Tropeçando na língua portuguesa?

Por que será que a gente nunca tem certeza dos porquês do uso dessa expressão? A língua portuguesa não é fácil (eu já comentei sobre isso neste post), mas também não é o fim do mundo.

Ortografia, cujo significado é escrever direito, é um dos assuntos mais temidos pelos jovens  em virtude do número de regras existentes. É difícil memorizar todas, pois não leem muito nem escrevem sistematicamente, dois dos principais segredos para aprender a escrever as palavras adequadamente.

Quem tem o hábito de realizar boas leituras e de escrever ao menos um texto por semana aprende com mais facilidade a arte de escrever corretamente, se aliar a isso consultas constantes a dicionários de boa qualidade.

Mas concordo que o nosso idioma tem muitas “pegadinhas”. Veja só:

Por que, porque, por quê ou porquê:

Forma Quando usar Exemplo
Por que Nas perguntas ou quando estiverem presentes (mesmo que não explícitas) as palavras “razão” e “motivo”. Por que você não aceitou o convite?

Todos sabem por que motivo ele recusou a proposta. Ela contou por que (motivo, razão) estava magoada.

Por quê Nos finais de frases. Por quê? Você sabe bem por quê.
Porque Quando corresponder a uma explicação ou a uma causa. “Não, Bentinho; digo isto porque é realmente assim, creio…” (M. Assis, Dom Casmurro). Comprei este sapato porque é mais barato.
Porquê Quando é substantivado e substitui “motivo” ou “razão”. Não sabemos o porquê de ela ter agido assim. É uma menina cheia de porquês.
Gerundismo

zumbis-gerundistas

O gerúndio expressa uma ação que está em curso ou que ocorre simultaneamente ou, ainda, que remete a uma ideia de progressão. Sua forma nominal é derivada do radical do verbo acrescida da vogal temática e da desinência -ndo.  Exemplos: comendo; partindo.

Veja, a seguir, o uso do gerúndio na prática:

E a lama desceu pelo morro, destruindo tudo que encontrava pela frente.

Depois de vários dias chuvosos o sol despontou, alegrando o coração de todos.

Rindo, ele se lembrava com saudades dos dias felizes que tivera.

Abrindo o laptop, começou a escrever.

Como vimos nos exemplos, o gerúndio pode ser empregado de diferentes maneiras em nossa língua sem que tenhamos praticado nenhuma heresia.

Já com o gerundismo é outra história. Nesse caso, trata-se do uso inadequado do gerúndio. Um vício de linguagem que se alastrou de modo tão corriqueiro e insistente que até já virou piada.

Então, se você usa expressões como: “Vou estar pesquisando seu caso.” “Vou estar completando sua ligação”, mude imediatamente sua fala para: “Vou pesquisar seu caso.” “Vou completar sua ligação.” Note que, nos dois casos, a ideia temporal a ser transmitida é a de futuro e não de presente em curso.

Quando usar “ç”

“Uma das intenções da casa de detenção é levar os que cometeram graves infrações a alcançar a introspecção, por intermédio da reeducação.”

Nessa frase, há seis palavras escritas com Ç: intenções, detenção, infrações, alcançar, introspecção e reeducação. As regras quanto ao uso do Ç são as seguintes:

1- Usa-se Ç em palavras derivadas de vocábulos terminados em -TO, -TOR e -TIVO. Por exemplo:

Canto – canção / Ereto – ereção

Infrator – infração / Setor – seção

Relativo – relação / Intuitivo – intuição

*Três palavras da frase apresentada obedecem a essa regra:

Intento – intenção

Infrator – infração

Introspectivo – introspecção

2- Usa-se Ç em substantivos terminados em -TENÇÃO derivados de verbos terminados em -TER:

Conter – contenção

Reter – retenção

Deter – detenção

3- Usa-se Ç em verbos terminados em -ÇAR cujo substantivo equivalente seja terminado em -CE ou em -ÇO:

Lance – lançar

Desenlace – desenlaçar

Abraço – abraçar

Endereço – endereçar

Almoço – almoçar

Uma palavra da frase apresentada obedece a essa regra:

Alcance – alcançar

4- Usa-se Ç em substantivos terminados em -ÇÃO derivados de verbos de que se retirou a letra R:

Exportar – exportação

Abdicar – abdicação

Abreviar – abreviação

*Uma palavra da frase apresentada obedece a essa regra:

Educar – educação.

Crase:

A palavra crase é de origem grega e significa fusão, mistura. Em gramática, basicamente a crase se refere à fusão da preposição a com o artigo feminino a: Vou à escola. O verbo ir rege a preposição a, que se funde com o artigo exigido pelo substantivo feminino escola: Vou à (a+a) escola.

No caso de ir a algum lugar e voltar de algum lugar, usa-se crase quando: “Vou à Bolívia. Volto da Bolívia”. Não se usa crase quando: “Vou a São Paulo. Volto de São Paulo”. Ou seja, se você vai a e volta da, crase há. Se você vai a e volta de, crase pra quê?

É erro colocar acento grave antes de palavras que não admitam o artigo feminino a, como verbos, a maior parte dos pronomes e as palavras masculinas.

A tabela resume os principais casos em que a crase deve (ou não) ser utilizada:

 

É preciso paciência. Só aprende a escrever adequadamente quem treina sistematicamente.

 

 

 

Fonte:

UOL Educação

UOL Vestibular

Oito Erros na Cozinha, pelo Dr. Bactéria.

1° erro:
Lavar as carnes debaixo da torneira.
Primeiro, você perde nutrientes. A carne fica esbranquiçada.
Segundo: a contaminação que existe vai aumentar, porque aumenta a quantidade de água e as bactérias vão penetrar mais ainda. A única carne que se lava é o peixe e só para tirar escamas e a barrigada.

2° erro:

Colocar detergente direto na esponja, o que leva ao exagero.
O detergente nunca deve ser colocado direto na esponja.
Vai ser muito difícil enxaguar todo esse detergente. O resto de detergente que fica junto com os alimentos pode no futuro dar um problema para a sua saúde. Para limpar sem exagero, você precisa apenas de oito (8) gotas de detergente em um litro de água.

3° erro:
Usar tábua de carne de madeira.
Na tábua de madeira as bactérias ficam te aplaudindo! Tábua tem que ser de plástico.

4° erro:
Não guardar comida quente na geladeira.
Este é um dos um dos mitos mais difundidos entre as donas de casa… Não há erro em guardar comida quente na geladeira.
O único problema é que vai aumentar  o consumo de energia, mas não vai estragar a geladeira de modo algum.

5° erro:
Guardar comida quente na geladeira com o recipiente tampado.
O ar frio vai bater na tampa. Vai demorar muito para resfriar e as bactérias vão adorar!
Então, coloque tudo destampado. Depois de duas horas você pode fechar.

6° erro:
Furar a lata de leite condensado e utilizá-la várias vezes.
As pessoas pegam a lata de leite condensado e fazem dois buraquinho, um de cada lado.
Sai leite condensado por um lado e pelo outro entra uma chuva de bactérias. Abram a lata inteira e passem o leite condensado para um recipiente que pode ser de plástico ou de vidro. Sirvam sempre com uma colher, depois tampem e guardem na geladeira.

7° erro:
Ignorar as formigas.
Quando se fala em doce, a gente não pode esquecer as formigas. Você provavelmente não se importaria se encontrasse uma formiguinha em cima do seu bolo, não é?
Doutor Bactéria: E se fosse uma barata?
Marina Scherb, de 12 anos: Aí eu não como.
Doutor Bactéria: Se a gente pegar uma barata, matar essa barata, deixar no meio da cozinha, no dia seguinte, cadê a barata?
Marina: Sumiu.
Doutor Bactéria: Quem levou?
Marina: As formigas…
Doutor Bactéria: A mesma que estava em cima do bolo?
Marina: É…
Doutor Bactéria: As formigas são consideradas até maiores agentes transmissores de bactérias do que a própria barata. Doce com formiga só pode ter um destino: a lata de lixo.

8° erro:
Soprar velinhas do bolo de aniversário.
Este é um péssimo mau hábito. Testes comprovam que o bolo fica contaminado por bactérias de saliva.
Esta bactéria produz uma toxina que pode ocasionar aquelas intoxicações com 24 horas de vômito e mal-estar. Evite, também, deixar o bolo fora da geladeira.

Roberto Figueiredo é Biomédico e personifica o Dr. Bactéria.

 

Entendendo a Ressaca

Sintomas-da-Ressaca

Como hoje é uma segundona das brabas, depois de um final de semana agitado, e temos uma semana inteira pela frente, vamos entender melhor sobre nossa amiga ressaca…

1. O que acontece com o corpo?
Conhece a história do ‘bateu, levou’? Ressaca é isso. Uma resposta do organismo a uma agressão que sofreu. Funciona assim: o corpo gasta glicose para metabolizar o álcool. Glicose é açúcar, açúcar é energia. Resultado: A gente fica fraco e sonolento. O excesso de álcool também inflama o aparelho digestivo, faz a cabeça doer, provoca náuseas, vômitos e aumenta a sensibilidade à luz.
Enfim, a ressaca só não dá pereba.

2. Por que a dor de cabeça é insuportável?
O álcool desidrata o corpo, do dedão do pé ao cérebro. Da seguinte maneira: o etanol inibe a produção do hormônio antidiurético, e a gente faz muito mais xixi. Engoliu, pronto: é hora de ir ao banheiro. Portanto, a cabeça dói porque os neurônios sentem sede, literalmente.

3. Isso mata ou só é chato pra burro?
A menos que você queira se jogar do 76º andar, ressaca não mata. Todos os sintomas desaparecem em 24 horas. Mas alto lá: se você ficar de ressaca todo dia, também pode acabar com gastrite, pancreatite, cirrose … Aí, sim, não vai durar muito…

4. Por que a ressaca só aparece no dia seguinte?
Porque é durante o sono que o corpo trabalha para absorver todo aquele álcool que você botou para dentro. De manhã, com o serviço feito, é hora de disparar os sintomas desagradáveis.

ANTES DA FARRA – A PREPARAÇÃO

5. Beber de barriga vazia é pior?

Muito pior. Ter comida na pança significa que o etanol não estará sozinho na corrida da digestão. O organismo vai dividir as energias entre as duas tarefas, e isso tornará mais lenta a entrada do álcool na corrente sanguínea.

6. Mas comer o quê? Chuchu, rabada, macarrão?

De preferência, alimentos ricos em sal e gordura. Castanha, amendoim, queijo e, para afundar o pé na jaca de vez, salaminho. O sal e a gordura estimulam a secreção de substâncias estomacais que protegem o estômago do álcool.

7. Tomar uma colher de azeite antes de enfiar o pé na jaca, isso ajuda?
Azeite também é gordura, portanto ajuda. Então pegue a sua colher de azeite, despeje-a num prato, adicione sal e mergulhe pedaços de pão na mistura. Isso mesmo, igualzinho ao que você faz com o couvert do restaurante.

8. A propaganda diz para tomar um Engov antes e outro depois. Não pode ser dois depois?
Até pode. Um ou dois antes é que não adianta nada. Ainda não inventaram remédio que previne contra a ressaca. Tudo o que existe apenas dribla os sintomas. O Engov tem hidróxido de alumínio, que alivia os males digestivos; tem AAS, que é um analgésico; e tem cafeína, que contrai os vasos sanguíneos dilatados pelo álcool e, assim, diminui o mal-estar.

9. Me disseram que a ressaca de vinho é a pior de todas. Confere?
Não. As bebidas com teor alcoólico mais alto (os destilados como uísque, vodca, pinga) é que provocam maior estrago. Elas são absorvidas mais rapidamente pelo corpo. Por dedução lógica, os fermentados (vinho, cerveja) fazem menos mal, certo?
Cuidado: tudo gira em torno da quantidade.

DURANTE O PORRE – CONTROLANDO OS RISCOS

10. Então, o que eu faço para acordar legal amanhã?
O truque é simples e eficiente: intercale um copo d’água entre dois de bebida. A água é o verdadeiro santo remédio antirressaca. Ela reidrata, dilui o álcool e facilita o trabalho dos rins e do fígado. Sem dizer que também empanturra. Numa pança cheia d’água, cabe menos cerveja. Trocar a água por suco ou refrigerante também pode. Essas bebidas são ricas em carboidratos, que viram energia e ajudam a metabolizar o álcool.

11. O camarada que fuma enquanto enche o caneco vai ter uma ressaca mais branda ?

Pelo contrário, álcool e fumo formam uma dobradinha mais perigosa do que o Messi e o Neymar no Barcelona. Quanto mais nicotina, menos oxigênio no sangue e mais rápido se dá o processo de intoxicação.

O DIA SEGUINTE – PLANOS DE CONTINGÊNCIA

12. Danou-se. Acordei de ressaca. Por que o gosto de cabo de guarda-chuva na boca?
Por causa da desidratação. A boca fica seca e o paladar capta o sabor ácido das substâncias que o estômago despeja para processar o álcool.

13 . O que é melhor comer nessa hora?
Alimentos de fácil digestão para não estressar ainda mais o organismo, já detonado pelo esforço de processar o álcool. Os campeões: frutas, para reidratar e repor as vitaminas, e pão, batata e massas, para obter glicose rapidamente e fornecer energia ao corpo.

14. Correr para a academia e malhar feito um louco ajuda?
Falou, Superman… O pobre-diabo encheu a lata e não tem forças nem para ir ao banheiro, quem dera para correr na esteira. E, para fazer exercício, o corpo precisa de glicose – a mesma que está sendo usada na recuperação pós-pé na jaca. Vai querer dividir?

15. Já sei, vou continuar bebendo…?

Esse é o truque do pinguço. Ele “rebate” a ressaca com outro porre. Funcionar funciona, porque se (*) de bêbado não tem dono, até parece que ele vai perceber que está de ressaca. Se essa é a sua saída, procure os Alcoólicos Anônimos.

16. O que eu faço pro meu quarto parar de rodar?

Repouso. Mantenha a luz apagada, cortinas fechadas e fique deitado. A ressaca aumenta a sensibilidade à luz. Aproveite o momento introspectivo para fazer a mais clássica das promessas: “Nunca mais vou botar uma gota de álcool na boca”. Ressaca que é ressaca sempre termina com uma promessa dessas…

 

Então, uma boa semana e se cuida, cara. Tudo bem que tomar Toddynho com os amigos não gera histórias engraçadas como do filme “Se Beber não Case”, mas não exagere também…

COMO SE MANTER JOVEM

  • Deixe de fora os números que não são essenciais. Isso inclui a idade, o peso e a altura. Deixe que os médicos se preocupem com isso.  

  • Mantenha só os amigos divertidos. Os depressivos puxam para baixo. (Lembre-se disto se for um deles!)
  • Aprenda sempre:
    Aprenda mais sobre computadores, artes, jardinagem, o que quer que seja. Não deixe que o cérebro se torne preguiçoso. “Uma mente preguiçosa é oficina do Alemão.” E o nome do Alemão é Alzheimer!

  • Aprecie mais as pequenas coisas.
  • Ria muitas vezes, durante muito tempo e alto. Ria até lhe faltar o ar. E se tiver um amigo que o faça rir, passe muito e muito tempo com ele!

  • Quando as lágrimas aparecerem, aguente, sofra e supere. A única pessoa que fica conosco toda a nossa vida somos nós mesmos. VIVA enquanto estiver vivo.
  • Rodeie-se das coisas que ama: a família, animais, plantas, hobbies, o que quer que seja. O seu lar é o seu refúgio.
  • Tome cuidado com a sua saúde: se é boa, mantenha-a. Se é instável, melhore-a. Se não consegue melhorá-la, procure ajuda.

  • Diga às pessoas que ama que as ama a cada oportunidade que tiver.

 


Essa língua portuguesa…

“Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.” 

Minha pátria é a língua portuguesa, Livro do Desassossego, de Bernardo Soares (um dos heterônimos de Fernando Pessoa).

O português é um dos idiomas mais difíceis do mundo, dizem os brasileiros. Com as novas regras de ortografia, ele parece ter se tornado ainda mais complexo. Mas, na verdade, segundo os especialistas, nenhum idioma é difícil de aprender se a pessoa se dedicar a ele e estudá-lo sempre, assumindo o papel de eterno aprendiz. E, para se dedicar com mais afinco, a motivação é fundamental.

Mas, de fato, há alguns detalhes no aprendizado do português (no Brasil) que dificultam as coisas. Por exemplo, os pronomes pessoais tu e vós não ganham destaque nas aulas. São estudados eu, você/ele/a gente, nós e vocês/eles. Outro exemplo – mas que serve para todos os idiomas – são as expressões idiomáticas, que causam confusão: “ter as costas quentes”, “chutar o balde”…

Talvez as maiores armadilhas, porém, estejam em nosso vocabulário traiçoeiro, onde palavras têm significados diferentes. É o caso de “meia”.

                                                                                                                                                                                        Meia, Meia, Meia, Meia ou Meia?

Na recepção de um salão de convenções, em Fortaleza

– Por favor, gostaria de fazer minha inscrição para o Congresso.
– Pelo seu sotaque vejo que o senhor não é brasileiro. O senhor é de onde?
– Sou de Maputo, Moçambique.
– Da África, né?
– Sim, sim, da África.
– Aqui está cheio de africanos, vindos de toda parte do mundo. O mundo está cheio de africanos.
– É verdade. Mas se pensar bem, veremos que todos somos africanos, pois a África é o berço antropológico da humanidade…
– Certo… Bem, tem uma palestra agora na sala meia oito.
– Desculpe, qual sala?
Meia oito.
– Podes escrever?
– Não sabe o que é meia oito? Sessenta e oito, assim, veja: 68.
– Ah, entendi, meia é seis.
– Isso mesmo, meia é seis. Mas não vá embora, só mais uma informação: a organização do Congresso está cobrando uma pequena taxa para quem quiser ficar com o material: DVD, apostilas, etc., gostaria de encomendar?
– Quanto tenho que pagar?
– Dez reais. Mas estrangeiros e estudantes pagam meia.
– Hmmm! que bom. Aí está: seis* reais.
– Não, o senhor paga meia. Só cinco, entende?
– Pago meia? Só cinco? Meia é cinco?
– Isso, meia é cinco.
– Pois, meia é cinco.
– Cuidado para não se atrasar, a palestra começa às nove e meia.
– Então já começou há quinze minutos, são nove e vinte.
– Não, ainda faltam dez minutos. Como falei, só começa às nove e meia.
– Pensei que fosse às 9:05, pois meia não é cinco? Você pode escrever aqui a hora que começa?
– Nove e meia, assim, veja: 9:30
– Ah, entendi, meia é trinta.
– Isso, mesmo, nove e trinta. Mais uma coisa senhor, tenho aqui um folder de um hotel que está fazendo um preço especial para os congressistas, o senhor já está hospedado?
– Sim, já estou na casa de um amigo.
– Em que bairro?
– No Trinta Bocas.
Trinta bocas? Não existe esse bairro em Fortaleza, não seria no Seis Bocas?
– Isso mesmo, no bairro Meia Boca.
– Não é meia boca, é um bairro nobre.
– Então deve ser cinco bocas.
– Não, Seis Bocas, entende, Seis Bocas. Chamam assim porque há um encontro de seis ruas, por isso seis bocas. Entendeu?
– Acabou?
– Não. Senhor, é proibido entrar no evento de sandálias. Coloque uma meia e um sapato…
 
O turista enfartou…

Lie to Me: era tudo verdade!

Havia uma série muito legal na TV que foi descontinuada em 2011, depois de apenas 3 temporadas, estrelada por um ator de quem gosto muito, Tim Roth. Ele deu um show, por exemplo, em “Cães de Aluguel” e como o assustador general Thade na nova versão de “Planeta dos Macacos”, de 2001.

Ficheiro:Tim Roth cropped.jpg  

O que eu não sabia é que a série foi baseada nas pesquisas de Paul Ekman, notável psicólogo americano e expert em linguagem corporal e expressões faciais, e que estuda a linguagem não-verbal há 50 anos. Claro que imaginei que havia alguma base científica nos enredos, porém descobri que o personagem de Tim Roth, Cal Lightman, era baseado diretamente no especialista – com sotaque britânico e alguma liberdade criativa. Paul Ekman inclusive foi consultor de muitos episódios, e declarou, no entanto, o seguinte:

“A forma como o Lightman Group descobre as mentiras é baseada nas minhas investigações. No entanto, e uma vez que se trata de uma série de ficção e não de um documentário, Lightman não se preocupa tanto em interpretar comportamentos, como eu. Na série, as mentiras são descobertas de forma mais certeira e rápida do que na vida real.” Mas antes que se pense que era tudo uma grande mentira, Ekman garante: “A maioria das coisas que você vê na série é baseada em estudos científicos.”

Para quem não conhece a série, que me parece está passando atualmente no Netflix, explico resumidamente do que se trata: o personagem principal, Dr. Cal Lightman é auxiliado por sua parceira, Dra. Gillian Foster, e juntos detectam fraudes, observando a linguagem corporal e as micro expressões faciais, e usam esse talento para ajudar as autoridades, auxiliados por seu grupo de pesquisadores e psicólogos.

O legal é que certos detalhes que a gente vê nos episódios nos ajudam a ficar mais atentos a alguns comportamentos não-verbais de quem poderia estar mentindo. Eu grifo “poderia” porque, de acordo com Sérgio Senna, psicólogo e doutor em Psicologia pela UnB, as técnicas de detecção de mentiras baseadas na observação do comportamento não verbal são válidas e confiáveis desde que:

 1. Não se considerem indicadores isolados e descontextualizados;

2. Sirvam como método auxiliar no contexto da observação do comportamento verbal e de outros indicadores temporais (quando ocorreu) e espaciais (onde ocorreu);

3. Sejam contextualizadas em relação ao ambiente em que o comportamento foi observado (por exemplo, encolher-se por causa do frio, não por causa do nervosismo);

4. Que se tomem os devidos cuidados éticos e legais antes de acusar alguém de estar mentindo.

Tendo esses cuidados em mente, a corrente que segue as conclusões de Paul Ekman sugere algumas dicas para avaliar se a pessoa estaria mentindo:

1. Usa termos de reforço como “para ser sincero”  ou “pra falar a verdade”

As pessoas falam a verdade naturalmente. Não precisamos avisar que estamos sendo honestos ou dizer que falamos a verdade. Isso já é subentendido. Quando se tenta maquiar a mentira, costuma-se usar esse reforço.

2. Evita o contato visual ou pisca várias vezes.

Isso apareceu em diversos episódios. As pessoas vibram os olhos, piscando muitas vezes, ou não fixa o olhar. Ela pode estar escondendo algo, ou isolando um aspecto de uma lembrança.

3. Hostilidade

A pessoa é questionada sobre algo que a irrita demais e tem que disfarçar essa emoção.

4. Detalhes demais

Quem fala a verdade não precisa se ligar em detalhes. Quem esconde a verdade precisa dar atenção a muita coisa em sua história, como para dar veracidade ao discurso.

5. O corpo pode estar revelando a mentira

A pessoa está falando, aponta para um lado e olha para o outro. É que a mente trabalha tanto para racionalizar a mentira que o corpo fica sem sincronia.

6. Reconhecendo a mentira de forma inconsciente.

Essa parece ser a reação mais comum. A pessoa se afasta, movimento quase sempre acompanhado de um cruzar de braços, o que significa que não acredita no que está dizendo.

Evidentemente, essas dicas recolhi de diversas fontes diferentes que comentavam os estudos de Paul Ekman e que serviram de base a episódios da série. Mas os psicólogos e aqueles que estudam psicologia podem contribuir com muito mais informações.

 

Elmore Leonard e suas 10 dicas de como escrever ficção

O escritor Elmore Leonard, autor de obras que deram origem a filmes como “O nome do jogo”, “Os indomáveis” e “Jackie Brown”, morreu em agosto passado, em consequência de complicações cardíacas e respiratórias, três semanas depois de sofrer um derrame. Autor de 45 romances sempre focados na tese de que o culto ao individualismo leva à violência, Leonard sempre questionou o rótulo de “cronista da América” e a fama de pensador atribuída a ele pela crítica literária, surpresa diante de seu estilo em best-sellers como “Ponche de rum” (1992), que acabou sendo o mais citado de seus textos, e que foi transposto para as telas por Quentin Tarantino como “Jackie Brown”, em 1997.

“Eu não sou um autor sério. Não tenho habilidade para escrever um livro sério. Sou, no máximo, um criador de diálogos”. Famoso pela coloquialidade nas falas de seus personagens (“Quando algo parece escrita, eu reescrevo”, dizia) Leonard atribuía as peculiaridades de sua linguagem às experiências que viveu durante a Segunda Guerra Mundial, em uma base no Oceano Pacífico. Ele fez parte de um destacamento militar que não partiu para o combate, e ficava o tempo todo ouvindo as conversas de seus colegas, fazendo delas a matéria-prima de sua prosa.

Em um artigo publicado pelo “New York Times” em 2001, Elmore Leonard listou uma série de dicas para aspirantes a escritores. “Essas regras eu compilei para me ajudar a continuar invisível enquanto escrevo um livro, para mostrar em vez de apenas dizer o que está acontecendo na história”, disse ele. São essas dicas que reproduzo a seguir:

1. Nunca abra um livro com o clima

Se for apenas para criar uma atmosfera, e não a reação de um personagem ao clima, você não deve se alongar muito. O leitor vai ficar tentado a folhear as próximas páginas à procura de pessoas. Há exceções. Se acontecer de você ser Barry Lopez, que tem mais maneiras de descrever gelo e neve do que um esquimó, você pode fazer todos os relatórios de tempo que quiser.

2. Evite prólogos

Eles podem ser irritantes, especialmente um prólogo depois de uma introdução que vem após um prefácio. Mas estes são normalmente encontrados em não-ficção. Um prólogo num romance é história de bastidores e você pode encaixá-las em qualquer lugar que você queira.

3. Nunca use um verbo além de “disse” para relatar o diálogo

A linha de diálogo pertence ao personagem: o verbo é o escritor metendo seu nariz. Mas “disse” é muito menos invasivo do que “resmungou”, “engasgou”, “advertiu”, “mentiu”. Uma vez, eu notei Mary McCarthy terminando uma linha de diálogo com “ela asseverou” e tive que parar de ler para consultar o dicionário.

4. Nunca use um advérbio para modificar o verbo “disse”

“… ele admoestou gravemente”. Usar um advérbio desta maneira (ou de quase qualquer outro jeito) é um pecado mortal. O escritor está agora expondo-se seriamente, usando uma palavra que distrai e pode interromper o ritmo da troca com o leitor. Uma personagem de um dos meus livros conta como ela costumava escrever romances históricos “cheios de estupros e advérbios”.

5. Mantenha os pontos de exclamação sob controle

Você não tem permissão para usar mais de dois ou três a cada 100 mil palavras em uma prosa. Se você tem a destreza para brincar com exclamações como o Tom Wolfe faz, você pode jogá-las aos punhados.

6. Nunca use as expressões “de repente” ou “o mundo desabou”

Esta regra não requer uma explicação. Eu tenho notado que os escritores que usam “de repente” tendem a exercer menos controle na aplicação dos pontos de exclamação.

7. Use dialeto regional, gírias, com moderação

Uma vez que você começa a soletrar foneticamente as palavras dos diálogos e a encher a página com apóstrofos, você não será capaz de parar. Observe a forma como Annie Proulx capta o sabor das vozes do Wyoming em seu livro de contos “Curto alcance”.

8. Evite descrições detalhadas dos personagens

Em “Colinas parecendo elefantes brancos”, de Ernest Hemingway, como o “americano e a menina com ele” se parecem? “Ela tirou o chapéu e o colocou sobre a mesa”. Esta é a única referência a uma descrição física na história e, ainda assim, vemos o casal e reconhecemos o tom de suas vozes, com nenhum advérbio à vista.

9. Não entre em muitos detalhes descrevendo lugares e coisas

A menos que você seja Margaret Atwood e possa pintar cenas com a linguagem, ou consiga descrever paisagens com o estilo de Jim Harrison. Mas, mesmo que você seja bom nisso, você não vai querer que as descrições levem a ação, o fluxo da história, a uma pausa.

10. Tente deixar de fora a parte que os leitores tendem a pular

Uma regra que me veio à mente em 1983. Pense no que você pula quando lê um romance: parágrafos grossos de prosa em que você vê palavras demais. O que o escritor está fazendo: ele está escrevendo, talvez recorrendo mais uma vez ao clima, ou então está na cabeça do personagem. O leitor não quer saber o que esse cara está pensando. Aposto que você não pula os diálogos.

Minha regra mais importante é uma que resume todas essas dez: se algo parece escrita, eu reescrevo.