“Os irmãos Wright usavam catapulta” e outros mitos em defesa de Santos Dumont

Foi legal ver o 14 Bis na abertura das Olimpíadas. Mas está na hora de admitir que os irmãos Wright voaram mais e voaram antes que o brasileiro.

14 bis

Alberto Santos Dumont foi um grande brasileiro, um homem admirável, mas, sorry, ele não inventou o avião. Os brasileiros precisam tomar uma atitude menos provinciana e admitir que os irmãos Wright voaram antes, voaram mais, voaram melhor. E que o 14 Bis não voava: dava pulinhos.

Dedico um capítulo do Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil a mostrar por que os argumentos mais frequentes em defesa do pioneirismo de Santos Dumont são papo furado. Eis um resumo:

Mito 1: “Os irmãos Wright só decolavam com catapultas”

“O avião dos Wright não saía do chão com a própria força”, dizem os defensores do brasileiro, “porque eles usavam catapulta, uma força externa, na decolagem”. É verdade que os primeiros modelos dos Wright usavam catapultas. O mecanismo simplificava a decolagem e evitava solavancos. A partir do Flyer 3, de 1905, os irmãos prescindiram da catapulta. Como o trem de pouso não tinha rodas, usavam um trilho (sem declive) para guiar o avião. Depois do motor levar o Flyer a uma velocidade suficiente, o piloto o desconectava do trilho e levantava voo.

É preciso deixar isso claro. Em 1905, sem catapulta, sem força externa empurrando o avião, os Wright fizeram um voo de 39 mil metros. Em 1906, Santos Dumont fez um voo de 220 metros.

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1904. O aviãozinho dos Wright.

Em 1908, quando os Wright enfim conseguiram atravessar o Atlântico e demonstrar sua invenção na França, os técnicos franceses questionaram o uso da catapulta. Wilbur Wright sequer discutiu. Decolou sem a propulsão externa. Voou e quebrou recordes do mesmo modo.

Mito 2: “Não há provas dos voos dos irmãos Wright”

Wright-Brothers-Flying-Machine-Patent

Dê uma olhada na imagem acima. É o registro da patente número 821.393, referente a uma “máquina de voar”. Na descrição do projeto, os irmãos Wright definem sua criação:

Nossa invenção é relacionada à classe de máquinas de voar em que o peso é sustentado por reações resultantes em aeroplanos sob um pequeno ângulo de incidência, através da aplicação de força mecânica ou pela utilização da força da gravidade.

Parece uma descrição perfeita de um avião, não? Os irmãos solicitaram o registro em 1903. A patente demorou para ser aprovada, mas nem tanto. Foi emitida em maio de 1906, seis meses antes de Santos Dumont ganhar prêmios com o 14 Bis.

Além dessa prova, há diversos registros de voos dos Wright antes do 14 Bis. Em 5 de outubro de 1905, Wilbur Wright voou com o Flyer 3 durante 39 minutos, percorrendo 38,9 quilômetros. Sessenta pessoas assistiram àquela e a outras demonstrações; a Scientific American, meses depois, escreveu sobre o episódio.

Um ano antes do 14 Bis voar 220 metros, a uma altura máxima de… 6 metros, os Wright já negociavam a produção em série de aviões para o Exército americano. “Precisamos saber se vocês desejam reservar o monopólio do uso dessa invenção, ou se permitirão que aceitemos pedidos de máquinas similares para outros governos, e para dar demonstrações públicas, etc.”, escreveram eles em outubro de 1905.

Mito 3: “A aviação teve vários pioneiros; Santos Dumont tem tanta importância quanto os Wright”

É verdade que muitas pessoas contribuíram para a invenção do avião. Mas achar que Santos Dumont teve tanta importância quanto os Wright equivale a dizer que Anitta inventou a Bossa Nova. Santos Dumont ganhou fama como um balonista. Sua grande paixão eram os balões; ele começou a estudar asas planas a contragosto, por insistência dos colegas, que não paravam de ouvir boatos sobre o sucesso dos americanos com máquinas mais pesadas que o ar.

Quando conheceram os Wright, em 1908, os franceses ficaram boquiabertos. Os americanos não só tiravam o negócio do chão como davam curvas e oitos no ar. Tanto domínio certamente não havia surgido de um dia para o outro. “Por muito tempo, os irmãos Wright foram acusados de serem impostores. Hoje eles são venerados na França e eu me incluo com prazer entre os primeiros a se corrigir”, disse Ernest Archdeacon, o milionário que dois anos antes deu o prêmio a Santos Dumont.

No mundo todo, a polêmica acabou ali. Depois do sucesso dos Wright na França, o brasileiro foi aos poucos sendo esquecido pelos franceses. Decidiu então voltar para o único país que ainda acreditava em seu pioneirismo: o Brasil.

Resgate na sua memória a imagem do 14 Bis: ela se parece de alguma forma com um avião moderno? Agora veja, abaixo, o Flyer 4 voando em 1905 (um ano antes do 14 Bis). Deixo com você a resposta sobre quem contribuiu mais para a aviação.

 

 

Fonte:
Leandro Narloch
Veja.com.br

 

PS – Bem, achei a matéria interessante, por isso a reproduzi. Mas, pessoalmente, tenho ressalvas às afirmações do autor. Primeiro, está documentado que todas as réplicas do 14 Bis construídas posteriormente (com os mesmos materiais usados à época) voam normalmente. Réplicas dos Flyer (os aviões – ou planadores? – dos Wright) que seriam objeto do pioneirismo não voam a não ser catapultados. Outro fato comprovado é que o 1º equipamento (mais pesado que o ar) que saiu do solo com propulsão própria, comandável, com experimento repetido e testemunhado foi o de Alberto Santos Dumont.

E tem mais, o primeiro avião a ser produzido em série na história, e que inspirou o desenho de vários outros, foi uma invenção de Dumont: o Demoiselle, de 1907.

Cerca de 300 foram produzidos pela fábrica Clément Bayard. Santos-Dumont distribui o projeto de graça!

Santos_Dumont_Demoiselle

Quantos aviões inspirados no projeto patenteado dos Wright foram produzidos em série? Nem o exército americano o quis, porque o modelo era instável demais.

A grande contribuição de Santos-Dumont foi realmente o Demoiselle, que tinha até leme na cauda para controlar o voo e a estabilidade. E o fato de ele distribuir o projeto permitiu que outros estudiosos e aviadores o fizessem evoluir.

Segundo estudiosos, o projeto tanto do 14 Bis quanto do Flyer, com o “bico” na frente, é muito instável, por isso não foi adiante. Segundo esses mesmos estudiosos, o sonho de Santos-Dumont para a aviação não era o de cruzar grandes distâncias, era o de ter o avião em sua casa, para usá-lo no dia-a-dia, para ir ao trabalho ou visitar os amigos, de forma prática e simples.

E, finalmente, nenhum voo inicial dos americanos foi documentado. Ter o testemunho de 60 pessoas de alguma forma ligada aos inventores que tinham interesse financeiro em seu aparelho (por isso o patentearam) é altamente suspeito…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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A odisseia de Cartier

Nova sede da Cartier em Paris, na Faubourg Saint-Honoré.

Nova sede da Cartier em Paris, na Faubourg Saint-Honoré.

A história da tradicional joalheria começou em 1847, quando Louis-François Cartier assumiu o controle da pequena oficina de joias de seu mestre, Adolphe Picard, localizada no número 29 da Rue Montorgueil, rua mais cara e chique de Paris na época, e resolveu patentear sua própria marca, representada pelo famoso coração entre as iniciais L e C em um losango. Surgia a Maison Cartier, lançando uma das mais luxuosas grifes de relógios e joias do mundo.

Em 1853, implantou o atendimento personalizado e elitizado, abrindo suas portas para uma clientela privada e exclusiva. Pouco depois, em 1859, alugou uma sede no Boulevard des Italiens, cuja vizinhança era a mais sintonizada na moda em Paris. Foi nessa época que suas criações encantaram a Imperatriz Eugénie, esposa de Napoleão III, que encomendou um serviço de chá em prata. O trabalho ficou tão bom que ele passou a ser o fornecedor da corte. Esse era o empurrãozinho que a marca precisava para ir cada vez mais longe e se tornar ainda mais conhecida.

Inovador, Louis Cartier assinou, logo no início do século XX, o primeiro relógio de pulso com pulseira de couro do mundo, desenvolvido especialmente para seu grande amigo, o aviador brasileiro Santos-Dumont, que reclamou do desconforto dos relógios de bolso durante seus voos. Cartier assumiu o desafio, desenhando um relógio de pulso plano com um peculiar aro quadrado.

Em 1909, ele e os filhos abriram uma suntuosa loja em Nova York, localizada no número 712 da badalada 5ª Avenida. No ano seguinte a marca inaugurou lojas em Moscou e no Golfo Pérsico, iniciando assim uma forte expansão internacional, que culminou com a inauguração em 1935 de uma sofisticada boutique em Monte Carlo, seguida em 1938 por uma unidade em Cannes. Em 1942, Louis Cartier faleceu, deixando um legado de criatividade e gênio artístico.

Hoje, criando relógios, joias, perfumes e uma série de outros cobiçados produtos, a marca Cartier está presente nas maiores cidades do mundo, como Nova York, Lisboa, Londres, Seul ou Xangai.

Em 2012, a marca francesa completou 165 anos de pura sofisticação. E, para comemorar tão importante data, Cartier lançou o filme publicitário L’Odyssée de Cartier (“A Odisseia de Cartier”), dirigido pelo artista multimídia Bruno Aveillan, resultado de dois anos de intensos trabalhos de um time de 50 talentosos profissionais. O jornal britânico The Daily Telegraph classificou os 3 minutos e meio do filme como “uma pequena obra-prima”, para cuja confecção a marca francesa, decididamente, não economizou.

Na história, o símbolo icônico da marca – a pantera – realiza uma épica jornada mundo afora rumo a momentos e locações vitais para sua história. O felino foi escolhido por ser o símbolo da Cartier desde 1930, graças a Jeanne Toussaint, lendária diretora criativa da marca, que produziu o bracelete ‘La Panthère’, especialmente para a Duquesa de Windsor. Depois de passar pela Rússia, China e Índia, e pular nas asas do 14 Bis de Santos-Dumont, a pantera termina sua viagem na Place Vendôme, em Paris, onde caminha para o Grand Palais, para encontrar a modelo Shalom Harlow.

Vale muito a pena ver ou rever essa jornada entre o sonho e a realidade, criada com muito bom gosto e sofisticação.