Briga sobre conta de esgoto fez cidade ser extinta…

As cidades são fundadas e continuam a existir ou desaparecem. Mount Union, no estado americano de Iowa, vai desaparecer, mas o motivo é inusitado: por causa da conta de esgoto!

Explico: Mount Union foi fundada em 1910, mas nunca realmente conseguiu se desenvolver como município. Começou com 195 habitantes e, no último censo de 2015, tinha 107, dos quais 80 eleitores…

Há cerca de 10 anos, esses eleitores concordaram em instalar um caríssimo sistema de coleta de esgotos, de US$ 1,2 milhões de dólares (caríssimo para a cidade desse tamanho, claro). Tudo para evitar a contaminação dos mananciais, porque a cidade, em seus 100 anos de vida, ainda não tinha esgoto.

Boa parte do custo do sistema foi financiado pelo Departamento de Agricultura do governo, mas restou um montante de US$ 300 mil, que deveria ser absorvido pelo município. A prefeitura decidiu ratear a dívida na conta dos moradores, que habitam as  51 residências da localidade. Só que a conta, que em média era de US$ 35,00, foi para US$ 150.00! Em reais, seria de 110,00 para 450,00 reais por mês!

Claro que vários moradores não conseguiram pagar, isso foi para a dívida do município e a cidade quebrou. A solução encontrada para resolver a pendência foi… Dissolver a cidade.

Os votantes registrados no município, cerca de 80 entre os 107 moradores (os demais são crianças ou idosos…) decidiram isso em um referendo, e logo os serviços públicos serão desativados, como correio, iluminação, coleta de lixo etc. Vão desaparecer também os endereços, e quem procurar na lista de códigos postais a cidade de Mount Union não encontrará nada, ou então verá um aviso de “Esta cidade não existe”.

Muita gente já está procurando outro lugar para morar.

Para que a cidade de fato desapareça do mapa, porém, os débitos terão que ser quitados. E a forma encontrada foi colocar à venda todas as propriedades, e com o dinheiro arrecadado, zerar a conta, além de remunerar os proprietários, claro.

Veja essa casa da foto aí embaixo. Ela fica na Oasis Avenue. Tem 200 M2, 3 quartos, dois banheiros e foi construída em madeira em 1920, dentro de um terreno de 1,2 acres. Tem lareira, cozinha completa, sala de estar e de jantar, garagem e piscina nos fundos. Não sei o que o atual proprietário faz com os restantes 4000 m2 de sua propriedade… Enfim, ele está pedindo US$ 143,000.00 por ela, ou R$ 450.000,00 ao dólar de hoje.

Você compraria uma casa linda dessas numa cidade que não existe?

 

 

 

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Primeiro shopping da América Latina, Iguatemi completa 50 anos

De ponto micado na época da inauguração, em 1966, o centro comercial se tornou o metro quadrado comercial mais caro da América Latina

O Shopping Iguatemi na época da inauguração

O Shopping Iguatemi na época da inauguração

Idealizado pelo construtor Alfredo Mathias, o empreendimento foi erguido no terreno de uma chácara da família Matarazzo. Ficava num trecho da Rua Iguatemi – daí o seu nome – que anos mais tarde foi transformado na Avenida Faria Lima. Mathias vendia cotas aos interessados em churrascos promovidos no próprio canteiro de obras.

Mas os lojistas não levavam fé no empreendimento. Na época da inauguração, em novembro de 1966, os consumidores gostavam mesmo era de flanar pelas butiques chiques da Rua Augusta. Assim, a novidade de apostar num centro comercial não chegou a ser das mais empolgantes para os empresários. O resultado foi uma disputa para ficar nos lotes mais próximos da entrada. Eles acreditavam que a freguesia jamais caminharia até as lojas dos fundos.

Manequim posando no point mais chique dos anos 1960: Paulista com Augusta. Ao fundo, o antigo cine Astor no Conjunto Nacional.

Manequim posando no point mais chique dos anos 1960: Paulista com Augusta. Ao fundo, o antigo cine Astor no Conjunto Nacional.

 

No dia da inauguração, a festa com artistas famosos como Chico Anísio, Chico Buarque, Nara Leão e Eliana Pittman atraiu cerca de 5.000 pessoas, todo mundo curioso para saber do que se tratava aquele novo empreendimento na cidade. Dentre as festas de inauguração, foi organizado um Campeonato de Autorama.

Com o passar dos anos, os consumidores migraram para os centros comerciais, que, depois do sucesso do Iguatemi, se espalharam pela cidade e pelo país; e enquanto as vizinhanças da antiga rua Iguatemi se valorizaram, mudando a paisagem do bairro, as grifes saíram da rua Augusta e ela entrou em decadência como o “point” da elegância.

Hoje, onde havia esse osto de gasolina bem em frente a Shopping Iguatemi, há uma moderno e enorme prédio de escritórios.

Hoje, onde havia esse posto de gasolina bem em frente a Shopping Iguatemi, há uma moderno e enorme prédio de escritórios.

Quem conhece o centro comercial certamente passou pelas rampas na entrada. E há uma explicação para elas. Privilegiar luz e ventilação naturais é um dos objetivos do projeto arquitetônico. Além de esteticamente interessantes, as rampas foram um meio de integrar o térreo ao 1º piso – e, assim, deixar tudo mais arejado. O ambiente nesse espaço, cujo pé-direito no ponto mais alto chega a 18 metros, lembra o de uma rua arborizada. Nos demais andares, construídos depois, reina o ar condicionado, mesmo.

Ontem e hoje

Na inauguração, havia 75 lojas. Cinco anos depois, já operava com 160, com um fluxo de clientes que começava a se aproximar de 1 milhão de pessoas/mês. Hoje, são 314 lojas e mais de 1,5 milhão visitantes/mês.

Algumas curiosidades durante esses 50 anos:

  • Na década de 1990, o shopping sorteava um BMW para os consumidores durante as compras de Natal, algo inédito na época
  • O Empório Armani foi a primeira marca estrangeira a entrar no Iguatemi, em 1998.
  • Em 1994, um incêndio destruiu completamente o Cine Iguatemi. Ninguém se feriu. Depois do incidente, os cinemas passaram a exibir instruções de segurança
  • Em 2001 foi a vez da joalheria Tiffany & Co estrear em solo brasileiro. A Louboutin veio oito anos depois, em março de 2009, com a sua primeira loja na América Latina
  • No fim da década de 1980 e início dos anos 1990, o Iguatemi passou a anunciar ofertas na televisão para aumentar o movimento e as compras às segundas-feiras
  • No Dia das Mães. mais de 15 mil tulipas são espalhadas pelo shopping.
  • Nos últimos anos, o shopping figurou no ranking dos 20 endereços mais caros do varejo mundial, ao lado dos balados 5ª Avenida (Nova York) e Champs-Elysées (França).

 

 

 

O vilarejo que está morrendo

Viajar para a Itália é sempre um sonho. Agora imagine viajar para um vilarejo medieval com mais de 600 anos de história, no alto de uma montanha de mais de 400 metros de altura, no meio de um belo vale na região do Lázio.

Pois saiba que esse vilarejo existe, e está morrendo…

Pouco a pouco, e de forma permanente, Civita di Bagnoregio está desaparecendo. E tem sido assim por séculos. Deslizamentos de terra gradualmente degradaram os penhascos, a ponto de eliminar a antiga moradia de pedra do mais famoso filho da terra, Giovanni di Fidanza, o teólogo medieval canonizado como São Boaventura.

Durante anos, essa guerra perdida para o atrito geológico não tinha muita importância porque quase ninguém morava em Civita, e eram poucas as pessoas que visitavam a pequena cidade.

A população ainda é pequena – talvez tenha seis habitantes, talvez oito –, mas Civita, a 121 km ao norte de Roma, no centro da Itália, agora é um dínamo do turismo, com mais de 500 mil visitantes esperados neste ano.

É candidata a se tornar patrimônio mundial da Unesco. É o destaque de uma campanha de turismo local e aparece em propagandas de ônibus que circulam por Roma. Mas continua a se desintegrar, ainda que lentamente. Em maio, uma encosta cedeu perto da estrada suspensa, com uma única pista, que leva à passarela que conduz ao vilarejo. A estrada permanece estável, e equipes estão trabalhando nas encostas. Os turistas, ao que parece, nem perceberam.

Um geólogo da região estimou que Civita sofreu cerca de dez deslizamentos de terra no ano passado, alguns deles pequenos, outros mais graves.

“A chuva é o problema principal”, disse o geólogo, Giovanni Maria Di Buduo, supervisor de um museu local dedicado à geologia de Civita e dos arredores. “A chuva entra nas fraturas da rocha vulcânica e cria alterações. Nos últimos cinco séculos, vimos uma redução do penhasco cerca de 20%, devido aos deslizamentos.”

Dado o recém-descoberto comércio turístico, bem como a importância histórica e cultural de uma aldeia originalmente construída pelos antigos etruscos, o governo regional do Lázio planeja ações para responder ao problema.

Uma possibilidade é fazer pressão por uma legislação nacional que conceda estatuto especial e financiamento para Civita.

HISTÓRIA DE LUTA

Os etruscos construíram Civita há mais de 2.500 anos. Trata-se de uma das muitas aldeias fortificadas, em topos de colinas, para que se protegessem dos invasores nos vales abaixo. Mas com o passar dos séculos e as mudanças bélicas, que eclipsaram as vantagens estratégicas de Civita, a cidadezinha ficou cada vez mais isolada.

Para piorar, um terremoto atingiu o vilarejo no século 17; o governo local foi transferido para o que era o povoado vizinho Bagnoregio, e que ainda hoje é responsável por Civita.

Depois, a erosão piorou o problema. Os deslizamentos de terra transformaram a aldeia em uma ilha compacta, quando uma ponte de terra que ligava Civita a Bagnoregio gradualmente se desintegrou (posteriormente foi substituída por uma passarela de aço e concreto, utilizada hoje em dia). Mapas no museu geológico da cidade documentam o encolhimento permanente de Civita e como a erosão mastigou seu tufo vulcânico calcário.

“Esse deslizamento foi de novembro do ano passado”, disse Luca Profili, vice-prefeito de Bagnoregio, ao apontar cascalhos no fundo de um penhasco. À distância, a paisagem que rodeia Civita é uma mistura de vales verdes imersos em encostas brancas, calcárias, em erosão. “Se você olhar as fotos do ano passado, essas áreas mudaram, porque o solo é muito frágil”, acrescentou Profili.

Não muitos anos atrás, o declínio parecia inevitável, o que talvez explique o apelido de Civita,  “o vilarejo que está morrendo”. A não ser pelo fato de que não morreu, ainda…

Autoridades de turismo no Lázio promoveram Civita em campanhas publicitárias de alcance nacional. Reportagens nos meios de comunicação destacaram a novidade de uma aldeia medieval intocada no topo de um penhasco irregular, confrontado pela erosão. Era irresistível e incrivelmente pitoresco.

“A fragilidade da Civita é ruim, mas é isso também o que faz dela um lugar único”, disse Profili. “É a ideia de que você a tem hoje, mas não sabe se a terá amanhã.”

Agora restaurantes e lojas de lembrancinhas se abastecem para atender ao fluxo de visitantes. Vários edifícios de pedra foram convertidos em bed and breakfast.  Na Sexta-Feira Santa, o grande crucifixo da catedral é levado em uma procissão para Bagnoregio – e sempre volta, porque reza a lenda que Civita desaparecerá se o crucifixo não estiver de volta até a meia-noite antes da Páscoa.

Hoje, o vilarejo fica cheio durante o dia, mas se esvazia à noite, a não ser pelos hóspedes dos bed and breakfasts ou os poucos moradores que chamam esse lugar de casa. Para eles, esse renascimento de Civita é um prazer inesperado. Várias gerações viveram aqui até os anos 1960 e 1970, quando não se conseguia trabalho e todo mundo foi embora.

Os poucos resistentes trabalham para os turistas, abrindo lojinhas ou restaurantes. Não é um mau negócio em um vilarejo que talvez não esteja morrendo, no final das contas.

 

 

 

Fontes:

NEW YORK TIMES

mobly.com.br

Cidade-fantasma queimará por mais 500 anos

Tudo começou com um incêndio de pequenas proporções num aterro de lixo, mas sem ser combatido, o fogo invadiu as minas de carvão

Tudo começou com um incêndio de pequenas proporções num aterro de lixo, mas sem ser combatido, o fogo invadiu as minas de carvão

Centralia é um distrito localizado no estado norte-americano de Pensilvânia, que contava com cerca de 5 mil habitantes na década de 1960. O local também abrigava cinemas, escolas, restaurantes, igrejas e uma mina de carvão.
Segundo o censo norte-americano de 2000, a sua população era de 21 habitantes. Em 2007, foi estimada uma população de 9, já em 2012 eram apenas 4 habitantes. O motivo? Um terrível incêndio na mina que simplesmente devastou a região, com chamas que continuam ardendo, mesmo após mais de 40 anos desde o incidente.
Com carvão mineral em abundância, a atividade na mina era a principal fonte de renda da cidade. Até que, em algum dia de 1962 , a queima de um aterro sanitário causou um enorme incêndio na mina de carvão abandonada. O fogo se espalhou pela mina, que se estendia por quase todo o subsolo da cidade, liberando gases tóxicos por toda a região. Devido ao calor gerado, ocorreram inúmeros incêndios. A população foi obrigada a abandonar a cidade para evitar doenças respiratórias, já que ninguém conseguiu conter a devastação.

Na foto da esquerda, a avenida principal da cidade há  mais de 30 anos. Na foto da direita, a mesma avenida, 18 anos depois.

Além dos gases tóxicos, muitos outros perigos foram assustando os moradores de Centralia. O dono de um posto de gasolina fechou as portas em desespero após descobrir que a gasolina no tanque subterrâneo estava com mais de 75 °C.
Em 1981, Todd Domboski, um garoto de 12 anos, caiu em um buraco de 46 metros de profundidade que surgiu repentinamente sob seus pés. Só foi salvo graças a seu primo, que conseguiu retirá-lo dali rapidamente. Foi esse incidente que tornou a cidade conhecida nacionalmente, e inspirou produtores e roteiristas de cinema, que fizeram o filme de terror “Silent Hill”.
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Em 1984, o Congresso americano conseguiu mais de US$ 42 milhões em recursos para a realocação dos moradores. Em 1992, o governador Bob Casey assinou um decreto, condenando todas as casas e prédios da cidade. E, em 2002, o serviço postal americano revogou o CEP de Centralia (17927). Isso significa que, para todos os efeitos, ela não existe mais…
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Os especialistas estimam que, por conta das reservas de carvão no subsolo, a cidade-fantasma continuará queimando por mais 500 anos…
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Rios invisíveis de São Paulo

De cada 100 paulistanos, apenas cinco viram o Rio Pinheiros com curvas e várzeas. Quem tem menos de 70 anos só o conhece como ele é hoje: um canal reto, poluído e cercado por enormes avenidas e prédios espelhados em suas margens. As pessoas que nunca saíram de São Paulo não sabem o que é conviver com um rio. Tocar nas águas geladas de um córrego? Parar para ouvir o barulho de um riacho? Programa de férias.

Mas nem sempre foi assim na metrópole mais importante do Brasil. E não por causa dos seus dois rios fétidos (além do Pinheiros, tem o infame Tietê). Mas por causa das centenas de riachos e córregos que a cidade tem. Isso mesmo, centenas.

Estima-se que a capital paulista tenha entre 300 e 500 rios concretados embaixo de casas, edifícios e ruas. São impressionantes 3 mil quilômetros de cursos d’água escondidos. São Paulo deu as costas a seus rios, o que não é nem de longe uma novidade. “Nunca os tratamos bem”, diz o geógrafo Luiz de Campos Júnior. “Desde o início, quando uma casa era construída, ela não ficava de frente para um córrego. Os riachos sempre ficavam relegados ao fundo do quintal”. A água era vista como um excelente meio para levar embora tudo o que não se quer mais.

(Se você clicar na imagem, ela vai aumentar e você poderá navegar por ela para saber onde estão os rios concretados da cidade).

Campos é um dos idealizadores do movimento Rios e Ruas, que organiza expedições para que as pessoas encontrem os chamados rios invisíveis da metrópole, que estão debaixo da terra, mas ainda podem ser vistos e ouvidos por bueiros e meios-fios. Triste ironia para a cidade que está passando pela maior crise de abastecimento de água de sua história. Logo ela, fundada no alto de uma colina entre três rios, Tietê, Anhangabaú e Tamanduateí, e que ganhou o nome de Vila de São Paulo de Piratininga devido à abundância de peixes (em tupi-guarani, “pira” é peixe).

Por séculos, os paulistanos usaram os rios. Além de transporte de mercadorias, pesca e criação de animais, sua água era usada para todas as necessidades da casa. No começo do século 20, remar e nadar no Pinheiros e no Tietê eram atividades comuns. Não é à toa que o distintivo do time mais popular da cidade tenha uma âncora e um par de remos. No Corinthians dos anos 30, o remo era um dos principais esportes. Os rios faziam parte da vida da cidade.

CIMENTO, CIMENTO

A primeira grande reforma do Tamanduateí aconteceu na década de 1910. Em 1928, as obras que eliminaram as curvas do Pinheiros tiveram início. Nas décadas seguintes, o desenvolvimento econômico do país sepultou de vez a bacia hidrográfica paulistana. O carro se tornou símbolo do Brasil pujante dos anos 50. Com as novas fábricas de automóveis instaladas, surgiu a demanda por vias para eles trafegarem. E o único espaço para fazer avenidas era sobre os rios, pois os morros já estavam ocupados.

Então, os cursos d’água começaram a ser canalizados e, frequentemente, aterrados, para dar lugar a grandes avenidas. Hoje, muito do que é conhecido por asfalto, concreto, corredores de veículos e arranha-céus era, na verdade, água. O Vale do Anhangabaú, tradicional ponto turístico e de manifestações populares, tem esse nome por conta do Rio Anhangabaú, que nasce perto da Avenida Paulista. Algumas das principais vias da cidade estão sobre rios canalizados.

(Clique na imagem abaixo, para visualizar melhor as principais vias construídas sobre nossos rios).

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Isso foi nefasto para São Paulo, até do ponto de vista psicológico. É mais fácil esquecer o que está enterrado e invisível. Para as gerações mais jovens, nem há o que esquecer, já que milhões de pessoas nem sabem que existem rios e córregos debaixo de seus pés. E esses cursos d’água continuam lá, vivos.

Rios limpos, com água corrente e margens arborizadas, enfeitam qualquer cidade e melhoram a qualidade de vida. Mas eles podem fazer muito mais. Asfalto e concreto impedem que a água da chuva seja absorvida e fazem com que ela leve sujeira das ruas para os rios. Mais rios a céu aberto, então, significa menos enchentes na cidade. Outras vantagens são o incremento do turismo e a criação de melhores e mais saudáveis espaços gratuitos de convivência.

A seca que afeta São Paulo nos últimos tempos também tem a ver com o descaso dado aos rios. A despoluição de um rio e a renaturalização da paisagem ajudam a refrescar o clima e, consequentemente, a trazer mais chuvas, lembra a arquiteta Pérola Brocaneli, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e especializada no assunto.

No interior do Estado, uma cidade vivenciou isso. Em 1990, Iracemápolis sofria com falta d’água. A prefeitura procurou ajuda do biólogo Ricardo Rodrigues, da Escola Superior de Agronomia Luiz de Queiroz (Esalq-USP), que iniciou um projeto de recuperação da mata ciliar e conservação do solo. Em 2014, Rodrigues voltou à região e viu que, enquanto as cidades vizinhas enfrentam a crise hídrica, Iracemápolis vai bem, obrigado.

A VOLTA DA ÁGUA

Felizmente, hoje já surgem na cidade casos que comprovam o poder de mudança que a reabertura de um rio pode trazer – e o quão diferente ela seria se toda essa água viesse à tona. O Córrego Pirarungáua ficou escondido durante 70 anos em uma galeria dentro do Jardim Botânico, no bairro do Ipiranga. As águas corriam por um canal subterrâneo, construído no início do século passado. Quando, em 2007, uma das paredes da galeria ruiu, a administração do local decidiu revitalizar o córrego. No ano seguinte, ele foi reaberto.

Domingos Rodrigues, diretor do Centro de Pesquisa Jardim Botânico e Reservas, explica que o processo de regeneração do rio ajudou no aumento da população de espécies nativas, inclusive algumas ameaçadas de extinção. E, desde que o córrego veio à luz, o número de visitantes no parque se multiplicou. “É um processo inevitável. Vamos ter que limpar nossos cursos d’água”, acredita Campos. Na zona oeste da cidade, o Córrego das Corujas, que percorre bairros como a Vila Madalena, ganhou nova vida. A prefeitura, pressionada por moradores, melhorou o acesso a partes do córrego. Hoje, há um parque linear no entorno dele. Em alguns pontos, os vizinhos levam cadeiras e se reúnem no gramado.

São iniciativas tímidas e de pequena escala, mas que mostram como o ambiente urbano pode ser transformado. “Se os rios fossem trazidos novamente à superfície, a população dificilmente permitiria que eles ficassem poluídos”, acredita Stela Goldenstein. “A proximidade é importante para a recuperação deles.” Em São Paulo, falta água na torneira e sobra no subsolo.

NOVOS RIOS

Desde 2000, a política na União Europeia é bastante rígida com a limpeza de seus rios. Isso acelerou o processo de despoluição em vários deles. O Sena, em Paris, considerado morto em 1960, hoje tem mais de 30 espécies de peixes. Quem se atreve a poluí-lo pode pagar multa de €100 milhões. O Tâmisa, em Londres, já foi símbolo de rio imundo. Hoje é exemplo de recuperação. Nos Estados Unidos também há casos assim. No entorno do principal rio de Chicago, a prefeitura está construindo ciclovias e calçadões e estimulando os passeios de barco, uma das principais atrações turísticas locais.

RIOS SÃO QUASE IMORTAIS

Rios são um fio de água que brota de um lençol freático, lago ou degelo de montanha e seguem de um ponto mais alto a um mais baixo. A vida nele pode acabar. Mas o rio em si continua vivo. Não importa por quantos anos ele seja maltratado, sempre será possível recuperá-lo. Se ele for canalizado e enterrado, ainda assim terá vazão e fluirá. Se a nascente for cimentada, ela procurará outro lugar para sair.

 

 

 

Fonte:

Suzana Bizerril Camargo – Superinteressante – Planeta Sustentável

Japonês eremita toma conta de cidade abandonada na selva amazônica

A cidade de Airão Velho, no Estado do Amazonas, teve seu auge há mais de 100 anos e sua decadência econômica traduziu-se na partida dos moradores. Hoje, um único homem vive ali e tornou-se o guardião do local.

Shigeru Nakayama tem 62 anos e chegou ao Brasil há mais de 50 anos. Nasceu em Fukuoka, no sul do Japão, e mudou-se durante o grande fluxo migratório de japoneses no começo dos anos 1960. O Japão, à época, passava por dificuldades econômicas e o Brasil precisava de mão de obra na agricultura. Sua família, então, assentou-se no Pará.

No início dos anos 70, ele e um grupo de amigos partiram para a Amazônia em busca de trabalho, e estabeleceram-se às margens do Rio Negro.

Chegou a Airão Velho em 2001, quando a cidade já estava abandonada havia quase 70 anos. O vilarejo teve seu auge econômico durante o período do Ciclo da Borracha, quando a região era movida pela exploração do látex.

Com o declínio da produção, aos poucos, quem morava ali se mudou para outras regiões.

Airão Velho, a 180 km de Manaus, também foi berço da colonização portuguesa, como pode ser visto no único cemitério do local, onde estão enterradas gerações inteiras.

A família lusitana Bizerra “mandava” na cidade e um de seus últimos membros viveu ali até meados do século 20. Foi um deles que pediu, pessoalmente, a Nakayama que cuidasse dali. E ele aceitou.

“Meu sonho desde criança era viver na floresta amazônica”, diz ele, em seu carregado sotaque japonês. “Se eu sair, a história morre”. Nakayama diz ter tido ajuda de dois amigos para avançar sobre o mato que havia tomado Airão Velho. “Tudo estava completamente abandonado havia mais de 40 anos”, diz.

Gerações inteiras de famílias portuguesas estão enterradas na cidade abandonada.

Hoje, recebe e guia turistas, a maioria estrangeiros, mas recusa-se a cobrar entrada. Em troca, recebe comida e doações dos visitantes.

Em sua pequena casa de madeira, de apenas três cômodos e chão de terra, montou um pequeno museu onde reuniu objetos históricos recolhidos nas imediações.

Dorme em uma modesta cama de solteiro, gasta pelo tempo. Planta o que come – longe dali, diz, já que a área é de preservação ambiental. E, todos os dias, cuida de “sua” cidade, andando sempre com um facão – ou terçado, como dizem os amazonenses – como forma de proteção.

A tecnologia quase não existe por ali, a não ser pelo pequeno televisor movido por um gerador de energia e um antigo rádio de pilhas.

“Airão é um patrimônio histórico. Plantação, roça, derrubar floresta, é completamente proibido. Do jeito que está, tem que deixar assim. É área de patrimônio”.

E diz temer que um dia o local seja esquecido e novamente abandonado: “Se eu sair, a história daqui morre. Todo mundo sabe disso”.

 

Fonte:
BBC Brasil

Uma história do Morro Caaguaçu ao Morro do Chá – Avenida Paulista

A Avenida Paulista já se chamou Rua da Real Grandeza, área que pertencia à Chácara do Capão, propriedade do português Manuel Antonio Vieira, nos idos de 1880. A mata da região era densa e cobria todo o morro com árvores muito altas como o Jatobá, Pau-ferro, Embaúba, entre outras. Por essa razão, o lugar era chamado pelas tribos indígenas que viviam por aqui de Morro do Caaguaçu, ou “Mata-Grande”, no dialeto tupiniquim.

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A avenida Paulista na década de 1920

Para valorizar a região e chamar a atenção dos barões do café, cujas famílias construíram suas residências nos bairros de Campos Elísios e Higienópolis, tornando o bairro o preferido da elite paulistana, o português resolveu lotear aquele platô, dividindo parte da chácara em lotes, caprichando na escolha do nome. Foi assim que nasceu a Rua Real Grandeza.
Uma picada foi aberta para facilitar a subida dos animais em direção aos matadouros que se espalhavam pelo lado central e leste da cidade, como na Rua Quintino Bocaiuva, Ladeira de Santo Amaro e outros pontos fedorentos e de pouca higiene. Essa passagem chegou a se chamar Maria Augusta, para em pouco tempo, em 1875 conforme os primeiros registros, virar só Rua Augusta, palavra de origem latina que significa Majestade, Venerado, Absoluto.
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Os congestionamentos parecem estar no DNA da Avenida Paulista. Este da foto é de 1928…

Toda a região servia de passagem para boiadas vindas de uma parte que conhecemos por bairros de Santo Amaro, Pinheiros, Butantã e adjacências. Nos tempos da abertura da Real Grandeza, os animais que vinham do sul da cidade subiam pela Rua Augusta até o ponto mais alto do Morro Caaguaçu, para depois começar a descer e alcançar o Morro do Chá.

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Vista de 1916 do Trianon, onde hoje fica o MASP

Somente no dia 8 dezembro de 1891, por iniciativa de Joaquim Eugênio de Lima, engenheiro que projetou a alameda que recebeu seu nome, a avenida passou a se chamar Paulista, em homenagem às pessoas nascidas na capital. Arrojada, muito larga, com três vias separadas por magnólias e plátanos trazidos da Europa, foi a primeira via pública asfaltada e arborizada da cidade de São Paulo.

A_Av Paulista 1952

Hoje, todos os casarões que enfeitavam a avenida, palacetes que abrigaram as famílias que fizeram a história da cidade, como Matarazzo, Caio Prado, Horácio Sabino, Andraus, Cerqueira Cezar, Dumon’t Villares e tantas outras, foram derrubados junto com as árvores para dar lugar aos altos edifícios que encantam tanta gente…

 

São Paulo. Crédito para Divulgação-Embratur (2)

 

 

Cristina Torres
Fontes: Ajorb, Arquivo O Estado, Wikipedia, São Paulo Antiga