O ‘Experimento de Aprisionamento de Stanford’, interrompido após sair do controle

Esse é um dos experimentos sociais mais famosos da história, contado tantas vezes que alguns o consideram um mito.


Em 1971, Philip Zimbardo, professor de Psicologia da Universidade de Stanford, desenhou um polêmico experimento. Ele queria entender o que induzia as pessoas a serem seduzidas por atitudes violentas, bem como suas justificativas psicológicas. Zimbardo achava que a linha que todos nós gostamos de traçar entre nós, pessoas boas, e os outros, pessoas malvadas, não era assim tão inflexível e sólida como insistimos em pensar. Mais tarde, ele chamou esse impulso que fortuitamente nos impele a cruzar esse tênue limiar de Efeito Lúcifer.

Talvez você já tenha ouvido falar: um professor universitário de Psicologia recruta um grupo de estudantes e lhes pede que imaginem que estão em uma prisão. Escolhe alguns como guardas e outros como detentos.

Em poucos dias, os “carcereiros” se tornam sádicos e abusam de tal forma dos presos que o experimento precisa ser interrompido.

Isso aconteceu de verdade, em 1971, e não foi em qualquer lugar, mas em uma das melhores universidades dos Estados Unidos – Stanford, na Califórnia…

Essa experiência foi tema inclusive de 3 filmes, um dos quais assisti no Netflix: “Detenção” (The Experiment), de 2010, com Cam Gigandet, Maggie Grace, Adrien Brody e Forrest Whitacker.

A ‘inspiração’

As raízes do experimento estão ligadas a um controverso experimento realizado uma década antes em outra famosa universidade americana, Yale. Conhecido como “Experiência de Milgram”, por ter sido conduzido pelo psicólogo Stanley Milgram, tinha como objetivo analisar o nível de obediência das pessoas à autoridade.


A maioria dos nazistas julgados no Tribunal de Nuremberg afirmava estar apenas “cumprindo ordens”.

Sua inspiração, por sua vez, foram os julgamentos de nazistas acusados de crimes de guerra no Tribunal de Nuremberg. A maioria deles havia baseado sua defesa na alegação de que estavam apenas “cumprindo ordens” de seus superiores.

Milgram queria verificar até que ponto um ser humano “bom” era capaz de fazer o mal a outro por uma questão de obediência.

Seu experimento gerou ainda maior polêmica porque ele mentiu aos participantes, dizendo-lhes que aquele era um estudo sobre memória e aprendizagem. O cientista dividiu 40 voluntários em dois grupos aleatórios: a um disse que seriam professores, e aos outros, que seriam estudantes.

Em seguida, levou os “estudantes” para outra sala e pediu aos “professores” que colocassem à prova a memória de seus “alunos”.

O pesquisador os instruiu a castigar aqueles que errassem com choques elétricos. A máquina que utilizariam emitia descargas que iam de 50 a 450 volts. A potência máxima vinha acompanhada de uma inscrição que dizia “Perigo: choque acentuado”.


65% dos “professores” utilizaram voltagem máxima em algum momento, apesar dos gritos dos “estudantes” na sala vizinha

O aparelho, contudo, não chegava a dar choques, e os gritos que os “professores” escutavam vindos da sala vizinha eram, na verdade, gravações.

A prisão de Stanford

Uma década mais tarde, um professor de Psicologia Social da Universidade de Stanford chamado Philip Zimbardo quis levar o experimento de Milgram a um passo adiante, e analisar o quão tênue é a linha que separa o bem do mal.

Ele se perguntava se uma pessoa “boa” poderia mudar sua forma de ser, dependendo do seu entorno.

Colocou, então, um comunicado nas paredes da universidade oferecendo US$ 15 por dia a voluntários que estivessem dispostos a passar duas semanas em uma falsa prisão. O estudo foi financiado pelo governo, que queria entender as origens dos conflitos no sistema penitenciário americano.

Zimbardo selecionou 24 estudantes, a maioria branca e de classe média, e os separou em dois grupos, dando-lhes aleatoriamente o papel de guardas e de prisioneiros, e pediu que voltassem para casa.

O experimento de fato começou de forma brutal: policiais de verdade, que haviam aceitado participar do projeto, foram à residência dos “prisioneiros” e os detiveram, acusando-os de roubo.

Eles foram algemados e levados à delegacia, onde foram fichados e transportados, de olhos vendados, a um suposto presídio local – mas que na verdade era o sótão do Departamento de Psicologia de Stanford, que havia sido transformado, de forma bastante realista, em uma prisão.


Imagem das gravações do experimento: estudo que deveria se estender por duas semanas durou apenas seis dias…

Os voluntários foram obrigados então a tirar a roupa, foram inspecionados, desinfectados, receberam remédio contra piolhos e tiveram de vestir um uniforme que consistia em uma camiseta larga com um número (e sem qualquer outra peça por baixo), sandálias de borracha e um gorro de náilon feito com meia-calça feminina. Aqueles que tinham o papel de guardas puseram no tornozelo dos “detentos” um cadeado pesado.

O que aconteceria na sequência seria tão chocante que inspiraria três filmes (um alemão, em 2001, e dois em Hollywood, em 2010 e 2015), além de diversos livros e artigos.

Sadismo

Logo no início do experimento, os “guardas” começaram a apresentar condutas abusivas que, em pouco tempo, se tornaram sádicas. Instruídos a não provocar lesões físicas nos presos, os carcereiros fizeram com eles todo tipo de violência psicológica.

Identificavam os detentos pelos números, por exemplo, para evitar chamá-los pelo nome, enviavam alguns constantemente à solitária, faziam com que tirassem a roupa, a fazer flexões, a dormir no chão, colocavam sacos de papel em suas cabeças e obrigavam-nos a fazer suas necessidades em baldes.

“No dia em que chegaram, aquilo era uma pequena prisão instalada em um sótão com celas falsas. No segundo dia, era um presídio de verdade, criado na mente de cada prisioneiro, de cada guarda e das outras pessoas envolvidas”, contou Zimbardo à BBC em 2011, quando o experimento completou 40 anos.

Vários dos presos começaram a apresentar problemas emocionais.

“Uma das práticas mais eficientes (dos guardas, para mexer com os prisioneiros) era interromper o sono, uma técnica de tortura conhecida”, contou Clay Ramsey, um dos prisioneiros. Ainda assim, apenas alguns poucos estudantes pediram para abandonar o estudo antes de ele ser de fato interrompido.

Dave Eshleman, um dos jovens que desempenhava papel de carcereiro, lembra que encarou o experimento como uma espécie de exercício de teatro.

“No primeiro dia não aconteceu quase nada, foi um pouco entediante. Então decidi interpretar o papel de um carcereiro bastante cruel”, contou.


Imagem das gravações do experimento em 1971: um dos participantes disse ter começado a agir com crueldade por estar ‘entediado’ .

O chamado “Experimento de Aprisionamento de Stanford” atingiu níveis tão altos de perversidade que teve de ser suspenso menos de uma semana depois de começar.

Depois, os participantes foram entrevistados:

  • Os presos disseram que, em poucos dias, já não recordavam que eram estudantes; esqueceram que não precisavam se submeter a castigos nem deviam se sentir culpados. Apenas eram um número, nada restava da pessoa que dias antes achou bacana participar do que parecia um inocente role playing game.
  • Os carcereiros assustaram-se ao ver no que tinham se tornado. Nunca acharam que fossem capazes de apresentar comportamentos tão sádicos (despiram os presos, amarraram os pés, deram banho de água gelada, humilharam, insultaram, cobriram suas cabeças com sacos…)
  • O próprio Zimbardo, ao ver as imagens, assustou-se ao se dar conta de que ele mesmo tinha se transformado no diretor da prisão, passeando orgulhosamente com as mãos entrelaçadas às costas, com o mesmo gesto altivo que tantas vezes vimos em personagens que se consideram superiores ao restante.

Apesar da curta duração, foi o tempo suficiente para que Zimbardo concluísse que o entorno tem, sim, influência sobre a conduta humana e que colocar pessoas “boas” em lugares ruins pode fazer com que elas ajam como pessoas ruins, ou que se resignem a ser maltratadas.

A teoria – encarada, em última instância, como a constatação de que todos somos sádicos ou masoquistas em potencial – foi bastante contestada com o passar dos anos, e o principal questionamento foi ao papel do próprio Zimbardo, atuando como “diretor” do presídio e aconselhando os guardas sobre como se comportarem, estimulando as condutas abusivas.

O professor, aqui com alguns dos “detentos”, atuou no experimento como o diretor do presídio.

Apesar da controvérsia, contudo, Zimbardo, que ganhou notoriedade e hoje é considerado um grande nome em sua área de atuação, segue defendendo seu experimento como uma contribuição muito valiosa à Psicologia, que teria servido para que entendêssemos fenômenos como os abusos cometidos na prisão iraquiana de Abu Ghraib.*

“O experimento nos mostra que a natureza humana não está totalmente sujeita ao livre arbítrio, como gostamos de pensar, mas que a maioria de nós pode ser seduzida a se comportar de maneira totalmente atípica em relação ao que acreditamos que somos”, concluiu ele.

*Abu Ghraib foi uma prisão na qual os soldados americanos torturaram os prisioneiros de forma sádica, durante a invasão do Iraque em 2004 e que abalou a imagem dos Estados Unidos.

Fonte: BBC

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A última vez que Walt Disney apareceu na telinha

Walt Disney faleceu em 15 de dezembro de 1966, mas continuou ativo e trabalhando até o final.

Em outubro daquele ano, Disney gravou uma chamada para o filme que iria estrear em breve, “Follow Me, Boys!” (Nunca é Tarde Para Amar, no Brasil), com Fred MacMurray e um jovem ator de 15 anos que Walt previa que faria muito sucesso no futuro, Kurt Russell.

Russell com Chris Pratt em cena de “Guardiões da Galáxia – Vol. 2”

Nessa chamada, cujo título seria “An Evening with Walt Disney” e que nunca foi ao ar por conta da trágica notícia da morte de Walt, duas semanas depois da estreia nacional do filme, ele explica que não poderia estar presente na première no Radio City Music Hall, em Nova York, porque estava em meio às filmagens de “Blackbeard’s Ghost” (O Fantasma de Barba Negra, no Brasil) e que estrearia apenas dois anos depois.

Ele continua, falando bastante sobre um filme musical que estrearia em julho de 1967, estrelado por seu ator favorito, Fred MacMurray, e destaca uma das canções – que não aparece no segmento que mostro a vocês. Walt devia gostar muito desse “The Happiest Millionaire”, ou Quando o Coração Não Envelhece, porque sorri várias vezes durante sua explicação.

Veja a última vez que Walt apareceu diante de uma câmera.

Como eu disse no início, Walt se manteve em atividade até o final, honrando a fama de workaholic que tinha.  Além dos filmes que ele menciona no vídeo, estava trabalhando na produção de “The Love Bug” ( Se Meu Fusca Falasse) que foi o último longa live-action que ele aprovou.

Ao mesmo tempo, estava envolvido em dois longa-metragens de animação e que foram também suas últimas participações em produções de seu estúdio. “The Jungle Book” (Mogli, o Menino-Lobo), lançado em 1967 e que foi um enorme sucesso de crítica e de bilheteria.

E “The Aristocats” (Os Aristogatas), produzido em 1968 e lançado em 1970, uma mistura de A Dama e o Vagabundo e 101 Dálmatas, só que com gatos em vez de cachorros. Por ocasião de sua morte, Walt estava supervisionando o roteiro e a criação dos personagens.

Mas não era só com o cinema ou a TV que Walt se envolvia. Nos meses que antecederam sua morte, ele fazia contínuas reuniões com sua equipe da Disneylândia, avaliando as novas atrações e colocando suas ideias.

E já estava supervisionando sua mais ambiciosa empreitada, a criação do Walt Disney World, inaugurado só em 1971.

Abrangendo mais de 11.000 hectares, tem hoje quatro parques temáticos, dois parques aquáticos, vinte e sete resorts temáticos, dois spas e centros de ginástica, cinco campos de golfe e outros locais de lazer, esporte, compras e entretenimento. Magic Kingdom foi o primeiro parque do complexo, seguido de EPCOT, Disney’s Hollywood Studios e Disney’s Animal Kingdom, abertos entre as décadas de 1980 e 1990.

Walt queria complementar o parque que ele tinha na Califórnia, inaugurado em 1955. Além de hotéis e um parque temático similar à Disneylândia, os planos originais de Disney incluíam um “Protótipo Experimental da Comunidade do Amanhã”, o EPCOT, uma cidade planejada que serviria como um laboratório de experiências para inovações para a vida nas metrópoles. Mas, no final, o EPCOT não saiu exatamente como ele sonhara.

Lendas e fatos

Walt tinha a reputação de ser um visionário e várias lendas surgiram depois de sua morte, de que teria formulado planos de longo alcance para depois que partisse: como ser congelado para que ele pudesse ser revivido quando a ciência encontrasse a cura para a doença que o matou; ou que teria criado uma lista de filmes que nunca deveriam ser lançados em vídeos caseiros; ou que teria preparado um filme para ser assistido por seus executivos sobre como administrar a empresa em sua ausência…

A realidade, no entanto, é que todas essas lendas não têm a ver com a personalidade de Walt Disney, que deixou os aspectos comerciais da administração da empresa para seu irmão Roy e não deu muita importância ao que aconteceria depois de sua morte.

Legends Plaza, nos estúdios Disney em Burbank.

Embora Walt fosse sempre a força motriz por trás dos esforços criativos da Disney, na época de sua morte ele estava pensando principalmente em dois grandes projetos que iam além das telinhas ou telonas. Além do já mencionado EPCOT, ele ainda reservava um tempo para avaliar a mais nova atração da Disneylândia, “Piratas do Caribe”. E seu mais recente sonho era a criação de um resort de inverno no Mineral King Valley, na Califórnia, perto do Parque Nacional da Sequoia (um projeto que acabou sendo descartado devido à oposição de grupos ambientalistas).

Walt simplesmente não tinha nem o tempo e nem a inclinação para fazer planos para os caminhos que sua empresa deveria seguir depois de sua morte. Não gostava de falar sobre a morte – nem comparecia a funerais! – e muito menos sobre a sua. Tanto que não fez nenhum esforço para selecionar ou preparar um sucessor!

Seu falecimento pegou a empresa de surpresa, porque nem ele nem ninguém fez qualquer preparação para isso, mesmo quando Walt soube que estava com câncer. Nem o irmão de Walt, Roy, sabia o que ele estava fazendo, porque, como escreveu o biógrafo Bob Thomas: “Walt não queria que ninguém, inclusive seu irmão mais velho, xeretasse em seus projetos futuros”.

A realidade é a melhor resposta a essas lendas todas: a Walt Disney Productions afundou por muitos anos após a morte de Walt (a ponto de quase se tornar vítima de uma aquisição hostil no início dos anos 1980) precisamente porque ninguém sabia o que ele teria feito, e simplesmente reciclaram as mesmas ideias em vez de embarcar em novos esforços criativos.

O estúdio produziu uma série de animações ruins, como Oliver e sua Turma ou Robin Hood, e comédias sem graça como O Fusca Enamorado.

Temos que perguntar: se Walt estava de fato orientando seu estúdio do além-túmulo por meio de vídeos gravados antes de sua morte, por que eles passaram tantos anos acumulando fracassos em todos os segmentos? Até mesmo o fantasma dele poderia ter feito melhor do que isso…

Na verdade, foi Roy Disney quem reuniu executivos da companhia uma semana após a morte de seu irmão Walt para discutir o futuro da empresa e que continuou trabalhando bem após a aposentadoria, para ver a primeira fase do Walt Disney World ser inaugurada.

E o filho de Roy, Roy E. Disney – falecido em 2009 – , foi uma das forças orientadoras por trás da revitalização do grupo, que começou com a contratação de Michael Eisner como CEO e Frank Wells como presidente da Walt Disney Productions em 1984.

Foi dessa gestão criativa e inovadora que surgiram A Pequena Sereia, A Bela e a Fera, Pocahontas, O Rei Leão ou Toy Story, e filmes interessantes e divertidos como Rocketeer, Querida, Encolhi as Crianças, George o Rei da Floresta ou Duelo de Titãs.

É deles todo o crédito pelo renascimento da Disney e por plantarem as sementes que germinaram no sucesso contínuo até os dias de hoje.

Roy Disney, sobrinho de Walt

Jonny Quest pode virar filme com atores reais

Jonny Quest, aquele clássico personagem da Hanna-Barbera, vai virar filme. Claro, se tudo der certo… Pelo menos, são essas as notícias mais recentes chegando de Hollywood.

O elenco de Jonny Quest, com “Race” Bannon de camisa vermelha, o Dr. Benton Quest de barba, e os meninos Jonny Quest e Hadji (de turbante), com a mascote Bandit.

O diretor deve ser Chris McKay (LEGO Batman: o Filme), e o roteiro estaria sendo escrito por Terry Rossio (que escreveu os roteiros de todos os Piratas do Caribe). 

Jonny Quest, série originalmente exibida entre 1964 e 1965 e mais tarde repaginada nas décadas de 1980 e 1990, acompanha as aventuras de um rapaz que embarca em diversas aventuras extraordinárias ao lado de seu pai, um cientista. Inspirada nos programas de rádio dos anos 1930 e nos gibis da mesma época, a série animada foi responsável por apresentar uma nova faceta da produtora Hannah-Barbera, uma vez que Jonny Quest, diferentemente de outros títulos como Os FlintstonesManda-Chuva, era mais realista e sério.

 O Dr. Benton Quest era convocado para missões perigosas a serviço do governo, sempre envolvendo ciência e mistério, além de espionagem. Roger “Race” Bannon, o guarda-costas, era uma espécie de babá dos meninos, sempre salvando-os de enrascadas. Bandit, o cãozinho do grupo, era, por natureza, curioso e muito assustado, sendo muitas vezes vítima de monstros e animais das selvas.

Para criar os personagens, o estúdio Hanna-Barbera chamou o veterano dos quadrinhos Doug Wildley. Seus cenários criativos marcaram o início de uma nova fase para os desenhos animados, um avanço notável, considerando traços e cores – geralmente muito fortes, condizendo com o roteiro de cada episódio. Como apresentavam cenas rápidas de ação, o trabalho foi grande e o estúdio teve que contratar um maior número de profissionais em relação às produções passadas.

Doug Wildley
Wildley era um quadrinista e ilustrador bastante conhecido na época.
As duas imagens acima mostram os estudos do artista para o personagem e sua família
Arte de Wildley para uma cena crucial de um dos episódios favoritos do público

A abertura parecia a de um filme, inclusive com créditos dos personagens – uma inovação para a época. A música-tema também ajudou na popularização do seriado. 

Apesar do sucesso instantâneo, o estúdio produziu apenas uma temporada da série porque cada episódio era caríssimo de se fazer – afinal, os roteiros eram complexos e a animação era muito realista. Sem mencionar que cada episódio durava cerca de 20 minutos e levava uma eternidade para ficar pronto, atrapalhando, por assim dizer, a produção de outras séries que eram gravadas simultaneamente e sugando os recursos necessários a tantas produções menos complexas e mais rentáveis: Maguila, o Gorila; Formiga Atômica; Esquilo sem Grilo, Sinbad Jr. e outras. Sem mencionar a série mais famosa de todas e que, nos Estados Unidos, ocupava o chamado horário prime-time (  “horário nobre” no Brasil) da rede ABC, derrotando concorrentes como A Feiticeira e Os Monstros.

Jonny Quest ainda recebeu muitas críticas por exibir cenas violentas e monstros assustadores, que podiam “provocar pesadelos nas crianças”.

Infelizmente, todo o esmero da equipe e investimento do estúdio não salvaram a produção, cancelada com apenas 26 episódios.

Mas até hoje seus personagens carismáticos continuam sendo lembrados, seja pelos antigos fãs ou pelos novos, conquistados pelas reprises regulares ou pelos episódios disponíveis na internet.

Jonny era o curioso, intrometido e corajoso menino que encabeçava o elenco. Sempre acompanhado de seu fiel buldogue Bandit, imposto pelo produtor Barbera a fim de agradar à audiência infantil. Tanto que Wildey criou o amigo indiano Hadji como uma maneira de evitar que Jonny passasse o desenho conversando com seu cão.

Adotado pelo pai de Jonny, Dr. Benton Quest, Hadji possuía alguns poderes mágicos que herdou de sua cultura. Mesmo usando eternamente um turbante, o menino não era tratado de maneira leviana pelos roteiros, que o preservavam de abordagens racistas e irrelevantes.

Dr. Quest era protegido pelo grisalho agente (e galã) Roger “Race” Bannon, inspirado no ator Peter Graves, que ficou mundialmente famoso ao estrelar o seriado Missão Impossível.

O grande vilão era o dr. Zin, homenagem aos facínoras de seriados dos anos 1940 e arqui-inimigo mortal do dr. Quest.

E havia espaço ainda para belas mulheres, que davam trabalho a Bannon, que chegou a beijar intensamente a vilã Jezebel Jade, com quem tivera um caso no passado. Isso num desenho feito há mais de 50 anos…

Estudo de Doug Wildley para a bela Jezebel Jade.

Atendendo aos fãs, em 1986 Quest retornou, porém infantilizado em 13 novas (e fracas) aventuras. Em 1997, veio a última série, com 52 episódios, recheada de efeitos de computador (o “Mundo Virtual Quest”) e com os personagens mais envelhecidos. Também não teve apelo.

Tomara que Jonny Quest volte mais interessante em sua estreia nas telonas. Vamos aguardar…

Fontes:

Wikipedia

adorocinema.com.br

infantv.com.br

judao.com.br

O mago dos efeitos sonoros

Quando a gente conversa sobre efeitos sonoros engraçados e que são usados em animação, em games e até em filmes, a primeira lembrança que vem à mente são os efeitos sonoros dos desenhos da Hanna-Barbera.

Eles de fato foram os pioneiros a usar esses efeitos nos desenhos animados para a TV, lá no começo dos anos 1960. Criaram uma biblioteca enorme de sons, como o bongô tocado rapidamente para o som dos pés de um personagem saindo correndo. Ou o som de uma freada de carro quando alguém parava de repente. Muitos deles são usados até hoje, seja na forma original, seja reciclados com as novas tecnologias – e até inspirando os efeitos sonoros dos animes.

Mas muita gente não sabe que, há mais de 80 anos… um cara meio maluco foi contratado pelos Estúdios Disney para gravar uma música para um dos desenhos do Mickey, e acabou se tornando o chefe do Departamento de Efeitos Sonoros da empresa!

O Mago dos efeitos sonoros

 

Jimmy Macdonald criou, segundo suas próprias contas, cerca de 25.000 sons ao longo de sua carreira na Disney, que durou mais de 40 anos. Começou cantando à tirolesa, dublando os anões de “Branca de Neve”, fez a voz do Mickey substituindo Walt Disney, que não tinha mais tempo de fazer isso e também porque, de tanto fumar, já não alcançava o falsete do personagem.

Jimmy criava sons para os desenhos usando o que tivesse à mão. Por exemplo, um par de cocos para representar o galope de cavalos. Quando não havia nada que pudesse usar, ele inventava o aparelho e imitava o som de trovões, de chuva, de passarinhos cantando, tudo de forma artesanal, sem manipulação como se faz hoje – e sincronizando com a imagem e com a orquestra, que tocava o tema musical.

Atualmente, esse trabalho de sonoplastia tem inúmeros recursos tecnológicos à disposição, mas os principais designers se inspiram no velho Jimmy. Especialmente quando a Pixar, por exemplo, tem como um de seus pilares os efeitos sonoros.

“Wall-E”, de 2008, é o melhor exemplo. O filme não tem diálogos, e os personagens se comunicam por meio de chiados e outros sons exóticos. O engenheiro de som do filme, Ben Burtt – considerado o pai do design sonoro moderno e que criou os efeitos sonoros da trilogia clássica de “Star Wars”, – fala sobre isso no vídeo abaixo. E se refere à sua maior inspiração, o mago Jimmy Macdonalds.

Ele mostra como a sonoplastia era criada nos antigos desenhos da Disney, e como a genialidade e o improviso ajudaram a criar a magia desses desenhos, magia que ele continua a buscar nos dias de hoje.

 

 

James Bond foi concebido em ponto estratégico de espionagem em Portugal

James Bond, o espião mais célebre da ficção, rodeado sempre de carros luxuosos, mulheres deslumbrantes e martinis, foi concebido em Portugal, onde seu criador, Ian Fleming, se inspirou nos segredos de espionagem durante a Segunda Guerra Mundial.

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Funcionário do Serviço de Inteligência Naval Britânica, o futuro autor chegou a Portugal em maio de 1941, junto com a comitiva de Sir John Godfrey. Portugal afirmava-se como país neutro, mas era urgente estreitar laços estratégicos com os Estados Unidos e os Aliados. Sob o regime de Salazar, Portugal pouco tinha a ver com a política europeia, sendo a sua vocação essencialmente ultramarina, pelo que o interesse português era o de afastar-se o mais possível desse conflito.

Salazar sempre se manifestou contra o anti-semitismo Nazi e, desde o início das perseguições aos judeus na Alemanha, sua política foi a de autorizar a sua entrada desde que pudessem deixar o país rapidamente, ou seja, uma política de trânsito para outros países, principalmente os Estados Unidos e o Brasil. Não por serem judeus, mas sim por serem potenciais motivos de tensão com a Alemanha, que Salazar temia, ou serem agitadores políticos e subversivos. O fato é que essa liberdade de trânsito trouxe refugiados de toda a Europa, e, em meio a eles, muitos agentes clandestinos.

Estoril, a 27 km de Lisboa, tornou-se um lugar estratégico das redes de espionagem dos dois lados e um ponto de referência para chegar ao continente americano. Os Aliados elegeram o Hotel Palácio como seu quartel-general, e foi ali, em suas elegantes acomodações, que o agente Ian Fleming, então com 33 anos, recebeu sua perigosa missão…

Hotel Palácio, Estoril, Portugal.

Hotel Palácio, Estoril, Portugal.

Naquele “ninho de espiões” em que o pacato balneário havia se transformado, Fleming convivia com espiões, muitas vezes nos balcões dos bares, com quem compartilhava martinis –  o drinque que se tornaria indissociável de James Bond – e conheceu o código morse usado para enviar informação confidencial.

Ian_Fleming

Ian_Fleming

A missão do agente era subornar o diplomata iugoslavo Dusko Popov, trazendo-o para o lado do MI6 (Military Intelligence, Section 6, a agência britânica de inteligência que abastece o governo britânico com informações das potências estrangeiras). Mal sabia ele que Popov trabalhava para os alemães…

Dusko Popov

Dusko Popov

A reputação de Popov, considerado “bon vivant” e “playboy”, marcou tanto Fleming que seu James Bond adotou vários traços do iugoslavo. Popov, cliente do Hotel Palácio, era muito profissional, com muito boa aparência e fazia enorme sucesso entre as mulheres. Ele chegou a ser apelidado no jargão dos serviços secretos com o código “triciclo”, porque andava muitas vezes acompanhado de três belas mulheres.

No Cassino de Estoril, o autor britânico viu Popov apostar US$ 40 mil (equivalente a quase US$ 650 mil em valores atualizados) em uma mesa de bacará, somente para despistar um inimigo. Este episódio foi utilizado como base para a primeira obra sobre James Bond, “Cassino Royale” (1953), onde o agente 007 enfrenta o vilão Le Chiffre em uma mesa de bacará.

Capa do primeiro livro de James Bond.

Capa do primeiro livro de James Bond.

Essa cena também é uma das mais tensas do primeiro episódio no cinema estrelado por Daniel Craig como James Bond, “Casino Royale”.

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Quem diria que James Bond é português, hein?

 

 

OBS – Fleming, como espião, teve sucesso em atrair Popov para os Aliados, já que o iugoslavo tinha antipatia pelos nazistas e aceitou de bom grado ser um agente-duplo. Foi nesse mesmo 1941 que Popov obteve um relatório alemão que descrevia detalhadamente o ataque surpresa que o Japão faria contra a base naval americana de Pearl Harbor no Havaí. Ele levou um mês para finalmente conseguir uma reunião com o então diretor do FBI e do Serviço Secreto, John Edgar Hoover. Hoover, que já conhecia o estilo de vida do espião, achou que o relatório era uma farsa e descartou-o.  A reunião acabou numa discussão acalorada. Quando Dusko Popov estava voltando de uma viagem ao Brasil, no dia 7 de dezembro de 1941, o ataque japonês foi deflagrado. Essa era a data prevista no relatório…

 

 

 

 

 

Fontes:

Miguel Conceição-UOL
Mais Educativa
Wikipedia

HOLLYWOOD CONTRA HITLER

Hitler não era o semianalfabeto que a propagada dos aliados fez o mundo acreditar. Ele era uma pessoa instruída e um leitor voraz. Segundo amigos, vivia sempre com um livro debaixo do braço e tinha pilhas de livros em casa.

Claro, quantidade não é e nunca foi sinônimo de qualidade, e é bem possível que ele tenha interpretado de forma errada os escritos do filósofo Arthur Schopenhauer, por exemplo, um de seus ícones. Mas o líder nazista era um sujeito educado e inteligente, isso não se pode negar. E aprendemos que líderes educados e inteligentes, e ainda carismáticos e donos de uma oratória convincente, podem provocar grandes mudanças.

Para o bem e para o mal.

Quando Hitler passou a usar maciçamente os então modernos meios de comunicação de massa, como rádio e cinema, para propagar a ideologia nazista, o mundo começou a perceber que ele poderia ser perigoso. Os filmes de propaganda, dirigidos pela cineasta preferida do Führer Leni Riefenstahl, eram extremamente bem feitos. Além de exaltar a figura de Hitler, a superioridade alemã e de sua raça Ariana, eles também a inseriram na história do cinema, com suas técnicas novas de enquadramento, ângulos de câmera, iluminação e nus.

No vídeo abaixo, alguns excertos do filme mais conhecido, O Triunfo da Vontade. Neles estão presentes as principais figuras do nazismo e todos os elementos da arte da propaganda do regime.

O famoso diretor americano Frank Capra percebeu o tremendo poder dessa brilhante peça de propaganda quando a assistiu, em 1943. Ele surpreendeu-se com o cinema produzido pelo Terceiro Reich.

Na sua opinião, o longa-metragem de Riefenstahl, mais do que a celebração do congresso do partido nazista na cidade de Nuremberg, em 1934, representava uma convocação sedutora à obediência e à agressão. “Estamos mortos. Acabados. Não podemos ganhar essa guerra”, declarou. Mas logo decidiu usar as mesmas armas e produziu sete documentários para as Forças Armadas americanas: “Vamos deixar os nossos jovens escutar os nazistas e japas gritarem as suas reivindicações de pertencimento a uma raça superior, e os nossos soldados vão saber por que eles estão em uniformes”, declarou o diretor. Why We Fight, o título da série, explicava por que a guerra contra a Alemanha, a Itália e o Japão era indispensável para a liberdade, usando inclusive trechos de “O Triunfo da Vontade”.

O trailer a seguir é do lançamento da série em DVD, em 2011:

Capra não esteve sozinho no combate ideológico ao nazifascismo. Ele e outros quatro realizadores de Hollywood formaram um grupo a serviço do governo dos EUA.  As razões alegadas por Capra, John Ford, John Huston, William Wyler e George Stevens para se alistar são usuais: o chamado do dever e o fascínio pela aventura.  

Capra foi o único dos realizadores a trabalhar para as Forças Armadas sem pisar em um campo de batalha. A atuação fora do front poupou-lhe danos físicos e psicológicos. Wyler, por exemplo, ficou praticamente surdo depois de filmar dentro de um bombardeiro. Huston voltou para os EUA com transtorno de estresse pós-traumático. Dirigiu Let There Be Light (1946), um documentário a respeito da “neurose da batalha” ou “aniquilação do espírito”. As Forças Armadas censuraram o filme por mais de 35 anos…

Stevens também se traumatizou. Em quase três décadas, o diretor de O Diário de Anne Frank (1959) calou-se sobre a sua experiência na liberação do campo de concentração de Dachau em 1945. Quando se pronunciou, ele citou A Divina Comédia. “Era como se vagasse por uma das visões infernais de Dante.” Enquanto desviava de cadáveres e de sobreviventes de corpos esqueléticos, Stevens filmou tudo o que testemunhava. O material serviu como prova contra os nazistas nos julgamentos de Nuremberg. 

Ford foi o primeiro dos cinco a se arriscar quando registrou o ataque aéreo dos japoneses ao Atol de Midway, no Oceano Pacífico. Enquanto filmava The Battle of Midway (1942), foi atingido por estilhaços. As imagens tremidas, a perspectiva distorcida e o foco turvo criaram um modelo mais realista, incorporado aos documentários de guerra que o sucederam. 

Five Came Back é o título que se deu a esses cinco documentários desses fabulosos diretores, e que mudaram a história do cinema.

Para demonstrar a tremenda influência da técnica desses diretores sobre os filmes posteriores, basta dizer que os primeiros 25 minutos de O Resgate do Soldado Ryan (1998), de Steven Spielberg, se devem às filmagens do Dia D dirigidas por Ford e Stevens. A estética de A Batalha de San Pietro, de John Huston, influenciou Platoon (1986), de Oliver Stone, e Guerra ao Terror (2009), de Kathryn Bigelow.

Mas a contrapropaganda produzida por Hollywood não se limitou aos documentários. Mesmo antes de os Estados Unidos entrarem oficialmente na guerra, a Warner Bros., um dos maiores estúdios da época, lançou em 1941 o filme antinazista estrelado por Gary Cooper, Sargento York, no qual um jovem pacifista abre mão de sua crença para matar e salvar outras vidas.

Os Estados Unidos ainda mantinham relações diplomáticas com a Alemanha, em 1940, e embora muitos militares e políticos pressionassem o presidente Roosevelt a abandonar sua neutralidade, a população era fortemente contra a entrada do país em mais uma guerra (isso só foi mudar em 1943, depois do ataque japonês a Pearl Harbor). Mas Charlie Chaplin não podia perder a oportunidade de ridicularizar o ditador alemão.

Aproveitando uma série de ataques por parte dos nazistas sobre sinagogas e lojas de judeus situadas na Alemanha, fato conhecido como a “Noite dos Cristais”, Chaplin produziu O Grande Ditador em 1940. O filme foi censurado em vários países, inclusive aqui no Brasil, e deixou Hitler furioso.

Hoje, é um clássico do cinema:

Mas Hollywood tinha outras armas em seu “exército”, e uma das mais poderosas foi Walt Disney. Disney teve seu estúdio “engajado” no esforço de guerra. Além de ver diversos de seus animadores convocados para lutar, se viu contratado pelas Forças Armadas para produzir filmes de treinamento e propaganda. Um dos mais celebrados produtos do front cultural do conflito foi o curta animado A Face do Führer, propaganda antifascista que venceu o Oscar de melhor curta de animação de 1943.

Na trama, Donald acorda na Alemanha Nazista, ao som de uma canção que exalta Adolf Hitler, num quarto cercado de suásticas. Logo de manhã, ele saúda Hitler, Hirohito e Mussolini.

Forçado a sair da cama, ele logo se veste com a indumentária nazista e toma seu terrível café da manhã. O pão, envelhecido, está tão duro que é preciso fatiá-lo com um serrote. Logo, Donald é obrigado a ler o livro Mein Kampf, escrito pelo Führer. Acuado, Donald é levado até a fábrica de armas, onde terá de trabalhar “48 horas por dia”, “como um escravo”, para Hitler. A cena na qual o pato tem de atarraxar bombas é uma clara alusão ao clássico Tempos Modernos, de Chaplin. Ao final, Donald felizmente acorda do que se revela ter sido um pesadelo. “Eu estou feliz por ser um cidadão dos Estados Unidos da América”, diz, ufanista.

Usar todas as suas armas foi a maneira que Hollywood encontrou para se contrapor á sofisticada máquina de propaganda nazista.

Mas a ofensiva dos Aliados não se limitou a isso. Quando foi preciso vencer essa guerra, a BBC teve uma ideia engenhosa: contar a verdade sem vernizes. A médio prazo, a sobriedade e o respeito aos fatos e à objetividade levaram a melhor sobre os discursos exaltados de Goebbels e Hitler.

Mas essa é uma história para uma outra vez…

Grandes cenas que não estavam nos roteiros

O grande Jack Nicholson

Ao contrário de outras expressões artísticas, como o teatro e a música, o cinema não costuma dar muito espaço para improvisações. Uma ou outra frase pode até ser dita de maneira diferente ou excluída pelo ator na hora da gravação, mas as cenas seguem um caminho bem definido, pautado pelo roteiro e pelas indicações prévias do diretor. Se assim não fosse, imagine quanto tempo levaria um filme para ser gravado, com as improvisações de astros como Jim Carrey ou o falecido e genial Robin Williams (conhecido como o “rei do improviso”)?

Mas…

Há quem ouse desafiar o que estava definido e, no meio da filmagem, partir para algo diferente ou propor outra solução. Se a mudança for genial, segue para a posteridade. Se não for, paciência, grava-se novamente e adeus ao improviso. O repórter Jeremy Singer, do Business Insider, faz uma lista de 10 grandes cenas que não estavam no roteiro, e escolhi cinco delas para mostrar. Se quiser ler o artigo na íntegra, está (em inglês) aqui.

“Heres Johnny!” – O Iluminado (The Shining,1980)

A imagem de Jack Nicholson com a cara enfiada no meio da porta e gritando “Heeeeere’s Johnny” se tornou uma das cenas mais lembradas do clássico do terror de Stanley Kubrick. A frase “Here’s Johnny” foi improvisada por Nicholson — ela era usada como frase de efeito pelo comediante Johnny Carson em um programa de televisão da década de 1950. Ponto para Jack, que colocou a frase na boca de toda uma nova geração.

A infância do soldado Ryan – O Resgate do Soldado Ryan (Saving Private Ryan, 1998)

O drama de Steven Spielberg é o filme de guerra preferido de muita gente, não à toa. A cena inicial, com a chegada dos soldados americanos à Normandia, entrou para a história do cinema. Evidentemente, nada dela poderia ter sido improvisado, e uma das sequências mais marcantes de todo o filme o foi: ocorre quando os personagens de Tom Hanks e Matt Damon aproveitam uma pausa nos combates para compartilhar histórias de suas vidas como civis, junto da família. O monólogo do soldado Ryan, quando  ele conta uma anedota sobre seu irmão e uma garota, surgiu diretamente da cabeça do ator, que ainda nos brinda com uma atuação inspirada. Prova de que Damon é mesmo uma celebridade acima da média.

“Are You Talkin to Me?” – Taxi Driver (1976)

Esta é a minha cena favorita de todas… Na pele do desajustado Travis Bickle, Robert De Niro olha para o espelho e começa a soltar frases de efeito, como se estivesse desafiando alguém. Ele pergunta: “Você está falando comigo?”. E, em seguida, aponta a arma escondida na manga do casaco. Um show de improvisação de De Niro em uma cena que ficou marcada na história do cinema — e certamente já foi repetida na frente do espelho por uma infinidade de atores e… cinéfilos, como eu, eh eh eh! Segundo o Business Insider, o roteiro de Paul Schrader apenas sinalizava que o personagem falava consigo mesmo no espelho. Aí, o genial ator decidiu aprofundar a cena como uma mostra do estado cada vez mais caótico da personalidade do taxista.

“Take the cannoli” – O Poderoso Chefão (The Godfather, 1972)

Claro que o épico de Francis Ford Coppola, O Poderoso Chefão, teria numerosas frases clássicas e cenas antológicas, e esta é apenas uma delas… Mas o curioso é que uma das frases mais marcantes não estava no script. Durante uma saída básica para dar cabo de um desafeto, o mafioso Peter Clemenza recebe a incumbência de sua esposa de levar pra casa o cannoli, tradicional sobremesa siciliana. Segundo o roteiro original, após matar o traidor Paulie, Clemenza apenas diria para o capanga que o acompanhava para deixar a arma no local. O ator Richard Castellano, porém, não perdeu a oportunidade de fazer uma graça e acrescentou uma frase à ordem, um tanto quanto inusitada para a situação. Daí nasceu o “leave the gun, take the cannoli”.

Indiana contra o espadachim – Os Caçadores da Arca Perdida (Raiders of the Lost Ark)

Acho que esta cena improvisada é a mais conhecida de todas. Segundo o roteiro, Indiana Jones deveria se envolver em uma perigosa luta com o espadachim, utilizando seu chicote. O pobre ator que “lutaria” com Harrison Ford ficou ensaiando as manobras com a espada por semanas, coreografando todos os movimentos. Ele só não contava que uma indisposição estomacal acabasse atacando o astro na noite anterior, situação que o deixou com pouca paciência e disposição para rodar a cena. Pouco antes da gravação, Harrison Ford consultou o diretor Steven Spielberg e sugeriu o que acabou se tornando uma das cenas mais divertidas do filme: Indiana ignora as acrobacias do espadachim e o despacha com um único tiro.

 

Há muitas outras, como a do Heath Ledger como Coringa explodindo o hospital em O Cavaleiro das Trevas, ou Bill Murray em Tootsie, ou ainda Martin Sheen socando o espelho em Apocalypse Now, do Coppola.  E até Woody Allen, que nunca permitiu improvisações em seus filmes, espalhando 2.000 dólares de cocaína com um espirro em Noivo Neurótica, Noiva Nervosa. Talvez eu prepare uma continuação desta postagem, para mostrar essas e outras cenas antológicas… e improvisadas!

 

 

 

 

 

 

 

Fonte:

  • Rafael Waltrick, gazetadopovo.com.br