A história por trás da capa de “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”

Talvez seja o disco mais lendário da história da música pop.

Teve sua capa copiada centenas de vezes; é frequentemente citado como o melhor e mais influente álbum da história do rock e da música. Lançado em 1º de junho de 1967 na Inglaterra, o álbum foi gravado em pouco mais de 4 meses, que são considerados os mais criativos da história da banda. Inovador desde sua técnica de gravação até a elaboração da capa, o álbum se tornou um clássico.

Mesmo sem tocar nas rádios e sem um forte apelo comercial, o álbum teve 11 milhões de cópias vendidas só nos Estados Unidos. Em 2003, a revista Rolling Stone colocou “Sgt. Pepper’s” no topo de uma lista dos 200 álbuns definitivos.

Gravado às véspera do “verão do amor”, no início da era hippie, “Sgt. Pepper’s” rompeu os limites da música pop e fez com que um disco deixasse de ser uma simples reunião de canções para se transformar em uma obra de arte com identidade própria.

Sem o compromisso com viagens e turnês, a banda pôde concentrar-se e se dedicar totalmente à produção do disco. Com a liberdade criativa entregue a George Martin, a inovação rondava os estúdios de Abbey Road.

“Sgt. Pepper’s” demorou mais de 700 horas para ser gravado e custou cerca de US$ 75 mil, números absurdos naquela época. Para se ter uma ideia, apenas quatro anos antes os mesmos Beatles haviam gravado seu primeiro álbum, “Please Please Me”, em um único dia.

A concepção desse disco surgiu de Paul McCartney, que propôs a seus companheiros que se “transformassem em outro grupo” e sugeriu o nome de “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” (A Banda do Clube dos Corações Solitários do Sargento Pimenta), inspirado nas bandas com nomes criativos que surgiam nos Estados Unidos naquela época, como “Quicksilver Messenger Service” ou “Big Brother and the Holding Company”.

Paul também foi o idealizador da capa. Paul desenhou em um pedaço de papel uma multidão em uma praça para assistirem Sgt. Pepper e sua banda receberem do prefeito um troféu. Ele contou sua ideia para Robert Frazer que o levou para conhecer Peter Blake, um dos artistas fundadores do Movimento Pop Art. Peter então fez o seu desenho, mudando ligeiramente o conceito inicial, que iria mudar mais até se tornar a capa como nós a conhecemos.

Nessa primeira reunião entre Blake, Frazer e McCartney, nasceu a ideia da banda escolher a galeria de pessoas a serem representadas na capa. Paul então levanta a proposta com os demais Beatles, sugerindo que todos relacionassem nomes de pessoas que admiram e que gostariam de ver na capa.

Abaixo, o rascunho de Blake para o conceito de Paul.

“Sgt. Pepper’s” não se destacou somente por sua música, mas também pela bela arte da capa e pelos encartes. A foto da capa, com os quatro Beatles uniformizados e de bigode, chamou a atenção especialmente pela sua colagem. Nela se pode ver o rosto de várias celebridades, como Marilyn Monroe, Marlon Brando, Bob Dylan, o então chamado Cassius Clay (depois, Muhammad Ali), D.H. Lawrence, Aleister Crowley e até Shirley Temple. Também apareceriam Karl Marx, Gandhi, Hitler e Jesus Cristo, mas foram deixados de fora.

Jesus Cristo não foi incluído por causa da declaração de um ano antes de John, dizendo que os Beatles eram mais populares que ele – isso poderia gerar mais protestos. Hitler, que iria aparecer por insistência de John, foi eliminado por motivos óbvios.

Detalhe de um layout inicial da capa, onde aparecia o rosto de Gandhi.

O rosto do ator mexicano Germán Valdés “Tin Tan”(irmão do também consagrado ator Ramón Valdés, o Seu Madruga do seriado Chaves) aparecia na capa, mas ele não autorizou sua exibição na última hora, enviando em seu lugar uma árvore da vida de Metepec (planta tradicional mexicana) que aparece em um canto.

Veja a seguir quem é quem.

1. Sri Yukteswar
2. Aleister Crowley
3. Mae West
4. Lenny Bruce
5. Stockhausen
6. W.C. Fields
7. Carl Jung
8. Edgar Allen Poe
9. Fred Astaire
10. Merkin
11. The Vargas girl
12. Huntz Hall
13. Simon Rodia
14. Bob Dylan
15. Aubrey Beardsly
16. Sir Robert Peel
17. Aldous Huxley
18. Dylan Thomas
19. Terry Southern
20. Dion
21. Tony Curtis
22. Wallace Berman
23. Tommy Handley
24. Marilyn Monroe
25. William Buroughs
26. Mahavatar Babaji
27. Stan Laurel
28. Richard Lindner
29. Oliver Hardy
30. Karl Marx
31. H.G. Wells
32. Paramhansa Yogananda
33. Stuart Sutcliff
35. Max Muller
37. Marlon Brando
38. Tom Mix
39. Oscar Wilde
40. Tyrone Power
41. Larry Bell
42. Dr. Livingstone
43. Johnny Weissmuller
44. Stephen Crane
45. Issy Bonn
46. George Bernard Shaw
47. Albert Stubbins
49. Lahiri Mahasaya
50. Lewis Carol
51. Sonny Liston
52 – 55. The Beatles
57. Marlene Dietrich
58. Diana Dors
59. Shirley Temple
60. Bobby Breen
61. T.E. Lawrence

Corrida pelo direito de imagem dos artistas:

Na época em que o álbum estava sendo gravado, Brian Epstein, empresário dos Beatles, começou a ter maiores problemas com drogas, tendo ficado internado em um centro de reabilitação de Londres chamado Priory. Wendy Hanson, secretária da Nems (loja de Epstein), havia pedido demissão devido aos abusos de Brian, mas teve de ser recontratada como freelancer para que pudesse ir atrás dos direitos de imagem de todos aqueles que participariam da capa, já que ela era a única que saberia fazer isso.

Sir Joe Lockwood, presidente da EMI à época, chegou a visitar Paul McCartney pessoalmente para falar que eles não usariam a imagem de Gandhi, pois poderiam ser processados. McCartney, então, o rebateu: “Todas aquelas pessoas vão estar satisfeitas por estarem na capa. O que vocês devem fazer é ligar para todas e pedir. Já fizeram isso?”. Ao receber a resposta negativa, ele continuou: “Bom, então telefonem para Marlon Brando ou o agente dele e digam que os Beatles adorariam tê-lo nessa pequena montagem, nas filas da frente. Não se trata de nada que possa prejudicá-lo ou coisa parecida. É uma homenagem que os Beatles estão prestando. Expliquem isso. Acho que as pessoas ficariam satisfeitas em aparecer na capa. Não é pouca coisa estar numa capa dos Beatles”.

Nem todos os artistas da capa foram, de fato, contatados para a obtenção do direito de imagem. Porém, a banda nunca sofreu qualquer tipo de ameaça de processo pelo uso “indevido”.

O ator americano Leo Gorcey foi o único retirado da arte por ter cobrado um valor de US$ 400 por sua imagem. E Gandhi ficou de fora porque a gravadora ficou com medo de os seguidores dele ficarem ofendidos.

Quem escolheu as figuras?

John Lennon: algumas das escolhas de John foram apenas para provocar, mesmo. Entre elas, podemos citar Adolf Hitler e o Marquês de Sade, os dois últimos jamais chegando à arte final. Brigitte Bardot, Lord Buckley, James Joyce e Friedrich Nietzsche também acabariam de fora. Os homenageados presentes são Lenny Bruce, Aleister Crowley, Dylan Thomas, Oscar Wilde, Edgar Allan Poe e Lewis Carroll.

George Harrison: a sua lista só incluiu gurus indianos. São eles: Sri Mahavatara Babaji, Sri Yukteswar Giri, Sri Lahiri Mahasaya e Paramahansa Yogananda.

Ringo Starr: Ringo não se interessou em escolher ninguém para o mural, porém apoiou as escolhas feitas pelos demais.

Paul McCartney: embora nem todos de sua lista de homenageados acabassem na arte final, Paul relacionou suas opções como sendo William Burroughs, Robert Pell, Karlheinz Stockhausen, Aldous Hexley, H.G. Wells, Albert Einstein, Carl Jung, Aubrey Beardsley, Alfred Jarry, Tom Mix, Johnny Weissmuller, Rene Magritte, Tyrone Power, Karl Marx, Richmal Crompton, Dick Barton, Tommy Handley, Albert Stubbins e Fred Astaire.

Peter Blake e Jane Haworth: o casal de artistas contribuiu com a presença de W.C. Fields, Tony Curtis, Dion DiMucci, Bobby Breen, Shirley Temple, Sonny Liston, Johnny Weissmuller e H.C. Westerman.

Robert Frazer: Entre os homenageados, estão lá por sua escolha: Terry Southern, Wally Berman e Richard Lindner.

Curiosidades

  • Muitos acreditam que a capa contenha uma mensagem oculta sobre a suposta morte de Paul McCartney, já que na parte inferior parece haver uma tumba adornada com flores e um contrabaixo também feito de flores com apenas três cordas, o que significaria a falta de um Beatle. Se for verdade mesmo, o “outro” Paul é tão bom ou melhor que o original…

  • Paul McCartney tinha como ideia original a banda vestida em uniformes lembrando o Exercito da Salvação. Os outro três não gostaram e partiram para confeccionar um uniforme próprio. Eles foram feitos na Burman’s, do alfaiate Maurice Burman, que normalmente fazia material militar para filmes épicos. O uniforme da banda de Sgt. Pepper é um somatório de vários estilos de uniformes ingleses em períodos diferentes da história. Cada Beatle escolheu uma cor, optando sempre por cores fortes. A intenção era confrontar o raciocínio tradicional de que uma tropa tem que ser vestida igual, de uma só forma. Literalmente, uniforme…

  • Rara foto, onde se vê o processo de produção:

  • Abaixo, uma das primeiras alternativas para a capa. Nela, pode-se notar além do posicionamento diferente dos quatro Beatles, o bumbo que foi substituído pelo definitivo no decorrer da sessão.

  • O encarte foi também uma sacada inovadora. Além de imprimir as letras das músicas (o primeiro álbum a trazer isso), outra ideia foi incluir um envelope com diversos decalques auto-colantes e tatuagens que colassem na pele com uma lambida. Elementos que remeteriam à infância, quando essas coisas eram dadas na compra de um chiclete ou revista em quadrinhos. Mas a gravadora EMI reclamou muito da despesa extra e da impraticabilidade de toda a ideia. Assim, o meio termo se tornou o encarte. Em um fundo verde de papelão, você teria a opção de recortar, se quisesse, uma medalhinha, um bigode do Sgt. Pepper e o colorido bumbo da banda. O painel também incluía um desenho do Sargento, baseando-se no rosto de um busto que existia no jardim de John e que foi usado na foto da capa (claro que recortei tudo quando comprei minha cópia…)

  • Mas o disco sofreu censura em vários países. Na versão lançada no Sudeste Asiático, Malásia e Hong-Kong, a gravadora retirou as canções interpretadas como relacionadas às drogas e as substituíram por outras, do “Magical Mystery Tour”.

As canções que saíram foram With A Little Help From My Friends, Lucy In The Sky With Diamonds e A Day In The Life. E as substitutas foram:  The Fool On The Hill, Baby You’re A Rich Man e I’m The Walrus (sic).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fontes:
somvinil.com.br
independent. co.uk
whiplash.net
crestivegames.org.uk
Anúncios

O álbum dos mortos

Morte: (do latim mors), óbito (do latim obitu).

A primeira definição científica de morte, a da ausência de circulação e respiração, não está totalmente errada. Estima-se que em 99% dos casos são as falhas no coração e no pulmão que encerram de vez a vida (só 1% dos casos tem origem na morte cerebral). É como a bateria de um notebook, se ela descarrega, você ainda pode conectar a máquina na tomada. É o que acontece com grávidas que não têm mais sinais cerebrais, mas que são mantidas “vivas” por aparelhos até dar à luz.

A nossa bateria, o coração, funciona com estímulos elétricos que provocam a contração (que joga o sangue para frente) e o relaxamento (que o enche novamente). É muito importante que esses movimentos sejam sincronizados. Se o coração bater rápido demais, não dá tempo de enchê-lo totalmente e a quantidade de sangue bombeada para o corpo diminui. Bater devagar demais também não é bom sinal, pelo mesmo motivo: vai faltar sangue para manter as condições vitais. Isso é especialmente perigoso para os pulmões. Sem sangue por lá, eles não levam mais oxigênio para as células. Sem oxigênio não há metabolismo e sem metabolismo as células morrem.

Na verdade, nosso corpo não foi feito para viver para sempre. Vai chegar uma hora que, assim como uma lâmpada, vai se apagar e a vida acaba. E começam os rituais para homenagear os que se foram, o velório, a choradeira, a saudade de quem se foi…

Muitas pessoas não aceitam bem esse evento e procuram, de alguma forma, manter o ente querido próximo. Uma dessas práticas existia no passado, fotos pós-morte das pessoas que se foram.

Tenso!

Essa “prática” teve origem no século XIX, na Inglaterra, mais precisamente na era vitoriana (1837- 1901), quando a Rainha Vitória pediu que fosse fotografado o cadáver de um parente próximo que acabara de falecer para que ela guardasse a foto de lembrança. Em pouco tempo esse ato se tornou costumeiro, se espalhando por diversas partes do mundo.

Todos queriam prestar uma última homenagem a seus entes queridos e eternizá-los de certa maneira. Para isso, em muitos casos, as fotos tiradas retratavam momentos do defunto com sua família, como se estivesse vivo. Eram feitas armações de madeira que sustentavam os corpos já sem vida, criavam-se poses e os mortos eram maquiados, tendo em muitos casos os olhos pintados sobre as pálpebras para manter o aspecto de vivacidade que já não tinham mais.

Quem está morta é a menina.

Exemplo clássico da foto post-mortem. A que está sentada é quem está viva.

a-filha-morta

A filha morta, bem maquiada, foi fotografada entre os pais.

esposa-morta-18452

A esposa morta está abraçada pelo marido.

259871840968402033_ekjwcd8u_c

Aqui, ambos são defuntos.

Tirar essas fotos era um luxo, devido ao elevado preço para produzi-las e também devido à pouca quantidade de câmeras fotográficas e profissionais disponíveis. A criação dos tais “álbuns dos mortos” funcionava como uma espécie de negação da morte. Muitos acreditavam que, através da foto tirada, a alma de seu ente querido ficaria viva para sempre naquele pedaço de papel.

Com o passar dos anos essa prática foi  sendo esquecida e, hoje em dia, é vista como uma esquisitice por muita gente, embora aparentemente esse hábito ainda seja comum em algumas culturas.

Muito mais bizarro que isso é saber que existem sites de leilões, sim, LEILÕES dessas fotos.

AS PESSOAS PAGAM , E MUITAS VEZES CARO, PRA TER UMA FOTO DESSAS EM CASA. Há gosto pra tudo…

 

 

 

 

(link do post original: http://cademeuwhiskey.wordpress.com/2012/10/28/fotos-post-mortem-o-bizarro-album-dos-mortos/)

A história por trás da capa de “Rubber Soul”, dos Beatles

Considerado por inúmeros críticos como o primeiro disco da fase mais sofisticada dos Beatles –  e, para mim, o mais importante, pelo que representou na minha formação – “Rubber Soul” faz parte da lista dos 200 álbuns definitivos do Rock and Roll Hall of Fame.

rubber-soul

51u1Af-YEkL

A foto da capa do álbum, que na época (1965) fugiu de todos os padrões então vigentes, foi fruto de um acidente.  Paul McCartney conta no Anthology que, após a  sessão de fotos no jardim da casa de John Lennon, o fotógrafo Robert Freeman usava uma cartolina para projetar as imagens fotografadas, deixando-as no tamanho da capa do disco (que nem tinha título ainda). Em determinado momento, a cartolina escorregou e uma das imagens apareceu distorcida, levando os Beatles à loucura com o efeito. Imediatamente eles escolheram aquela imagem e pediram que fosse reproduzido o mesmo efeito distorcido.

A foto original.

rubber_soul3

A foto acima, já recortada e pronta para ser distorcida.

Nesse momento também tiveram a ideia do título do disco: “Rubber Soul” (Alma de Borracha), um trocadilho com “rubber sole” (sola de borracha), além de uma referência à Soul Music. O logotipo com o título do disco foi produzido pelo artista Charles Front.

Charles Front era um designer gráfico de Londres que foi procurado por Robert Freeman, que lhe pediu que projetasse as letras para a capa do próximo álbum dos Beatles. Ele levou a foto escolhida, falou da distorção que eles queriam e Front sentiu que o título “Rubber Soul” lhe passava a imagem de algo viscoso, como látex, que vinha sendo puxado para baixo pela força da gravidade – espelhando a distorção da foto.

image

Front apresentou seu projeto a Brian Epstein, as letras desenhadas em guache marrom e montadas sobre um esboço da capa, que prontamente o aprovou junto com os quatro membros do grupo.

‘Rubber Soul’ foi lançado em 3 de dezembro de 1965, coincidindo com a primeira data do que viria ser a turnê final do grupo pelo Reino Unido. Musicalmente e liricamente, o álbum foi a gravação mais ambiciosa do grupo, anunciando uma nova fase na carreira dos Beatles e uma antevisão do que viria a seguir. O álbum foi considerado o mais brilhante e inovador até então e menos de uma semana após seu lançamento, o disco já estava no topo das paradas, posição em que permaneceu por 12 semanas. 
rubber-soul-in-factory

Linha de montagem do disco na fábrica.

Podemos considerar este disco como o primeiro passo para o psicodelismo e o experimentalismo produzidos depois em “Revolver”, chegando ao ápice em “Sgt. Pepper’s” e, por consequência, alterando a história da música do século XX.
paul-com-o-rubber-soul