A dublagem venceu as legendas

O que me aborrece não é a dublagem de filmes ou seriados. O que me aborrece é NÃO ter a opção de escolha.

Se a pessoa prefere assistir seus filmes dublados porque “está no Brasil e quer ver no seu idioma”, ou porque “dá agonia ler tanta legenda que pra piorar muitas vezes estão fora de sincronia” (o que está entre aspas foi transcrito de comentários na internet) ou porque acha mais cômodo, então vá em frente; só que eu prefiro assistir com legenda, oras! Não é elitismo nem nada, apenas uma questão de gosto, de quem aprecia o cinema, como eu.

Depois da ascensão da “nova classe média”, como o governo federal define as famílias com renda mensal  (somando todas as fontes) entre R$ 1.000 e R$ 4.500,00 – e que corresponde a 50,5% da população, sendo dominante do ponto de vista eleitoral e do ponto de vista econômico, pois detêm 46,24% do poder de compra e supera as classes A e B (44,12%) e D e E (9,65%) – todas as operadoras de TV paga e distribuidoras de filmes para os cinemas optaram maciçamente pela dublagem. Se você quiser assistir ao novo desenho animado da Disney nos cinemas – e legendado -, não vai encontrar nenhuma sala que o exiba, ou, se existir, será em horários complicados.  Acontece a mesma coisa com todos os filmes, a maior parte das cópias é dublada. Quem não se dispuser a isso, vai ter que esperar sair no DVD/Blu-Ray. Nas TVs pagas, a situação é até pior: há canais de filmes em que não há a opção de legendas  e, quando há a opção da tecla SAP, não tem legenda… Quer dizer, os deficiente auditivos, por exemplo, como ficam?

É compreensível essa opção comercial pela dublagem, afinal, dublado dá mais audiência e mais bilheteria. Pelo menos as dublagens brasileiras são geralmente muito boas,  exceto quando entra voz de criança, aí de fato é terrível… Ou quando chamam celebridades nada a ver para dublar, mas aí entramos em outra discussão.  Se a dublagem é feita por profissionais bem remunerados e compromissados com a profissão, dá uma surra em  “atores” que só estão lá por terem um rostinho bonito.

Infelizmente, o que parece que vem acontecendo é que as empresas estão cortando custos (pra variar…) e comprando dublagens de estúdios menores com profissionais menos empenhados na qualidade da tradução e sincronia dos diálogos. E aí, você vai correr o risco de ouvir o Schwazenneger falando “mermão” e com a voz do dublador que faz também o Mel Gibson e o Bruce Willys e o Rei Leão e o Wesley Snipes e o Steve Austin e o Chaves e o Homer Simpson e o Darth Vader e o Jaspion e etc etc…

Quem leva a sério o trabalho de dublagem sabe que ele é meticuloso e  exige atenção para vários fatores, como sincronicidade de falas, de pausas, de reações e até de respirações; ao mesmo tempo em que se ouve as falas originais, a dublagem solicita uma interpretação natural e a dicção mais limpa possível de sotaques, a não ser que o personagem exija. Não é um trabalho fácil, não.

Agora, não aceito o argumento dos defensores da dublagem de que “na Europa todos os filmes estrangeiros são dublados”. E daí? Então, como lá é assim, vamos copiar aqui porque é chique, é isso?… O detalhe é que na Itália e na França, isso é lei. Há apenas poucas salas com o áudio original, e pelo que eu sei, todas sem legenda (na primeira vez que fui à Itália, quis assistir ao “Dança com Lobos” do Kevin Costner e entrei na sala com cópia sem dublagem. Entendi muito pouco porque meu inglês era parco e porque não tinha legenda…)

Nem aceito o argumento desse box abaixo, que vi numa revista Época de 2012 em defesa da dublagem:

Não li a matéria toda porque esse box já me afastou, mas pelo tom, ela parecia até encomendada por interessados em preparar a cabeça das pessoas para o inevitável: a dublagem vai prevalecer.  Como escreveu Bruno Carvalho em seu site, “pra quê investir em tecnologia para oferecer trilha original e legendas? Esse é um custo adicional ao custo da dublagem que eles não querem e não vão arcar”.  

Mais e mais canais irão optar pela dublagem em detrimento da legendagem, que é mais barata – porém, para crescer em audiência, os canais terão que se render ao gosto do espectador, e a maioria prefere dublagem. A mesma coisa no cinema.

Que seja assim, mas o que eu quero é ter a opção da legendagem.

Quero curtir o filme como cinema, e não apenas como divertimento. Quero curtir a cenografia, a fotografia, o enredo, o som, a música, a direção de atores e a atuação dos atores – que, obviamente, inclui a voz.  Tudo bem, posso não ser um espectador “normal”, mas e daí? Tenho esse direito.

Outro dia assisti “De Pernas para o Ar 2”, com a Ingrid Guimarães e a Maria Paula. Leve, divertido, cenas hilárias, fotografia e figurinos muito legais, o som ótimo – deve ser horrível assistir esse filme dublado, vai perder toda a graça do timing da Ingrid. Mas talvez a dublagem trouxesse uma coisa boa, afinal: daria para entender o que a Tatá Werneck fala…

(isso também vai acontecer quando a TV Globo vender essa novela em que ela aparece para os países de língua hispânica).

Os dubladores que me perdoem, mas eu quero ouvir o sotaque escocês cheio de chiados do Sean Connery ou o sotaque texano mastigado do Matthew McConaughey. Quero curtir o Robert de Niro falando com o espelho You talkin’ to me? na famosa cena de “Taxi Driver”:

Peço desculpas ao dublador que faz o Jim Carrey , imagino o esforço dele, mas prefiro ouvir o ator no original:

DUBLADA

ORIGINAL (não achei a mesma cena com legendas)

Assim como prefiro a gatíssima Penélope Cruz no original!

Repito, eu quero ter a opção de assistir meus filmes e seriados com legendas.

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O agente da U.N.C.L.E.

A Guerra Fria foi um dos momentos dramáticos da história moderna, e é como os historiadores chamam o período entre o final da Segunda Guerra e o começo da década de 1990. Foi durante esses anos que os Estados Unidos e a União Soviética disputavam a hegemonia política, econômica e militar no mundo. A União Soviética possuía um sistema socialista, baseado na economia planificada, partido único (Partido Comunista), igualdade social e falta de democracia. Já os Estados Unidos, a outra potência mundial, defendia a expansão do sistema capitalista, baseado na economia de mercado, sistema democrático e propriedade privada. Na segunda metade da década de 1940 até 1989, estas duas potências tentaram implantar em outros países os seus sistemas políticos e econômicos.

A definição para a expressão “guerra fria” é a de um conflito que aconteceu apenas no campo ideológico, não ocorrendo um embate militar declarado e direto entre as duas potências, até porque um conflito armado direto significaria o fim dos dois países e, provavelmente, da vida no planeta Terra. Porém ambos acabaram alimentando conflitos em outros países como, por exemplo, na Coreia e no Vietnã.

O cinema, a literatura e a TV se aproveitaram desse clima antagônico e complicado para produzir obras que ficaram no imaginário popular, e o personagem que melhor representa a Guerra Fria é o agente secreto. O escritor Ian Fleming criou o estereótipo do agente secreto moderno: bonito, charmoso, cercado de mulheres e impiedoso com os inimigos. Seus livros estrelados por James Bond, o 007, foram lançados na segunda metade da década de 1950, mas só quando foram levados ao cinema na década seguinte é que de fato o personagem ficou famoso.

O sucesso de 007 gerou uma série de imitações, mas houve uma que foi a mais sucedida de todas – e não à toa, porque foi criada pelo “pai” de James Bond como sendo uma versão do agente britânico para a telinha. Ian Fleming foi chamado pela MGM para ajudar em uma série de TV logo após a “bondmania” tomar conta do mundo, entre 1962 e 1963, no rastro dos primeiros filmes com Sean Connery. E Fleming criou o agente Napoleon Solo: charmoso, sofisticado, eficiente e com uma queda pelas belas mulheres. Nenhuma diferença entre ele e 007…

Mas Fleming não pôde permanecer no projeto por conta das questões contratuais com os produtores dos filmes de James Bond. Por isso – e para evitar acusações de plágio… – a série foi reestruturada e foi criada então a agência de espionagem multinacional batizada de UNCLE (United Network Command for Law and Enforcement), cuja sede secreta ficava escondida por trás da lavanderia Del Floria’s, em Nova Iorque.

 Na concepção de Fleming, a série se chamaria Solo e o responsável pela ação seria apenas o agente Napoleon Solo (Robert Vaughn). Novamente, problemas com a produção dos filmes de James Bond barraram o título. Durante a recriação da série, veio a ideia de incluir um parceiro russo (coisa incomum na época da guerra fria!) e Solo então ganhou a companhia de Illya Kuryakin (David McCallum). Para surpresa de todos, o personagem russo ficou tão popular, especialmente entre as mulheres, que McCallum assumiu o mesmo status de estrela de Vaughn (hoje McCallum está no seriado NCIS).

No lado oposto ao dos defensores da paz mundial, havia a perversa e notória organização criminosa conhecida como Thrush, sempre disposta a dominar o mundo civilizado – o contraponto “uncleniano” à SMERSH das novelas e filmes de James Bond.

Nesse embate que durou 4 temporadas, agentes de ambas as organizações eram vistos passando por passagens secretas em locais inusitados, acionadas por botões escondidos, alavancas disfarçadas e paredes falsas. Tudo isso ao ritmo de socos, tiroteios e diálogos graciosamente inteligentes.

A série estreou em 1964 sem se tornar um grande sucesso, decolando apenas na segunda temporada, em 1965. No ano seguinte o estilo dos roteiros começou a mudar,  favorecendo textos mais divertidos por causa da série concorrente Batman, que estreou em janeiro de 1966. Ao chegar na quarta temporada, O Agente da UNCLE não resistiu à concorrência com Gunsmoke, sendo cancelada mesmo antes do final da temporada.

Veja abaixo a abertura da série, com a dublagem original:

E agora, Napoleon Solo volta num longa metragem com lançamento previsto para o segundo semestre de 2015.

“O Agente da U.N.C.L.E.” será dirigido por Guy Ritchie (Sherlock Holmes). A principal novidade é que a trama do filme será passada nos anos 1960, mesmo período da série original. Nos papéis principais, foram escalados Henry Cavill (O Homem de Aço) como Napoleon Solo  e Armie Hammer (Zorro e Tonto ou sei lá como se chamou esse filme horrível com Johnny Depp) como Illya Kuryakin.

E o chefe da Inteligência Britânica será interpretado pelo bom e velho Hugh Grant:

O vilão será Jared Harris, acostumado a papéis de personagens dúbios como em Fringe e Mad Man, ou como o vilão do Sherlock Holmes 2, prof. Moriarty.

Há rumores ainda da presença de David Beckham numa ponta…

Não sei se a escolha para o ator do papel de Napoleon Solo foi a melhor, mas sei que foi ótimo Tom Cruise desistir do projeto por conta de suas outras produções. Nada contra ele, claro – de quem gosto muito -, mas acho que seria inevitável todo mundo comparar O Agente da Uncle com Missão Impossível, estrelado por Cruise.

Fontes:

Veja

Wikipedia

http://pipocamoderna.virgula.uol.com.br/

YouTube

Esta reportagem explica por que Sílvio Santos é um mito

A reportagem abaixo, excelente, esclarece os motivos que levaram Sílvio Santos ao status de maior mito da TV brasileira, ainda no topo e sem concorrentes por mais de meio século. Vale a pena ler, porque é muito bem escrita e passa toda a emoção que essa aventura desperta. (dica de Paulo Maffia)

Terra fura bloqueio e vai ao Programa Silvio Santos com caravana

Repórter do Terra se infiltrou na caravana do Programa Silvio Santos Foto: Andressa Tufolo / Terra

Repórter do Terra se infiltrou na caravana do Programa Silvio SantosFoto: Andressa Tufolo / Terra

Eu não fui convidada, mas entrei na festa de alguém que invade a minha e a sua casa há 50 anos pela televisão. E gostei. No último dia 16 de outubro, eu e mais 199 pessoas acordamos por volta das 5h da manhã com o mesmo objetivo: estar diante do homem do baú. Foram três meses de espera até conseguir sentar na plateia mais disputada do Brasil, a doPrograma Silvio Santos, e pelo método mais tradicional: pegando carona em uma caravana. Esses ônibus saem geralmente da cidade de São Paulo e região.

Como o pedido foi negado pelo SBT, entrei de penetra. Nessa saga, eu descobri companheirismo, tapas e mordidas por dinheiro, a grande preocupação da emissora em receber bem suas convidadas, e a panelinha das caravanistas. Silvio Santos deu um show de humildade e se empolgou com os aviõezinhos. Sim, as notas são de verdade e chegam aos maços. O combustível que move aposentados, desempregados, estudantes e trabalhadores com horários flexíveis? Ver o mito vivo, ganhar dindin e se divertir.

“Ir ao Programa Silvio Santos é prêmio”. Escutei essa frase de caravanistas e produtores e demorou até realmente entender o significado dela. Na minha primeira ligação à produção da atração fui informada de que havia duas formas de participação. Ir como convidada, o que demoraria uns três meses, ou fazer parte de uma caravana – meu alvo. Atenciosos e com uma lista composta por cerca de 150 caravanistas eles perguntaram o bairro onde eu morava e com isso pesquisaram a caravanista e ônibus, que inclusive é enviado pela emissora, que melhor se enquadrava na minha região.

Panelinha das caravanistas

Com o telefone dessas profissionais em mãos, fui direto ao ponto, dizendo que gostaria de ir ao programa. “Não sei quando serei chamada para a próxima gravação, mas deixa seu telefone comigo”, escutei como resposta de uma caravanista. Em seguida, a senhora indagou minha operadora do celular e ao escutar o nome foi enfática: “Essa não dá não. Fica caro para mim”.  Não tem problema. Eu retornei uma, duas, cinco vezes até ela gravar meu nome e acreditar que eu realmente almejava ir – argumentei que eu precisava ter ao menos uma chance, que era meu sonho e até promessa eu tinha feito. Ela me oferecia participações em outros programas, inclusive de outras emissoras, como o de João Kleber, mas meu foco era o Silvio. Depois entendi que as profissionais já tinham um grupinho de pessoas que as acompanhavam em diversos shows. Ganhar uma cadeira no Silvio Santos era oportunidade, “prêmio” para quem ia com ela nas outras. “Minha filha, você nunca foi em programa nenhum comigo e já quer logo o Silvio?”, criticou-me de forma honesta e engraçada. Ela não pode contar com o azar e levar bolo das pessoas. Fora a responsabilidade de lotar os banquinhos do auditório, “as frequentadoras” dizem que as caravanistas ganham de R$ 100 a R$ 500 por programa, dependendo da emissora.

Apostei na sorte e na persuasão. Minhas ligações tornaram-se quase que diárias, não só para essa caravanista. “É muito concorrido”, ela dizia. A “fila” que encontrei para ir ao Programa Silvio Santos não havia para outras atrações. Perguntei se era preciso pagar algo quando aparecesse uma vaga. “Olha, eu até sei de caravanista que anda fazendo isso, mas comigo não é assim. Eles ainda mandam o ônibus e ganha até lanche”, explicou de forma doce. Sensibilizada com meu pedido, quase obsessão, ela me colocou na espera depois de aproximadamente três meses. Se alguém desistisse no dia anterior ao programa, a vaga era minha.

Desistiram! Com meu lugar garantido, acordei 4h30 da manhã e fui ao terminal de ônibus combinado. Lá encontrei outras quatro mulheres e esperamos mais ou menos 1 hora por nossa caravana. O ônibus, que já vinha de uma outra parada, chegou com mais da metade dos lugares ocupados. Minhas companheiras – aposentadas de aproximadamente 60 anos e jovens estudantes, desempregadas e trabalhadoras com horários flexíveis, com idade entre 20 e 35 anos, estavam empolgadas para a gravação e me explicaram o processo.  “Se não vai nos outros programas, ela não chama. A do Silvio é a mais concorrida. Ele é o melhor apresentador. Igual a ele não tem. Ainda ganha maquiagem, lanche. E se der sorte participamos das brincadeiras. Será que hoje vou levar algum dindin?”, resumiu ansiosa uma das meninas.

 

Para as caravanistas, ir à atração de Silvio Santos é considerado um prêmio Foto: Andressa Tufolo / Terra
                                                                                                                    Para as caravanistas, ir à atração de Silvio Santos é considerado um prêmio. 
Foto: Andressa Tufolo / Terra

 

Talvez desconfiadas, minhas parceiras, que já se conheciam em sua maioria, faziam-me perguntas, querendo descobrir quem era a novata que as acompanhava. “Você mora por aqui? Com o que trabalha?”, questionavam. Elas evitam ao máximo os contratempos. “Ontem eu estava com febre. Hoje só vim porque sou responsável, não queria deixar ninguém na mão. Dei o nome e tenho que vir”, disse uma senhora se referindo ao compromisso com a caravanista. “Gosto de programa de auditório pelas atrações. Já vi o Zeca Pagodinho, que eu amo. Sabe quanto custa um show desse cara?”. A senhora admitiu gostar de Silvio, mas, irônica, reclamou: “o Silvio agora só está gostando das novinhas”. 

Chapinha, maquiagem e viva as “periguetes” 

Conforme nos aproximávamos do endereço da emissora, em Osasco (SP), o burburinho no ônibus aumentava. O trajeto durou entre 40 minutos e uma hora. “Ele era um camelô…tem gente que nasce com uma estrela na testa”, refletiam sobre Silvio. Nesse meio tempo, perguntávamos uma sobre a vida da outra, sobre a família, atividades que havíamos deixado de lado para estar lá. A senhora que sentou ao meu lado, por exemplo, perdeu a aula de hidroginástica.

Algumas meninas mais jovens já trocavam de roupa. Substituíam seu jeans por saias coladas, blusinhas mais incrementadas e salto alto. “Estou periguetinhaaaa”, brincavam. Íntima das meninas, a caravanista entrava na onda: “menina, cobre essas pernas. Sua mãe não vai gostar”. Outras diziam: “ah vai ter muita tranqueira aí”, se referindo ao modo de vestir de algumas. Eu optei por um modelito mais discreto: jeans e bata.

 

Mulheres passam por maquiadores e cabeleireiros antes da gravação Foto: Andressa Tufolo / Terra
                                                                                                                                                Mulheres passam por maquiadores e cabeleireiros antes da gravação. Foto: Andressa Tufolo / Terra           

 

A organizadora avisou antes de descermos do transporte: “chegando lá vocês vão receber lanche, café com leite e fazer cabelo e maquiagem. Não tem essa de não quero”.  No SBT, entramos em uma sala de preparação. Lá, já éramos direcionadas aos nossos lugares e posições no auditório. Em geral, as mais jovens na frente e as mais velhas no fundo. Nesse espaço, a expectativa tomava conta das recém-chegadas e veteranas. Era chapinha de cabelo para cá, espelho para lá. Até troca dos itens dos lanches teve entre elas. Foram servidos sanduíches de queijo e presunto, chocolates, refrigerante, achocolatado e biscoito.

Roque, o “sedutor”, e as dicas para pegar dinheiro

Depois de cabelos e maquiagens feitos – de modo simples e rápido – ficamos quietas e sentadas para ouvir as dicas e orientações de como se comportar dentro do estúdio. Nesse ínterim, chega Roque, ícone que não poderia faltar no programa. De camisa estampada, jeans e sapato vermelho de verniz, ele entra, lançando olhares e piscadas e reforçando as explicações das colegas. Era como se fosse um promoter de balada muito requisitado.

A gravação seria do quadro aviãozinho, o antigo Topa Tudo Por Dinheiro. A produção, chamada de elenco, nos instruiu, como em qualquer programa de auditório, sobre o que deveríamos responder diante das perguntas de Silvio. Salientavam a importância da animação, aplausos e alegria durante o show. Até o modo de agitar o pompom nos foi passado. A essa altura eu já estava perdida com tanta informação. “Esse é um programa sem baderna. Não pisem na cadeira. Na hora de pegar dinheiro não olhem para alto, olhem para o chão. É mais fácil de pegar. Já teve gente que mordeu a mão da outra para pegar dinheiro. Uma moça levou um tapa na cabeça. Me avisem quando foi sem querer ou proposital”, disse uma pessoa da equipe. “E não soprem as respostas para a colega”, alertou.

“Quando o Silvio perguntar se é sua primeira vez aqui, vocês digam: sim. Quando ganhar dinheiro precisa ir lá assinar um papel. Ganhou, vai para o final da fila para dar oportunidade para outras pessoas. Se o Silvio quiser a mesma menina, não é para reclamar: ‘ai eu não fui..ela já foi’. É ele que escolhe. Ele é o apresentador, o programa é dele”.

Perdi as contas de quantas vezes Roque perguntou se estávamos sendo bem tratadas. A preocupação em proporcionarem do bom e do melhor, e serem bons anfitriões, era prioritária. “Vocês estão sendo bem tratadas? Se alguma coisa não agradar vocês, se não as tratarem bem, podem falar comigo”, repetia Roque. A equipe também nos avisou que se não nos sentíssemos bem havia uma enfermaria com profissionais na emissora.

Silvio Santos vem aí olê, olê, olá!
Abram alas. Depois de uma longa espera, ele, Silvio Santos, entra no estúdio. Elegante e alinhado, ele é aplaudido de pé pela plateia e cumprimenta sua equipe. “Silvio é humilde. Estou impressionada. Desde o câmera até os diretores ele cumprimentou. Ele, o chefe, o poderoso, dono do SBT. Fiquei arrepiada”, disse uma senhora.

As primeiras palavras do “homem do baú” têm tom de piada. Ele brinca que as meninas são bonitas, depois feias, e faz charme ao dizer que estava feliz em vê-las arrumadas somente por causa dele. Até que o discurso muda para algo mais sério. “Brincadeiras à parte uma coisa é certa. Vocês são muito gentis por terem vindo até aqui e deixado compromissos de lado. Sejam muito bem recebidas nessa casa”, disse com verdade e gratidão.

Por um momento esqueci que estava lá para fazer essa reportagem. As palavras dele e os comentários animados das colegas haviam me roubado a atenção. Para mim, a emoção de estar diante do mito, para elas nem tanto, mas por estarem acostumadas com ele – pessoalmente ou pela telinha de seus televisores. Silvio era um amigo íntimo e antigo para elas.

Pompons a postos. Toca a musiquinha de abertura do programa e o jogo começa. As gincanas se passam mais no auditório do que no próprio palco. Questionei se as participantes se sentiam envergonhadas ao serem chamadas. Elas são literalmente sem vergonha no melhor sentido da palavra. Adoram brincar e aparecer na televisão e defendem a cordialidade para com o comunicador. “Se ele chama, tem que ir…vai falar não para ele? É chato né”. E detalham a troca com o apresentador: “é como se ele estivesse na sala da casa dele. Ele vai para lá e para cá. Você esquece a vergonha, esquece que está no programa, brinca, e quando vê já ganhou”.

E pode acreditar. O dinheiro é de verdade e Silvio faz de tudo para ele ir para o bolso de sua plateia. Entre um quadro e outro ele parava, pensava, e dava seu jeito. No jogo de cartas, o objetivo era adivinhar se o número que vinha na sequência era mais alto ou mais baixo que o anterior. Silvio Santos deu o seu pitaco. Algumas cartas continham uma bruxa, espécie de coringa, que fazia a pessoa perder tudo. Ele quis o game sem essa opção. E assim foi feito. O desejo de Silvio é uma ordem.

Quem quer dinheiro?

O valor de cada prova era pré-estipulado em sua maioria, mas ele alterava quando queria, pouco antes da brincadeira começar. Questionava quanto tinha sobrado de dinheiro e quando estava acabando ele pedia mais. Imediatamente, sua equipe trazia os maços com as notas. “Acertando aqui leva R$ 500”, disse Silvio em um dos jogos. “Nossa”, a plateia suspirava. A felizarda que participou dessa etapa levou a graninha prometida e as congratulações das colegas. “Esse vai dar para pagar parte do meu aluguel”, disse. As amigas vibravam: “R$ 500 paus. Que sortuda”!

Outra gincana, o concurso Miss Simpatia, rendeu à vencedora um prêmio de R$ 1 mil – o valor mais alto. O mínimo nas “prendas” era de 20 reais. Mas muitas saíram com R$ 50, R$ 100. Uma colega faturou R$ 250.

A gravação contou com um duelo musical. Everton Silva, vencedor do ídolos, e convidados, entre eles o jornalista Décio Piccinini e a cantora Adriana Ribeiro, estiveram lá.  No palco, uma brincadeira de karaokê foi cogitada e montada. Silvio vetou, educadamente, para evitar duas atrações musicais no mesmo programa. Imediatamente, o cenário foi desmontado e deu espaço a outro game.

Para quem acha as perguntinhas dos jogos do Silvio ultrapassadas e ingênuas, saiba que elas agradaram e muito às participantes. Elas se envolvem de tal maneira, que ficam aflitas tentando ajudar as colegas ou as criticando quando erram coisas fáceis. Compenetradas e dominadas pelo poder de comunicação de Silvio, elas querem desvendar os enigmas e debatem as respostas. Uma jovem foi chamada para soletrar a palavra “gorjeta”. Nervosa, a menina não conseguia passar do G e O. Silvio deu um empurrãozinho com o R. “Vamos lá, G – O – R….”. Ela começa outra vez. O apresentador insistiu, ajudou, e com cinco chances ela finalizou a tarefa! Depois foi pressionada pelas colegas, em tom de brincadeira. “Tomara que minha mãe não veja isso”, disse.

De repente já são 14h30 e o programa acaba. Mesmo depois de horas de espera e gravação, escuta-se um uníssono “Ahhhhhhh”, com pesar. Pompons e crachás foram devolvidos e nos direcionamos para o ônibus. Na volta, a troca de figurinhas reina. “Ganhou alguma coisa?”, perguntam. “O importante é participar”, respondeu alguém. Elas dão explicações sobre o que farão com o dinheiro – uma delas disse que engordaria o cofrinho do aluguel, outra compraria um presentinho para a filha. Elas brincam entre elas com seus erros e acertos. Fazem comentários sobre Silvio – se chegaram pertinho dele, algumas o acham bonito, igualzinho ao cara a que assistem pela televisão. Outras acham diferente. Comentam sobre o sapato que o apresentador usou. “Deve ser caro”, concluem. Falam sobre os bastidores, de como funciona aquele universo – “esses brinquedos aqui do lado de fora devem ser usados nas provas do programa do Celso Portiolli”. As meninas e senhoras se preocupam comigo. Querem me ajudar a achar a condução correta após chegar ao terminal. Telefones são trocados e amizades formadas. “Vamos no próximo?”, me convidam. Banho de alegria e companheirismo na volta para casa.  Depois de toda essa saga para conseguir me infiltrar, descubro que o filho de uma pessoa que me ajuda em casa é motorista de caravana. Mas não teria sido tão divertido se fosse fácil!

(o link para a matéria, com mais fotos, está aqui).