não duraria para sempre e por isso queria arranjar um emprego. Heitor explicou que a sede da empresa era em São Paulo, e a convenceu a fazer a viagem de carro.

Os dois partiram às 22h daquele 29 de junho. Nunca mais encontraram nem mesmo seu corpo.

Heitor apareceu dias depois, com um ferimento na perna, e contou a primeira de três versões para explicar o sumiço de sua acompanhante. Disse que assim que chegaram a São Paulo, um “senhor distinto” aproximou-se deles em um restaurante, falando outro idioma, e disse a ela que sua mãe havia sobrevivido e estava em um asilo na Tchecoslováquia. Aos prantos, Dana teria decidido embarcar imediatamente para Praga.  Quando Heitor ponderou: “Mas você vai precisar de dinheiro”, ela teria escrito uma carta-procuração dando a ele poderes para vender seu apartamento e joias… O advogado ainda calculara que seria preciso “uma boa reserva para tirar a mãe do asilo”. O ferimento na perna, segundo ele, fora causado por “fogos de artifícios que amigos de meus filhos soltaram”.

Em uma segunda versão, Heitor afirmou que havia tido problemas com o carro e, ao parar para verificar o que era, foi assaltado. Depois de travar um tiroteio com o bandido, percebeu que Dana havia sido atingida. Pensou em levá-la para um hospital em Barra do Piraí, no interior fluminense, mas no caminho viu que ela já estava morta. Com receio de ser acusado de assassinato, procurou um amigo para ajudá-lo no sepultamento do cadáver. Quem era? Ele não podia dizer. Onde o corpo foi sepultado? Só o amigo sabia.

Uma terceira versão, que ele sustentou até o último dos quatro julgamentos a que foi submetido entre 1963 e 1971, dava conta de que Dana havia sido sequestrada por um grupo de nazistas (mais de 15 anos depois da guerra!) ou comunistas tchecos. Eram “homens altos, louros e fortes”. “Minha tese é a de sempre, que Dana foi sequestrada e levada para fora do Brasil”, disse ele, em 1999, para um programa da TV Globo. “Quem conta três verdades, não conta nenhuma”, sustentava o promotor José Ivanir Gussem.

Minha Casa, Sua Vida

Dois meses depois do sumiço de Dana, Leopoldo Heitor mudou-se com a mulher, Verinha, e os dois filhos para o apartamento dela. A promotoria o acusou de ter transformado um ponto em vírgula, ao fim da procuração assinada por Dana, e acrescentado que ele tinha direito a vender, alugar e receber todos os bens dela. Nove meses depois, o advogado já havia embolsado mais de 25 milhões de cruzeiros da vítima, ou o equivalente a mais de R$ 1 milhão, em valores atualizados.

Tudo indicava que Leopoldo Heitor havia matado Dana de Teffé para ficar com o dinheiro dela. As histórias dele não se confirmavam. A Olivetti desmentiu que o cargo de representante para a América Latina estivesse vago e também que o nome de Dana tinha sido cogitado para ocupá-lo. Tampouco havia registros da saída da tcheca do Brasil, de acordo com investigações feitas no consulado, nas companhias aéreas e na polícia marítima. A promotoria questionava como Dana poderia deixar o país, se seu passaporte estava entre os documentos reunidos no processo. Segundo Heitor, sua cliente deixara o Brasil com um passaporte falso.

Nessa versão, Dana havia ligado de fora e, apesar de ter pedido para não comentar o telefonema com ninguém, ele contratara um “escritório internacional” e descobrira que ela estava em Praga.

Dana de Teffé

Dana de Teffé

Todos os indícios apontavam para Leopoldo Heitor como o criminoso.  Preso em 31 de março de 1962, sob a acusação de homicídio e ocultação de cadáver, ele fugiu em 4 de outubro do mesmo ano. Capturado dez dias depois no Mato Grosso, Heitor foi julgado em fevereiro de 1963 e condenado a 35 anos de cadeia, dos quais cumpriu oito. Em dezembro de 1964, mesmo preso, o Tribunal de Justiça do Rio anulou a sentença do juiz Ulysses Salgado, e o réu foi a novo julgamento. Embora tudo indicasse que ele havia dado sumiço no corpo, e não houvesse nenhum outro suspeito, o advogado foi absolvido em mais três julgamentos.

O júri foi convocado em Rio Claro, interior de São Paulo, onde o réu tinha um sítio e era considerado por todos um advogado sempre disposto a ajudar os mais carentes. No tribunal Leopoldo Heitor assumiu sua própria defesa. O júri foi anulado porque a imprensa conseguiu entrar na sala onde jurados e o juiz decidiriam a sentença. Em outros dois julgamentos na mesma cidade, o último em 1971, Heitor foi absolvido.

O promotor Gussem afirmou tempos mais tarde que “em Rio Claro, ninguém ganharia aquele júri”. Alguns jurados que nunca tinham saído da cidade disseram décadas depois que não tinham ideia de quem fosse Dana de Teffé. Um deles chegou a afirmar que “estava querendo que aquilo acabasse logo, não entendia nada do que se passava”. Por falta de provas materiais, o Supremo Tribunal de Justiça não autorizou a reabertura do processo.

Em 1981, o crime prescreveu.

Depois de sair da cadeia, Leopoldo Heitor ainda se casou duas vezes. Ao morrer, em 2001, com 78 anos, deixou dez filhos e um mistério que jamais será resolvido.

Quem matou Dana de Teffé?

 

 

 

 

 

Fontes:

O Globo

Paulo Sampaio, Revista J.P de agosto

 

Londres projeta “supertúnel” de 25 km para livrar o rio Tâmisa de esgoto

Em 1858, os membros do Parlamento inglês debatiam em salões com cortinas encharcadas de um composto à base de cal, artifício usado para amenizar o fedor do esgoto que era o rio Tâmisa.

O cheiro era tão insuportável que quase fez a sede do governo inglês mudar temporariamente de endereço e, principalmente, forçou Londres a tirar da gaveta um ambicioso projeto de construir uma rede de esgoto na então maior cidade do mundo.

Um século e meio depois da obra, Londres busca dar mais um passo para livrar de vez o Tâmisa dos dejetos da cidade que não para de crescer.

Um conjunto de túneis está sendo construído no subsolo para receber cerca de 39 milhões de toneladas anuais desses dejetos, que costumam ir para o rio em dias de chuva.

No meio da capital inglesa, o Tâmisa, assim como o rio Tietê em São Paulo, é alternativa para, além de oferecer uma melhor paisagem na metrópole, uma fonte de água no futuro.

SUPERESGOTO

Na cidade de Londres, o sistema de coleta foi desenhado no século 19, com canos que pudessem receber tanto os dejetos das casas como a água da chuva.

Construída em 1830, a London Bridge Sewer é a rede de esgoto mais antiga de Londres ainda em operação. O lençol freático do subsolo, remanescente de um antigo curso d’água que começou a desaparecer na época dos romanos, abriu caminho por entre a parede de tijolos do túnel e pequenos fluxos de água jorram em todas as direções.

Em dias secos, Londres capta e trata 100% de seu esgoto (em São Paulo, esse índice é de apenas 68%; a maior parte do excedente é despejada no Tietê).

“O problema é que hoje Londres está muito maior e, quando ocorrem chuvas, a tubulação enche muito mais rapidamente e o excesso é despejado no rio”, diz o professor da universidade federal gaúcha, Carlos Tucci.

O esgoto, que só deveria ir para o rio uma vez ao ano, hoje cai no Tâmisa cerca de 50 vezes ao ano. É aí que entra o novo sistema em construção. O objetivo é construir um grande túnel sob o leito do rio Tâmisa.

Chamado de TideWay, o túnel deverá ter 25 km de extensão e mais de sete metros de diâmetro. O valor do projeto é de 4,2 bilhões de libras (R$ 24 bilhões). O custo é o principal alvo das críticas à empreitada, que já recebeu licenciamento. O projeto deverá ser entregue em 2020.

COMO VAI FUNCIONAR
HOJE, a tubulação enche rapidamente e transborda para o rio.
DEPOIS Em vez de ir ao rio, o que transbordar vai ser despejado no novo túnel.
O sistema de esgotos de Londres conta com uma rede integrada de esgotos que transborda no rio. Há muitos pontos de descarga ao longo do Tâmisa, que são usados durante as chuvas mais fortes.

 

Já a cidade de São Paulo…

… ainda engatinha para revigorar o rio Tietê – diante da recente crise hídrica, a Sabesp decidiu congelar a maioria de seus investimentos em esgotos. Um desses cortes deve frear justamente a criação de um túnel sob o rio Tietê que deveria diminuir a quantidade de esgoto despejada no rio mais famoso de São Paulo.

Quando São Paulo elegeu um rinoceronte

Muito em breve, teremos eleições para prefeito e vereador em todo o país. Será o momento de ouvirmos de novo aquele monte de promessas, de gente sendo aliciada para votar neste ou naquele candidato, de discussões e bate-bocas sobre qual o melhor candidato, torcidas organizadas, passeatas e comícios. E a volta do horário político na TV… ARGH!

Nada que seja diferente do que vem acontecendo no país desde o final da ditadura militar. E nada diferente do que acontecia antes dos militares assumirem o poder, em 1964.

O cordial povo brasileiro sempre se viu seduzido por promessas bonitas e elegeu inúmeros crápulas. Depois, ficou chorando e reclamando que “o governo é isso e aquilo”, esquecendo-se de que o “governo” foi eleito justamente… Pelo povo brasileiro.

Poucas vezes ele reagiu, porém. Uma dessas vezes foi em 1959… Getúlio Vargas havia morrido. O governador de São Paulo era Ademar de Barros, uma espécie de antepassado político de Paulo Maluf.

Ademar de Barros

Ademar de Barros

Uma das “tradições” da política brasileira é a do “rouba, mas faz”, sobre o governante que enfrenta denúncias de corrupção ao longo do mandato, mas é querido pelo povo por causa das obras que realiza. Foi deputado, prefeito da capital e governador do Estado de S. Paulo, e até hoje é identificado com esse lema, que dizem ter sido criado pelo próprio Ademar e copiado anos depois pelos correligionários do Maluf. Ademar de Barros, durante toda a sua carreira de 34 anos na política, colecionou feitos administrativos e suspeitas de desvio de dinheiro público. Fez escola, não?

Voltando, o eleitorado estava revoltado com a Câmara Municipal que, para variar, não estava se comportando muito bem. No meio de tudo isso, havia o rinoceronte Cacareco, que, vale dizer, era uma fêmea, apesar do nome.

Cacareco estava nas notícias porque saíra do Rio de Janeiro, emprestado por seis meses, para abrilhantar a inauguração do Zoológico de São Paulo, que ocorria naquele mesmo ano. Os seis meses iam se passando e os paulistas cogitavam a ideia de dar um calote e não devolver o rinoceronte.

No meio de um mar de lama da Câmara Municipal, em pleno período eleitoral, o assunto era o rinoceronte. Não que os políticos da época não ajudassem. Havia um de 230 kg, cujo slogan era “vale quanto pesa”. Outro andava por aí com uma onça e dizia: “eleitor inteligente vota no amigo da onça”.

Então, Cacareco ficou cada dia mais popular. Todos os jornais só falavam dele.

Uma conhecida fábrica de brinquedos chegou até a lançar uma miniatura do bicho!

O jornalista Itaboraí Martins brincou com isso, lançando a candidatura de Cacareco ao cargo de vereador. E não é que a ideia pegou?

Naquela época, a eleição era na base do papel e do envelope. O eleitor recebia um envelope das mãos do mesário e, dentro dele, botava a cédula do seu candidato, fosse ele quem fosse. Houve uma adesão gigantesca à candidatura de Cacareco e várias gráficas, de brincadeira, imprimiram cédulas com o nome do bicho. Muita gente achou legal ir pra rua e fazer campanha em nome do rinoceronte.

O que aconteceu a seguir parece piada, mas Cacareco recebeu cerca de 100 mil votos! Parece pouco diante do eleitorado de hoje, mas preste atenção no restante dos números. O candidato mais votado naquela eleição não teve mais que 110 mil votos e mesmo o partido que elegeu a maior bancada teve, ao todo, 95 mil votos.

Sua excelência, o rinoceronte Cacareco, nem pôde comemorar, coitado. Dois dias antes da eleição, o bicho foi devolvido para o zoo do Rio, sem muito alarde, como se fosse um anarquista subversivo.

O estrago, porém, já havia sido feito. Cacareco ganhou até as páginas do jornal “The New York Times”, que citava um eleitor:

– É melhor eleger um rinoceronte do que um asno.

Cacareco não foi o único animal a sair “candidato”. Houve o também famoso Macaco Tião, em Jaboatão elegeram um bode, mas por conta da quantidade de votos obtidos, o rinoceronte tornou-se o mais famoso caso de “voto de protesto” da história.

 

 

 

 

 

Fonte:

R7

 

Mappin, a mais famosa loja de departamentos de São Paulo

Há pouco mais de 100 anos, em novembro de 1913, a primeira loja Mappin foi aberta em São Paulo. A rede de lojas de departamentos, trazida para o país por dois irmãos ingleses, Walter e Hebert Mappin, foi à falência em 1999, mas ainda hoje faz parte da memória de muitos brasileiros.

O primeiro Mappin Stores foi inaugurado na Rua 15 de Novembro, no centro de São Paulo. A unidade mais conhecida, porém, seria aberta em 1939 na Praça Ramos, também no centro.

A história do Mappin começou na Inglaterra, depois da Revolução Industrial, em 1774, quando as famílias de comerciantes Mappin e Webb inauguraram na cidade de Sheffield uma sofisticada loja de prataria e artigos finos. Posteriormente se mudaram para Londres, depois para Buenos Aires e, finalmente, São Paulo. Na ocasião, a cidade possuía apenas 320 mil habitantes, o transporte de massa eram os bondes da Light e a loja atendia a aristocracia cafeeira. No início, a loja seguiu como filial da britânica Mappin & Webb, e prosperou até contar com 11 departamentos e 40 funcionários.

Nessa época, somente a elite frequentava o estabelecimento, onde elegantes joias ornavam os balcões e as vitrines expunham louças (porcelanas Inglesas), faianças, delicados objetos decorados em Art Noveau, etc. Aliás, ela foi pioneira em exibir luxuosas vitrines (para ter uma ideia desse passado, pense nos shoppings de hoje) na cidade para atrair os consumidores.

Anúncio da inauguração, em 1913

Anúncio da inauguração, em 1913

Os departamentos eram divididos nos vários andares do prédio, interligados por elevadores. Cada andar vendia um tipo de produto, como roupas, móveis, eletrodomésticos e brinquedos.

Em 1916, o Mappin trazia blusas modernas para as senhoras.

Em 1916, o Mappin trazia blusas modernas para as senhoras.

As novidades não paravam de chegar na imensa loja de departamentos, moderna e arejada para os padrões de então.

Este anúncio é de 1918.

Este anúncio é de 1918.

O Mappin logo conquistou a preferência dos paulistanos e mudou-se em 1919 para um prédio enorme, na Praça do Patriarca.

Anúncio informando da mudança.

Anúncio informando da mudança.

Só que… Em 1929, a crise do café abalou a economia de São Paulo, atingindo a elite consumidora. Era hora de mudar a estratégia comercial, para popularizar mais a empresa. No início da década de 1930, a loja colocou etiquetas com preços nos produtos em suas vitrines. Para a época, foi uma atitude ousada, mas era uma estratégia para atingir consumidores da classe mais popular.

Em 1939, atravessaram o viaduto, e mudaram-se para a praça Ramos de Azevedo, num prédio alugado e pertencente à Irmandade da Santa Casa.

O Mappin na Praça Ramos de Azevedo, por volta de 1960.

O Mappin na Praça Ramos de Azevedo, por volta de 1960.

Adquirida anos mais tarde (entre 1947 e 1950) por um empresário e antigo comerciante de café do interior, Alberto Alves Filho, a empresa mudou sua razão social de Mappin Stores & Cia para Casa Anglo Brasileiro Ltda. Com esse empresário no comando, o Mappin passou a comercializar produtos nacionais, moveis, roupas, etc  e  assim conquistou uma clientela mais massificada, e já ligada a seu futuro de grande loja de departamentos.

Anúncio do Mappin de 1952, valorizando a qualidade da roupa pronta, tão boa quanto a roupa feita nos alfaiates, e mais barata.

Anúncio do Mappin de 1952, valorizando a qualidade da roupa pronta, tão boa quanto a roupa feita nos alfaiates, e mais barata.

A Casa Anglo Brasileira foi a loja precursora do crediário no comércio paulista (que então no máximo conhecia o fiado…) oferecendo aos clientes a possibilidade de fazer suas compras a prazo. Com forte apelo na mídia, especialmente a “Liquidação Anual no Mappin” e seu famoso jingle “Mappin, venha correndo, Mappin, chegou a hora Mappin, é a liquidação”, a empresa passou a ser comandada em 1982 por Cosette Alves, viúva de Alberto, e detentora do controle acionário.

Foram abertas filiais, o Mappin tornou-se uma rede com 12 lojas e foi então vendido ao empresário Ricardo Mansur, dono da Mesbla, em 1996. Megalomaníaco, quis fundir as duas redes e, mal gestor, acabou ficando sem capital e teve a falência do grupo decretada em 1999.

O Mappin marcou época na cidade de São Paulo, seja com seu salão de chá, que tornou-se ponto de encontro, seja com suas liquidações.

Propaganda institucional de 1922

Propaganda institucional de 1922

Mulher-gato de 1967

Mulher-gato de 1967

Mappin desejando Boas Festas, ao redor dos anos 1960

Mappin desejando Boas Festas, ao redor dos anos 1960

Em 1966, todos os lançamentos de brinquedos eram feitos no Mappin

Em 1966, todos os lançamentos de brinquedos eram feitos no Mappin

 

Em 1978, os primeiros vídeogames eram lançados antes no Mappin. A cidade tinha muitas outras grandes lojas, como Pirani, Mesbla, A Exposição/ Clipper, a Sears, snard, Cássio Muniz, mas Mappin era... o Mappin.

Em 1978, os primeiros videogames eram lançados antes no Mappin. A cidade tinha muitas outras grandes lojas, como Pirani, Mesbla, A Exposição/ Clipper, a Sears, Isnard, Cássio Muniz, mas Mappin era… o Mappin.

Como havia o crediário, a maioria dos clientes preferia visitar primeiro o Mappin, que investia pesado em mídia

Como havia o crediário, a maioria dos clientes preferia visitar primeiro o Mappin, que investia pesado em mídia

O famoso jingle em um spot de rádio de 1978:

Os Banhos da Sereia

Largo São Bento em 1887. No centro a Rua São Bento

Largo São Bento em 1887. No centro, a Rua São Bento.

É difícil imaginar, mas houve uma época em que as casas de São Paulo não tinham banheiro. Não apenas as casas pobres, mas nenhuma casa tinha banheiro. Existiu até um pequeno móvel, uma espécie de cadeira com o assento vazado para melhor acomodar o traseiro e o penico colocado por baixo. Consta que os serviçais de D. João VI sempre levavam uma cadeira dessas nos passeios do rei1, porém nunca encontrei qualquer referência a tal artefato em São Paulo. Não faço ideia do que faria uma visita a uma casa de família em caso de aperto.

Cadeira - sanitário

Cadeira – sanitário

Quanto aos banhos, bem, estes eram de bacia mesmo. Uma memorialista nos conta que, após os trabalhos costumeiros na “sala de costura”, à noitinha, as pretas costureiras levantavam acampamento e “iam preparar os quartos para a noite, colocar velas nos castiçais e arear as bacias para os banhos”. E essa memorialista pertencia a uma das famílias mais abastadas de São Paulo na segunda metade do século XIX2.

Somente no final do século XIX, com o abastecimento de água um pouco melhor, foram desativados os últimos chafarizes públicos. Ao mesmo tempo criava-se uma limitada rede de esgotos, que eram lançados no Rio Tietê sem nenhum tratamento.

Então, algumas casas passaram a contar com banheiros. Mas somente as casas ricas. As mais simples ainda usavam o velho sistema. Zica Bergami (1913-2011), compositora de “Lampião de Gás”, relatando sua infância, conta que “naquela época, só havia toilettes nos grandes palacetes dos bairros ricos. Os menos favorecidos tinham que se arranjar com tinas ou bacias enormes ou, então banhavam-se à noite, nos tanques dos quintais, depois que todos dormiam3.

No século XIX eram comuns, nos grandes centros europeus, as casas de banhos, porém em São Paulo a primeira notícia que se tem de uma casa de banho é de fevereiro de 1857, quando Carlos Pedro Etchecoin anuncia a abertura de sua casa Banhos de Saúde, na Rua do Carmo,3. Oferecia “banhos de lavagem ou de vapor, segundo o gosto ou a necessidade de cada um4. Mas eram banhos de caráter medicinal, com acompanhamento médico. Não deve ter durado muito tempo, pois outro Etchecoin, agora João Luis Etchecoin e Companhia, proprietários do Hotel Quatro Nações, anunciava em 1863 também “banhos de corpo inteiro no dia 15”5.

A primeira casa de banhos de caráter não só higiênico, mas também com função social, somente apareceu em 1865. Chamava-se “A Sereia Paulista”. Foi inaugurada em 28 de setembro de 1865, para grande alegria do jornalista do Correio Paulistano que há algum tempo vinha se queixando da falta que fazia tal tipo de casa na capital. Seu proprietário era Bento Vianna e ficava na Rua São Bento, 1. O imóvel pertencia ao mosteiro de São Bento.

É a casa que vemos à direita da foto que abre a matéria. Era uma casa grande, ia da Rua São Bento até a antiga Rua São José, atual Líbero Badaró, onde era assobradada6. Tinha um poço para abastecimento de água, reservatórios, aquecimento e vários quartos com uma banheira de mármore em cada um. Um dos quartos era adaptado para “banhos de chuva7. Na sala da frente, “refrescos finos e bebidas de espírito”. Na época era propriedade de Henrique Schroeder.

Anúncio publicado no jornal O Correio Paulistano de 29-10-1865

Anúncio publicado no jornal O Correio Paulistano de 29-10-1865

No dia primeiro de janeiro de 1871, um personagem pitoresco adquiriu a Sereia Paulista8. Trata-se de José Fischer, um húngaro alto, barbudo e ranzinza que havia chegado ao Brasil no ano anterior. Fischer reformou a casa e, ao longo do tempo, transformou a sala onde eram servidas as bebidas em restaurante. Ficou famoso pelos bifes à Leipzig, que ficaram popularizados como bifes à cavalo. Por um bom tempo, tornou-se um bom programa paulistano ir tomar banho na Sereia e depois jantar um bife com vinho húngaro, o que era uma novidade para os brasileiros.

Diz antigo cronista que o húngaro levava ao pé da letra a metáfora de não tolerar que na sua casa ninguém falasse mais alto que ele. Sabendo disso, os estudantes, por gozação, entravam em fila e iam cumprimentando em tom cada vez mais alto e Fischer respondendo ainda mais alto. No final da fila, estavam todos aos berros9.

Ele somente recebia clientes masculinos e sua casa era muito frequentada pelos membros da colônia alemã. Quanto à sereia, ficava somente no nome e numa pintura feita por Nicolau Huascar que servia de emblema da casa10. Um viajante, Karl Von Koseritz, que certamente conhecia casas de banho europeias, visitando São Paulo em 1883, foi levado para uma visita à Sereia Paulista e relatou: “Os meus leitores hão de compreender que fui à sereia com as maiores esperanças e com água na boca, mas a desilusão foi completa. A sereia se nos apresentou sob a forma de um corpulento e amplamente barbado senhor Fischer, um húngaro, que é o proprietário dessa taverna, reconhecidamente a melhor de São Paulo”11.

Fischer importava vinhos da Hungria, principalmente dos tipos Tokay, Ménesi e Ruszti, porém espalhou-se o boato de que o vinho servido na Sereia era produzido com água do rio Tietê. Cansado das boatarias, Fischer mandou publicar nos jornais um anúncio oferecendo um conto de réis a quem provasse que seu vinho não era da Hungria, caso contrário ficaria passando por mentiroso12. Esquentado, não?

Anúncio publicado no jornal A Província de S. Paulo de 21-12-1887

Anúncio publicado no jornal A Província de S. Paulo de 21-12-1887

Em 1886, Fischer talvez já estivesse um pouco cansado do negócio, pois colocou a Sereia Paulista à venda13. Não deve ter conseguido nenhuma boa proposta de negócio, porque somente em 1891 é que passou a casa a uma Companhia Sereia Paulista que, apesar de ter planos de construção de um prédio maior, acabou entrando em liquidação dois anos depois14.

José Fischer retirou-se para Dassau, Alemanha, onde faleceu em 189815.

 

 

Notas
1 – GOMES, Laurentino, 1808, Editora Planeta do Brasil, 2007, pág. 302.
2 – BARROS, Maria Paes de, No Tempo de Dantes, São Paulo, Paz e Terra, 1998, pág. 19.
3 – BERGAMI, Zica, Onde estão os Pirilampos?, João Scortecci Editora, São Paulo, 1989, pág. 18.
4 – Jornal Correio Paulistano de 12-02-1857.
5 – Jornal Correio Paulistano de 08-01-1963.
6 – NOGUEIRA, Almeida, A Academia de São Paulo – Tradições e reminiscências, Nona série, 1912.
7 – Jornal Correio Paulistano de 26-09-1865
8 – Diário de São Paulo de 01-01-1871
9 – Ver nota 6.
10 – Correio Paulistano de 01-10-1865.
11 – BARBUY, Heloísa, A Cidade-Exposição, Comércio e Cosmopolitismo em São Paulo, 1860-1914,Editora da Universidade de São Paulo, 2006.
12 – Jornal A Província de S. Paulo de 21-12-1887.
13 – Jornal Correio Paulistano de 05-05-1886.
14 – Jornal O Estado de S. Paulo de 06-08-1893.
15 – Jornal O Estado de S. Paulo de 19-02-1898.

 

Fonte:

Edison Loureiro, saopaulopassado.wordpress.com