O que George R. R. Martin está fazendo em vez de escrever

Para quem viveu em Marte nos últimos cinco anos e nunca ouviu falar de “Game of Thrones”, farei aqui um breve resumo do que se trata: é um seriado da HBO (canal de TV pago que se notabilizou por criar seriados de alta qualidade, como “Os Sopranos” e… Quê? Você também nunca ouviu falar dos Sopranos?…) criado como a adaptação dos livros escritos por George R. R. Martin, reunidos na série As Crônicas de Gelo e Fogo (A Song of Ice and Fire), composta por sete volumes, cinco dos quais já publicados.

Desde que estreou em 2011 na televisão, tornou-se a maior série da HBO, conquistando fãs em todo o mundo, fascinados por suas histórias de intrigas, luta pelo poder, pelo amor, pela honra e pela fortuna, anseios que permeiam a vida dos habitantes dos ficcionais Sete Reinos de Westeros, em um tempo inspirado na Idade Média e permeado de elementos sobrenaturais.

Dito isto, a 6ª temporada está no ar atualmente no mundo todo, inclusive no Brasil, conseguindo de novo muita repercussão com seus acontecimentos. Os fãs dos livros costumam apontar as discrepâncias entre o que foi escrito e o que foi adaptado para a TV, e estavam apreensivos com esta nova temporada, porque ela está adiantada… Sim, isso mesmo. A TV avançou e está desenvolvendo seus roteiros sem um livro para se basear, uma vez que o sexto volume – previsto para lançamento neste ano – foi adiado.

Os roteiristas da série de TV, obviamente, contam com a assessoria do escritor, que acompanha toda a produção de perto. Mas, ainda assim, a pergunta que fica é: que diabos George R. R. Martin fica fazendo que não escreve?

Bem, todo mundo admira esse senhor simpático que criou a trama fantástica que mantém o mundo inteiro discutindo sobre ela. Só que ele é meio atrapalhado com prazos e cada livro de sua série demora muito para sair. No começo, até que ele foi mais, digamos, ágil. O primeiro livro saiu nos Estados Unidos em 1996, o segundo em 1998, o terceiro em 2000 e daí a coisa complicou… O quarto só veio em 2005 e o quinto (e último, até agora), em 2011.  O sexto foi adiado e o sétimo, sabe Deus para quando…

Numa tentativa de descobrir o que mantém o George assim tão ocupado, o programa da TV americana Late Show, de Conan O’Brien, foi entrevistá-lo e descobriu:

  1. Ele fica brincando dentro de uma bola gigante…

2. Ou comprando carros maneiros (como esse Tesla, carro elétrico esportivo)…

3. Também passa os dias fazendo bolhas de sabão:

4. E atualiza seu blog vintage:

5. Na verdade, ele passa os dias pulando pelado em sua cama elástica!

Calma, calma! Não fique bravo, não queime seus livros e não saia em passeata gritando “Fora George”. Isso tudo foi uma brincadeira do programa! As imagens 2 e 4 são reais, as outras são de um ator que é sósia do escritor.

O fato é que o autor está passando por um bloqueio criativo e isso atrasou todo o processo. Faltam meses para terminar “Os Ventos do Inverno'”(The Winds of Winter), como ele mesmo revelou em seu blog. Veja a nota:

“OS VENTOS DO INVERNO não está terminado.

Acreditem em mim, digitar estas palavras não me dá nenhum prazer. Se você está desapontado, você não está sozinho. Meus editores estão desapontados, HBO está desapontada, meus agentes e tradutores estrangeiros estão desapontados… Mas nenhum poderia estar mais desapontado do que eu. Por meses eu queria nada mais do que dizer, “Eu terminei e entreguei Os Ventos do Inverno” até o último dia de 2015.

Mas o livro não está pronto.

Não é provável que será terminado amanhã, ou na próxima semana. Sim, há muita coisa escrita. Centenas de páginas. Dezenas de capítulos. (…) Mas também há muito a ser escrito. Estou meses longe de terminar… e isso se a escrita for bem (algumas vezes vai, outras não).”

É difícil para um escritor quando esse bloqueio acontece, muitas vezes causado pelas pressões externas, necessidade de cumprir prazos, cansaço… Isso aconteceu com outros escritores famosos, como Dan Brown e Stephen King. Neil Gaiman disse uma vez que escritores não são máquinas e que eles escrevem na velocidade que lhes convém.

O que nos resta é torcer para que tudo entre nos eixos e que a saga continue sem maiores interrupções. Todos os fãs querem saber o que Daenerys, a mãe dos dragões, irá aprontar.

Agora, que seria engraçado ver George na cama elástica gritando “Hodor! Hodor!”, seria.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte:

mundoestranho.abril.com.br

cinema10.com.br

 

Como se dissesse água

Fico imaginando como foi o encontro entre dois antigos desafetos: Saramago e Deus.

– Seja bem-vindo, José. Surpreso em Me ver?
– Pois estou mais surpreso em ter sido aceito aqui no céu.
– E por que Eu não te aceitaria?
– Porque sempre desdenhei do Senhor e desse lugar aqui, ora.
– Mas é exatamente por isso que você está aqui.
– Para uma vingança póstuma Sua, imagino.
– Não, pelo contrário: para Eu te recompensar.
– Me recompensar? Por ter blasfemado o Senhor e Seu filho?
– Você também é meu filho, José.
– Só acredito vendo o teste de DNA.
– E de todos os Meus filhos, é um dos poucos que nunca Me pediu nada.
– Decepcionei-te?
– Não, nem um pouco. Tanto que até te ajudei a ganhar o Prêmio Nobel.
– Votastes em mim? Não sabia que eras membro da Academia…
– Não votei, mas fiz Meus votos.
– Fizestes votos? Então fraudastes a eleição dos suecos, Gajo!
– Não se faça de tolo, José. Agora não há mais motivos para zombar de Mim.
– Pois bem, então já que o Senhor existe, exijo algumas explicações.
– Chegou a sua hora de perguntar.
– Por que deixastes o mundo do jeito em que está?
– Eu o criei para ser de outro jeito.
– Então o criastes para depois o abandonares?
– Não o abandonei. Eu o deixei para vocês tomarem conta.
– O Senhor o deixou para os banqueiros, para os políticos… não para nós.
– Deixei-o para todos, José.
– Mas por que nem todos têm acesso igual às mesmas coisas?
– No início, tinham. E deveriam ter até hoje.
– Então por que o Senhor não intervém?
– Eu já fiz Minha parte. Agora está na mão dos homens.
– Dos homens milionários norte-americanos, suponho.
– Não, esses ficarão com pouco.
– Bom, se esses ficarão com pouco, então quem ficará com muito?
– Você.
– Eu?
– Sim. Não disse que iria te recompensar?
– Mas por que não recompensas as crianças que morrem de fome na África?
– Porque não estou falando de recompensa material.
– E que tipo de recompensa eu mereço, ora pois?
– A eternidade.
– Como assim?
– A partir de agora, José, você é eterno.
– E o que fiz para merecer isso?
– Você se imortalizou. Simples assim.
– Curioso: precisei morrer para ficar imortal.
– Na verdade, você já era eterno antes de vir pra cá.
– Bom, se o Senhor está falando, quem sou eu pra discordar.
– Engraçado… antes de morrer você discordava bastante de Mim.
– Não me leves a mal, mas agora usarei minha eternidade de outra forma.
– “Não tenhamos pressa. Mas não percamos tempo.”
– Conheço essa frase…
– Sim, foi você que escreveu.
– E como a sabes?
– Você deveria saber que Eu sei de tudo.
– Bom, até onde eu sei, acabamos de nos conhecer.
– Pois Eu te conheço desde quando você era serralheiro mecânico.
– E nunca me falou nada?
– Falei sim. Você que não ouviu.
– Se tivesse Te escutado, teria ouvido.
– Se acreditasse em Mim, teria escutado.
– Bom, não vamos transformar isso em uma discussão eterna, vamos?
– De acordo.
– Então o Senhor leu todos os meus livros?
– Todos.
– Ainda bem que não és um crítico literário…
– Pois saiba que gostei bastante do que li.
– Pois não deves entender bem o português, só pode ser.
– Entendo sim. Sou brasileiro, se esqueceu?
– Nunca soube disso.
– É porque você não deve gostar muito de futebol.
– Não mesmo. Mas voltando aos livros, algo que escrevi Te irritou?
– Nada.
– Nem o meu descrédito no Senhor?
– José, Eu nunca fui esse tal Deus em que você não acreditava.
– “Todos os dias tento encontrar um sinal de Deus, mas não encontro.”
– Sim, Eu li essa sua frase também.
– E mesmo assim não mandastes um sinal?
– Se você estivesse falando comigo, teria mandado.
– Se soubesse que o Senhor existia, teria falado.
– “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”
– O Senhor realmente conhece minhas frases… estou surpreso, confesso.
– De todas que você escreveu, só existe uma que não entendi até hoje.
– Então chegou a Sua hora de perguntar.
– É a dedicatória em seu último livro para sua esposa Pilar.
– “À Pilar, como se dissesse água”. Essa?
– Exato. O que quer dizer?
– Esquece. O Senhor jamais entenderia.
– Mas agora temos a eternidade inteira para você me explicar.
– Mesmo assim. A eternidade é pouco tempo para o Senhor entender isso.
– Por que?
– Porque o Senhor nunca amou uma mulher.
– José, José… Você não existe…

Eco Moliterno, VP de Criação da Africa

 

Eles previram o futuro… E acertaram!

Faz algum tempo, falei das previsões futuristas que deram errado (neste post), mas nem tudo foi um furo n’água. Escritores, roteiristas de cinema ou TV e palpiteiros em geral não precisaram ser videntes para dar várias bolas dentro. E aquilo que parecia uma viagem alucinante tornou-se realidade.

Vamos começar com o “pai” de todos os visionários, Júlio Verne. Entre tantos outros acertos em seus livros, ele previu o pouso na lua. Uma de suas obras-primas, “Da Terra à Lua”, de 1865, conta a saga de um pessoal em construir um enorme canhão para arremessar um projétil tripulado à Lua. Entre as várias coincidências com o que de fato ocorreu com a exploração do espaço pelo homem, estão:

  • o projétil foi disparado da Flórida, nos Estados Unidos;

Ilustração do momento do disparo, da edição de 1872.

  • era tripulado com três astronautas;
  • o nome de alguns astronautas, como Michel Ardan, é semelhante ao Michael de Michael Collins; e Ardan, ao do astronauta Edwin Aldrin;
  • na volta da Lua, o projétil cai no Pacífico e é resgatado por um navio.

É quase uma descrição exata da missão da Apolo 8, mais de cem anos depois do livro ser publicado.

Outro autor famoso e que fez uma previsão curiosa foi Ray Bradbury. No livro Fahrenheit 451 (de 1953), Bradbury explica que as pessoas na sua sociedade futurista sonham em comprar uma TV de tela plana para colocar na parede, uma sala com projeções 3D e um sistema de som multicanal, onde as pessoas se sentem imersas na transmissão de espetáculos musicais. A personagem Mildred diz ao marido: “Quanto tempo você acha que leva para economizarmos e abrirmos a quarta parede para instalarmos nosso quarto televisor?” Detalhe: quando o livro saiu, a televisão colorida havia sido lançada nos EUA fazia apenas 3 anos e ainda era extremamente cara.

Mark Twain é mais um desses visionários. O curioso é que eu, pelo menos, o conhecia como um autor satírico brilhante, e romancista genial, mas não como alguém que escrevesse sobre as “modernidades”. De fato, Samuel Clemens (o nome por trás do pseudônimo) morreu em 1910, muito antes da ARPANET, precursora da web. Mas ele parece ter sido o primeiro a conceber a internet. Sua contribuição foi entender essa ideia muito antes dos cientistas no conto escrito em 1898, chamado “From The London Times of 1904”. Nele, Twain descreve uma invenção chamada telectroscópio, um dispositivo que pretendia se conectar a uma rede enorme de telefones para interligar o mundo todo. 

O conto, segundo quem leu, não é muito bom, é melodramático demais – falando de um homem acusado por um crime que não cometeu e que é salvo da execução nos Estados Unidos na última hora por uma chamada telefônica do juiz que estava em Pequim -, mas Twain entendeu claramente o conceito básico da internet: viagens pelo mundo sem esforço através de um meio eletrônico.

Saindo da literatura e indo para cinema/TV, os roteiristas são tão imaginativos quanto os escritores. Veja o caso da série “Jornada nas Estrelas” clássica (1966-1969). Os tripulantes da nave Enterprise usavam um intercomunicador que antecipava em mais de três décadas os nossos atuais celulares.

Outro caso clássico e sempre citado é o dos Jetsons. Um palpite dos criadores da série e que está prestes a se concretizar é o da robô-arrumadeira Rose.  Quer dizer, não necessariamente uma robô que fala e arruma a casa. Hoje as coisas ainda estão separadas. Existe o NavBot da Samsung,  um robô aspirador de oito centímetros de altura equipado com a função Auto Dust Emptying, que coordena o esvaziamento automático de poeira e, por meio de sensores e uma câmera integrada, não limpa os mesmos lugares repetidamente. E a Honda já tem seu robô de companhia, o Asimo, capaz de andar, falar e interagir com os seres humanos. Porém, ele ainda não é comercializado.

Mas outro palpite da série se concretizou: a ida do homem à Lua. Elroy sempre fazia excursões ao satélite da Terra com a escola, e logo poderemos fazer o mesmo – no início, dando uma volta em órbita do planeta.  Mas tomar um refri num hotel com vista para a Terra será possível em menos de 20 anos. Em meia década já será uma moda entre os ricaços experimentar a gravidade zero e tirar fotos da Terra em um voo da Virgin Galactic ou da SpaceX. Além disso, haverá uma estação orbital de uso turístico que será construída pela Bigelow Aerospace.

Nave de turismo espacial da Virgin Galactic em voo impulsionado por foguete (Foto: AP Photo/Virgin Galactic, Mark Greenberg).

Mas tudo bem, você pode achar que isso dos Jetsons ainda está longe. Só que o filme “O Vingador do Futuro” (1990), com o bom e velho Shwarzza, antecipou algo que já está em uso em muitos aeroportos pelo mundo, edifícios públicos e inclusive num presídio no Rio de Janeiro: o scanner corporal.

  

A imagem acima mostra o esqueleto não me lembro de quem no filme, passando pelo scanner e mostrando a arma. A imagem abaixo mostra o scanner que está em uso no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, no combate às drogas. No começo do ano, a máquina detectou 22 africanos que tentavam embarcar no Aeroporto Internacional de Guarulhos com dezenas de cápsulas de cocaína no estômago. O destino era Angola. O scanner também tem ajudado a polícia a revistar suspeitos de contrabando de animais e outros crimes. Antes da prisão dos africanos, outras detenções já haviam sido feitas. Em novembro do ano passado, um colombiano com 70 cápsulas de cocaína no estômago e um grego com sete quilos da droga em um fundo falso de mala também foram capturados graças a essa tecnologia.

Para encerrar, o clássico “2001, Uma Odisseia no Espaço” antecipou, entre outras coisas, a videoconferência. Na imagem abaixo, vemos o astronauta no maior papo com a Terra.  Já faz algum tempo que conseguimos nos ver e nos falar em tempo real – coisa que em 1968, quando o filme foi feito, era a mais distante das ficções.

Na era da corrida espacial, quando os tripulantes das naves a caminho da Lua mandavam suas fotos ou vídeos lá de cima, a tecnologia envolvida era caríssima e só acessível a poucos países. Hoje, qualquer um com um computador ligado à internet (ou um smartphone com esse acesso) e o Skype pode conversar com seus amigos e familiares do outro lado do mundo.

Tudo bem que ainda estamos no meio do caminho em termos de carros-voadores ou máquinas de teletransporte, mas quem imaginaria há 20 anos (e não é tão distante assim, estamos falando de 1995!) que eu poderia estar conversando pelo Skype com meus netos que vivem em Dubai?

Elmore Leonard e suas 10 dicas de como escrever ficção

O escritor Elmore Leonard, autor de obras que deram origem a filmes como “O nome do jogo”, “Os indomáveis” e “Jackie Brown”, morreu em agosto passado, em consequência de complicações cardíacas e respiratórias, três semanas depois de sofrer um derrame. Autor de 45 romances sempre focados na tese de que o culto ao individualismo leva à violência, Leonard sempre questionou o rótulo de “cronista da América” e a fama de pensador atribuída a ele pela crítica literária, surpresa diante de seu estilo em best-sellers como “Ponche de rum” (1992), que acabou sendo o mais citado de seus textos, e que foi transposto para as telas por Quentin Tarantino como “Jackie Brown”, em 1997.

“Eu não sou um autor sério. Não tenho habilidade para escrever um livro sério. Sou, no máximo, um criador de diálogos”. Famoso pela coloquialidade nas falas de seus personagens (“Quando algo parece escrita, eu reescrevo”, dizia) Leonard atribuía as peculiaridades de sua linguagem às experiências que viveu durante a Segunda Guerra Mundial, em uma base no Oceano Pacífico. Ele fez parte de um destacamento militar que não partiu para o combate, e ficava o tempo todo ouvindo as conversas de seus colegas, fazendo delas a matéria-prima de sua prosa.

Em um artigo publicado pelo “New York Times” em 2001, Elmore Leonard listou uma série de dicas para aspirantes a escritores. “Essas regras eu compilei para me ajudar a continuar invisível enquanto escrevo um livro, para mostrar em vez de apenas dizer o que está acontecendo na história”, disse ele. São essas dicas que reproduzo a seguir:

1. Nunca abra um livro com o clima

Se for apenas para criar uma atmosfera, e não a reação de um personagem ao clima, você não deve se alongar muito. O leitor vai ficar tentado a folhear as próximas páginas à procura de pessoas. Há exceções. Se acontecer de você ser Barry Lopez, que tem mais maneiras de descrever gelo e neve do que um esquimó, você pode fazer todos os relatórios de tempo que quiser.

2. Evite prólogos

Eles podem ser irritantes, especialmente um prólogo depois de uma introdução que vem após um prefácio. Mas estes são normalmente encontrados em não-ficção. Um prólogo num romance é história de bastidores e você pode encaixá-las em qualquer lugar que você queira.

3. Nunca use um verbo além de “disse” para relatar o diálogo

A linha de diálogo pertence ao personagem: o verbo é o escritor metendo seu nariz. Mas “disse” é muito menos invasivo do que “resmungou”, “engasgou”, “advertiu”, “mentiu”. Uma vez, eu notei Mary McCarthy terminando uma linha de diálogo com “ela asseverou” e tive que parar de ler para consultar o dicionário.

4. Nunca use um advérbio para modificar o verbo “disse”

“… ele admoestou gravemente”. Usar um advérbio desta maneira (ou de quase qualquer outro jeito) é um pecado mortal. O escritor está agora expondo-se seriamente, usando uma palavra que distrai e pode interromper o ritmo da troca com o leitor. Uma personagem de um dos meus livros conta como ela costumava escrever romances históricos “cheios de estupros e advérbios”.

5. Mantenha os pontos de exclamação sob controle

Você não tem permissão para usar mais de dois ou três a cada 100 mil palavras em uma prosa. Se você tem a destreza para brincar com exclamações como o Tom Wolfe faz, você pode jogá-las aos punhados.

6. Nunca use as expressões “de repente” ou “o mundo desabou”

Esta regra não requer uma explicação. Eu tenho notado que os escritores que usam “de repente” tendem a exercer menos controle na aplicação dos pontos de exclamação.

7. Use dialeto regional, gírias, com moderação

Uma vez que você começa a soletrar foneticamente as palavras dos diálogos e a encher a página com apóstrofos, você não será capaz de parar. Observe a forma como Annie Proulx capta o sabor das vozes do Wyoming em seu livro de contos “Curto alcance”.

8. Evite descrições detalhadas dos personagens

Em “Colinas parecendo elefantes brancos”, de Ernest Hemingway, como o “americano e a menina com ele” se parecem? “Ela tirou o chapéu e o colocou sobre a mesa”. Esta é a única referência a uma descrição física na história e, ainda assim, vemos o casal e reconhecemos o tom de suas vozes, com nenhum advérbio à vista.

9. Não entre em muitos detalhes descrevendo lugares e coisas

A menos que você seja Margaret Atwood e possa pintar cenas com a linguagem, ou consiga descrever paisagens com o estilo de Jim Harrison. Mas, mesmo que você seja bom nisso, você não vai querer que as descrições levem a ação, o fluxo da história, a uma pausa.

10. Tente deixar de fora a parte que os leitores tendem a pular

Uma regra que me veio à mente em 1983. Pense no que você pula quando lê um romance: parágrafos grossos de prosa em que você vê palavras demais. O que o escritor está fazendo: ele está escrevendo, talvez recorrendo mais uma vez ao clima, ou então está na cabeça do personagem. O leitor não quer saber o que esse cara está pensando. Aposto que você não pula os diálogos.

Minha regra mais importante é uma que resume todas essas dez: se algo parece escrita, eu reescrevo.