Por que os personagens da Disney não têm pais?

Eu trabalhei na Editora Abril durante muitos anos, primeiro escrevendo histórias em quadrinhos com os personagens de Walt Disney, e mais tarde como diretor editorial dos gibis, além de livros e revistas de colorir – não só com os personagens Disney.

Durante todo esse tempo, as pessoas sempre me perguntavam o motivo do Huguinho, Zezinho e Luisinho não terem pais, vivendo sempre com seu tio Donald. Ou, indo mais fundo, qual seriao motivo dos personagens que aparecem nos filmes também não terem mães ou pais?

O que eu respondia segue abaixo, mas aqui de forma mais elaborada e aprofundada, porque na ocasião o tempo sempre se mostrava muito curto para que eu pudesse me alongar.

Em primeiro lugar, não foi Walt Disney quem criou esse conceito de deixar os pais ausentes em suas histórias. Esse é um recurso literário muito utilizado nas obras voltadas às crianças e jovens, e é muito evidente já nos contos dos irmãos Grimm. A ausência dos pais permite que os personagens sejam aventureiros, libertando-os do controle da mãe (ou do pai). Afinal, que pai deixaria que os filhos saíssem pelo mundo correndo riscos?

Além disso, é possível perceber que esses personagens “órfãos” amadurecem mais rapidamente, justamente por não existir uma figura de pai ou mãe que o proteja. O sucesso literário mais recente, e que confirma essa regra, é Harry Potter…

Já nos contos de Grimm os pais e as mães quase não apareciam.

Essa “ferramenta”, digamos assim, dá excelentes oportunidades de roteiros. Porque a ausência de pais não significa, necessariamente, que eles estejam mortos, mas apenas que são irrelevantes naquela história que se pretende contar – e eles podem surgir em novas histórias. Há também o contrário: é justamente a ausência de um pai que pode ser o mote da transformação e amadurecimento do personagem, que citei antes. Por exemplo, em “O Rei Leão” é a morte do pai de Simba que muda tudo, levando o vilão ao trono e obrigando o herói a enfrentar esse trauma e reivindicar sua posição.

Especificamente em Disney, há uma outra boa razão para que pais e mães não apareçam com frequência. A maior parte das animações da Disney são adaptações de histórias antigas muito conhecidas, e que já no original não traziam os pais do herói:

Há ainda casos em que um dos pais aparecia e logo morria, como no já citado “Rei Leão”, ou em “Bambi”, que perde a mãe logo no começo da história.

Já em filmes como “Alice no País das Maravilhas”, não se sabe se os pais estão vivos ou mortos e eles nem são citados em nenhum momento… E isso não faz diferença nenhuma. E um exemplo que destoa de todos os outros é “Peter Pan”, no qual a família de Wendy aparece e ainda tem um papel importante na história.

Tudo bem, eu demonstrei que Disney não tem “nada contra pais e mães”, mas sei que as pessoas querem mesmo saber sobre os sobrinhos do Donald, porque acham estranho eles passarem a vida com o tio. Bem, segundo o que apareceu numa tira de jornal há muitos anos, a irmã (ou prima, essa parte é confusa) de Donald pede que Donald fique com os meninos durante algum tempo, porque o pai deles está no hospital por causa de uma brincadeira dos monstrinhos…

Existe até uma carta dela explicando os motivos desse pedido:

Bem, a irmã do Donald, pelo jeito, resolveu deixar os meninos lá por tempo indefinido… O que deu origem a todo um universo ligado ao Donald, e daí surgiram personagens inesquecíveis: Tio Patinhas, Margarida, Gastão, Prof. Pardal, os Metralhas e etc etc etc.

Mais uma vez, a ideia de um personagem ter sobrinhos não é exclusividade Disney. O Pica-Pau tem, o Scooby-Doo, o Popeye. E o motivo é muito simples e de ordem prática. O personagem deve continuar solteiro, mas precisa de crianças para interagir e darem ideias para novos roteiros. E, se por acaso o sobrinho não agradar, é mais fácil sumir com ele do que com um filho!

Enfim, não existe nenhuma motivação satânica da Disney de querer acabar com a família, como pregam alguns sites malucos por aí. E nem existe verdade naquele mito bastante difundido de que a justificativa para a ausência de pais  – ou, mais especificamente, de mães – nas histórias envolve a própria mãe de Walt, Flora Disney.

É uma história trágica, de fato.

Elias e Flora Disney, pais de Walt

No final dos anos 1930, Walt Disney começava a percorrer seu caminho de sucesso.  Depois da grande bilheteria de “Branca de Neve”, ele e seu irmão Roy decidiram realizar o sonho de todo garoto pobre, dar uma casa aos pais, Flora e Elias.  E compraram uma bela residência perto do Estúdio Disney, em Burbank. Menos de um mês depois de se mudar, Flora queixou-se a Walt e Roy que a fornalha no porão, que aquecia a casa durante o rigoroso inverno, tinha problemas de funcionamento. Walt mandou funcionários do Estúdio para consertar, e tudo aparentemente tinha ficado bem.

Mas, infelizmente, o problema não fora devidamente corrigido. Na manhã do dia 26 de novembro de 1938, quando a governanta chegou para trabalhar, ela passou mal com o cheiro de gás na casa e abriu todas as portas e janelas. Na sequência, procurou os patrões e encontrou os pais de Walt desacordados. Elias havia encontrado a esposa no banheiro e, ao tentar carregá-la para fora, também desmaiou.

O socorro foi chamado. Elias e a governanta, chamada Alma Smith, foram internados com sinais de intoxicação, mas conseguiram sobreviver. Flora Disney, porém, já estava morta quando os paramédicos chegaram à residência.

Claro que Walt se sentiu mal por isso, embora nunca comentasse o assunto. As pessoas é que especulavam que ele se sentia culpado “por ter comprado a casa, por ter mandado seus funcionários consertar e acabaram fazendo um serviço mal feito, e que por tudo isso a ideia de ele ter contribuído para a morte da mãe o deixou com esse trauma e que é por isso que, nos filmes, ou a mãe não aparece ou morre logo no começo”.

Apesar de Walt não ter tido culpa desta inesperada tragédia, ele teria vivido assombrado pela culpa deste incidente e daí nas suas histórias haver sempre a morte do símbolo materno.

 

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Acho essa teoria tão sem sentido (quem a difundiu se esqueceu de todos os contos de fada adaptados por Disney, como citei acima…) quanto a de que Walt  teria pedido que congelassem seu corpo para ser descongelado no futuro. Segundo a própria filha, Diane, disse: “Meu pai nunca nem ouvira falar de criogenia”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fontes:

Wikipedia

megacurioso.com,br

nytimes.com

huffingtonpost.com

eonline.com

raopo.com.br

hopesandfears.com

thesun.co.uk

disneytheory.com

 

 

 

 

HOLLYWOOD CONTRA HITLER

Hitler não era o semianalfabeto que a propagada dos aliados fez o mundo acreditar. Ele era uma pessoa instruída e um leitor voraz. Segundo amigos, vivia sempre com um livro debaixo do braço e tinha pilhas de livros em casa.

Claro, quantidade não é e nunca foi sinônimo de qualidade, e é bem possível que ele tenha interpretado de forma errada os escritos do filósofo Arthur Schopenhauer, por exemplo, um de seus ícones. Mas o líder nazista era um sujeito educado e inteligente, isso não se pode negar. E aprendemos que líderes educados e inteligentes, e ainda carismáticos e donos de uma oratória convincente, podem provocar grandes mudanças.

Para o bem e para o mal.

Quando Hitler passou a usar maciçamente os então modernos meios de comunicação de massa, como rádio e cinema, para propagar a ideologia nazista, o mundo começou a perceber que ele poderia ser perigoso. Os filmes de propaganda, dirigidos pela cineasta preferida do Führer Leni Riefenstahl, eram extremamente bem feitos. Além de exaltar a figura de Hitler, a superioridade alemã e de sua raça Ariana, eles também a inseriram na história do cinema, com suas técnicas novas de enquadramento, ângulos de câmera, iluminação e nus.

No vídeo abaixo, alguns excertos do filme mais conhecido, O Triunfo da Vontade. Neles estão presentes as principais figuras do nazismo e todos os elementos da arte da propaganda do regime.

O famoso diretor americano Frank Capra percebeu o tremendo poder dessa brilhante peça de propaganda quando a assistiu, em 1943. Ele surpreendeu-se com o cinema produzido pelo Terceiro Reich.

Na sua opinião, o longa-metragem de Riefenstahl, mais do que a celebração do congresso do partido nazista na cidade de Nuremberg, em 1934, representava uma convocação sedutora à obediência e à agressão. “Estamos mortos. Acabados. Não podemos ganhar essa guerra”, declarou. Mas logo decidiu usar as mesmas armas e produziu sete documentários para as Forças Armadas americanas: “Vamos deixar os nossos jovens escutar os nazistas e japas gritarem as suas reivindicações de pertencimento a uma raça superior, e os nossos soldados vão saber por que eles estão em uniformes”, declarou o diretor. Why We Fight, o título da série, explicava por que a guerra contra a Alemanha, a Itália e o Japão era indispensável para a liberdade, usando inclusive trechos de “O Triunfo da Vontade”.

O trailer a seguir é do lançamento da série em DVD, em 2011:

Capra não esteve sozinho no combate ideológico ao nazifascismo. Ele e outros quatro realizadores de Hollywood formaram um grupo a serviço do governo dos EUA.  As razões alegadas por Capra, John Ford, John Huston, William Wyler e George Stevens para se alistar são usuais: o chamado do dever e o fascínio pela aventura.  

Capra foi o único dos realizadores a trabalhar para as Forças Armadas sem pisar em um campo de batalha. A atuação fora do front poupou-lhe danos físicos e psicológicos. Wyler, por exemplo, ficou praticamente surdo depois de filmar dentro de um bombardeiro. Huston voltou para os EUA com transtorno de estresse pós-traumático. Dirigiu Let There Be Light (1946), um documentário a respeito da “neurose da batalha” ou “aniquilação do espírito”. As Forças Armadas censuraram o filme por mais de 35 anos…

Stevens também se traumatizou. Em quase três décadas, o diretor de O Diário de Anne Frank (1959) calou-se sobre a sua experiência na liberação do campo de concentração de Dachau em 1945. Quando se pronunciou, ele citou A Divina Comédia. “Era como se vagasse por uma das visões infernais de Dante.” Enquanto desviava de cadáveres e de sobreviventes de corpos esqueléticos, Stevens filmou tudo o que testemunhava. O material serviu como prova contra os nazistas nos julgamentos de Nuremberg. 

Ford foi o primeiro dos cinco a se arriscar quando registrou o ataque aéreo dos japoneses ao Atol de Midway, no Oceano Pacífico. Enquanto filmava The Battle of Midway (1942), foi atingido por estilhaços. As imagens tremidas, a perspectiva distorcida e o foco turvo criaram um modelo mais realista, incorporado aos documentários de guerra que o sucederam. 

Five Came Back é o título que se deu a esses cinco documentários desses fabulosos diretores, e que mudaram a história do cinema.

Para demonstrar a tremenda influência da técnica desses diretores sobre os filmes posteriores, basta dizer que os primeiros 25 minutos de O Resgate do Soldado Ryan (1998), de Steven Spielberg, se devem às filmagens do Dia D dirigidas por Ford e Stevens. A estética de A Batalha de San Pietro, de John Huston, influenciou Platoon (1986), de Oliver Stone, e Guerra ao Terror (2009), de Kathryn Bigelow.

Mas a contrapropaganda produzida por Hollywood não se limitou aos documentários. Mesmo antes de os Estados Unidos entrarem oficialmente na guerra, a Warner Bros., um dos maiores estúdios da época, lançou em 1941 o filme antinazista estrelado por Gary Cooper, Sargento York, no qual um jovem pacifista abre mão de sua crença para matar e salvar outras vidas.

Os Estados Unidos ainda mantinham relações diplomáticas com a Alemanha, em 1940, e embora muitos militares e políticos pressionassem o presidente Roosevelt a abandonar sua neutralidade, a população era fortemente contra a entrada do país em mais uma guerra (isso só foi mudar em 1943, depois do ataque japonês a Pearl Harbor). Mas Charlie Chaplin não podia perder a oportunidade de ridicularizar o ditador alemão.

Aproveitando uma série de ataques por parte dos nazistas sobre sinagogas e lojas de judeus situadas na Alemanha, fato conhecido como a “Noite dos Cristais”, Chaplin produziu O Grande Ditador em 1940. O filme foi censurado em vários países, inclusive aqui no Brasil, e deixou Hitler furioso.

Hoje, é um clássico do cinema:

Mas Hollywood tinha outras armas em seu “exército”, e uma das mais poderosas foi Walt Disney. Disney teve seu estúdio “engajado” no esforço de guerra. Além de ver diversos de seus animadores convocados para lutar, se viu contratado pelas Forças Armadas para produzir filmes de treinamento e propaganda. Um dos mais celebrados produtos do front cultural do conflito foi o curta animado A Face do Führer, propaganda antifascista que venceu o Oscar de melhor curta de animação de 1943.

Na trama, Donald acorda na Alemanha Nazista, ao som de uma canção que exalta Adolf Hitler, num quarto cercado de suásticas. Logo de manhã, ele saúda Hitler, Hirohito e Mussolini.

Forçado a sair da cama, ele logo se veste com a indumentária nazista e toma seu terrível café da manhã. O pão, envelhecido, está tão duro que é preciso fatiá-lo com um serrote. Logo, Donald é obrigado a ler o livro Mein Kampf, escrito pelo Führer. Acuado, Donald é levado até a fábrica de armas, onde terá de trabalhar “48 horas por dia”, “como um escravo”, para Hitler. A cena na qual o pato tem de atarraxar bombas é uma clara alusão ao clássico Tempos Modernos, de Chaplin. Ao final, Donald felizmente acorda do que se revela ter sido um pesadelo. “Eu estou feliz por ser um cidadão dos Estados Unidos da América”, diz, ufanista.

Usar todas as suas armas foi a maneira que Hollywood encontrou para se contrapor á sofisticada máquina de propaganda nazista.

Mas a ofensiva dos Aliados não se limitou a isso. Quando foi preciso vencer essa guerra, a BBC teve uma ideia engenhosa: contar a verdade sem vernizes. A médio prazo, a sobriedade e o respeito aos fatos e à objetividade levaram a melhor sobre os discursos exaltados de Goebbels e Hitler.

Mas essa é uma história para uma outra vez…

O nome do pato

Eu queria ter contado esta história há tempos, e só não o fiz antes porque me faltavam alguns dados históricos — que consegui agora graças a uma mãozinha de meu prezado tio Fábio, um colecionador de preciosidades. O assunto é sério — aquela eterna disputa, tão comum em multinacionais, entre os brasileiros com mania de mudar tudo e os globalizadores em geral (ou seja, qualquer executivo instalado acima da linha do Equador), que acreditam que um entendimento é sempre possível, desde que seja em inglês.

Onde está a verdade? Naquela mistura de bom senso e criatividade, duas coisas que vivem se atropelando quando o assunto é “o Brasil contra o mundo ou vice-versa”. Eu vivi uma situação dessas há dez anos, quando estávamos implantando um novo processo no Brasil e trombei de frente com um Boeing lotado de americanos e mexicanos. Eles se bandearam para cá só para ter a certeza de que nenhuma alteração seria feita, por mínima que fosse, e eu estava convencido de que, sem o jeitinho tupiniquim, nada daquilo iria funcionar. Após muitas e muitas horas de árduas e infrutíferas discussões, finalmente consegui encontrar um exemplo que eles entenderam: Walt Disney.


A história que eu contei para eles foi a seguinte: em 1950, quando os personagens de Disney chegaram ao Brasil, havia uma importante decisão a tomar — como eles se chamariam por aqui? Quase ninguém sabia falar inglês direito no país naquela época, especialmente as crianças, que eram o público-alvo das publicações. Num tempo em que nomes de artistas como John Wayne e Jerry Lewis eram pronunciados jon vâine e jérri lévis, seria prudente manter os nomes originais de personagens como Gyro Gearloose e Scrooge McDuck?

Outros países haviam tido essa mesma dificuldade antes do Brasil, e nem sempre as soluções haviam agradado às duas partes. Por isso, era preciso tomar cuidado para evitar o que ocorrera com personagens de outras editoras — como na Argentina, onde pruridos idiomáticos haviam feito com que o marinheiro Popeye fosse rebatizado de “Spaghetti” e Batman se tornasse “El Murciélago”. Podiam até ser nomes sugestivos, mas, como ponderavam os executivos da matriz — e muitos continuam ponderando com todo furor –, não adianta nada ganhar em apelo regional se, com isso, perde-se em algo muito mais importante: a força mundial de uma marca.

Victor Civita, fundador da Editora Abril, com as provas de uma das primeiras edições da revista "O Pato Donald".

Victor Civita, fundador da Editora Abril, com as provas de uma das primeiras edições da revista “O Pato Donald”.

O primeiro time de tradutores e redatores da então recém-criada Editora Abril adotou o que hoje seria chamado de “estratégia global regionalizada”. O passo inicial dos brasileiros foi garantir a benevolência da turma da Disney, e isso foi conseguido com a promessa de manter o nome original dos dois principais personagens. Assim, Mickey ficaria sendo Mickey e Donald ficaria sendo Donald (parece óbvio, mas, na Itália, Mickey já era Topolino e Donald era Paperino — e na Suécia Mickey havia virado Musse Pigg!).

Capa da "O Pato Donald" número 1, lançada em 1950.

Capa da “O Pato Donald” número 1, lançada em 1950.

E aí veio a aplicação prática das três regrinhas elementares da boa globalização:

1. Não mudar o que não precisa ser mudado
Pluto seria Pluto, porque já era um nome bom, pronunciável e sonoro.


2. Mudar o que obviamente precisa ser mudado
Gyro Gearloose se tornaria o Professor Pardal. Uncle Scrooge McDuck viraria Tio Patinhas e The Beagle Boys seriam os Irmãos Metralha. Mais do que caracterizar personagens, nos anos seguintes esses três nomes se tornariam sinônimos populares de gente que inventa o que não é preciso (Professor Pardal), de pão-duro (Tio Patinhas) e de gangues das mais variadas espécies (Irmãos Metralha).


Nacionalizar nomes é algo bem mais complexo do que aparenta ser. Gladstone Gander, o nosso “Gastão”, é Narciso Bello na Espanha, Panfilo Ganso no México e Gontrand Bonheur na França. Ou seja, “Gastão”, mais que uma tradução ou uma adaptação, é uma aula de simplicidade.

O mesmo ocorre com o Tio Patinhas, que na França se chama Oncle Balthazar Picsou, na Alemanha, Onkel Dagobert Duck, na Suécia, Farbror Joakim von Anka, e na Itália, Zio Paperon De Paperoni.

3. Mudar parcialmente o que pode ser sutilmente melhorado
Aí começam as sutilezas. Mickey Mouse não precisaria do “Mouse” no Brasil, onde “rato” é meio pejorativo e “camundongo” é muito longo, e por isso ficou só Mickey. Mas Donald Duck ficava melhor com o “Pato” antes do nome. E sua eterna namorada, Daisy Duck — Pata Margarida, em tradução literal –, soava melhor sem a “pata” e ficou só Margarida. Nada mais que a aplicação do bom senso.


Nas empresas, não é raro que os pioneiros que contribuíram com grandes ideias no passado sejam esquecidos depois de algum tempo. Felizmente, a história do desembarque bem-sucedido dos personagens da Disney no Brasil ficou documentada. Jerônimo Monteiro, o primeiro tradutor e redator da Editora Abril, batizou o Tio Patinhas e os sobrinhos de Donald, Huguinho, Zezinho e Luisinho — no original eles eram Huey, Dewey e Louie (e a filha pré-adolescente de Jerônimo Monteiro, Terezinha, foi quem sugeriu o nome “Irmãos Metralha”).

Depois de Jerônimo, viriam Alberto Maduar, criador dos nomes do Professor Pardal, do Lampadinha, do Gastão e da Maga Patalójika (que era Magica De Spell em inglês), e Álvaro de Moya — desde sempre, a pessoa que mais entende de história em quadrinhos no Brasil.

Lampadinha

Lampadinha

Maga Patalójika

Maga Patalójika

A tradição de acertar nomes de personagens teve seu último grande momento na década de 70, quando chegou ao Brasil o primeiro livro de Calvin & Hobbes, e o nome do tigre foi abrasileirado para “Haroldo”. É só olhar para ver que ele tem mesmo cara de Haroldo, e não de Hobbes. Mas personagens mais recentes — Beavis & Butthead, os Simpsons, a turma sádica de South Park ou Dilbert — mantiveram os nomes originais. Seria interessante saber como aquela gente talentosa, de achados antológicos como “Recruta Zero” e “Brucutu”, encontraria uma definição bem brasileira — e bem marota — para “Butthead”… coisa que jamais saberemos porque, ultimamente, a globalização virou rua de mão única. E isso só leplime a cliatividade, como ponderaria Hortelino Trocaletra. Digo, Elmer Fudd.

 

 

Max Gehringer é autor do livro Máximas e Mínimas da Comédia Corporativa

Correção – há uma informação errada no texto, no último parágrafo, observada pelo jornalista e expert em quadrinhos Marcelo Alencar. As tiras de Calvin & Hobbes começaram a ser publicadas em 1985, e não na década de 70.

 

 

Perguntas sem resposta…

*Como se escreve zero em algarismos romanos?

*Por que os filmes de batalha espaciais têm explosões tão barulhentas, se o som não se propaga no vácuo?

 * Se depois do banho estamos limpos, por que lavamos a toalha?
* Como é que a gente sabe que a carne de chester é de chester se nunca ninguém viu um chester? (aliás, quem já viu o ovo de um chester?)

* Por que, quando aparece no computador a frase ‘Teclado Não Instalado’, o fabricante pede para apertar qualquer tecla?

* Se os homens são todos iguais, por que as mulheres escolhem tanto?

*Por que as luas dos outros planetas têm nome, mas a nossa é chamada só de Lua?

*Por que, quando a gente liga para um número errado, nunca dá ocupado?

*Por que as pessoas apertam o controle remoto com mais força, quando a pilha está fraca?

*O instituto que emite os certificados de qualidade ISO 9002 tem qualidade certificada por quem?

*Quando inventaram o relógio, como sabiam que horas eram, para poder acertá-lo?

*Como foi que a placa ‘É Proibido Pisar na Grama’ foi colocada lá?

*Por que quando alguém nos pede que ajudemos a procurar um objeto perdido, temos a mania de perguntar: ‘Onde foi que você perdeu?’

*Por que tem gente que acorda os outros para perguntar se estavam dormindo?

*Se o Pato Donald não usa calças, por que ele amarra uma toalha na cintura quando sai do banho?

Donald no País da Matemática

Em 1959, Walt Disney estava lançando um filme que era um de seus projetos mais pessoais , “A Lenda dos Anões Mágicos” (Darby O’Gill and the Little People). Esse filme, sobre o qual falo aqui, foi notável por ser um dos primeiros papéis da carreira de Sean Connery, então com 29 anos, e também porque era exibido junto com um curta-metragem que se tornou um clássico: “Donald no País da Matemágica”.

Donald no País da Matemágica (“Donald in Mathmagic Land”) é um curta de 27 minutos, estrelado pelo Donald, e que foi disponibilizado para várias escolas mais tarde, tornando-se um dos mais populares filmes educativos já feitos pela Disney.  Na época, foi lançada uma revista em quadrinhos baseada no curta que também fez enorme sucesso.

Essa história foi publicada muitas vezes no Brasil, a primeira delas em 1967, na revista “Tio Patinhas”:

Walt Disney, uma vez, comentou sobre o filme: “O desenho animado é um bom meio para estimular o interesse. Recentemente explicamos a matemática em um filme e conseguimos estimular o interesse do público neste assunto tão importante.”

Realmente, Disney e sua equipe foram brilhantes em transformar um tema tão árido num desenho tão inteligente e divertido. Afinal, Donald se encontra com Pitágoras, entende a Regra de Ouro, recebe uma explicação sobre as proporções ideais do corpo humano, faz alguns jogos mentais e o desenho termina com uma citação de Galileu Galilei.

Se você nunca assistiu esse curta-metragem, recomendo que o faça, e chame seus filhos para ver. Vai valer muito a pena!

Caso você prefira assistir na versão original (e sem legendas), aqui está.

Divirta-se!

A Walt Disney Company já fez 90 anos!

Em outubro de 1923 foi fundada aquela empresa que se tornou o maior ícone do planeta em termos de diversão para toda a família. E continua sendo um ícone, quase 50 anos depois da morte do fundador, Walt Disney. Hoje, quando se fala em Disney, imediatamente as pessoas se lembram dos parques, dos quadrinhos, dos desenhos animados, dos filmes, dos brinquedos… Mas Disney é muito mais:

Como se viu acima, três marcas muito conhecidas no universo do entretenimento também fazem parte do conglomerado: a Pixar de “Carros” e “Toy Story”, a Marvel do Homem de Ferro, Homem Aranha e Thor, e a Lucasfilm de “Star Wars”, do vilão Darth Vader, de Luke Skywalker e dos simpáticos robozinhos. Essas três marcas se somam ao Pato Donald, Pateta, Capitão Jack Sparrow e as princesas de “Frozen”, oferecendo mais um mundo de quadrinhos, filmes, desenhos animados e brinquedos para nosso deleite e com a inegável qualidade Disney.

Mas a gente quase se esquece de que tudo começou lá atrás, com um ratinho…

Os primeiros desenhos do Mickey.

Acho que mais do ficar escrevendo, a melhor homenagem que se pode fazer aos incontáveis talentos que trabalharam e trabalham na empresa é mostrar um pouco do que foi feito ao longo desse quase centenário. Tenho certeza de que todo mundo vai se lembrar de uma coisa ou de outra, sem contar que, se fosse mostrar tudo o que Disney fez, precisaríamos de centenas e centenas de posts…

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O dia em que Walt Disney se encontrou com Salvador Dalí

Um belo dia, eclode a Segunda Guerra Mundial e, em 1942, Salvador Dali se muda para os Estados Unidos com a esposa Gala, onde ficou até 1948. Ele voltou para a Espanha no ano seguinte, vivendo na Catalunha até sua morte.

Nesse meio tempo, Walt Disney estava preocupado. A Segunda Guerra Mundial estava arrasando a Europa e, junto com ela,  os cofres de seu estúdio. Sem o mercado europeu para seus filmes, e com praticamente toda a economia de seu país voltada para o esforço de guerra, restara-lhe pouco mais a fazer do que os desenhos- animados destinados ao treinamento dos militares ou como propaganda, tudo sob encomenda do governo ou das Forças Armadas. Outra fonte de preocupação para Walt eram os críticos, porque muitos deles diziam que seus filmes sempre sacrificavam o genuíno talento artístico em prol de produções mais comerciais. Segundo eles, Walt favorecia a animação tradicional em prejuízo da inovação e da experimentação.

O lançamento de “Fantasia” em 1940 foi o primeiro passo no sentido de silenciá-los,  e Walt buscava desde então um cala-boca definitivo. Era por esse motivo que o criador do Mickey e do pato Donald ficava atento aos pintores e aos artistas de mais renome. “Assim como aconteceu na sequência do Monte Calvo em ‘Fantasia’, que foi criada por Kay Nielson”, disse Walt numa entrevista da época,  “eu quero dar mais oportunidades aos grandes artistas. Nós precisamos deles, nós temos que estar sempre abrindo novos caminhos”. E foi numa festa na mansão do big-boss da Warner Bros, Jack Warner, que Walt Disney encontrou Salvador Dali

Walt Disney and Salvador Dalí met during an Alfred Hitchcock's filming. Image: 3cat/24.cat

Os bigodes se conhecem pessoalmente.

Era uma festa típica de Hollywood, com a presença de todas as grandes estrelas dos anos 1930 e 1940. E, por mais inusitado que pareça, foi esse o palco em que dois dos maiores visionários da História das artes se conheceram. E desse encontro, saiu um projeto que levou 57 anos para ser completado.

Na ocasião, 1944, Dali estava elaborando uma sequência para o filme “Quando fala o coração” (Spellbound), de Alfred Hitchcock, e que foi lançado um ano mais tarde. Esse foi o primeiro filme hollywoodiano a tratar da psicanálise e trazia no elenco Ingrid Bergman e Gregory Peck. A sequência que Dali criou para o filme foi a cena dos sonhos, cheia de imagens psicoanalíticas.

Salvador Dali já era muito conhecido em todo o mundo como o mais influente artista surrealista do século, e Disney o convenceu a trabalhar no projeto de um curta-metragem chamado “Destino”, que seria incluído numa antologia de curtas na linha de “Música, Maestro”. Esta antologia era composta por dez curtas e marcava a situação dos Estúdios Disney na época, sem recursos para produzir um novo longa de animação, mas tendo que lançar novas produções com regularidade.

O segmento mais conhecido da coletânea “Música, Maestro”, Pedro e o Lobo.

“Destino”, segundo o próprio Walt, “era uma simples história de amor, na qual um rapaz conhece uma moça”. Com o mesmo título de uma canção folclórica mexicana, o desenho planejado seguiria o ritmo da música num cenário de sonhos, sendo a expressão poética dos arroubos causados pelo amor. Dali trabalhou entre 1945 e 1946, produzindo vinte e duas telas e 135 esboços de cenas de animação para o projeto, que resultaram em dezessete segundos de filme.

Dali trabalhando nos Estúdios Disney, em Burbank, Califórnia, EUA.

Abaixo, algumas das telas e esboços produzidos por Dali:

O desenho animado tinha como ponto central a importância do tempo em nossa espera pela ação do destino. E as ilustrações de Dali eram típicas, com objetos se transformando em outros, as imagens duplas… O mais incrível era ver o elitismo de Dali se combinando com a linguagem de massa de Disney.

Dali trabalhou como funcionário dos Estúdios durante oito meses, chegando todos os dias pontualmente às oito e meia da manhã e trabalhando direto até as cinco da tarde.  Disney diria mais tarde que ele “borbulhava com ideias”. Mas, infelizmente, o projeto foi abandonado em 1947 quando os recursos próprios acabaram e os estúdios não conseguiram financiamento. Disney também ficou com medo de que o público não aceitasse “Destino” se fosse lançado sozinho, por ser surreal demais, aumentando ainda mais o rombo do caixa. E assim, “Destino” ficou esquecido nos arquivos dos Estúdios durante quase seis décadas.

Felizmente, o sobrinho de Disney, Roy, se animou em finalizar o curta-metragem (que só tinha dezessete segundos) em 1999, utilizando as novas tecnologias disponíveis para emular a qualidade plástica das imagens multidimensionais de Dali. Uma equipe de 25 animadores trabalhou para decifrar os storyboards desenhados por Dali e realizar o projeto. E assim, 57 anos depois, a ideia concebida por Dali e Disney finalmente nasceu. “Destino” é a perfeita combinação da imaginação desses dois gênios:

A sequência original de 17 segundos é a das tartarugas. O filme conta a história de Cronos e a incapacidade dele de concretizar seu amor por uma mortal.  E enquanto Disney descreveu o filme como uma simples história de amor, Dali o descreveu como sendo “a visualização mágica da vida no labirinto do tempo”.

Mesmo com o fiasco do empreendimento, a amizade entre os dois sobreviveu. A filha de Walt, Diane, relembra como os dois continuaram a se visitar ao longo dos anos, e como Dali adorava andar no trem que seu pai mantinha em casa: ” Mesmo em pleno verão, ele estava vestido com um sobretudo preto, de gravata. Ele se sentava num dos pequenos vagões, com  sua bengala na posição vertical na frente dele. “

Aqui, Walt faz uma visita a Dali na Espanha.

Dali, Walt e as duas esposas, Gala e Lilian Disney.

Dali avaliando um dos primeiros trens que Walt montou no terreno de sua casa. Disney era fissurado por trens desde a infância.

Ideia do post sugerida por Ione Fabiano.