Burocratas ao Redor do Mundo

Seria esse o título em português do livro que o fotógrafo holandês Jan Banning  acaba de lançar. Ele viajou por vários países e registrou fotos dos servidores públicos locais sentados atrás de suas mesas. O resultado foi um olhar fascinante sobre a cultura, os rituais e os símbolos de cada administração pública.

Para evitar que os burocratas retratados arrumassem seus espaços previamente, Jan – depois de devidamente autorizado pelos superiores – chegava ao local de trabalho sem ser anunciado, para vê-lo em toda a sua glória, exatamente como um cidadão seria recebido.

Veja a seguir algumas dessas fotos:

Esse é Marcial Revollo, responsável pelas certidões de nascimento e óbito em Betanzos, Bolívia.  Ele também é o responsável pela contagem de votos nas eleições municipais, mas para isso senta-se na mesa em frente, já que é outro posto. Seu salário é de cerca de R$ 150,00.

Do outro lado do mundo, na China, Qu Shao Feng é o chefe da Divisão de Segurança Pública e da concessão de vistos de entrada e de saída da cidade de Jining, na província de Shandong. Ele ganha cerca de R$700,00, um bom salário para os padrões da região, já que tem um cargo de chefia. Shandong (ou Shantung) fica no noroeste da China e tem uma população de 94 milhões de habitantes, numa área do tamanho do Ceará.

Maurice Winterstein trabalha em Clermont-Ferrand, na França, na Comissão de Cidadania do governo federal, escritório regional. Ele também cuida de assuntos ligados às questões religiosas, especialmente aquelas voltadas à comunidade islâmica (que anda agitada por causa da proibição de usar véus em locais públicos e outras coisas).  Seu salário gira em torno de R$ 3.500,00. A mocinha ao lado é uma estagiária que serve como sua secretária.

Vamos até a Índia. Sushma Prasad é assistente no gabinete do Secretário de Estado de Bihar, com 83 milhões de habitantes. Ela foi contratada num ato de compaixão, já que seu falecido marido trabalhava no mesmo lugar até 1997. Ela recebe um salário equivalente a R$ 190,00.

Na África, Libéria, encontramos Henry Gray,prefeito interino do distrito de Gbaepo. Durante a guerra civil no país, as dependências da delegacia foram saqueadas e o prédio destruído, restando apenas as paredes em pé. Gray tem 11 funcionários, dos quais só 4 são pagos, os demais são voluntários. Ele não tem verba orçamentária e não recebe há dois anos o salário de R$ 40,00 por mês. Gray diz ser pai de 34 filhos e tem 18 netos.

Marina Nikolayevna Berezina, ex-cantora e ex-diretora de corais, agora é secretária do chefe do Departamento de Finanças da prefeitura de Tomsk, na Sibéria, Rússia. Ela não quis revelar seu salário.

No Iêmen, Nadja Ali Gayt foi contratada como consultora do Centro de Educação Feminino para assuntos rurais do Ministério da Agricultura, no distrito de Manakhah, no estado de Sana. Ela recebe mensalmente o que equivale a R$ 320,00.

Voltando às Américas, temos Rudy Flores, um dos 118 Texas Rangers do estado do Texas. Durante décadas de história e ainda hoje, os Texas Rangers investigam crimes diversos, desde assassinatos até corrupção policial, atuam como tropas de choque e como investigadores, protegem os governadores do Texas, perseguem fugitivos e funcionam como uma força paramilitar. Flores é responsável por 3 condados, e recebe um salário mensal de cerca de R$ 10.000,00.

O Brasil tem cerca de 11 milhões de servidores públicos. Desses, cerca de 2 milhões trabalham para o Executivo e perto de 2,5 milhões para o Judiciário. A remuneração média do servidor público nos três níveis de governo (federal, estadual e municipal) está em R$ 2.478,00 ante R$ 1.192,00 no setor privado. Mas a estrutura de salários do setor público é irracional. Ela atende a pressões políticas, não à importância do serviço, à qualidade dele ou ao nível de instrução e conhecimento do funcionário.  Na esfera federal, o salário inicial de um motorista ou de uma secretária do Ipea (R$ 4.930) é superior ao de algumas vagas de professor com doutorado no magistério (R$ 4.649). Um escrivão da Polícia Federal (R$ 8.416) só precisa ter curso superior, mas ganha mais que um médico com mestrado no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (R$ 6.346)… Isto é Brasil…

A estrada mais perigosa do mundo

Minha amiga Clene Salles, que vive no Peru, foi há tempos à cidade de Cajamarca para dar sua palestra, “Prácticas Terapéuticas a través del Biorritmo Planetario” no Encontro Internacional que lá se realizou. Ela vive em Trujillo, na costa norte do país, e a viagem de ônibus a Cajamarca dura cerca de 5 horas. Não que seja tão distante assim – em linha reta -, mas é que a cidade fica nos Andes, a 2.500 metros de altura, e a estrada é perigosa e cheia de curvas. 

2444499059_a5672e1531_oBem, não é difícil de imaginar que uma estrada rodeando as montanhas da Cordilheira dos Andes – ou de qualquer cordilheira, na verdade – seja de fato íngreme e provavelmente mais adequada ao tráfego de burricos e lhamas do que de carros e ônibus. Mas essa rodovia que liga Trujillo a Cajamarca, por mais perigosa que seja, felizmente não se compara à Estrada da Morte na Bolívia.

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El Camino a los Yungas é uma estrada de 80 km que liga La Paz à Coroico, na Bolívia, mais conhecida como El Camino del Muerte. É famosa por ser extremamente perigosa, e foi declarada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento como a estrada mais perigosa do mundo. A estrada foi construída com trabalho escravo dos prisioneiros paraguaios durante a Guerra do Chaco, em 1930. É uma das poucas rotas que ligam a selva amazônica, ao norte da Bolívia, com a cidade de Paceña.

Atualmente existe uma rodovia mais moderna e mais segura que liga a capital à essa região, eliminando a necessidade de usar a antiga Rota 3.  Por causa de suas encostas íngremes, com uma largura da pista de 3 metros em alguns lugares, e falta de grades de proteção, a Rota 3 torna-se extremamente perigosa.

Também na área é comum a incidência de neblina e de chuvas, reduzindo a visibilidade, além do leito não asfaltado em alguns trechos e as pedras soltas caindo das montanhas. Há abismos de mais de 800 metros em vários locais do trajeto e a estrada tem duas pistas… O regulamento prevê que os motoristas que se dirigem para La Paz, subindo a montanha, têm preferência de quem desce. E assim, se você está descendo, deve parar para dar passagem. 

Acontecem mais de 200 acidentes por ano, com uma média de 96 mortes, a estrada é marcada por cruzes nos locais das quedas mas, apesar de tudo isso, tornou-se um popular destino turístico para os aventureiros do mundo todo. Desde a década de 1990, os motociclistas e os entusiastas de mountain bike usam essa pista muito por conta das paisagens deslumbrantes.

Tudo bem, as paisagens são lindas, mesmo. Mas, sei lá, eu iria a pé…

 

O engenho do Homem

Travessia no rio Yuyo, perto de La Paz. Bolívia.

O povo boliviano tem muito em comum com o brasileiro.  No Brasil, nosso povo se vira do mesmo modo que está no vídeo.

Faltam recursos, improvisa-se. É inseguro, é uma loucura, mas é a necessidade.

Não há dinheiro para construir uma ponte? Fácil, corre-se o risco.

No final, a gente sabe que uma empreiteira vai aparecer e construir uma ponte, cobrando pedágio da população para pagar as propinas, mas, enquanto isso, eles resolveram o problema…