Um dos uísques mais vendidos do mundo foi criado por um escravo

O Jack Daniel’s é um uísque fabricado pela Jack Daniel Distillery, fundada em 1876 pelo destilador norte-americano Jack Daniel (Jasper Newton Daniel), na cidade de Lynchburg, Tennessee, nos Estados Unidos. Desde 1956, pertence ao grupo Brown-Forman Corporation. E, até recentemente, a versão oficial era de que o criador da receita do uísque da marca era um pastor e fazendeiro da região chamado Dan Call.

A verdade, no entanto, é que a receita foi criada por um escravo de Call chamado Nearis Green. Mas essa história só passou a ser contada pela marca em 2016, 150 anos depois da sua criação.

Famoso e conhecido pelas garrafas quadrangulares de rótulo negro, o Jack Daniel’s é um dos uísques mais vendidos no mundo. Somente em 2014, a marca teve um lucro líquido de 208 milhões de dólares.

Durante anos, a história predominante do uísque americano foi contada como um caso centrado em colonos alemães e escoceses-irlandeses que destilaram seus excedentes de grãos em uísque e os enviaram para mercados distantes, criando uma indústria de 2,9 bilhões de dólares.

Os homens escravizados não só compunham a maior parte da força de trabalho na época, mas muitas vezes desempenhavam papéis cruciais e qualificados no processo de fabricação do uísque. Da mesma forma que os autores de livros de receitas brancos frequentemente se apropriavam de receitas de seus cozinheiros negros, os proprietários de destilarias brancas levavam crédito pelo uísque.

Jack Daniel, de chapéu branco, em uma fotografia do início do século 20 com seu amigo George Green, filho de Nearest Green, ao seu lado.

Mas a história de Jack e seu uísque foi um pouco diferente. Porque Jack e Green eram amigos.

A existência de Green nunca foi um grande segredo, mas, em 2016, a empresa Brown-Forman, dona da Destilaria Jack Daniel, ganhou manchetes pelo mundo com a decisão de finalmente abraçar o legado de Green e mudar significativamente seus roteiros turísticos para enfatizar seu papel.

“Sem dúvida, era perturbador o fato de que uma das marcas mais conhecidas do mundo ter sido criada, em parte, por um escravo”, disse a investidora de bens imobiliários e escritora afro-americana Fawn Weaver, de 40 anos.

Green não apenas ensinou a Daniel o processo de destilação, como trabalhou depois da Guerra Civil americana para ele, tornando-se o primeiro mestre destilador negro dos Estados Unidos.

A decisão da empresa de reconhecer sua dívida com um escravo, relatada pela primeira vez no The New York Times em 2016, é uma mudança decisiva na história da indústria alimentícia do Sul dos Estados Unidos.

De acordo com o que foi apurado, “Green foi alugado pelos seus proprietários, uma empresa chamada Landis & Green, para os agricultores do entorno de Lynchburg, incluindo Dan Call, um rico proprietário e pastor que também empregou um adolescente chamado Jack Daniel para ajudar a fazer uísque. Green, já hábil em destilar, manteve Daniel sob sua asa e, após a Guerra Civil e o fim da escravidão, foi trabalhar para ele na operação da bebida”.

Muitas pessoas entenderam mal a história, assumindo que Daniel era dono de Green e roubou sua receita. Na verdade, Daniel nunca possuiu escravos e sempre falou abertamente sobre o papel de Green como seu mentor.

Fontes:

observatorio3setor.org.br

thetimes.co.uk

gazetadopovo.com.br

A história esquecida do 1º barão negro do Brasil Império, senhor de mil escravos

Um próspero fazendeiro e banqueiro do Brasil nos tempos do Império, dono de imensas fazendas de café, centenas de escravos, empresas, palácios, estradas de ferro, usina hidrelétrica e, para completar a cereja do bolo, de um título de barão concedido pela própria Princesa Isabel. A biografia do empresário mineiro Francisco Paulo de Almeida, o Barão de Guaraciaba, não seria muito diferente de outros nobres da época não fosse um detalhe importante: ele era negro em um país de escravos.

Almeida fazia parte de um pequeno grupo de mestiços de origem africana que conseguiram ascender financeira e socialmente

No ano em que a Lei Áurea completa 130 anos, vale a pena conhecer a trajetória do primeiro e mais bem-sucedido barão negro do Império, um personagem praticamente desconhecido na História do Brasil. Empreendedor de mão cheia e com grande visão de negócios em um país ainda essencialmente agrário, ele tem uma trajetória que lembra a de outro barão empreendedor do Império, este bem mais famoso: o Barão de Mauá.

Com um patrimônio acumulado de 700 mil contos de réis, que garantia ao dono status de bilionário na época em que viveu, Almeida nasceu em Lagoa Dourada, na época um arraial próximo a São João del Rei, no interior de Minas Gerais, em 1826.

A origem da sua família é pouco conhecida. Filho de um modesto comerciante local chamado Antônio José de Almeida, na certidão de batismo consta como nome da mãe apenas “Palolina”, que teria sido uma escrava. “Infelizmente não sabemos o destino de Palolina e a quem ela pertencia, mas, sim, ela era escrava”, afirma o historiador Carlos Alberto Dias Ferreira, autor do livro Barão de Guaraciaba – Um Negro no Brasil Império.

Na época do Brasil Império, 1 saca de café era comprada por 12 mil-réis e um escravo comum era cotado a 350 mil-réis. Os escravos que eram hábeis em carpintaria, fundição maquinista etc., valiam 715 mil-réis.

Ainda na adolescência, Almeida começou a vida como ourives, fabricando botões e abotoadoras em sua terra natal, na região aurífera de Minas. Nos intervalos, tocava violino em enterros, onde recebia algumas moedas como pagamento e os tocos das velas que sobravam do funeral, que utilizava para estudar à noite. Por volta dos 15 anos, tornou-se tropeiro entre Minas e a Corte, no Rio de Janeiro.

Nessas idas e vindas, ganhou dinheiro comprando e vendendo gado, conheceu muitos fazendeiros e negociantes nos caminhos das tropas e começou a comprar terras na região de Valença, no interior fluminense, para plantar café. Após casar-se com dona Brasília Eugênia de Almeida, com quem teve 16 filhos, tornou-se sócio do seu sogro, que também era fazendeiro e negociante no Rio de Janeiro.

Certidão de batismo de um dos 16 filhos do barão: Com a morte do sogro, ele assumiu os negócios e sua fortuna disparou

Após a morte do sogro, assumiu todos os negócios e sua fortuna disparou: comprou sete fazendas de café espalhadas pelo Vale do Paraíba fluminense e interior de Minas. Apenas na fazenda Veneza, em Valença, possuía mais de 400 mil pés de café e cerca de 200 escravos. Levando-se em consideração que ele tinha outras áreas produtoras de café, o barão pode ter tido até mil escravos, segundo o historiador.

“Não se trata de uma contradição ele ter sido negro e dono de escravos, pois tinha consciência do período em que vivia e precisava de mão de obra para tocar suas fazendas. E a mão de obra disponível era a escrava”, explica Ferreira.

Imagem mostra uma das fazendas do barão, que teve cerca de mil escravos no conjunto de suas propriedades, o que o historiador não vê como contradição: “Essa era a mão de obra disponível”

Em sociedade com outros empreendedores com quem mantinha contato, Guaraciaba tornou-se banqueiro e fundou dois bancos: o Mercantil de Minas Gerais e o Banco de Crédito Real de Minas Gerais. A diversificação empresarial não parou por aí. Em um período em que as ferrovias começavam a rasgar o território nacional, participou da construção da Estrada de Ferro Santa Isabel do Rio Preto (depois incorporada pela Rede Mineira de Viação), cujos trilhos passavam por suas propriedades, em Valença.

A ferrovia, que ligava Valença a Barra do Piraí e se tornou importante para escoar o café do Vale do Paraíba, foi inaugurada por D. Pedro 2º em 1883. Teriam começado aí as boas relações entre Guaraciaba e a família real, que culminariam na concessão do título de barão pela princesa Isabel, regente na ausência do pai, em 1887.

O título foi concedido por “merecimento e dignidade”, em especial pela dedicação de Guaraciaba à Santa Casa de Valença, onde foi provedor. Mas entrar para a nobreza tinha um custo fixo e tabelado pela Corte: 750 mil réis.

Sempre atento às oportunidades de negócios que chegavam com o progresso, Almeida foi sócio-fundador da primeira usina hidrelétrica do país, inaugurada em 1889, em Juiz de Fora (MG). A Companhia Mineira de Eletricidade, que construiu a usina, também foi responsável pela iluminação pública elétrica em Juiz de Fora. O barão, claro, foi um dos participantes e financiadores da modernidade que aumentou o conforto da população.

Antiga mansão do Barão de Guaraciaba, chamada de Palácio Amarelo, hoje é sede da Câmara Municipal de Petrópolis, no Rio de Janeiro

Dono de um estilo de vida condizente com a nobreza imperial, o Barão de Guaraciaba possuía uma confortável residência na Tijuca, no Rio de Janeiro, e outra em Petrópolis, destino de veraneio preferido dos ricos e da nobreza. Na cidade serrana construiu uma mansão que posteriormente foi chamada de Palácio Amarelo e que hoje abriga a Câmara Municipal. Também fazia diversas viagens para a Europa, principalmente para Paris, onde enviou seus filhos para estudar.

“Guaraciaba distinguiu-se por ter sido financeiramente o mais bem-sucedido negro do Brasil pré-republicano. Ele se tornou o primeiro barão negro do Império, notabilizando-se pela beneficência em favor das Santas Casas”, afirma a historiadora e escritora Mary Del Priore. Segundo ela, Almeida fazia parte de um pequeno grupo de mestiços de origem africana que conseguiram ascender financeira e socialmente.

Após a proclamação da República, Guaraciaba começou a se desfazer dos seus bens, mas viveu uma vida bastante confortável até sua morte

O preconceito da cor, porém, permanecia arraigado na sociedade brasileira, independentemente da posição financeira, diz Priore. Alguns desses empreendedores, a exemplo do Barão de Guaraciaba, conquistaram ou compraram seus títulos de nobreza junto ao Império, sendo por isso chamados na época de “barões de chocolate”, em alusão ao tom da pele.

“O sangue negro corria nas melhores famílias. Não faltavam casamentos de ‘barões de chocolate’ com brancas”, completa a historiadora.

Após a proclamação da República, Guaraciaba começou a se desfazer dos seus bens, mas viveu uma vida bastante confortável até morrer, na casa de uma das filhas, no Rio de Janeiro, em 1901, aos 75 anos. Seus herdeiros, inclusive alguns ex-escravos agraciados pelo dono e que permaneceram com o patrão após a alforria, receberam dinheiro e propriedades, e se espalharam pelos Estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais.

“Ele foi um grande empreendedor que acabou banqueiro, homem de negócios, fazendeiro e senhor de escravidão. É preciso empenho e coragem dos historiadores para estudar esses símbolos bem-sucedidos de mestiçagem”, diz Mary Del Priore, que resgata um pouco da história do Barão de Guaraciaba em seu livro Histórias da Gente Brasileira.

 

 

Fonte:

BBC Brasil

Curiosidades da História do Brasil

Dois “vícios” de criança eu mantenho até agora: o gosto de estudar História (qualquer uma, história do cinema, história geral, história em quadrinhos…) e a curiosidade.

E esses dois “vícios” foram alimentados depois de ler as três obras de Laurentino Gomes, “1808”, “1822” e “1889”. São livros que falam da História do Brasil de uma forma diferente, com uma linguagem jornalística e que foge daquele tom pomposo dos livros tradicionais.

  

E aí, investigando, descobri alguns fatos curiosos de nossa história e que compartilho com você.

  • Eram faladas mais de 1.000 línguas no Brasil na época do descobrimento. Destas, 180 são faladas atualmente e apenas 11 têm mais de 5 000 falantes.

  • A esquadra que trouxe a família real portuguesa ao Brasil era composta de oito naus, três fragatas, dois brigues, uma escuna de guerra, um veleiro só de mantimentos e mais 20 outros navios. Ao todo, ela trouxe para o Rio de Janeiro 1,5 mil pessoas.

  • O nome completo de D. Pedro I era Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon.
  • Ufa! Imagina o tamanho da cédula de identidade dele!
  • Dom Pedro I teve oito filhos, sete do primeiro casamento e um do segundo. Além deles, o imperador teve outros seis filhos de relações extraconjugais.
  • Ainda sobre Dom Pedro I: ele enfrentou uma baita crise de diarreia no dia em que proclamou a Independência do Brasil.
  • Outra: ele usava um burrico, não um cavalo, nada a ver com a heroica tela pintada por Pedro Américo em 1888.

  • Sobre essa tela de Pedro Américo: ela foi encomendada pela Família Real em 1885 e ele a terminou em 1888, em Florença.  A Família Real, que encomendou a obra, investia na construção do Museu do Ipiranga (atual Museu Paulista). O quadro não é uma descrição fiel do que realmente aconteceu (também, imagina retratar D. Pedro I agachado no mato!), além de Pedro Américo ter sido acusado de plagiar a tela “1807, Friedland”, de Ernest Meissonier (abaixo) pintada em 1875.
  • Segundo seus defensores, Pedro Américo só teria vindo a conhecer a obra anos depois…
  • A esposa de Dom Pedro I, a princesa Leopoldina, era amiga do compositor austríaco Franz Schubert e do poeta alemão Johann W. Goethe.
  • Os primeiros escravos da África foram trazidos para o Brasil no ano de 1538. Até a assinatura da Lei Áurea, em 1888, entraram no país algo em torno de 15 milhões de escravos.

  • A Guerra do Paraguai foi o maior conflito armado internacional ocorrido na América do Sul no século XIX. Esse conflito destruiu a economia e a população paraguaias. De uma população de 800 mil pessoas, sobraram apenas 500 mil!
  • A Guerra do Paraguai durou seis anos e uniu Brasil, Argentina e Uruguai contra o Paraguai, na chamada Tríplice Aliança.
  •  Desde sua independência, os governantes paraguaios afastaram o país dos conflitos armados na região Platina. A política isolacionista paraguaia, porém, chegou ao fim com o governo do ditador Francisco Solano López. Em 1864, o Brasil estava envolvido num conflito armado com o Uruguai. Havia organizado tropas, invadido e deposto o governo uruguaio do ditador Aguirre, que era líder do Partido Blanco e aliado de Solano López. O ditador paraguaio se opôs à invasão brasileira do Uruguai, porque contrariava seus interesses.

Solano López

  • Como retaliação, o governo paraguaio aprisionou no porto fluvial de Assunção o navio brasileiro Marquês de Olinda, e em seguida atacou a cidade de Dourados, em Mato Grosso. Foi o estopim da guerra. Em maio de 1865, o Paraguai também fez várias incursões armadas em território argentino, com objetivo de conquistar o Rio Grande do Sul.

  • A Batalha Naval do Riachuelo, retratada na tela acima, foi um dos principais eventos ocorridos durante a Guerra do Paraguai. Aconteceu no dia 11 de junho de 1865, nas margens do rio Riachuelo, um afluente do rio Paraguai (situado na província de Corrientes, Argentina). Essa batalha colocou de um lado os paraguaios e de outro, os brasileiros.
  • O Paraguai, sem conexão com o mar, queria muito controlar os rios da bacia do Prata, pois significava uma saída para o Oceano Atlântico, ou seja, uma via de transporte de pessoas e mercadorias. Na fase inicial da guerra, o Paraguai já havia realizado importantes conquistas militares, ocupando regiões da Argentina, Mato Grosso e Rio Grande do Sul. Se saíssem vencedores da Batalha do Riachuelo, iriam controlar os rios Paraná e Paraguai e dar um importante passo na conquista do Rio Grande do Sul e do Uruguai. Desta forma, poderiam fazer comércio com outros países e até receber armas da Europa.
  • A estratégia paraguaia era boa. Aproveitariam o nevoeiro intenso da madrugada para atacar os navios de guerra brasileiros. Porém, um dos navios paraguaios apresentou um problema e fez com que todos outros chegassem atrasados para o ataque, num momento que o nevoeiro já havia passado. Com boas condições climáticas e visuais, as forças navais brasileiras, lideradas pelo Almirante Barroso, venceram o Paraguai nesta importante e estratégica batalha.
  • A frota brasileira era composta por 9 navios de guerra. A frota paraguaia possuía 8 navios de guerra, com menos armamentos e eram menos velozes.
  • Antes da guerra, o Paraguai era uma potência econômica na América do Sul. Além disso, era um país independente das nações europeias. Para a Inglaterra, esse era um exemplo que não deveria ser seguido pelos demais países latino-americanos, que eram totalmente dependentes do império inglês.
  • Foi por isso que os ingleses ficaram ao lado dos países da Tríplice Aliança, emprestando dinheiro e oferecendo apoio militar. Era interessante para a Inglaterra enfraquecer e eliminar um exemplo de sucesso e independência na América Latina.
  • Após esse conflito, que terminou em 1870, o Paraguai nunca mais voltou a ser um país com um bom índice de desenvolvimento econômico.
  • Números da guerra:
    Forças
    150.000 paraguaios 200.000 brasileiros,
    30.000 argentinos,
    5.500 uruguaios,
    Total:
    235.500 soldados
    Vítimas
    Cerca de 300.000 mortos
    (entre militares e civis)
    50.000 brasileiros,
    18.000 argentinos,
    3.000 uruguaios,
    Total:
    Cerca de 71.000 mortos.

     

 

Fontes:

maiscuriosidade.com.br

Wikipedia

Guia dos Curiosos

Retratos da escravidão

A escravidão, prática pela qual um homem assume os direitos de propriedade sobre outro, vem desde os tempos mais remotos. Nem sempre o escravo era tido como uma mercadoria. Em Esparta, onde eram usados como força de trabalho, eles não podiam ser vendidos ou comprados, uma vez que eram propriedade do Estado, que definia o que eles faziam e poderiam cedê-los por tempo determinado a alguém.

Ficheiro:Jean-Léon Gérôme 004.jpg

Já em Roma, por exemplo, os escravos eram mercadoria e, nos mercados estabelecidos para isso, escravos e escravas eram exibidos e leiloados. Os preços variavam conforme as condições físicas, habilidades profissionais, a idade, a procedência e o destino.

A escravidão da era moderna está baseada num forte preconceito racial, segundo o qual o grupo étnico ao qual pertence o “dono” é considerado superior, embora já na Antiguidade as diferenças raciais fossem bastante exaltadas entre os povos escravizadores, principalmente quando havia fortes disparidades fenotípicas. Na antiguidade também foi comum a escravização de povos conquistados em guerras entre nações.

Ficheiro:Wobbelin Concentration Camp.jpg

Esse costume continuou na era moderna. Por exemplo, durante a 2ª Guerra Mundial os nazistas escravizaram diversos prisioneiros, como os da foto acima, do campo de concentração de Wobbelin, na Alemanha, mantido pelas SS. Esse campo foi libertado pelas tropas da 82ª Divisão Aerotransportada dos Estados Unidos em 1945, quando os comandantes americanos – indignados com o que encontraram – mandaram os habitantes da cidade vizinha enterrar os mortos, mais de 1000 corpos espalhados por todo o campo. (esse evento foi contado num episódio da série de TV “Band of Brothers”).

A exploração do trabalho escravo torna possível a produção de grandes excedentes e uma enorme acumulação de riquezas por parte dos povos ou indivíduos que adotam essa prática. Nas civilizações escravagistas, não era pela via do aperfeiçoamento técnico dos métodos de produção que os senhores de escravos procuravam aumentar a sua riqueza. Mas sim pelo aumento da “força de trabalho”…

No Brasil, a primeira forma de escravidão foi dos índios, especialmente na Capitania de São Paulo, onde seus moradores pobres não tinham condições de adquirir escravos africanos, nos primeiros dois séculos de colonização. A escravização de índios foi proibida pelo Marquês de Pombal. Não por razões humanitárias, mas porque eram considerados pouco aptos ao trabalho…

A escravidão dos povos africanos teve início com a produção canavieira na primeira metade do século XVI como tentativa de solução à “falta de braços para a lavoura“, já que não podiam contar com os nativos.

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Escravidão no Brasil, Jean-Baptiste Debret (1768-1848).

Os portugueses, brasileiros e mais tarde os holandeses traziam os negros africanos de suas colônias na África para utilizar como mão-de-obra escrava nos engenhos. Os mais valorizados eram os negros do Congo, Angola e Moçambique. Já os que vinham da Guiné eram enviados para trabalhar em Minas Gerais, nas minas de ouro.

Como eram vistos como mercadorias, ou mesmo como animais – do mesmo modo como faziam os povos escravagistas da Antiguidade -, os negros eram avaliados fisicamente, sendo melhor avaliados, e tinham preço mais elevado, os escravos que tinham dentes bons, canelas finas, quadril estreito e calcanhares altos, em uma avaliação eminentemente racista. O preço dos escravos sempre foi elevado quando comparado com os preços das terras, abundantes no Brasil. Assim, durante todo o período colonial brasileiro, nos inventários de pessoas falecidas, o lote (plantel) de escravos, mesmo quando em pequeno número, sempre era avaliado por um valor muito maior que o valor atribuído às terras do fazendeiro. Por isso a morte ou a fuga de um escravo representava uma perda econômica e financeira imensa.

Os escravos fugidos formaram muitos quilombos, que traziam insegurança e frequentes prejuízos a viajantes e produtores rurais. Em Minas Gerais, por exemplo, em torno da estrada que era o único acesso a Goiás, havia o Quilombo do Ambrósio, o maior de Minas Gerais, que foi assim descrito por Luís Gonzaga da Fonseca, em sua “História de Oliveira”:

“Goiás era uma Canaã. Voltavam ricos os que tinham ido pobres. Iam e viam mares de aventureiros. Passavam boiadas e tropas. Seguiam comboios de escravos. Cargueiros intérminos, carregados de mercadorias, bugigangas, miçangas, tapeçarias e sal. Diante disso, negros foragidos de senzalas e de comboios em marcha, unidos a prófugos da justiça e mesmo a remanescentes dos extintos cataguás, foram se homiziando em certos pontos da estrada (“Caminho de Goiás” ou “Picada de Goiás”). Essas quadrilhas perigosas, sucursais dos quilombolas do rio das mortes, assaltavam transeuntes e os deixavam mortos no fundo dos boqueirões e perambeiras, depois de pilhar o que conduziam. Roubavam tudo. Boiadas. Tropas. Dinheiro. Cargueiros de mercadorias vindos da Corte (Rio de Janeiro).  E até os próprios comboios de escravos, matando os comboeiros e libertando os negros trelados. E com isto, era mais uma súcia de bandidos a engrossar a quadrilha. “

Somente no final do século XIX é que a escravidão foi mundialmente proibida. Aqui no Brasil, sua abolição se deu em 13 de maio de 1888 com a promulgação da Lei Áurea, feita pela Princesa Isabel.   Se a lei deu a liberdade jurídica aos escravos, a realidade foi cruel com muitos deles.

Sem moradia, condições econômicas e assistência do Estado, muitos negros passaram por dificuldades após a liberdade. Muitos não conseguiam empregos e sofriam preconceito e discriminação racial. A grande maioria passou a viver em habitações de péssimas condições e a sobreviver de trabalhos informais e temporários.

Marc Ferrez, fotógrafo franco-brasileiro, retratou cenas dos períodos do Império e início da República, entre 1865 e 1918, e dentre seus importantes legados visuais, há inúmeras fotos – que são parte do acervo do Instituto Moreira Salles – do Brasil dos anos 1800 nas quais a escravidão aparece sem qualquer tipo de constrangimento. Ao contrário, a impressão que passa é que essa prática tinha se tornado natural, mesmo que baseada em inúmeras formas de constrangimento e todo tipo de violência.

Quis aqui compartilhar essas fotos, tanto de Marc Ferrez quanto de Augusto Stahl e outros fotógrafos, para nos ajudar a repensar essa história que, por muito tempo, manteve-se invisível na sociedade brasileira.

A escravidão continua. É diferente daquela no Brasil Colônia, quando a prática de comprar e vender gente era uma atividade legal. Mas é tão perversa quanto. Temos escravos espalhados na Amazônia, no interior do Brasil, nas tecelagens do Brás em São Paulo.

Para o senhor de escravos, hoje é muito mais vantajoso. Era muito mais caro comprar um negro africano. Hoje, o custo é quase zero – paga-se o transporte providenciado pelos “coiotes” – e só. Gente desempregada no Brasil e em países vizinhos é abundante, portanto candidatos inocentes à escravidão não faltam. E tanto faz se a pessoa é negra, amarela, branca, vermelha… O que importa é que o escravo seja miserável, independente da raça.

Mesmo com a fiscalização mais intensa do Ministério do Trabalho, com a prisão e multa dos envolvidos e o resgate dos trabalhadores, as causas continuam em aberto. O local de origem dos escravos contemporâneos sempre tem em comum uma situação de pobreza terrível.

Enquanto não existir uma forma de fixar essas pessoas em suas terras, a mão-de-obra passível de entrar em regime de escravidão continuará abundante.



QUEM SABE UM DIA…


Aurélio de Oliveira, publicitário e professor

Desde que me mudei aqui para Porto Seguro, berço do nosso descobrimento, fui apenas uma vez visitar uma réplica meia boca da caravela do Cabral. Não deu vontade de ir novamente. Dizem que foi neste local (há controvérsias), há mais de 5 séculos, que dois índios Pataxó, encostados numa paineira, acompanharam as caravelas de Cabral atracando nas costas brasileiras. Disse um ao outro:

___ Acho que isso não vai dar certo…

De lá para cá, muita água rolou debaixo da ponte, muita cachaça jorrou dos alambiques e muito sangue, suor e carnaval arquitetaram e definiram nossa excêntrica identidade nacional e os rumos do nosso progresso como povo!

Por que ainda não deu certo? Melhor: por que deu certo em algumas coisas, como o futebol por exemplo, e não deu em outras, como educação e saúde? Por que os políticos ganham salários astronômicos e um professor ganha um salário microscópico? É tudo muito confuso neste país.

Eu acho que é tudo uma questão de começo. Tudo que começa bem, vai bem! Vamos falar, então, sobre o início dos nossos tempos. Somos filhos de um povo que, muito longe de colonizar com inteligência, veio aqui para predar, rapinar e destruir, fincando a bandeira da parvoíce. Facínoras e delinquentes portugueses, em vez de serem mandados para as masmorras do castelo, eram mandados para as praias idílicas das terras descobertas.

Fomos colonizados por bandidos, que semearam em inocentes úteros indígenas a gênese de uma estranha e extravagante etnia. Se não eram malfeitores eram exploradores, que vinham e iam com as naus abarrotadas de pau-brasil e a consciência vazia de culpa; deixavam para trás proles e mais proles de criaturas de difícil identificação: não eram europeus, mas também não eram mais índios.

Depois de aviltar os nativos, anos mais tarde resolveram desonrar negros africanos que, à força de grilhões, eram trazidos para os trabalhos forçados nos engenhos e trabalhavam de graça até morrer. Mas antes disso, as negras mais jovens e bonitas eram obrigadas a emprestar o corpo para, desregradamente, senhores de fazendas, seus filhos e comparsas continuarem a moldar aquilo que seria o povo brasileiro. O resultado foi uma nova renque de seres que não eram brancos, nem podiam ser chamados de africanos.

Já éramos brasileiros? Não! Brasileiro era o nome que se dava à corja que traficava o pau-brasil. Ainda éramos apenas o início de uma farofa étnica copulada e ejaculada por brancos, negros e índios nas alcovas coloniais, fossem elas sobre lençóis acetinados, em senzalas mal-cheirosas, em becos fétidos e sombrios ou nas matas sob a luz de Jaci.

Desse modo fomos nascendo… sem pátria, sem identidade e abençoados pela avidez de almas e dinheiro de uma religião que, sabendo da força que há em um povo alfabetizado, não nos obrigava a aprender a ler para seguir seus ritos. Apenas amedrontavam-nos com as fábulas da cristandade… bobagens como céu, inferno e purgatório.

Assim, crescemos temerosos, incultos, pouco afeitos a leituras e, pior, vulneráveis.

Hoje somos um povo lindo e as diferentes etnias liquidificadas fizeram bem pra nossa pele e nos encheram de talento. Mas continuamos vulneráveis às perfídias das religiões, das políticas, dos políticos e do poder global das grandes empresas. Por isso, por conta dessa biografia caótica, somos um povo que ainda não deu certo…

Quem sabe um dia…