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Em 1964, a imprensa disse sim ao golpe militar

Fonte: blog de Mário Magalhães

Há mais de 50 anos, o Brasil viveu uma virada política com a instauração do regime militar, que durou de 1 de abril de 1964 até 15 de março de 1985, sob comando de sucessivos governos militares. O blog de Mário Magalhães relembrou as primeiras páginas de jornais e capas de revistas publicadas nas horas quentes do princípio de abril de 1964:

“Mais do que informação, constituíam propaganda, notadamente a favor da deposição do presidente constitucional João Goulart.

Até onde alcança o conhecimento do blogueiro, as imagens configuram a mais extensa amostra (ficarei feliz se não for) do comportamento do jornalismo brasileiro meio século atrás. Trata-se de documento histórico, seja qual for a opinião sobre os acontecimentos.

Dos periódicos aqui reunidos, oriundos de cinco Estados, a maioria são jornais diários, alguns dos quais já não circulam, e dois são revistas hoje extintas.

Apenas três se pronunciaram em defesa da Constituição: ”Última Hora”, ”A Noite” e ”Diário Carioca”. Nos idos de 1964, os dois últimos não tinham muitos leitores.

Os outros, em diferentes tons, desfraldaram a bandeira golpista.

As fontes da garimpagem foram: Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional; Google News Newspaper Archive; sites e versões impressas de jornais; não menos importantes, blogs e sites, aos quais sou imensamente grato.

É muito provável que, quanto mais capas se somarem, maior seja a proporção das publicações que saudaram o movimento que pariu a ditadura de 21 anos.

Para não ser original e repetir uma expressão consagrada: em 1964, a imprensa disse sim ao golpe”.

O Globo (Rio), 2 de abril de  1964:”Empossado Mazzilli na Presidência”.
Título do editorial: ”Ressurge a democracia!”

O Dia, 3 de abril de 1964: ”Fabulosa demonstração de repulsa ao comunismo”.

Jango chegou ao Rio Grande do Sul no dia 2. De lá, iria para o Uruguai. ”O Dia”: ‘‘Jango asilado no Paraguai!”.



Jornal do Brasil (Rio), 1º de abril de 1964: ”S. Paulo adere a Minas e anuncia marcha ao Rio contra Goulart”.

”’Gorilas’ [pró-Jango] invadem o JB.”

Folha de S. Paulo, 2 de abril de 1964: ”Congresso declara Presidência vaga: Mazzilli assume”.

”Papel picado comemorou a ‘renúncia’ de João Goulart.”

A Noite (Rio), 1º de abril de 1964: ”Povo e governo superam a sublevação”.

Contrário ao golpe, jornal aposta no triunfo de Jango.

Diário de Piracicaba (SP), 2 de abril de 1964: ”Cessadas as operações militares: A calma volta a reinar no país”.

No dia seguinte: ”Relação de deputados que poderão ser enquadrados: Comunistas ou ligações com o comunismo”.

Diário de Pernambuco, 2 de abril de 1964: ”Jango sai de Brasília rumo a Porto Alegre ou exterior: posse de Mazilli”.

Governador constitucional Miguel Arraes, vestido de branco no Fusca, é preso e cassado.

Última Hora, 2 de abril de 1964: ”Jango no Rio Grande e Mazzilli empossado”.

Jogando a toalha: ”Jango dispensa o sacrifício dos gaúchos”.

O Estado de S. Paulo, 2 de abril de 1964: ”Vitorioso o movimento democrático”.

É a contracapa, porque a primeira página, era o padrão, só tinha notícias do exterior.

O Cruzeiro, 10 de abril de 1964: ”Edição histórica da Revolução”.

Revista celebra um herói da ”Revolução”, o governador de Minas, Magalhães Pinto, um dos artífices do golpe.

Fatos & Fotos, abril de 1964 (data não identificada): ”A grande rebelião”.

Uma revista em júbilo.

Diário da Noite (São Paulo), 2 de abril de 1964: ”Ranieri Mazzilli é o presidente”.

O jornal dos Diários Associados trata a nova ordem como ”legalidade”

Diário Carioca, 1º de abril de 1964: ”Guarnições do I Exército marcham para sufocar rebelião em Minas Gerais”.

O jornal defendeu a Constituição.

Correio da Manhã (Rio), 1º de abril de 1964: ”(?) Estados já em rebelião contra JG”.

Editorial clama pela deposição de João Goulart: ”Fora!”.

Diário de Notícias (Rio), 2 de abril de 1964: ”Marinha caça Goulart”.

”Ibrahim Sued informa: É o fim do comunismo no Brasil.”


Curiosidades

100 anos do massacre da família imperial russa

A Copa na Rússia terminou.

Foram momentos de muita emoção do esporte mais popular no mundo, assistidos por, estima-se, mais de um bilhão de pessoas em todo o mundo.

A Rússia foi palco de muitas surpresas, por exemplo, os maiores craques do futebol tiveram suas equipes eliminadas antes da grande final.

Várias cidades do maior país do mundo em extensão receberam jogos, e uma delas foi Iekaterinburgo, palco da execução da família real russa, evento cujo centenário será lembrado com grande procissão em 17 de julho, dois dias após o fim do Mundial.

Foi em 17 de julho de 1918 que o último czar, Nicolau II foi brutalmente morto a tiros e golpes de baioneta com a mulher, o herdeiro do trono, quatro filhas, o médico, três criados e dois cães. Vladimir Lênin (1870-1924) tentava formar um governo em plena guerra civil. Ele mantinha a família real, cujo líder fora forçado a abdicar em fevereiro de 1917, detida a 1.400 km de Moscou. A aproximação do monarquista Exército Branco selou o destino do último imperador da dinastia Románov, surgida em 1613.

Os Romanovs. Da esquerda para a direita: Maria, Tatiana e Olga. Sentados: Alexandra, Nicolau II, Anastasia e Alexei, o herdeiro do trono.

Segundo relatos da época, assim se deu a execução dos Romanovs, ordenada por Lênin:

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Ao redor da meia-noite, Yakov Yurovsky, o implacável braço direito de Lênin, ordenou ao médico dos Romanovs, Dr. Eugene Botkin, que acordasse a família e pedisse que eles colocassem suas roupas, sob o pretexto de que seriam transferidos para um local seguro, devido ao iminente caos em Iekaterinburgo. Os Romanovs foram então levados para uma sala.

Os prisioneiros foram avisados para esperar ali, enquanto o caminhão que os transportaria fosse trazido. Poucos minutos depois, um esquadrão de execução da polícia secreta chegou e Yurovsky leu em voz alta a ordem dada a ele pelo Comitê Executivo:

“Nikolai Alexandrovich, em vista do fato de que seus parentes estão continuando seu ataque a Rússia Soviete, o Comitê Executivo Ural decidiu executar você”.

Nicolau, encarando sua família, virou e disse: “O quê? O quê?” Yurovsky rapidamente repetiu a ordem e as armas foram levantadas. A Imperatriz e a Grã-duquesa Olga tentaram fazer o sinal da cruz, mas foram surpreendidas pelo tiroteio. Yurovsky levantou sua arma no torso de Nicolau e atirou; Nicolau caiu morto. e Yurovsky então atirou em Alexei. Os outros executores começaram a atirar caoticamente até que todas as vítimas tivessem caído. Muitos tiros foram disparados e depois as portas foram abertas para dispersar a fumaça.

Algumas das vítimas não morreram imediatamente, então Pyotr Ermakov esfaqueou-as com baionetas, porque os tiros poderiam ser ouvidos do lado de fora. As últimas a morrer foram Tatiana, Anastásia, e Maria, que carregavam mais de 1.3 quilos de diamantes costurados nas roupas, os quais tinham dado a elas um certo grau de proteção do tiroteio. Entretanto, elas também foram espetadas com baionetas. Olga tinha um ferimento de bala na cabeça. Maria e Anastásia teriam se agachado contra uma parede, cobrindo suas cabeças em terror, até serem atingidas e derrubadas. Tatiana morreu de uma única bala na parte de trás de sua cabeça. Alexei recebeu duas balas na cabeça, atrás da orelha após os executores perceberem que ele não tinha sido morto pelo primeiro tiro. Anna Demidova, empregada de Alexandra, sobreviveu ao ataque inicial, mas foi rapidamente esfaqueada pelas costas até a morte, contra a parede, enquanto tentava se defender com um pequeno travesseiro que tinha carregado, preenchido com joias e pedras preciosas.

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O pano de fundo de toda essa tragédia foi a Revolução Bolchevique… A 1ª Guerra Mundial estava no fim, e, para a Rússia Imperial e seu inepto czar, as grandes baixas e derrotas humilhantes sofridas na guerra significavam dificuldades econômicas e desordem social em casa. E em março de 1917, o povo de São Petersburgo, a então capital imperial, se levantou em revolta armada.

Após a violência dos dias seguintes matar mais de 1.300 pessoas, o czar Nicolau II abdicou em favor de seu irmão, o Grão-Duque Michael Alexandrovich, protegendo o filho. Quando o duque não aceitou o trono, os rebeldes estabeleceram o Governo Provisório. Ele veio com a promessa de reformar o governo russo, e um voto popular foi planejado para determinar se a nação deveria permanecer uma monarquia ou se mudaria para a república. Essa revolta não conduziu à democracia, mas foi o primeiro de uma série de eventos que levaram ao estabelecimento da ditadura de Vladimir Lênin.

Pintura simbolizando a força do exército vermelho, comunista, sobrepujando o exército branco, não-comunista, durante a guerra civil.

Depois da abdicação de Nicolau II, a família imperial foi colocada sob guarda em diversos locais, e sempre sob sigilo, porque a população, dividida pela guerra civil, os culpava por todos os seus infortúnios: pobreza, desemprego, inflação etc.

A abdicação de Nicolau II, sentado à direita. Menos de um ano depois, ele foi executado.

Quando deixaram o palácio imperial, seguiram em dois trens que exibiam a bandeira japonesa, como parte de uma suposta missão da Cruz Vermelha do Japão, para evitar possíveis ataques da população.

O Czar, prisioneiro dos bolcheviques em Iekaterinburgo dias antes de ele e sua família serem assassinados, em julho de 1918. O governo bolchevique sustentou que o assassinato havia sido cometido por um soviete local, enquanto a população faminta permanecia. apática.

O governo declarou oficialmente que a família imperial fora executada sob ordens do governo soviético dos Urais, que afirmou que as execuções foram necessárias, pois os regimentos da Checoslováquia – não-comunistas – estavam se aproximando da cidade, numa conspiração “contra-revolucionária para libertar o antigo monarca”. Nenhum sinal de uma possível conspiração foi encontrado, embora os checos tenham tomado a cidade oito dias depois da execução da família imperial.

Na Rússia pós-soviética, a investigação sobre a execução do último czar e sua família chegou à conclusão de que a ordem foi dada pelas autoridades locais dos Urais. Não há qualquer documento evidenciando que Vladimir Lênin ou outro dos líderes bolcheviques estavam interessados na execução do czar. Alguns historiadores argumentam que Moscou queria organizar um julgamento para o último imperador.

Ao mesmo tempo, alguns dos envolvidos no crime disseram que, na véspera do assassinato, receberam um telegrama codificado de Moscou, ordenando a morte do czar, mas não de toda a sua família. As crianças deveriam ser poupadas. Matar todos os Romanov teria sido uma iniciativa do governo soviético local, cujos membros eram muito mais radicais do que os do Kremlin.

A princípio, as autoridades apenas reportaram a morte de Nicolau II. Por algum tempo, a informação oficial era a de que a família tinha sido evacuada de Iekaterinburgo e enviada para longe do caos da guerra civil russa. Só no início da década de 1920 que os detalhes da execução foram expostos, quando os envolvidos confessaram.

É difícil de acreditar, mas o povo russo não ficou muito abalado com a notícia da morte do czar. Nicolau II não era popular. De acordo com alguns historiadores, depois da queda da monarquia, as autoridades receberam muitas cartas da população, pedindo a morte do imperador. A única reação significativa veio do líder da Igreja Ortodoxa, o Patriarca Tikhon, que condenou abertamente o assassinato.

A pessoa responsável pela execução, Yakov Yurovsky (foto acima), afirmou ser o autor do tiro que matou o czar. Em 1920 ele pessoalmente entregou as joias que pertenciam à família imperial a Moscou. Conseguiu alguns cargos importantes no novo Estado Bolchevique, morrendo em 1938 – não devido ao grande expurgo de Stalin – mas por causa de uma úlcera no estômago…

A casa onde a família do czar foi executada foi demolida em 1977, quando o governo regional era liderado pelo futuro presidente, Boris Yeltsin. Mais tarde, uma Igreja foi construída no local, que hoje é um ponto de peregrinação.

A casa sendo demolida

A igreja construída no mesmo lugar

 

 

 

 

 

Fontes:

Wikipedia

rainhastragicas.com

observador.pt

vejaonline.com.br

folha.uol.com.br