Nova York também tinha sua cracolândia, sabia?

O Bryant Park, no coração de Manhattan, era um mercado de drogas a céu aberto cercado por traficantes, viciados e mendigos nos anos 80. Hoje, a região está recuperada

Prédios abandonados em Alphabet City, no Lower East Side, em 1986

Há 30 anos, andar por Nova York não era tão seguro quanto hoje em dia. Os crimes eram frequentes, e muitas vezes foram motivados pelo tráfico de drogas. A epidemia do crack assolava a cidade na década de 1980 e criou áreas onde as pessoas não podiam passar, tudo muito parecido com o que acontece hoje na Cracolândia, em São Paulo.

A cracolândia deles ficava no Bryant Park, no coração de Manhattan, e a uma quadra da Grand Central Station, a maior estação de trens do mundo e um dos cartões postais da cidade. Curiosamente, a “nossa” cracolândia também começou perto da Estação da Luz, que foi construída há mais de 100 anos e é “um dos cartões postais da cidade”. Hoje, temos mais de 20 mini-cracolândias espalhadas por São Paulo!

Em Nova York, havia também outra cracolândia

Outro bairro, conhecido como Alphabet City, também em Manhattan, no Lower East Side, ficou por muito tempo sendo ocupado por traficantes, o que destruiu a vida da comunidade local. Um estudo da época mostrou que o uso de crack estava ligado a 32% de todos os 1.672 homicídios registrados em 1987, e a 60% dos homicídios ligados às drogas.

Para vender o crack, os traficantes invadiam edifícios abandonados e assumidos pelo governo de Nova York por conta de impostos atrasados. Essas crack houses recebiam também usuários de droga que vinham de carro de outros locais da cidade. Isso acabou facilitando o trabalho da polícia, porque nos EUA há uma lei que prevê que, se drogas forem encontradas em um carro, pode-se apreender as drogas e os carros. Conclusão: centenas de carros eram apreendidos…

Na época, a polícia ainda colocou um policial a cada esquina, para dispersar os usuários e prender os traficantes que andavam pelas ruas. Mas isso só fortaleceu as crack houses, já que o consumo não era controlado dentro desses prédios.

Pressure Point

Então, a polícia começou uma política de pressão, focando nas quadrilhas espalhadas pelos bairros. Agentes à paisana compravam drogas para aprender mais sobre o tráfico (vimos isso em uma porção de filmes e seriados policiais) e outros foram colocados no topo de prédios para observar a ação dos criminosos. O efetivo também aumentou. Entre 1991 e 2001, a força policial de Nova York cresceu 45% – três vezes mais do que a média nacional.

Leis mais severas e tolerância zero

Existiam leis severas, mas que só passaram a ser aplicadas com mais rigor quando a epidemia do crack se espalhou. Essa medida foi responsável pela explosão no número de condenações por posse de drogas, passando de 2.554 em 1980 para 26.712 em 1993. A lei estabelecia sentenças mínimas obrigatórias de 15 anos até a prisão perpétua por posse de cerca de 110 gramas de qualquer tipo de droga.

Foi no início de 1990 que o prefeito Rudolph Giuliani começou a famosa política de tolerância zero, que muitos de nós ouvimos falar. Ela impunha punições automáticas para qualquer tipo de infração, como a pichação de paredes, por exemplo. O objetivo era eliminar por completo a conduta criminosa e as contravenções. Durante seu governo, Giuliani reduziu pela metade as taxas de criminalidade de Nova York.

Segundo especialistas, foi essa combinação de uma ação policial mais eficiente com o respaldo da prefeitura, aliada ao crescimento econômico, os principais responsáveis pela redução de cerca de 80% nas taxas de crimes em geral em um período de 20 anos. Em 2010, a cidade registrou 536 homicídios (no mesmo ano, a cidade de São Paulo registrou 1.210…). Outros especialistas também argumentam que os efeitos destrutivos do crack tornaram-se aparentes, fazendo com que os novos usuários, com medo do poder de destruição da droga, ficassem longe dele.

A ação da Justiça

Em 1989, a Flórida criou as drugs courts, que eram tribunais especializados em atender usuários de drogas, formados por uma equipe com advogados de defesa, promotores, especialistas em saúde mental e em serviço social.

Aqueles que eram pegos com uma pequena quantidade de drogas (até 28 gramas) podiam ter a sentença reduzida ou até a ficha criminal cancelada se não tivessem cometido delitos graves, como homicídios. A contrapartida era frequentar um programa de internação voluntária, com regras e condições estabelecidas entre o réu, advogado de defesa, a acusação e o tribunal.

Atualmente, o estado de Nova York tem cerca de 180 desses tribunais. Mais de 60.000 pessoas passaram pelos programas de tratamento até hoje e mais da metade finalizou o programa.

Como está a antiga cracolândia americana

Tendo combatido o crack nas duas frentes, saúde pública e segurança pública, pode-se dizer que o programa foi vitorioso, já que os bairros voltaram a ser ocupados pela população e pelos turistas.

O Bryant Park hoje

O Lower East Side hoje

Mas a batalha não terminou.

A maioria dos usuários não aceita tratamento ou não permanece nele, por isso foi criado um programa em 2014 que pretende reduzir as violações de liberdade condicional. Os réus são submetidos a exames periódicos, feitos de surpresa, para confirmar se eles realmente abandonaram as drogas. Se o resultado der positivo ou se descumprirem qualquer termo da condicional, eles são presos imediatamente.

Os resultados: houve mais de 80% de abstinência na população alvo, após um ano de programa. Além disso, reduziu pela metade o número de novos encarceramentos.

O que é mais importante?

Segundo especialistas, a aplicação de leis severas tem um papel muito importante para ajudar a minimizar os problemas causados pelo uso do crack. A ação da polícia diminui o fornecimento da droga, mas é preciso um programa de prevenção e tratamento para reduzir a procura.

Mesmo com tantas ações nos EUA, mostrando que o uso de crack tem diminuído no país nos últimos 15 anos, a droga continua a ser um problema.

Um problema sem fim?

Uma pesquisa de 2016 em todo o país revela que pouco mais de 80.000 pessoas usaram crack pela primeira vez em 2015. E mais de nove milhões têm pelo menos alguma experiência com ele.

Russel Falk, diretor do Centro de Intervenção, Tratamento e Pesquisa em Dependência da Wright State University, em Ohio, comenta sobre esses dados: “Você não pode colocar nove milhões de pessoas na cadeia. Então, programas eficazes de prevenção, intervenção e tratamento têm que fazer parte da solução. Apesar de termos feito alguns progressos nestas áreas, ainda temos um longo caminho a percorrer”.

Se os EUA têm um longo caminho pela frente, e nós, então?

A nossa Cracolândia…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte:

Veja

Cargos Disputados nas Eleições 2018

Amigos, este ano teremos eleições novamente. E como será uma das mais importantes eleições dos últimos anos, resolvi publicar este post para esclarecer quais os cargos estão em disputa e assim, quem sabe, a gente consiga votar nas pessoas certas para ocupá-los.

São os seguintes cargos em jogo:

  • Presidente da República;
  • Governadores;
  • Senadores;
  • Deputados Federais;
  • Deputados Estaduais/Distrital

As únicas funções que não serão renovadas nas eleições 2018 são:

  • Prefeitos;
  • Vice – Prefeitos;
  • Vereadores.

Os cargos listados mais acima só deverão ser renovados em 2020!

Sabe quais as obrigações de cada um desses cargos? Leia a seguir.

Presidente da República

O cargo de Presidente da República é atribuído ao candidato que ganhar as eleições por maioria absoluta, o que equivale a mais de 50% dos votos válidos.  Ele exerce as funções de Chefe de Estado e Chefe de Governo, e é a autoridade máxima do Brasil. Sua residência oficial fica situada em Brasília, no Distrito Federal. Seu mandato começa em 1° de janeiro de 2019 e  termina no dia 31 de dezembro de 2022.

O salário é de R$ 30.934,70.  Além do salário, existe uma série de outros benefícios para aqueles que ocupam o cargo. Um desses benefícios é o direito de ocupar duas moradias oficiais em Brasília: o Palácio da Alvorada e a Granja do Torto. O Palácio da Alvorada é a residência oficial do presidente, construída em 1958, antes mesmo da inauguração de Brasília. Já a Granja do Torto é uma propriedade de 37 hectares (equivalentes a 370 mil metros quadrados) com características de casa de campo e situada nos arredores do Plano Piloto.

Outros benefícios são o direito a assessores especiais e inúmeros cargos de confiança, plano de saúde cobrindo todas as despesas, incluindo as de familiares diretos, cartões de crédito corporativos cujo limite varia de acordo com o orçamento e o direito a viajar em aviões da FAB, tanto em missões oficiais quanto em viagens de âmbito particular. Há ainda um importante benefício concedido ao Presidente, que não possui valor monetário: o Foro Privilegiado, que consiste em um mecanismo para garantir que certas autoridades públicas sejam julgadas por tribunais superiores, diferentemente de um cidadão comum, que é julgado pela justiça comum… (uma das vantagens que tinham que acabar).

Agora, o salário dele é alto demais? Para termos uma noção, podemos comparar o salário de um presidente brasileiro com outros presidentes no mundo ou até mesmo com outras autoridades públicas no Brasil.

Nos Estados Unidos, por exemplo, o salário do presidente é de US$ 400 mil ao ano, equivalentes a cerca de R$ 1,28 milhão ao ano ou R$ 106 mil ao mês. A quantia é mais de três vezes superior ao salário do presidente brasileiro. Uma importante diferença entre os líderes das duas nações é que nos Estados Unidos os ex-presidentes têm direito a uma pensão vitalícia de US$ 191 mil anuais. O mesmo não acontece no Brasil, que não oferece pensão a seus ex-presidentes.

Em relação às autoridades públicas brasileiras, a remuneração de um Ministro do Governo é de R$ 30,9 mil mensais, a mesma que a do Presidente, e ainda contam com um auxílio moradia de R$ 6,6 mil reais, diferente dos presidentes, que residem nas moradias oficiais de Brasília.

Já um Ministro do STF recebe R$ 33,7 mil ao mês…

Governadores

Governador é o cargo político que representa o poder executivo na esfera dos Estados e do Distrito Federal. É função do governador: a direção da administração estadual e a representação do Estado em suas relações jurídicas, políticas e administrativas, defendendo seus interesses junto à Presidência e buscando investimentos.

O salário varia de estado para estado, e o do governador de São Paulo é de R$ 22.300,00.

Senadores

Um Senador possui um dos principais cargos e é encarregado de representar o estado que o elegeu e tem a responsabilidade de colaborar diretamente para o desenvolvimento de sua região.

Cada estado é representado por 3 (três) senadores no Congresso Nacional. Possuem a missão de defender e garantir suas necessidades, zelar pelos direitos constitucionais do povo, fiscalizar ações e gastos do poder executivo, autorizar operações externas que possam gerar lucro ao Estado, propor leis que beneficiem a população. Em alguns casos extremos, um Senador poderá até mesmo, julgar o Presidente da República.

Já o salário dele …  Cada senador recebe um salário bruto de R$ 33.763, fora uma montanha de mordomias. Somente os salários dos senadores geram R$ 3.072.433,00 de despesa aos cofres públicos todo mês. (são 81 senadores em exercício e mais 10 afastados ou de licença)

Esse valor salarial coloca os senadores brasileiros entre os parlamentares mais bem pagos do planeta!

Fora salários, eles ainda têm auxílio moradia, passagens aéreas, seguro-saúde, verba para contratar funcionários (cerca de R$ 80 mil por mês!), enfim, é dinheiro que não acaba mais… Veja (se você clicar sobre o quadro, ele vai abrir em outra janela e você poderá ampliá-lo para ver melhor):

Deputado Federal e Estadual

O Deputado Federal representa o poder legislativo e faz parte da Câmara dos Deputados. Tem como principais funções as de legislar e fiscalizar os gastos públicos na esfera nacional.

Já o deputado estadual é o representante do povo nas Assembleias Legislativas. Sua função principal é legislar, ou seja, fazer as leis dos estados. De acordo com o que está definido na Constituição Federal.

Eles também ganham uma fortuna. Atualmente, cada deputado federal recebe um salário bruto de R$ 33.763,00. Somados, o salário e os benefícios de cada deputado chegam a aproximadamente R$ 168,6 mil por mês. Juntos, os 513 deputados custam em média R$ 86 milhões ao mês, e a um custo anual de R$ 1 bilhão…

Veja só quanto custa um deputado…

O deputado estadual recebe o equivalente a 75% do salário dos deputados federais. Atualmente, esse valor equivale a R$ 25,3 mil. Mas eles também têm muitas outras regalias… Veja no quadro>

 

As eleições de 2018 irão acontecer nas seguintes datas:

  • 1º turno: 7 de outubro de 2018;
  • 2º turno: 28 de outubro de 2018.

Agora que você tem um pouco mais de informação, quem sabe a gente consiga escolher representantes melhores e não reeleger os picaretas. Olho vivo!

Quando São Paulo elegeu um rinoceronte

Muito em breve, teremos eleições para prefeito e vereador em todo o país. Será o momento de ouvirmos de novo aquele monte de promessas, de gente sendo aliciada para votar neste ou naquele candidato, de discussões e bate-bocas sobre qual o melhor candidato, torcidas organizadas, passeatas e comícios. E a volta do horário político na TV… ARGH!

Nada que seja diferente do que vem acontecendo no país desde o final da ditadura militar. E nada diferente do que acontecia antes dos militares assumirem o poder, em 1964.

O cordial povo brasileiro sempre se viu seduzido por promessas bonitas e elegeu inúmeros crápulas. Depois, ficou chorando e reclamando que “o governo é isso e aquilo”, esquecendo-se de que o “governo” foi eleito justamente… Pelo povo brasileiro.

Poucas vezes ele reagiu, porém. Uma dessas vezes foi em 1959… Getúlio Vargas havia morrido. O governador de São Paulo era Ademar de Barros, uma espécie de antepassado político de Paulo Maluf.

Ademar de Barros

Ademar de Barros

Uma das “tradições” da política brasileira é a do “rouba, mas faz”, sobre o governante que enfrenta denúncias de corrupção ao longo do mandato, mas é querido pelo povo por causa das obras que realiza. Foi deputado, prefeito da capital e governador do Estado de S. Paulo, e até hoje é identificado com esse lema, que dizem ter sido criado pelo próprio Ademar e copiado anos depois pelos correligionários do Maluf. Ademar de Barros, durante toda a sua carreira de 34 anos na política, colecionou feitos administrativos e suspeitas de desvio de dinheiro público. Fez escola, não?

Voltando, o eleitorado estava revoltado com a Câmara Municipal que, para variar, não estava se comportando muito bem. No meio de tudo isso, havia o rinoceronte Cacareco, que, vale dizer, era uma fêmea, apesar do nome.

Cacareco estava nas notícias porque saíra do Rio de Janeiro, emprestado por seis meses, para abrilhantar a inauguração do Zoológico de São Paulo, que ocorria naquele mesmo ano. Os seis meses iam se passando e os paulistas cogitavam a ideia de dar um calote e não devolver o rinoceronte.

No meio de um mar de lama da Câmara Municipal, em pleno período eleitoral, o assunto era o rinoceronte. Não que os políticos da época não ajudassem. Havia um de 230 kg, cujo slogan era “vale quanto pesa”. Outro andava por aí com uma onça e dizia: “eleitor inteligente vota no amigo da onça”.

Então, Cacareco ficou cada dia mais popular. Todos os jornais só falavam dele.

Uma conhecida fábrica de brinquedos chegou até a lançar uma miniatura do bicho!

O jornalista Itaboraí Martins brincou com isso, lançando a candidatura de Cacareco ao cargo de vereador. E não é que a ideia pegou?

Naquela época, a eleição era na base do papel e do envelope. O eleitor recebia um envelope das mãos do mesário e, dentro dele, botava a cédula do seu candidato, fosse ele quem fosse. Houve uma adesão gigantesca à candidatura de Cacareco e várias gráficas, de brincadeira, imprimiram cédulas com o nome do bicho. Muita gente achou legal ir pra rua e fazer campanha em nome do rinoceronte.

O que aconteceu a seguir parece piada, mas Cacareco recebeu cerca de 100 mil votos! Parece pouco diante do eleitorado de hoje, mas preste atenção no restante dos números. O candidato mais votado naquela eleição não teve mais que 110 mil votos e mesmo o partido que elegeu a maior bancada teve, ao todo, 95 mil votos.

Sua excelência, o rinoceronte Cacareco, nem pôde comemorar, coitado. Dois dias antes da eleição, o bicho foi devolvido para o zoo do Rio, sem muito alarde, como se fosse um anarquista subversivo.

O estrago, porém, já havia sido feito. Cacareco ganhou até as páginas do jornal “The New York Times”, que citava um eleitor:

– É melhor eleger um rinoceronte do que um asno.

Cacareco não foi o único animal a sair “candidato”. Houve o também famoso Macaco Tião, em Jaboatão elegeram um bode, mas por conta da quantidade de votos obtidos, o rinoceronte tornou-se o mais famoso caso de “voto de protesto” da história.

 

 

 

 

 

Fonte:

R7

 

Operação Lava Jato e Operação Mãos Limpas

Moro e Di Pietro

A Operação Mãos Limpas ou Mani pulite foi uma investigação judicial de grande envergadura na Itália, deflagrada em 1992, com uma denúncia do dono de uma empresa de materiais de limpeza ao procurador da República Antonio Di Pietro. O pequeno empresário contou-lhe que, ao perguntar sobre qual o procedimento para se tornar fornecedor de um asilo em sua cidade, um funcionário lhe disse que seria melhor oferecer um “agrado” ao gestor da instituição. Após ouvir o relato, Di Pietro decidiu verificar a história. Em uma visita inesperada ao escritório de Mario Chiesa, integrante do Partido Socialista Italiano (PSI) e administrador do asilo Pio Albergo Trivulzio, foram encontrados US$ 6 mil de origem ilícita. Ali iniciava a saga que descobriria uma série de desmandos do governo.

O interesse da população era a última motivação dos investigados ao exercerem suas funções públicas.

Não demorou para que um dossiê mostrasse o envolvimento de Bettino Craxi, um dos cardeais do PSI e o primeiro socialista a ocupar o cargo de primeiro-ministro do país, entre 1983 e 1987. Craxi era o principal operador do esquema, que abastecia o partido com dinheiro ilegal, cobrando propinas de prestadoras de serviços do governo e construtoras interessadas em obras públicas.  Os valores recebidos: entre 1985 e 1992, uma construtora pagou US$ 800 mil ao ano para ser favorecida, e as licitações para a construção do metrô de Milão renderam, ao menos, US$ 10 milhões ao político.

Durante as investigações, vários acusados cometeram suicídio. Ex-presidente da estatal ENI, Gabriele Cagliari se matou em 20 de julho de 1993. Ele estava em prisão preventiva por ser testemunha-chave do caso e tinha admitido o pagamento de US$ 12,6 milhões a políticos. Três dias depois, Raul Gardini atirou contra a própria cabeça dentro de casa. O empresário que comandava a Montedison, uma das maiores indústrias químicas da Itália, mantinha ligações com pessoas influentes para favorecer seus negócios. Auditorias estimavam um rombo de até US$ 450 milhões no orçamento da empresa, que era usada para pagar propina.

Mas a caçada aos corruptos empreendida por juízes levaria um golpe ainda em 1993. Em 7 de setembro desse ano, veio a notícia de que o juiz Diego Curtó, do Tribunal de Milão, tinha embolsado US$ 200 mil para favorecer um banco. Em depoimento, o banqueiro Vicenzo Palladino revelou o envolvimento de Curtó, um dos mais atuantes na Operação Mãos Limpas. Outra baixa atingiria o Judiciário pouco tempo depois. Antonio Di Pietro, na época o representante da Justiça mais famoso no país, anunciaria sua saída da Mãos Limpas em dezembro de 1994. Quando a Fininvest, empresa pertencente a Silvio Berlusconi (que havia sido primeiro-ministro entre 1994 e 1995), foi apontada por corromper fiscais da Receita Federal italiana, o trabalho do juiz começou a sofrer ataques e pressões, que provocaram sua transferência para outro tribunal.

A população protestou nas ruas, mas os processos seguiram sem ele.

Silvio Belusconi

Silvio Belusconi

A operação Mãos Limpas se baseava também na delação premiada. Mas, no Brasil, a figura do colaborador na Itália não se configura da mesma maneira. Essa técnica de investigação surgiu na Itália e serviu principalmente para combater a Máfia e o terrorismo, mas não cancela a pena. A Itália não prevê benefícios para quem colabora no campo da corrupção, mas podem ser concedidas atenuantes genéricas, ou um acordo para reduzir a pena. Já no Brasil, os benefícios variam de perdão judicial, redução da pena em até 2/3 e substituição por penas restritivas de direitos.

Talvez a consequência mais importante da operação na Itália tenha sido a implosão do sistema político vigente. Vários partidos tradicionais foram praticamente extintos,  mas emergiram duas forças poderosas: o partido populista Forza Italia, do milionário Silvio Berlusconi, que entrou na política para salvar a si mesmo e ao seu império em perigo, depois da queda do seu protetor político, o líder do partido socialista Bettino Craxi. Surgiu também a Liga Norte, um grupo conservador, xenófobo e separatista do norte da Itália que queria a independência do país.

O debate politico foi tomado, por um lado, pelo populismo de Berlusconi, magnata da mídia, proprietário de jornais e redes de televisão e do clube de futebol Milan. Foi apontado como sendo o homem mais rico da Itália. Do outro, pela intolerância da extrema-direita da Liga Norte. Aproveitando que a esquerda italiana já estava em crise desde a queda do Muro de Berlim, as coalizões de governo no país se tornaram mais difíceis. Esse sistema durou de 1994 à 2011, quase 20 anos, nos quais Berlusconi, o homem mais poderoso da Itália, entrou em guerra contra o Judiciário e transformou a dialética política numa questão pessoal.

A operação Mãos Limpas durou cerca de quatro anos e se esfarelou por uma série de fatores, dentre os quais a morosidade da Justiça, o tempo de prescrição dos crimes e, principalmente, o apoio popular. Um ex-promotor público da Mãos Limpas, Gherardo Colombo, numa recente entrevista, explicou que, no começo da operação, as pessoas faziam filas para denunciar casos de corrupção.

Quando eles começaram a descobrir que se tratava de um fenômeno ramificado, no qual até o pequeno comerciante pagava uns trocados ao fiscal para não revelar a sua contabilidade em desordem, o apoio popular foi se perdendo. Resultado: até hoje a corrupção na Itália não foi eliminada. Hoje, emergem novos escândalos, não mais de financiamento ilícito dos partidos, e sim dos indivíduos.

Mas foi uma operação que marcou a Itália. Na primeira oportunidade, os italianos apearam do poder políticos de partidos tradicionais, tanto nas eleições para o Parlamento quanto para as prefeituras. O país sentiu a economia no custo das obras — sem os valores destinados a subornos, houve uma redução de cerca de 50% nos preços.

Mas os benefícios imediatos se perderam. Craxi não foi preso e ficou exilado na Tunísia até a sua morte, em 2000, e Silvio Berlusconi voltou a ser premier do país entre 2001 e 2011, mesmo respondendo a mais de 20 processos.

A corrupção ainda afeta os cofres públicos e a iniciativa do Judiciário foi esquecida pela população, perdida em meio a tantas investigações e ações judiciais.

Assim como a Mãos Limpas, a Lava Jato não garante que o país será melhor no futuro: mostra só que o passado era pior do que se pensava.

 

 

 

Fontes:

O Globo

Wikipedia

BBC

Folha de S. Paulo

 

Vai ter golpe? Historiadores comparam crise atual com a de 1964

No dia 13 de março de 1964, o então presidente do Brasil João Goulart fez um comício no Rio de Janeiro para pedir apoio popular e apresentar Reformas de Base (agrária, bancária, fiscal, urbana, administrativa e universitária). A estratégia não deu certo. Menos de um mês depois, os militares deram um golpe e assumiram o poder por 21 anos.

Exatamente 52 anos depois, milhares de brasileiros saíram às ruas para pedir a saída da presidente Dilma Rousseff. Em meio à crise política e com a ameaça real do impeachment, defensores do governo comparam o período atual com o golpe de 1964. Para saber o que há em comum e quais as diferenças entre as crises dos governos Jango e Dilma, conversamos com os historiadores José Otávio Nogueira e Antônio José Barbosa, ambos professores da UnB (Universidade de Brasília).

O que é parecido

Brasil em crise – 1964

João Goulart entrou no governo após renúncia de Jânio Quadros em 1961. Nos três anos de governo não conseguiu apoio parlamentar no Congresso Nacional. Como saída, buscava o apoio popular. Ao mesmo tempo, ele tentava agradar a direita realizando reformas ministeriais. Após anunciar as Reformas de Base, ele passou a se tornar uma “ameaça comunista” e o golpe foi questão de tempo.

Brasil em crise – 2016

O governo Dilma também vive uma crise política. Dilma tem problemas para aprovar projetos de interesse do governo no Congresso, tem índices de popularidade muito baixos e as operações da Polícia Federal têm desmoralizado seu governo. Como estratégia de governabilidade, oferece cargos a partidos e tenta buscar à militância de movimentos sociais. “Assim como no governo Jango, não há base alguma de governabilidade”, diz Nogueira.

Economia ruim – 1964

O Brasil enfrentava a inflação. O índice chegava a cerca de 90%. “Economicamente, havia uma crise muito maior. Falava-se em carestia, nem era em inflação. A própria situação econômica do país acarretou a pressão pelo fim do governo de Jango”, diz Barbosa.

Economia ruim – 2016

O Brasil também vive uma situação complicada em termos de economia. Apesar de não ser uma crise tão grande como a de 1964 (de acordo com a opinião de Barbosa), o país enfrenta aumento na inflação e queda no PIB.

O povo vai às ruas – 1964

Antes do golpe, diversas manifestações de rua aconteceram no país. Uma das mais importantes foi a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, ocorrida no dia 19 de março, em São Paulo. “Foi um movimento elitista. Havia uma elite política e militar envolvida com o golpe”, diz Nogueira. Além dessa marcha, aconteceram manifestações de apoio (como no anúncio das Reformas de Base) e oposição ao governo.

O povo vai às ruas – 2016

O cenário atual também fez com que a população organizasse manifestações. Desde as jornadas de junho de 2013, há manifestações contra (como a de 15 de março do ano passado) e a favor do governo (como manifestações organizados por movimentos sociais). “Os dois governos eram fracos. Em 1964, tentou uma última cartada: ficar ao lado do povo. Hoje, é povo que é que contra o governo e sai às ruas”, diz Barbosa.

Conservadorismo – 1964

Os protestos contra o governo Jango eram realizados por grupos que defendiam o combate à corrupção e a recuperação de valores morais e religiosos. O medo do comunismo era cada vez mais latente e os militares eram vistos como uma alternativa contra um “golpe comunista”.

Conservadorismo – 2016

No que se refere a uma onda conservadora, os historiadores discordam se ela toma conta da sociedade realmente. “Há um discurso moralizador em crescimento. Podemos comparar a bancada do Congresso do BBB (Boi, Bala e Bíblia) com a TFP (Tradição, Família e Propriedade), que organizou a Marcha da família”, diz Nogueira. Barbosa aponta que o discurso sobre o crescimento do moralismo é uma estratégia. “Eu vejo uma tentativa de quem está ao lado do governo de desqualificar conservadores”.

O que tem de diferente

Envolvimento internacional – 1964

O cenário internacional era muito diferente de hoje. No auge da Guerra Fria, EUA e URSS disputavam o controle político mundial. Neste sentido, o Brasil acabou se tornando estratégico para os americanos. “Anos depois do golpe, soube-se que os EUA tiveram participação direta”, diz Nogueira. “Havia um medo do comunismo e os militares se apoiaram nele para dar o golpe”, completa Barbosa.

Envolvimento internacional – 2016

Hoje, o comunismo quase não existe mais. E os EUA têm outras preocupações (como a questão do Oriente Médio) consideradas mais importantes do que quem fica no poder no Brasil. “Hoje ninguém está preocupado com o que acontece aqui”, diz Barbosa.

Papel das Forças Armadas – 1964

As Forças Armadas eram vistas como a salvação do país por parte de quem apoiava o golpe. Dois motivos apontavam para a força política da instituição: a democracia frágil e o fato de os militares já terem ocupado o poder (no início da República). “Podemos dizer que eles já haviam dado um golpe antes. Por isso, tinham força. Hoje [já] não têm essas forças”, aponta Barbosa.

Papel das Forças Armadas – 2016

Apesar de pequenos grupos defenderem a volta dos militares, a instituição não tem força política e apoio popular para dar outro golpe. “As Forças Armadas, hoje, têm um papel totalmente fora da política. Os generais falam que não vão agir contra o governo. Até porque o período militar desgastou a imagem deles”, aponta Nogueira.

Poder do Judiciário – 1964

Em 1964, não era só o Executivo que estava enfraquecido. Quando o Golpe de 64 aconteceu, o Legislativo foi atropelado. “Em 1964, houve um golpe. Os militares foram contra a Constituição Federal”, aponta Nogueira. “Não se tinha uma noção real de democracia no país”, completa Barbosa.

Poder do Judiciário – 2016

Nos dias atuais, o papel do Judiciário é outro. “Hoje, tenta-se tirar o governo pela via legal. E o Judiciário começou a ter um papel fortíssimo na política. É o STF que define os rumos do país”, aponta Nogueira. “Temos um Executivo fraco e um Legislativo [que funciona] pela Justiça. Aí, sobra o Judiciário, que simplesmente está agindo porque chegou a uma organização criminosa que está no poder. Isso sim é uma mostra que a nossa democracia evoluiu”, afirma.

 

Fonte:

UOL