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Nova York também tinha sua cracolândia, sabia?

O Bryant Park, no coração de Manhattan, era um mercado de drogas a céu aberto cercado por traficantes, viciados e mendigos nos anos 80. Hoje, a região está recuperada

Prédios abandonados em Alphabet City, no Lower East Side, em 1986

Há 30 anos, andar por Nova York não era tão seguro quanto hoje em dia. Os crimes eram frequentes, e muitas vezes foram motivados pelo tráfico de drogas. A epidemia do crack assolava a cidade na década de 1980 e criou áreas onde as pessoas não podiam passar, tudo muito parecido com o que acontece hoje na Cracolândia, em São Paulo.

A cracolândia deles ficava no Bryant Park, no coração de Manhattan, e a uma quadra da Grand Central Station, a maior estação de trens do mundo e um dos cartões postais da cidade. Curiosamente, a “nossa” cracolândia também começou perto da Estação da Luz, que foi construída há mais de 100 anos e é “um dos cartões postais da cidade”. Hoje, temos mais de 20 mini-cracolândias espalhadas por São Paulo!

Em Nova York, havia também outra cracolândia

Outro bairro, conhecido como Alphabet City, também em Manhattan, no Lower East Side, ficou por muito tempo sendo ocupado por traficantes, o que destruiu a vida da comunidade local. Um estudo da época mostrou que o uso de crack estava ligado a 32% de todos os 1.672 homicídios registrados em 1987, e a 60% dos homicídios ligados às drogas.

Para vender o crack, os traficantes invadiam edifícios abandonados e assumidos pelo governo de Nova York por conta de impostos atrasados. Essas crack houses recebiam também usuários de droga que vinham de carro de outros locais da cidade. Isso acabou facilitando o trabalho da polícia, porque nos EUA há uma lei que prevê que, se drogas forem encontradas em um carro, pode-se apreender as drogas e os carros. Conclusão: centenas de carros eram apreendidos…

Na época, a polícia ainda colocou um policial a cada esquina, para dispersar os usuários e prender os traficantes que andavam pelas ruas. Mas isso só fortaleceu as crack houses, já que o consumo não era controlado dentro desses prédios.

Pressure Point

Então, a polícia começou uma política de pressão, focando nas quadrilhas espalhadas pelos bairros. Agentes à paisana compravam drogas para aprender mais sobre o tráfico (vimos isso em uma porção de filmes e seriados policiais) e outros foram colocados no topo de prédios para observar a ação dos criminosos. O efetivo também aumentou. Entre 1991 e 2001, a força policial de Nova York cresceu 45% – três vezes mais do que a média nacional.

Leis mais severas e tolerância zero

Existiam leis severas, mas que só passaram a ser aplicadas com mais rigor quando a epidemia do crack se espalhou. Essa medida foi responsável pela explosão no número de condenações por posse de drogas, passando de 2.554 em 1980 para 26.712 em 1993. A lei estabelecia sentenças mínimas obrigatórias de 15 anos até a prisão perpétua por posse de cerca de 110 gramas de qualquer tipo de droga.

Foi no início de 1990 que o prefeito Rudolph Giuliani começou a famosa política de tolerância zero, que muitos de nós ouvimos falar. Ela impunha punições automáticas para qualquer tipo de infração, como a pichação de paredes, por exemplo. O objetivo era eliminar por completo a conduta criminosa e as contravenções. Durante seu governo, Giuliani reduziu pela metade as taxas de criminalidade de Nova York.

Segundo especialistas, foi essa combinação de uma ação policial mais eficiente com o respaldo da prefeitura, aliada ao crescimento econômico, os principais responsáveis pela redução de cerca de 80% nas taxas de crimes em geral em um período de 20 anos. Em 2010, a cidade registrou 536 homicídios (no mesmo ano, a cidade de São Paulo registrou 1.210…). Outros especialistas também argumentam que os efeitos destrutivos do crack tornaram-se aparentes, fazendo com que os novos usuários, com medo do poder de destruição da droga, ficassem longe dele.

A ação da Justiça

Em 1989, a Flórida criou as drugs courts, que eram tribunais especializados em atender usuários de drogas, formados por uma equipe com advogados de defesa, promotores, especialistas em saúde mental e em serviço social.

Aqueles que eram pegos com uma pequena quantidade de drogas (até 28 gramas) podiam ter a sentença reduzida ou até a ficha criminal cancelada se não tivessem cometido delitos graves, como homicídios. A contrapartida era frequentar um programa de internação voluntária, com regras e condições estabelecidas entre o réu, advogado de defesa, a acusação e o tribunal.

Atualmente, o estado de Nova York tem cerca de 180 desses tribunais. Mais de 60.000 pessoas passaram pelos programas de tratamento até hoje e mais da metade finalizou o programa.

Como está a antiga cracolândia americana

Tendo combatido o crack nas duas frentes, saúde pública e segurança pública, pode-se dizer que o programa foi vitorioso, já que os bairros voltaram a ser ocupados pela população e pelos turistas.

O Bryant Park hoje
O Lower East Side hoje

Mas a batalha não terminou.

A maioria dos usuários não aceita tratamento ou não permanece nele, por isso foi criado um programa em 2014 que pretende reduzir as violações de liberdade condicional. Os réus são submetidos a exames periódicos, feitos de surpresa, para confirmar se eles realmente abandonaram as drogas. Se o resultado der positivo ou se descumprirem qualquer termo da condicional, eles são presos imediatamente.

Os resultados: houve mais de 80% de abstinência na população alvo, após um ano de programa. Além disso, reduziu pela metade o número de novos encarceramentos.

O que é mais importante?

Segundo especialistas, a aplicação de leis severas tem um papel muito importante para ajudar a minimizar os problemas causados pelo uso do crack. A ação da polícia diminui o fornecimento da droga, mas é preciso um programa de prevenção e tratamento para reduzir a procura.

Mesmo com tantas ações nos EUA, mostrando que o uso de crack tem diminuído no país nos últimos 15 anos, a droga continua a ser um problema.

Um problema sem fim?

Uma pesquisa de 2016 em todo o país revela que pouco mais de 80.000 pessoas usaram crack pela primeira vez em 2015. E mais de nove milhões têm pelo menos alguma experiência com ele.

Russel Falk, diretor do Centro de Intervenção, Tratamento e Pesquisa em Dependência da Wright State University, em Ohio, comenta sobre esses dados: “Você não pode colocar nove milhões de pessoas na cadeia. Então, programas eficazes de prevenção, intervenção e tratamento têm que fazer parte da solução. Apesar de termos feito alguns progressos nestas áreas, ainda temos um longo caminho a percorrer”.

Se os EUA têm um longo caminho pela frente, e nós, então?

A nossa Cracolândia…
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte:

Veja

Atualidades, Curiosidades, Family

Como vive a família de Pablo Escobar hoje em dia?

Pablo Escobar, um dos mais poderosos “drug lords” de todos os tempos

A Netflix lançou recentemente a segunda temporada de seu seriado de enorme sucesso, “Narcos”, no qual Wagner Moura faz (e muito bem!) o papel do traficante colombiano Pablo Escobar. Para quem ainda não tem Netflix, esclareço que a série conta a história da propagação da cocaína nos Estados Unidos e na Europa, graças à droga do Cartel de Medellín, liderado por Pablo Escobar, enquanto dois agentes da DEA (Drug Enforcement Administration dos Estados Unidos) estão liderando uma missão para capturar e, consequentemente, matar o chefão das drogas.

É uma série de ação, e não um documentário, e por isso eles dramatizaram alguns episódios, criaram alguns personagens e “adaptaram” alguns momentos da vida de personagens reais, tudo em nome da liberdade artística. Foi exatamente por essa “liberdade artística” que, apesar dos elogios de público e crítica no mundo inteiro, certos historiadores apontaram erros factuais.

Por exemplo, entre os dias  6 e 7 de novembro de 1985, mais de cem pessoas, entre elas a cúpula da Suprema Corte, morreram quando o grupo guerrilheiro M19 invadiu o Palácio de Justiça em Bogotá. Em “Narcos”, a invasão ocorre a pedido e é financiada pelo dinheiro de Escobar, que quer destruir provas contra ele guardadas no local.

Mas esta versão, apesar de ter sido aventada na época e constar no livro do ex-líder paramilitar Carlos Castaño, não é comprovada.

A invasão do Palácio da Justiça da Colômbia.

O Tribunal Especial que investigou o atentado concluiu que “o M19 atuou sozinho”. Essa revelação foi uma surpresa, porque a versão mais corrente é a de que o grupo tinha apoio financeiro de Escobar. Segundo essa versão, e que provavelmente inspirou os roteiristas da série,  a ação do M19 tinha, oficialmente, o objetivo de punir o presidente Belisario Betancur, que consideravam um traidor das negociações de paz.

Wagner Moura dá um show como o líder do narcotráfico.
Wagner Moura dá um show como o líder do narcotráfico.

Outro que apontou inverdades foi o filho de Escobar, Juan Sebastian Marroquín Santos, que adotou esse nome depois da morte do pai. Ele vive reclamando, dizendo que o pai não foi tudo aquilo que a série mostra… Embora fosse criança quando tudo aconteceu, e essa imagem idealizada do pai talvez seja resultado disso.

Por falar na família, eles estão vivos e por aí. Veja só:

Mesmo tendo sido morto em dezembro de 1993 por forças policiais, com o auxílio do governo norte-americano, a família de Pablo Escobar ainda carrega um carga emocional extremamente densa, por conta desse sobrenome. Afinal, Escobar arquitetou e organizou simplesmente o maior cartel de drogas do mundo, o que lhe rendeu poder e muito (muito dinheiro). Escobar chegou a ser considerado, em 1989, o sétimo homem mais rico de todo o mundo, com um patrimônio estimado em US$ 25 bilhões!

Mas, depois que foi capturado e eliminado, todo esse dinheiro ficou nas mãos do cartel de Cali, concorrente do cartel de Medellín, ou com as autoridades. O agravante, na minha opinião, é que os filhos dele tinham então 9 e 14 anos…

Após a morte de Escobar, a família se mudou para a Argentina, que lhes concedeu asilo, e autorizou que eles tivessem novas identidades, para maior segurança. Mais de 20 anos se passaram e a identidade deles foi colocada em evidência novamente.

A esposa
A esposa

Maria Isabel Santos Caballero (a nova identidade de Maria Victoria Henao Vellejo) teve a árdua missão de esconder sua identidade e de seus filhos, além de ter batalhado por um grande período de tempo em busca de asilo, finalmente concedido para eles poderem viver em Buenos Aires.

Ela conheceu o chefe do narcotráfico quando tinha apenas 13 anos, enquanto ele estava com 24. Logo começaram a namorar, casaram-se quando ela fez 15 anos e viveram uma vida de luxo, perigos e ostentação. Mas a vida de Tata, apelido de Maria Victoria, após a morte do marido, é cheia de zonas cinzentas, com fatos ainda meio obscuros.

O que se sabe é que, desde 1993,  ela temia que o grupo paramilitar Los Pepes atentasse contra os familiares. E foi então que uma via-crucis começou: eles queriam ir para os Estados Unidos, mas não puderam sair do país. Finalmente, quase um ano depois, se mudaram para a Costa Rica, mas o governo os convidou a ir embora. As autoridades colombianas voltam a proteger a família, depois que um atentado contra a viúva e os filhos não teve sucesso.

Finalmente, em 1995, eles apareceram na Argentina já com nova identidade, e pouco a pouco se descobriu com que dinheiro eles viviam por lá.

Em 1995 ainda, ela conheceu um contador e, no ano seguinte, Tata comprou um belo imóvel em Buenos Aires… Em 1997, esse contador descobriu a identidade real da família e começou a extorqui-los. E tudo começou a se enrolar novamente… A viúva entrou com uma ação judicial contra o contador, acusando-o de tê-la roubado, e também contra o governo colombiano, pleiteando a herança de Escobar (pelos bens que não estavam em nome dele, como, por exemplo, um luxuoso edifício no bairro mais nobre de Bogotá)!

A confusão aumentou. No final de 1999, ela e seu filho foram presos, acusados de lavagem de dinheiro. Sua fortuna então era estimada em mais de 1 milhão de dólares. O que se dizia na ocasião é que, no luxuoso apartamento de cobertura onde viviam, tendo 4 empregadas à disposição, eles coordenavam a lavagem de dinheiro da droga que vinha do Uruguai. E, com o dinheiro arrecadado, compravam e vendiam imóveis.

Tudo veio à público por causa do processo contra o contador (e amante) de Maria Victoria. A senhora alegava ter uma renda de 5.000 dólares como designer de moda e que cada filho recebia uma mesada de pouco mais de 500 dólares. Mas, então, de onde vinha todo o dinheiro para sustentar sua vida luxuosa na capital argentina? Ela justificava que vinha da família, de uma herança do pai e da ajuda de amigos.

O fato é que, dois anos depois, eles foram absolvidos da acusação de lavagem de dinheiro por falta de provas…

Juan Sebastian Marroquín Santos (Juan Pablo Escobar Henao) herdou nitidamente as características físicas do pai. Entretanto, pessoas próximas ao arquiteto Juan disseram que o filho mais velho de Pablo Escobar é extremamente pacifista, por mais que ele assuma veementemente a admiração franca que sentia pelo pai narcotraficante.

Hoje ele está casado, é pai de uma filha e, mesmo ainda muitas vezes alegando que os malfeitos paternos foram exagerados pela mídia e por seus detratores, ele produziu e lançou um filme sobre o ex-barão do tráfico chamado “Pecados de mi Padre”, em parceria com a mãe e duas vítimas diretas dos assassinatos cometidos por Escobar, promovendo assim uma reconciliação com o passado.

Juan Pablo e Pablo Escobar.

Juana Manuela Marroquín (Manuela Escobar Henao) era a queridinha do pai. Pablo Escobar adorava Manuela, e fazia tudo para atender aos sonhos dela. Quando a menina tinha 2 ou 3 anos, perguntou se unicórnios existiam, porque queria um. Como o barão não teve como comprá-lo, simplesmente mandou que o fizessem! Um dos asseclas pegou um dos cavalos da fazenda gigantesca de Escobar e costurou um chifre de vaca na sua testa. A menina adorou, e nem percebeu que, dias mas tarde, o animal morreu por causa de uma infecção causada por aquela cirurgia improvisada.

Manuela tem hoje 31 anos, e sua vida depois que o pai foi morto permanece uma incógnita. Ela teve uma vida tranquila na Argentina graças ao anonimato, fez amigos em um colégio em Buenos Aires e até tomava ônibus para ir à escola, algo muito diferente do que podia fazer na Colômbia, onde vivia cercada de seguranças.

Manuela tinha muito talento para cantar, e o Secretário de Cultura de Buenos Aires inclusive a convidou para participar do coral que ele dirigia. Mas, quando em 1999 tornou-se público que eles eram a família do barão da droga, esse sonho se desfez. A mãe e o irmão foram presos e ela, por ser menor de idade, ficou em liberdade. Mas o golpe foi tão duro que Manuela não quis mais sair de casa e abandonou o colégio. Passou a ter aulas com professores particulares no apartamento onde morava , como quando era criança e Escobar a mantinha em um bunker para protegê-la.

Manuela foi a que mais sofreu quando descobriu de quem era filha. O sobrenome Escobar tem sido, durante décadas, como uma letra escarlate em sua testa, refletindo toda a dor e a crueldade do Cartel de Medellín.

Ela acreditava que seu pai fosse uma espécie de super-herói do bem, o melhor homem do mundo. A cada dente de leite que caía, Escobar deixava sacos com milhares de dólares debaixo do travesseiro da filha. Com 5 anos de idade, Manuela tinha tanto dinheiro que pensou ter ganho seis vezes o maior prêmio da loteria… O pai a fazia crer que a menina possuía poderes mágicos…

Em uma entrevista para a revista argentina Don Juan, seu irmão, Juan Sebastian hoje, conta que o amor de Pablo pela filha era tanto que um dia queimou dois milhões de dólares para evitar que a menina morresse. “Em uma ocasião”, diz ele, “a família ficou encurralada em uma casa de fazenda em uma das montanhas que cercam Medellín, e a região estava isolada pela polícia. Eles tinham fugido sem provisões e o frio estava causando um forte impacto em todos. Ao amanhecer, a hipotermia começou a afetar Manuela. Tudo que eles tinham em casa eram sacos com dois milhões de dólares e meu pai decidiu fazer uma fogueira com eles para evitar que congelássemos”. (esse fato é retratado em um dos episódios de “Narcos”).

Manuela também adorava o pai. Rumores dão conta que, logo que foi morar com a mãe e o irmão na Argentina, ela costumava dormir com uma camisa igual a que Escobar usava no dia em que foi morto, e que mantinha um chumaço de sua barba debaixo do travesseiro.

Se isso é verdade ou não, ninguém sabe. O que se diz é que, assim que ela descobriu tudo o que o pai fez, caiu em uma depressão profunda que a teria levado a uma tentativa de suicídio. Enquanto o irmão agora é uma figura pública e até mesmo escreveu um livro sobre sua vida, Juana Manuela quer viver, tanto quanto possível, longe dos holofotes.

A foto que aparece logo acima, com o irmão e a mãe, é a única imagem disponível atualmente daquela menina que, um dia, ganhou um unicórnio do pai.