Afinal, os franceses tomam banho?

Há pouco tempo, um passageiro francês de origem argelina foi expulso de uma aeronave pouco antes de ela decolar. A tripulação e os passageiros se queixaram, dizendo que ele estava cheirando mal, mesmo o homem alegando que tinha passado um perfume Dior no Duty Free.

Esse evento me fez recordar os mitos sobre a França e os franceses, como o da baguete levada debaixo do braço, ou a  “ojeriza” do francês em não tomar banho, ou de serem grosseiros e mal educados.  Talvez o mais recorrente deles seja mesmo o de não gostarem de tomar banho. E, numa época em que todos se preocupam com a escassez de água para consumo, o assunto “banho + economia de água” é mais do que oportuno…

Quando visitei Paris pela primeira vez, há muitos anos, estranhei a pergunta quando fui reservar o quarto do hotel: “Com ou sem banho no quarto?” – perguntou-me a pessoa da reserva. Claro que pedi com banho, porque a única vez em que fiquei num hotel com chuveiro coletivo foi numa cidade do interior do Estado, quando estava na faculdade… O preço do quarto em Paris era muito mais caro “com banho”, e quando cheguei, notei uma banheira enorme, parecia uma piscina… E fiquei imaginando quanta água seria necessária para enchê-la. E decidi só tomar banho de ducha, mesmo.

Na Alemanha, a mesma coisa. A diferença é que não havia banheira, e o chuveiro funcionava com uma espécie de “timer”. A água saía por apenas alguns minutos, e se você não tivesse terminado até então, já era… Na primeira vez, a água acabou quando eu estava com o cabelo cheio de xampu…

A água é um bem bastante escasso em toda a Europa, especialmente quando se compara à teórica abundância que temos desse recurso no Brasil. Teórica porque a água que sobra para a população é mínima, dado o volume que é desperdiçado em vazamentos e a água que é poluída pelas indústrias e esgotos.

Voltando, o continente europeu vivia, há não muitas décadas, uma situação em que a água encanada servia apenas aos primeiros andares dos prédios, onde moravam os mais ricos. Os que moravam nos andares mais altos, os menos abonados, tinham que descer vários lances de escadas para buscar água em fontes públicas ou pagar pelos serviços dos entregadores do líquido a domicilio. Imagine então o sufoco de quem vivia ali para cozinhar, para lavar as roupas… E para tomar banho!

Acredito ser por isso que o banho diário não fizesse parte dos hábitos dos franceses, mas a “culpa” não poderia ser lançada toda sobre a falta de água. Havia ainda a herança cultural desde os tempos medievais, quando se acreditava que o banho provocasse descamação da pele, eliminando a proteção natural contra doenças. (Claro que esse pensamento não era exclusivo dos franceses, era uma crença espalhada por toda a Europa e levada às Américas pelos conquistadores espanhóis, ingleses e portugueses. Quando D. João VI e a família imperial chegaram ao Brasil em 1808, toda a corte ficou escandalizada ao ver os escravos e os índios tomando banho de mar com frequência, e acharam que eles deviam ter doenças de pele…).

Os médicos medievais achavam que a água, sobretudo quente, debilitava os órgãos, deixando o corpo exposto a insalubridades e que, se penetrasse através dos poros, podia transmitir todo tipo de doenças. Daí veio a ideia de que uma camada de sujeira protegia contra as doenças e que, portanto, o asseio pessoal devia ser realizado “a seco”, só com uma toalha limpa para esfregar as partes expostas do corpo.  Além disso, a Igreja condenava o banho por considerá-lo um luxo desnecessário e pecaminoso. E, como se sabe, o Estado mais poderoso daqueles tempos era aquele governado pelo Papa, e se ele falasse, estava falado…

As coisas não melhoraram muito no campo da higiene com o passar dos séculos. No suntuoso Palácio de Versalhes, por exemplo, um decreto de 1715, baixado pouco antes da morte do rei Luís XIV, estipulava que as fezes seriam retiradas dos corredores uma vez por semana – então, a gente deduz que o recolhimento dos dejetos era ainda mais esparso antes. Versalhes não tinha banheiros, mas contava com um quarto de banho equipado com uma banheira de mármore encomendada pelo próprio Luís XIV, um objeto que serviria apenas à ostentação, caindo no mais absoluto desuso.

Outra crença curiosa do mesmo período diz respeito ao poder purificador da roupa: acreditava-se que o tecido “absorvia” a sujeira do corpo. Bastaria, portanto, trocar de camisa todos os dias para manter-se limpinho. Nosso velho amigo D. João VI, o fujão que estabeleceu sua corte no Rio de Janeiro para escapar dos avanços de Napoleão e que citei mais acima, mostrava-se descrente até da troca de camisas, que ele literalmente deixava apodrecer no corpo.  Mesmo coberto de feridas e contaminações na pele, e habituado a outras porquices, ele fugia da água como o Cascão.

Foi só no século XIX, com a propagação da água encanada e do esgoto e com o desenvolvimento de uma nova indústria da higiene – principalmente nos Estados Unidos –, que o banho foi reabilitado. O sabão, conhecido desde a Antiguidade, mas por muito tempo considerado um produto de luxo, foi industrializado e popularizado.

Hoje, a água chega nas residências, seja de ricos ou de pobres. Mas o francês, especialmente o mais tradicional e aquele que vive nas cidades do interior, não tem duchas em casa. Ele acha que banho é o que se toma na banheira e que chuveiro é uma invenção americana que não substitui o banho, portanto não há banho sem banheira. O banho de banheira é uma coisa muito especial, não diria que é um ritual, mas encher uma banheira e mergulhar o corpo nela demanda tempo, exige alto consumo de água e isso não pode ser feito todos os dias. O que eles fazem diariamente é a sua “toilette”, o que chamamos de “banho de gato”.

Claro que muitos tomam uma ducha, mas não é a regra entre os mais idosos. Mas todos os dias, religiosamente, o francês típico faz a sua toilette matinal. Enche a pia de água quente e com uma luvinha umedecida e ensaboada,  higieniza seu corpo de cima abaixo.

Essas luvas, em francês “gants de toilette”, são tão comuns e necessárias à higiene quanto o sabonete ou o papel higiênico.  Parece que receber um hóspede em casa sem lhe oferecer sua própria gant de toilette junto às toalhas de banho e de mão seria uma grosseria tão grande como lhe dar um par de lençóis sem fronha.

Me parece que há um outro agravante em tudo isso: além de ser um recurso finito (como estamos aprendendo a duras penas em São Paulo), a água na França também é muito calcária, principalmente em Paris. Ela de fato destrói a proteção natural da pele, o filme hidrolipídico – a camada que mantém a hidratação e protege a pele. (quer dizer, os médicos medievais até que não estavam tão errados assim…). Então, a pessoa pode ter alergias e outros problemas de pele por conta da descamação e ressecamento em excesso, causado pela água calcária. Mas isso tem “cura”: existem diversos produtos para a pele que “repõem” a hidratação e nutrem a pele ressecada até que ela se acostume.

Falando nesses cremes para o corpo e cabelo, fica aquela indagação sobre o que veio primeiro, o ovo ou a galinha…? Os franceses têm maravilhosos perfumes e produtos de higiene fantásticos (Avene, Uriage, Klorane, L’Occitane etc etc) por que o francês é porquinho e tudo isso é para disfarçar, ou eles consomem esses produtos de montão justamente porque se cuidam muito?

Não sei.

O que eu sei é que é difícil avaliar se a “porquice” é uma coisa cultural ou algo pessoal, mesmo.

Conheci alemães, russos e holandeses que me olhavam torto quando eu dizia que ia tomar “uma ducha” antes de dormir (deviam pensar: “Esse cara está desperdiçando água, será que ele tem sarna?”). Japoneses com quem eu teria reuniões me olhavam com desconfiança porque não tirava os sapatos antes de entrar na sala (para eles, o porco era eu, ao trazer sujeira de fora!). Minha filha mais nova, durante o intercâmbio que fez nos Estados Unidos, ficou horrorizada com os hábitos… Aliás, com a falta de hábitos de higiene da família com quem morou (tomar banho todos os dias, escovar os dentes após todas as refeições, tudo isso era raro de acontecer…).

Mas, por outro lado, e quantos brasileiros conheci que fugiam da água como se fosse o diabo da cruz?

PS – sobre a água calcária, ou a “água dura” de Paris, um comentário:  água dura é aquela que contém um alto nível de minerais, concretamente de sais de magnésio e cálcio. Esse tipo de água é encontrada em solos calcários.

Ela não causa problemas de saúde, além daqueles de descamação de peles mais sensíveis, e abastece inúmeras regiões na Europa: Londres, Paris, diversas zonas na Suíça e na Suécia, Portugal, Alemanha, Estados Unidos e mesmo no Brasil, por exemplo,  nas regiões de Sete Lagoas e Montes Claros, em Minas Gerais.

Vários estudos tentaram correlacionar a constituição físico-química da água potável de determinadas regiões com a incidência de pedras nos rins. Mas pesquisadores observaram até mesmo uma correlação negativa, ou seja, menor incidência de pedra nos rins com o consumo da água dura!

Enfim, os estudos ainda estão sendo sendo conduzidos e um deles atribui ao magnésio, presente na água, alguns efeitos benéficos para a saúde humana, incluindo menor incidência de doenças cardiovasculares e renais e aumento da quantidade de colágeno, “responsável pela constituição celular (…) e bom para manter a pele jovem e saudável”.

Em Paris, você pode beber água da torneira, e o calcário só vai deixá-la com um gosto estranho para nós, brasileiros. As normas europeias que controlam a potabilidade da água são as mais rigorosas do mundo. E a água de Paris passa nos 56 parâmetros de potabilidade definidos pelo código europeu de saúde pública.

E se você gosta da água Perrier, a segunda mais vendida no mundo depois da Evian, saiba que aquelas bolhinhas são resultado das fontes subterrâneas de onde ela é extraída, e que cortam áreas com enormes quantidades de restos vegetais, cujas moléculas ácidas atacam o carbonato, componente das rochas calcárias. Isso gera o puríssimo gás carbônico que compõe a receita dessa água deliciosa, que é… Uma prima da água dura!

Fontes:
13anosdepois.com
portedoree.blogspot.pt
viverplenamenteparis.blogspot.com.br
diclorina.com.br

Curiosidades literárias

O que é um livro?

A definição dos dicionários afirma que ele é “uma coleção de folhas de papel, impressas ou não, cortadas, dobradas e reunidas em cadernos, formando um volume que se recobre com uma capa resistente”.

Na Wikipedia, ele é um “objeto feito de várias folhas de papel, organizadas em ordem e contendo um texto; reunião de folhas impressas presas por um lado e enfeixadas ou montadas em capa; obra literária, científica ou artística que compõe, em regra, um volume”. Há inúmeras outras definições, inclusive para fins legais, mas…

E se a gente perguntar a uma criança que pegou um livro de contos para ler e mergulhou num mundo novo, qual seria sua definição? Ou para um estudante de medicina, com aqueles livrões com milhares de informações, ou para um cristão fervoroso que não desgruda de sua Bíblia? Certamente, a definição seria mais do que um encadernado de páginas, do que um produto.

Para mim, um livro é algo que pode salvar vidas, que pode tirar pessoas da ignorância, que nos traz emoções e nos conta histórias, que cria vida assim que uma pessoa o abre e começa a ler. E cada livro tem mil histórias para contar: são histórias contidas em suas páginas, mas são também histórias de até antes de ele existir fisicamente, de quando era uma ideia na mente do escritor. E há muitas histórias sobre os próprios escritores, inclusive.

Quer ver?

Encontrei um texto, de Pablo Massolar, que traz histórias curiosas sobre livros e seus autores, do qual faço um resumo abaixo. Se você quiser ler a matéria na íntegra, está aqui.

  • Aldous Huxley, autor do clássico Admirável Mundo Novo, narrou suas experiências com alucinógenos num livro chamado As Portas da Percepção. Aliás, o nome do grupo de rock The Doors foi inspirado no livro As Portas da Percepção. 

Aldous Huxley smoking, circa 1946

  • Também foram as drogas (em especial o ópio e haxixe) que inspiraram o poeta Charles Baudelaire a escrever Os Paraísos Artificiais, uma reflexão sobre o uso de substâncias alucinógenas.
  • No início da carreira, o escritor George Bernard Shaw teve que ser sustentado pela mãe por que não conseguia vender seus livros.

  • O poeta português Fernando Pessoa tinha o hábito de escrever sob diversos pseudônimos, cada um com um estilo e uma biografia próprios. Entre os pseudônimos adotados estão Ricardo Reis, Alberto Caieiro e Álvaro de Campos.
  • O monstro em Frankenstein, da autora inglesa Mary Shelley, não tem nome. Na verdade, Frankenstein é o nome do cientista que criou o monstro.

  • J.K. Rowling escreveu todos os livros do Harry Potter à mão.

  • O poeta Carlos Drummond de Andrade publicou o seu primeiro livro, com tiragem de 500 exemplares, com o dinheiro do próprio bolso.
  • Dom Quixote, obra-prima do espanhol Miguel de Cervantes, obteve um sucesso tão grande na época da sua publicação que um anônimo escreveu uma segunda parte do romance. O original é o romance de maior vendagem de todos os tempos, tendo vendido mais de 500 milhões de cópias.

É o ROMANCE mais vendido. Mas se for levar em conta o LIVRO mais vendido, é a Bíblia mesmo.

  • Monteiro Lobato é o autor da frase “um país é feito de homens e livros”. O escritor revolucionou o mercado literário em uma época em que o Brasil tinha poucas livrarias. Seus livros eram vendidos em mercearias, armazéns e farmácias, fomentando de maneira criativa a cultura em nosso país.
  • O Dia do Livro Infantil é lembrado em 18 de abril (aniversário de Monteiro Lobato).
  • Hemingway tinha o hábito de escrever em pé.

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  • O primeiro acidente de trânsito que se tem notícia no Brasil foi em 1897, quando o poeta Olavo Bilac colidiu com uma árvore. Se ele se feriu ninguém sabe, mas com certeza sobreviveu, já que veio a falecer apenas em 1918.
  • Por falar em  Ernest Hemingway, ele detestou a capa original de O grande Gatsby. Mesmo sendo considerada icônica e uma obra-prima da arte americana, quando Fitzgerald emprestou uma cópia do livro para Hemingway, ele a detestou imediatamente. Fitzgerald assegurou que se começasse a ler o livro, a entenderia mais claramente, porque fazia alusão a uma parte importante do romance.

  • Machado de Assis, nosso grande escritor, ultrapassou tanto as barreiras sociais quanto físicas. Machado teve uma infância sofrida por causa da pobreza e ainda era míope, gago e sofria de epilepsia. Enquanto escrevia Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado foi acometido por uma de suas piores crises intestinais, com complicações para sua frágil visão. Os médicos recomendaram três meses de descanso em Petrópolis. Sem poder ler nem redigir, ditou grande parte do romance para a esposa, Carolina.

  • George Orwell escreveu seu grande sucesso, 1984, em 1948, que nada mais é do que “1984” invertido. Para o autor, em 1948, 1984 era um futuro bem distante! (contribuição  de Aurélio de Oliveira)
  • Edgar Allan Poe, famoso por seu poema O Corvo, pela criação do detetive Lupin e por uma prolífica produção no gênero dos contos de horror, os quais constituem uma verdadeira escola, defendia que a criação de uma obra literária era alcançada por meio de rigor técnico, e não de inspiração. Ou seja, trabalho duro, nada de esperar que as ideias caíssem do céu, que as musas abraçassem os escritores em seus afagos inspiradores… (contribuição de Fabio P.R.)

Ilustração de Gustave Doré de 1884 para “O Corvo”. Doré foi o mais conhecido e mais bem sucedido ilustrador do final do século XIX, tendo ficado muito conhecido por ilustrar as fábulas de La Fontaine e os contos de Charles Perrault, como “Chapeuzinho Vermelho” ou “O Pequeno Polegar”.

O dez mandamentos do chimarrão

 Gosto muito de chimarrão, embora não seja gaúcho. Gosto tanto que costumava ir a uma churrascaria mais pelo prazer de curtir a erva depois do almoço, que me era oferecida pelos donos, do que pelo churrasco propriamente dito. O texto a seguir me foi enviado por uma amiga gaúcha e achei tão bom que decidi publicá-lo.

A tradição do chimarrão é antiga e remete à história da colonização espanhola. Soldados espanhóis, que aportaram em Cuba e foram ao México ‘capturar’ os conhecimentos das civilizações Maia e Azteca, em 1536 chegaram à foz do Rio Paraguay. Impressionados com a fertilidade da terra às margens do rio, fundaram a primeira cidade da América Latina: Assunción del Paraguay.
Acostumados a grandes ‘borracheras’ – porres memoráveis que muitas vezes duravam a noite toda – os desbravadores, nômades por natureza, sofriam com a ressaca. Aos poucos, foram tomando o estranho chá de ervas utilizado pelos índios Guarany e notavam que no dia seguinte ficavam melhores. Realmente, o mate amargo é um bom ativante do fígado, auxiliando a curar o mal-estar causado pela bebida.
O porongo e a bomba do chimarrão eram retirados de floresta de taquaras, às margens do rio Paraguay. No Brasil, a erva é socada; na Argentina e no Uruguai, triturada. Nos países do Prata, ela é mais forte e amarga, sendo recomendada para quem sofre de problemas no fígado.

Um aparato fundamental para o chimarrão é a cuia, vasilha feita do fruto da cuieira ou do porongo, que pode ser simples ou mesmo ricamente lavrada e ornada em ouro, prata e outros metais, com a largura de uma boa caneca e a altura de um copo fundo.

O outro talher indispensável é a bomba , um canudo de cerca de seis a nove milímetros de diâmetro, de cerca de 25 centímetros de comprimento, em cuja extremidade inferior há uma pequena peneira do tamanho de uma moeda e, na extremidade superior, um bocal.

Uma roda de chimarrão é um momento de descontração, fazendo parte de um ritual indispensável para unir gerações. O mate pode ser tomado de três maneiras: solito (isoladamente), parceria (uma companheira ou companheiro) e em roda (em grupo). Apesar de simples e informal, a roda de chimarrão tem suas regras.

Verdadeiros mandamentos, que devem ser respeitados por todos, e com muito bom humor:

NÃO PEÇAS AÇÚCAR NO MATE

O gaúcho aprende desde piazito por que o chimarrão se chama também mate amargo ou, mais intimamente, amargo apenas. Mas, se tu és dos que vêm de outros pagos, mesmo sabendo poderás achar que é amargo demais e cometer o maior sacrilégio que alguém pode imaginar neste pedaço do Brasil: pedir açúcar. Pode-se pôr na água ervas exóticas, cana, frutas, cocaína, feldspato, dólar etc, mas jamais açúcar. O gaúcho pode ter todos os defeitos do mundo mas não merece ouvir um pedido desses. Portanto, tchê, se o chimarrão te parece amargo demais não hesites: pede uma Coca-Cola com canudinho. Tu vais te sentir bem melhor.

NÃO DIGAS QUE O CHIMARRÃO É ANTI-HIGIÊNICO

Tu podes achar que é anti-higiênico pôr a boca onde todo mundo põe. Claro que é. Só que tu não tens o direito de proferir tamanha blasfêmia em se tratando do chimarrão. Repito: pede uma Coca-Cola com canudinho. O canudo é puro como água de sanga (pode haver coliformes fecais e estafilococos dentro da garrafa, não no canudo).

NÃO DIGAS QUE O MATE ESTÁ QUENTE DEMAIS

Se todos estão chimarreando sem reclamar da temperatura da água, é porque ela é perfeitamente suportável por pessoas normais. Se tu não és uma pessoa normal, assume e não te fresqueies. Se, porém, te julgas perfeitamente igual às demais, faze o seguinte: vai para o Paraguai. Tu vais adorar o chimarrão de lá.

NÃO DEIXES UM MATE PELA METADE

Apesar da grande semelhança que existe entre o chimarrão e o cachimbo da paz, há diferenças fundamentais. Com o cachimbo da paz, cada um dá uma tragada e passa-o adiante. Já o chimarrão, não. Tu deves tomar toda a água servida, até ouvir o ronco de cuia vazia. A propósito, leia logo o mandamento seguinte.

NÃO TE ENVERGONHES DO “RONCO” NO FIM DO MATE

Se, ao acabar o mate, sem querer fizeres a bomba “roncar”, não te envergonhes. Está tudo bem, ninguém vai te julgar mal-educado. Este negócio de chupar sem fazer barulho vale para Coca-Cola com canudinho, que tu podes até tomar com o dedinho levantado.

NÃO MEXAS NA BOMBA

A bomba do chimarrão pode muito bem entupir, seja por culpa dela mesma, da erva ou de quem preparou o mate. Se isso acontecer, tens todo o direito de reclamar. Mas, por favor, não mexas na bomba. Fale com quem lhe ofereceu o mate ou com quem lhe passou a cuia. Mas não mexas na bomba, não mexas na bomba e, sobretudo, não mexas na bomba.

NÃO ALTERES A ORDEM EM QUE O MATE É SERVIDO

Roda de chimarrão funciona como cavalo de leiteiro. A cuia passa de mão em mão, sempre na mesma ordem. Para entrar na roda, qualquer hora serve mas, depois de entrar, espera sempre tua vez e não queiras favorecer ninguém, mesmo que seja a mais prendada prenda do Estado.

NÃO “DURMAS” COM A CUIA NA MÃO (ou “CUIA NÃO É MICROFONE”)

Tomar mate solito é um excelente meio de meditar sobre as coisas da vida. Tu mateias sem pressa, matutando, recordando… E, às vezes, te surpreende até imaginando que a cuia não é cuia mas o quente seio moreno daquela chinoca faceira que apareceu no baile do Gaudêncio… Agora, tomar chimarrão numa roda é mui diferente. Aí o fundamental não é meditar e sim integrar-se à roda. Numa roda de chimarrão, tu falas, discutes, ri, xingas, enfim, tu participas de uma comunidade em confraternização. Só que esta tua participação não pode ser levada ao extremo de te fazer esquecer da cuia que está em tua mão. Fala quanto quiseres, mas não esqueças de tomar teu mate, que a moçada tá esperando.

NÃO CONDENES O DONO DA CASA POR TOMAR O 1º MATE

Se tu julgas o dono da casa um grosso por preparar o chimarrão e tomar ele próprio o primeiro, saibas que grosso é tu. O pior mate é o primeiro e quem o toma está te prestando um favor.

NÃO DIGAS QUE CHIMARRÃO DÁ CÂNCER NA GARGANTA

Pode até dar. Mas não vai ser tu, que pela primeira vez pegas na cuia, que irás dizer, com ar de entendido, que chimarrão é cancerígeno. Se aceitaste o mate que te ofereceram, toma e esquece o câncer. Se não der para esquecer, faze o seguinte: pede uma Coca-Cola com canudinho, que ela… etc, etc.

 

Burocratas ao Redor do Mundo

Seria esse o título em português do livro que o fotógrafo holandês Jan Banning  acaba de lançar. Ele viajou por vários países e registrou fotos dos servidores públicos locais sentados atrás de suas mesas. O resultado foi um olhar fascinante sobre a cultura, os rituais e os símbolos de cada administração pública.

Para evitar que os burocratas retratados arrumassem seus espaços previamente, Jan – depois de devidamente autorizado pelos superiores – chegava ao local de trabalho sem ser anunciado, para vê-lo em toda a sua glória, exatamente como um cidadão seria recebido.

Veja a seguir algumas dessas fotos:

Esse é Marcial Revollo, responsável pelas certidões de nascimento e óbito em Betanzos, Bolívia.  Ele também é o responsável pela contagem de votos nas eleições municipais, mas para isso senta-se na mesa em frente, já que é outro posto. Seu salário é de cerca de R$ 150,00.

Do outro lado do mundo, na China, Qu Shao Feng é o chefe da Divisão de Segurança Pública e da concessão de vistos de entrada e de saída da cidade de Jining, na província de Shandong. Ele ganha cerca de R$700,00, um bom salário para os padrões da região, já que tem um cargo de chefia. Shandong (ou Shantung) fica no noroeste da China e tem uma população de 94 milhões de habitantes, numa área do tamanho do Ceará.

Maurice Winterstein trabalha em Clermont-Ferrand, na França, na Comissão de Cidadania do governo federal, escritório regional. Ele também cuida de assuntos ligados às questões religiosas, especialmente aquelas voltadas à comunidade islâmica (que anda agitada por causa da proibição de usar véus em locais públicos e outras coisas).  Seu salário gira em torno de R$ 3.500,00. A mocinha ao lado é uma estagiária que serve como sua secretária.

Vamos até a Índia. Sushma Prasad é assistente no gabinete do Secretário de Estado de Bihar, com 83 milhões de habitantes. Ela foi contratada num ato de compaixão, já que seu falecido marido trabalhava no mesmo lugar até 1997. Ela recebe um salário equivalente a R$ 190,00.

Na África, Libéria, encontramos Henry Gray,prefeito interino do distrito de Gbaepo. Durante a guerra civil no país, as dependências da delegacia foram saqueadas e o prédio destruído, restando apenas as paredes em pé. Gray tem 11 funcionários, dos quais só 4 são pagos, os demais são voluntários. Ele não tem verba orçamentária e não recebe há dois anos o salário de R$ 40,00 por mês. Gray diz ser pai de 34 filhos e tem 18 netos.

Marina Nikolayevna Berezina, ex-cantora e ex-diretora de corais, agora é secretária do chefe do Departamento de Finanças da prefeitura de Tomsk, na Sibéria, Rússia. Ela não quis revelar seu salário.

No Iêmen, Nadja Ali Gayt foi contratada como consultora do Centro de Educação Feminino para assuntos rurais do Ministério da Agricultura, no distrito de Manakhah, no estado de Sana. Ela recebe mensalmente o que equivale a R$ 320,00.

Voltando às Américas, temos Rudy Flores, um dos 118 Texas Rangers do estado do Texas. Durante décadas de história e ainda hoje, os Texas Rangers investigam crimes diversos, desde assassinatos até corrupção policial, atuam como tropas de choque e como investigadores, protegem os governadores do Texas, perseguem fugitivos e funcionam como uma força paramilitar. Flores é responsável por 3 condados, e recebe um salário mensal de cerca de R$ 10.000,00.

O Brasil tem cerca de 11 milhões de servidores públicos. Desses, cerca de 2 milhões trabalham para o Executivo e perto de 2,5 milhões para o Judiciário. A remuneração média do servidor público nos três níveis de governo (federal, estadual e municipal) está em R$ 2.478,00 ante R$ 1.192,00 no setor privado. Mas a estrutura de salários do setor público é irracional. Ela atende a pressões políticas, não à importância do serviço, à qualidade dele ou ao nível de instrução e conhecimento do funcionário.  Na esfera federal, o salário inicial de um motorista ou de uma secretária do Ipea (R$ 4.930) é superior ao de algumas vagas de professor com doutorado no magistério (R$ 4.649). Um escrivão da Polícia Federal (R$ 8.416) só precisa ter curso superior, mas ganha mais que um médico com mestrado no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (R$ 6.346)… Isto é Brasil…

A CULTURA DO SLOW DOWN

Vale ler e meditar, SEM PRESSA. Desconheço o autor.

 

“Já tem mais de 20 anos que ingressei na Volvo, empresa sueca bem conhecida. Trabalhar com eles é uma convivência muito interessante. Qualquer projeto aqui demora dois anos para se concretizar, mesmo que a ideia seja brilhante e simples. É uma regra. 

Os processos globalizados causam a nós (brasileiros, portugueses, argentinos, colombianos, peruanos, venezuelanos, mexicanos, australianos, asiáticos, etc…) uma ansiedade generalizada na busca de resultados imediatos. Consequentemente, o nosso sentido de urgência não surte efeito dentro dos prazos lentos dos suecos.

Os suecos debatem, debatem, realizam “n” reuniões, ponderações, etc… E trabalham! Com um esquema bem mais “slowdown“. O melhor é constatar que, no fim, isto acaba sempre dando resultados no tempo deles (suecos) já que conjugando a necessidade amadurecida com a tecnologia apropriada, é muito pouco o que se perde aqui na Suécia.

 1. A Suécia é do tamanho do Estado de São Paulo (Brasil).

2. A Suécia tem apenas nove milhões de habitantes.

 3. A sua maior cidade, Estocolmo, tem apenas 800.000 habitantes (compare-se com Paris, Londres, Berlim, Madrid, mesmo Lisboa, ou ainda com a cidade do Rio de Janeiro, com 7 milhões).

 4. Empresas de capital sueco: Volvo, Skandia, Ericsson, Electrolux, ABB, Nokia, Nobel Biocare , etc. Nada mal, né? Para se ter uma ideia da sua importância, basta mencionar que a Volvo fabrica os motores de propulsão para os foguetes da NASA.

 Vou contar uma pequena história, para terem uma ideia melhor:

A primeira vez que fui para a Suécia, em 1990, um dos meus colegas suecos me apanhava no hotel todas as manhãs. Já era setembro, com algum frio e neve. Chegávamos cedo à Volvo e ele estacionava o carro longe da porta de entrada (são 2000 empregados que vão de carro para a empresa).

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No primeiro dia não fiz qualquer comentário, nem tampouco no segundo ou no terceiro. Num dos dias seguintes, já com um pouco mais de confiança, uma manhã perguntei:

“Vocês têm lugar fixo para estacionar? Chegamos sempre cedo e com o estacionamento quase vazio você estaciona o carro no seu extremo?” E ele me respondeu com simplicidade: “É que como chegamos cedo, temos tempo para andar, e quem chega mais tarde, já vai entrar atrasado, portanto é melhor para ele encontrar um lugar mais perto da porta. Entendeu?”

Imaginem a minha cara! Essa atitude foi o bastante para que eu revisse todos os meus conceitos anteriores.

Atualmente, há um grande movimento na Europa chamado “Slow Food”. A “Slow Food International Association”, cujo símbolo é um caracol, tem a sua sede na Itália (o site na Internet é muito interessante: www.slowfood.com). O que o movimento Slow Food preconiza  é que se deve comer e beber com calma, dar tempo para saborear os alimentos, desfrutar da sua preparação, em família, com amigos, sem pressa e com qualidade.

A ideia é contraposição ao espírito do Fast Food e o que ele representa como estilo de vida. Verdadeiramente surpreendente, este movimento de Slow Food está servindo de base para um movimento mais amplo chamado “Slow Europe”, como salientou a revista Business Week numa das suas últimas edições europeias.

Na base de tudo isto está o questionamento da “pressa” e da “loucura” geradas pela globalização, pelo desejo de “ter em quantidade” (nível de vida) ao contrário do “ter em qualidade”, “Qualidade de vida” ou “Qualidade do ser”.

Segundo a Business Week, os trabalhadores franceses, ainda que trabalhem menos horas (35 horas por semana) são mais produtivos que os seus colegas americanos e ingleses. E os alemães, que em muitas empresas já implantaram a semana de 28,8 horas de trabalho, viram a sua produtividade aumentar uns apreciáveis 20%.

A denominada “slow attitude” está chamando atenção dos próprios americanos, escravos do “fast” (rápido) e do “do it now!” (faça já!). Portanto, essa “atitude sem pressa” não significa fazer menos nem ter menor produtividade. Significa sim, trabalhar e fazer as coisas com “mais qualidade” e “mais produtividade”, com maior perfeição, com atenção aos detalhes e com menos estresse.

Significa retomar os valores da família, dos amigos, do tempo livre, do prazer dum belo ócio e da vida em pequenas comunidades. Do “aqui” presente e concreto, ao contrário do “mundial” indefinido e anônimo.

Significa retomar os valores essenciais do ser humano, dos pequenos prazeres do quotidiano, da simplicidade de viver e conviver, e até da religião e da fé. SIGNIFICA UM AMBIENTE DE TRABALHO COM MENOS PRESSÃO, MAIS ALEGRE, MAIS LEVE, E, PORTANTO MAIS PRODUTIVO, ONDE OS SERES HUMANOS REALIZAM, COM  PRAZER, O QUE MELHOR SABEM FAZER

É saudável refletir sobre tudo isto. Será que os antigos provérbios: “Devagar se vai ao longe” e “A pressa é inimiga da perfeição” merecem novamente a nossa atenção nestes tempos de loucura desenfreada?

Não seria útil e desejável que as empresas da nossa comunidade, cidade, estado ou país, começassem já a pensar em desenvolver programas sérios de “qualidade sem pressa” até para aumentarem a produtividade e a qualidade dos produtos e serviços sem necessariamente se perder a “qualidade do ser”?

No filme “Perfume de Mulher” há uma cena inesquecível na qual o cego (interpretado por Al Pacino) convida uma jovem para dançar e ela responde: “Não posso, o meu noivo deve estar chegando”. Ao que o cego responde: “Em um momento, vive-se uma vida”, e a leva para dançar um tango. Esta cena, que dura apenas dois ou três minutos, é o melhor momento do filme.

Muitos vivem correndo atrás do tempo, mas só o alcançam quando morrem, quer seja de enfarte ou num acidente automobilístico… Por correrem para chegar a tempo. Ou existem os outros que, tão ansiosos para viverem o futuro, esquecem-se de viver o presente, que é o único tempo que realmente  existe. O tempo é o mesmo para todos, ninguém tem nem mais nem menos de 24 horas por dia.

A diferença está no que cada um faz do seu tempo. Temos de saber aproveitar cada momento, porque, como disse John Lennon, “A vida é aquilo que acontece enquanto planejamos o futuro”.

 

Parabéns por ter conseguido ler esta mensagem até ao fim. Certamente haverá muitos que leram só metade, para “não perder tempo”.

 

 

Viajar é preciso – 3

O Mosteiro dos Jerônimos é um mosteiro em Lisboa, Portugal, em estilo manuelino, testemunho monumental da riqueza dos descobrimentos portugueses ao redor do mundo. No local de uma ermida fundada pelo Infante D. Henrique, D. Manuel I começou em 1502, logo após o retorno da primeira viajem à India de Vasco da Gama, a construção de um magnífico mosteiro para os monges da ordem dos Jerônimos. Foi em grande parte financiado pelos lucros do comércio de especiarias e riquezas trazidas das grandes viagens de descobertas do século XVI.

A obra iniciou-se em 1502 com vários arquitetos e construtores, entre eles Diogo Boitaca (plano inicial e parte da execução) e João de Castilho (abóbodas das naves e do transepto, pilares, porta sul, sacristia e fachada). No reinado de D. João III foi acrescentado o coro alto. O seu nome deriva do fato de ter sido entregue à Ordem de São Jerônimo, nele estabelecida até 1834. Sobreviveu ao sismo de 1755 mas foi danificado pelas tropas invasoras francesas enviadas por Napoleão Bonaparte no início do século XIX. Inclui, entre outros, os túmulos dos reis D. Manuel I e sua mulher, D. Maria, D. João III e sua mulher D. Catarina, D. Sebastião e D. Henrique e ainda os de Vasco da Gama, de Luís Vaz de Camões, de Alexandre Herculano e de Fernando Pessoa.

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