A dublagem venceu as legendas

O que me aborrece não é a dublagem de filmes ou seriados. O que me aborrece é NÃO ter a opção de escolha.

Se a pessoa prefere assistir seus filmes dublados porque “está no Brasil e quer ver no seu idioma”, ou porque “dá agonia ler tanta legenda que pra piorar muitas vezes estão fora de sincronia” (o que está entre aspas foi transcrito de comentários na internet) ou porque acha mais cômodo, então vá em frente; só que eu prefiro assistir com legenda, oras! Não é elitismo nem nada, apenas uma questão de gosto, de quem aprecia o cinema, como eu.

Depois da ascensão da “nova classe média”, como o governo federal define as famílias com renda mensal  (somando todas as fontes) entre R$ 1.000 e R$ 4.500,00 – e que corresponde a 50,5% da população, sendo dominante do ponto de vista eleitoral e do ponto de vista econômico, pois detêm 46,24% do poder de compra e supera as classes A e B (44,12%) e D e E (9,65%) – todas as operadoras de TV paga e distribuidoras de filmes para os cinemas optaram maciçamente pela dublagem. Se você quiser assistir ao novo desenho animado da Disney nos cinemas – e legendado -, não vai encontrar nenhuma sala que o exiba, ou, se existir, será em horários complicados.  Acontece a mesma coisa com todos os filmes, a maior parte das cópias é dublada. Quem não se dispuser a isso, vai ter que esperar sair no DVD/Blu-Ray. Nas TVs pagas, a situação é até pior: há canais de filmes em que não há a opção de legendas  e, quando há a opção da tecla SAP, não tem legenda… Quer dizer, os deficiente auditivos, por exemplo, como ficam?

É compreensível essa opção comercial pela dublagem, afinal, dublado dá mais audiência e mais bilheteria. Pelo menos as dublagens brasileiras são geralmente muito boas,  exceto quando entra voz de criança, aí de fato é terrível… Ou quando chamam celebridades nada a ver para dublar, mas aí entramos em outra discussão.  Se a dublagem é feita por profissionais bem remunerados e compromissados com a profissão, dá uma surra em  “atores” que só estão lá por terem um rostinho bonito.

Infelizmente, o que parece que vem acontecendo é que as empresas estão cortando custos (pra variar…) e comprando dublagens de estúdios menores com profissionais menos empenhados na qualidade da tradução e sincronia dos diálogos. E aí, você vai correr o risco de ouvir o Schwazenneger falando “mermão” e com a voz do dublador que faz também o Mel Gibson e o Bruce Willys e o Rei Leão e o Wesley Snipes e o Steve Austin e o Chaves e o Homer Simpson e o Darth Vader e o Jaspion e etc etc…

Quem leva a sério o trabalho de dublagem sabe que ele é meticuloso e  exige atenção para vários fatores, como sincronicidade de falas, de pausas, de reações e até de respirações; ao mesmo tempo em que se ouve as falas originais, a dublagem solicita uma interpretação natural e a dicção mais limpa possível de sotaques, a não ser que o personagem exija. Não é um trabalho fácil, não.

Agora, não aceito o argumento dos defensores da dublagem de que “na Europa todos os filmes estrangeiros são dublados”. E daí? Então, como lá é assim, vamos copiar aqui porque é chique, é isso?… O detalhe é que na Itália e na França, isso é lei. Há apenas poucas salas com o áudio original, e pelo que eu sei, todas sem legenda (na primeira vez que fui à Itália, quis assistir ao “Dança com Lobos” do Kevin Costner e entrei na sala com cópia sem dublagem. Entendi muito pouco porque meu inglês era parco e porque não tinha legenda…)

Nem aceito o argumento desse box abaixo, que vi numa revista Época de 2012 em defesa da dublagem:

Não li a matéria toda porque esse box já me afastou, mas pelo tom, ela parecia até encomendada por interessados em preparar a cabeça das pessoas para o inevitável: a dublagem vai prevalecer.  Como escreveu Bruno Carvalho em seu site, “pra quê investir em tecnologia para oferecer trilha original e legendas? Esse é um custo adicional ao custo da dublagem que eles não querem e não vão arcar”.  

Mais e mais canais irão optar pela dublagem em detrimento da legendagem, que é mais barata – porém, para crescer em audiência, os canais terão que se render ao gosto do espectador, e a maioria prefere dublagem. A mesma coisa no cinema.

Que seja assim, mas o que eu quero é ter a opção da legendagem.

Quero curtir o filme como cinema, e não apenas como divertimento. Quero curtir a cenografia, a fotografia, o enredo, o som, a música, a direção de atores e a atuação dos atores – que, obviamente, inclui a voz.  Tudo bem, posso não ser um espectador “normal”, mas e daí? Tenho esse direito.

Outro dia assisti “De Pernas para o Ar 2”, com a Ingrid Guimarães e a Maria Paula. Leve, divertido, cenas hilárias, fotografia e figurinos muito legais, o som ótimo – deve ser horrível assistir esse filme dublado, vai perder toda a graça do timing da Ingrid. Mas talvez a dublagem trouxesse uma coisa boa, afinal: daria para entender o que a Tatá Werneck fala…

(isso também vai acontecer quando a TV Globo vender essa novela em que ela aparece para os países de língua hispânica).

Os dubladores que me perdoem, mas eu quero ouvir o sotaque escocês cheio de chiados do Sean Connery ou o sotaque texano mastigado do Matthew McConaughey. Quero curtir o Robert de Niro falando com o espelho You talkin’ to me? na famosa cena de “Taxi Driver”:

Peço desculpas ao dublador que faz o Jim Carrey , imagino o esforço dele, mas prefiro ouvir o ator no original:

DUBLADA

ORIGINAL (não achei a mesma cena com legendas)

Assim como prefiro a gatíssima Penélope Cruz no original!

Repito, eu quero ter a opção de assistir meus filmes e seriados com legendas.

Legendagem: A rotina do profissional das legendas

Existe um tema conectado ao lazer das pessoas que talvez seja o campeão de reclamações: a má qualidade das legendas dos filmes e séries exibidos na TV (ou no cinema).

Com o advento da “nova classe média” há alguns anos – resumindo, o crescimento do poder aquisitivo das classes sociais menos favorecidas impulsionou o consumo de bens e serviços durante algum tempo (bolha que hoje já furou, pelo excessivo endividamento dessas famílias) – houve um aumento da demanda por esse tipo de lazer. Novos canais pagos e novos serviços, como Netflix, passaram a oferecer uma grande variedade de programas e filmes, o que provocou uma corrida a profissionais de legendas. Como essa necessidade era premente, e não havia tantos profissionais habilitados, a saída foi recorrer àqueles que ainda estavam “verdes”. Daí essa quantidade de erros, apesar de haver pessoas que revisam o trabalho…

Mas a vida do legendador não é assim tão fácil como se pensa: “Que legal, assistir os filmes antes de todo mundo!”. Se os canais correm para lançar as séries no Brasil cada vez mais perto da data de estreia no exterior, o trabalho das empresas que legendam episódios também precisou ser acelerado. O tempo de preparação das legendas de um capítulo caiu pela metade: em média, de uma quinzena para uma semana.

O trabalho desse tradutor requer – além da óbvia fluência nos idiomas – uma boa bagagem cultural, porque é comum ele ser obrigado a adaptar uma piada ou situação. E a chave para a legenda é a síntese. Porque, além de uma legenda de qualidade, ele precisa colocar a menor quantidade possível de informação na legenda, mas sem perder o contexto. O espectador lê o texto e vê a imagem. Se tiver muita informação, ele só vai ler. Se tiver pouca informação, pode não compreender a cena quando levantar os olhos.

Sem contar que os softwares de legendagem permitem apenas cerca de 30 caracteres dispostos em duas linhas (o motivo é que o limite de leitura do brasileiro é entre 18 a 20 caracteres por segundo. Acima disso, nem todos conseguirão ler, e aqueles que puderem fazê-lo não terão tempo para ver o vídeo, causando com certeza um grande desconforto).

O primeiro passo do tradutor é assistir ao filme e marcar – no script fornecido pelo estúdio – as possíveis divisões das legendas, baseando-se nas pausas das falas dos personagens e tendo em mente a limitação dos caracteres. O tradutor deve levar em conta a ambientação: é um filme de época? É um filme regional? É um filme no qual se usa gírias demais? A tradução precisa ser baseada na linguagem original da obra, que pode não ser nada simples – desde complexos diálogos Shakespeareanos até gírias australianas “intraduzíveis” ao Português.

Além disso tudo, ele precisa conhecer gírias, estar atualizado com expressões idiomáticas, evitar falsos cognatos (silicon não é silício, actually não é atualmente, coroner não é coronel, e por aí vai) e conhecer o universo da cultura pop: seriados, filmes, quadrinhos, música, etc. etc.

Enfim, há inúmeros detalhes e tantas variáveis que talvez seja legal ler o depoimento de uma profissional, que ilustra bem a aventura diária do tradutor/ legendador:

“A manhã começa e lá estou eu, com o computador ligado, depois de checar os e-mails diários. O arquivo digital de vídeo está aberto dum lado e o Word, do outro. Os dicionários eletrônicos e o Google também estão a postos, aguardando a consulta mais ou menos frenética, conforme o nível de dificuldade e/ou informalidade do enredo de hoje.

O filme começa a rodar, e graças à era digital, tudo é controlado pelo teclado. Há muito tempo o videocassete ficou para trás… Ainda bem! O respectivo roteiro chegou na última hora. Ufa! Não vai ser preciso voltar inúmeras vezes cada cena a fim de conferir o que está sendo dito (depois de tanto tempo de experiência, aprendi a identificar se o roteiro é ou não de confiança…).

legendagemNo começo, devido aos créditos do filme na parte inferior da tela, as legendas devem ficar na parte superior da mesma. O cliente exige o uso de um sinalzinho para indicar isso. É preciso atenção. Passam-se alguns minutos de filme e a legendagem vai bem, segue tranqüila. Os diálogos são espaçados, simples, por enquanto. (Ainda bem que não é um Woody Allen!) Oba, vai ser fácil e rápido… Doce ilusão… logo, logo, vão aparecendo os desafios:

Pull 52 good bennis, and take home a car.

“Bennis”? De onde foram tirar isso? A explicação dos dicionários não cabe… Google nele. Descobri: é de Benjamin Franklin, que está na nota de US$100. Problema resolvido, bola pra frente.

Will Macy’s tell Gimble’s?

E agora? Não quero usar os nomes das lojas, prefiro “mastigar” a informação para o telespectador neste caso, visto que o público é variadíssimo: “O concorrente será avisado?” Maravilha, a frase tem 28 caracteres, perfeita para os dois segundos que ficará na tela.

“I’ll try to find ice, since we are in Iceland”.

Ah, começo a quebrar a cabeça pra tentar uma adaptação, mas não posso mudar o nome do país. Não tem jeito:

“Tentarei achar gelo, já que estamos na Islândia.”

Fazer o quê? Nem tudo é perfeito.

I’m the rapper.
Oh, for real. And here’s the 611 on that.

– That’s phone repair. You mean 411.
– Right.

Mais uma. Volto para a internet e descubro que 611 é o número discado nos Estados Unidos para solicitar serviços de reparos telefônicos, e 411 é o número para obter informações. Depois de desvendar o mistério, parto para a adaptação… Os trocadilhos continuam, desafiando os padrões gramaticais e de estilo do cliente, que não são poucos.

They’re chewing my ears off wanting to know when
you’re going to launch a murder enquiry.

Ih, a tradução dessa fala tem de caber em uma linha e meia… e não posso usar gírias…

You are a nation of peeny-weeny,
piffling, piccolini, piddly-diddly pouft!

Pelo amor de Deus, alguém me socorre. Essa legenda deve ficar quatro segundos na tela, o que vou escrever aqui??? Ainda por cima, tem de fazer sentido para um público amplo, não posso usar termos regionais, que só serão compreendidos aqui em Sampa.

– I’ll watch your back.
– It’s me front I’m worried about.

Três segundos para fazer esse trocadilho? (Nota de rodapé não pode, nem gíria, lembre-se.) 

his was like the Keystone Kops
versus The Gang That Couldn’t Shoot Straight.

Não entendi nada, mas como o roteiro é legal (eu bem que avisei…), veio tudo explicadinho:

Keystone Kops: an incompetent group of policemen featured in silent films from 1912 to 1917.

The Gang That Couldn’t Shoot Straight: a film from 1971 about an incompetent gang of hoodlums.

Ajudou muito!!! Traduzir ao pé da letra não dá, claro. Mais meia hora pensando numa adaptação que dê exatamente esse sentido. Não, não posso usar “É o roto falando do rasgado”, pois tenho duas linhas com 32 caracteres para encher, já que a fala dura quatro segundos. Quem disse que legendagem era fácil?


We want you to find this…

because the finding of this
finds you incapacitorially finding…

and/or locating in your discovering a way
to save your dolly belle, ol’ what’s-her-face.

Savvy?

Hoje é dia… e eu que achei que seria rápido e fácil…

Thank you!

Essa não! O personagem é hermafrodita, não tem gênero explicitamente definido no filme. Não posso eu, mera tradutora, estragar o contexto. Vai ficar: “Eu agradeço”. É, nem um simples “obrigado/a” sai ileso após um dia de legendagem. ;-) “

Flávia Fusaro é intérprete e tradutora credenciada pela ATA, e trabalha na área desde 1996. É responsável pela versão da HBO das seguintes séries:RomaAmor Imenso, e também pela legendagem dos títulos: Piratas do Caribe 2Os InfiltradosHappy FeetA Casa do LagoO Código da Vinci,Superman, o Retorno, entre outros. E-mail: ffusaro@hotmail.com.

 

 

Fontes:
teclasap.com.br
artedatraducao.blogspot.com.br
tradutorlegendagem.blogspot.com.br