Mappin, a mais famosa loja de departamentos de São Paulo

Há pouco mais de 100 anos, em novembro de 1913, a primeira loja Mappin foi aberta em São Paulo. A rede de lojas de departamentos, trazida para o país por dois irmãos ingleses, Walter e Hebert Mappin, foi à falência em 1999, mas ainda hoje faz parte da memória de muitos brasileiros.

O primeiro Mappin Stores foi inaugurado na Rua 15 de Novembro, no centro de São Paulo. A unidade mais conhecida, porém, seria aberta em 1939 na Praça Ramos, também no centro.

A história do Mappin começou na Inglaterra, depois da Revolução Industrial, em 1774, quando as famílias de comerciantes Mappin e Webb inauguraram na cidade de Sheffield uma sofisticada loja de prataria e artigos finos. Posteriormente se mudaram para Londres, depois para Buenos Aires e, finalmente, São Paulo. Na ocasião, a cidade possuía apenas 320 mil habitantes, o transporte de massa eram os bondes da Light e a loja atendia a aristocracia cafeeira. No início, a loja seguiu como filial da britânica Mappin & Webb, e prosperou até contar com 11 departamentos e 40 funcionários.

Nessa época, somente a elite frequentava o estabelecimento, onde elegantes joias ornavam os balcões e as vitrines expunham louças (porcelanas Inglesas), faianças, delicados objetos decorados em Art Noveau, etc. Aliás, ela foi pioneira em exibir luxuosas vitrines (para ter uma ideia desse passado, pense nos shoppings de hoje) na cidade para atrair os consumidores.

Anúncio da inauguração, em 1913

Anúncio da inauguração, em 1913

Os departamentos eram divididos nos vários andares do prédio, interligados por elevadores. Cada andar vendia um tipo de produto, como roupas, móveis, eletrodomésticos e brinquedos.

Em 1916, o Mappin trazia blusas modernas para as senhoras.

Em 1916, o Mappin trazia blusas modernas para as senhoras.

As novidades não paravam de chegar na imensa loja de departamentos, moderna e arejada para os padrões de então.

Este anúncio é de 1918.

Este anúncio é de 1918.

O Mappin logo conquistou a preferência dos paulistanos e mudou-se em 1919 para um prédio enorme, na Praça do Patriarca.

Anúncio informando da mudança.

Anúncio informando da mudança.

Só que… Em 1929, a crise do café abalou a economia de São Paulo, atingindo a elite consumidora. Era hora de mudar a estratégia comercial, para popularizar mais a empresa. No início da década de 1930, a loja colocou etiquetas com preços nos produtos em suas vitrines. Para a época, foi uma atitude ousada, mas era uma estratégia para atingir consumidores da classe mais popular.

Em 1939, atravessaram o viaduto, e mudaram-se para a praça Ramos de Azevedo, num prédio alugado e pertencente à Irmandade da Santa Casa.

O Mappin na Praça Ramos de Azevedo, por volta de 1960.

O Mappin na Praça Ramos de Azevedo, por volta de 1960.

Adquirida anos mais tarde (entre 1947 e 1950) por um empresário e antigo comerciante de café do interior, Alberto Alves Filho, a empresa mudou sua razão social de Mappin Stores & Cia para Casa Anglo Brasileiro Ltda. Com esse empresário no comando, o Mappin passou a comercializar produtos nacionais, moveis, roupas, etc  e  assim conquistou uma clientela mais massificada, e já ligada a seu futuro de grande loja de departamentos.

Anúncio do Mappin de 1952, valorizando a qualidade da roupa pronta, tão boa quanto a roupa feita nos alfaiates, e mais barata.

Anúncio do Mappin de 1952, valorizando a qualidade da roupa pronta, tão boa quanto a roupa feita nos alfaiates, e mais barata.

A Casa Anglo Brasileira foi a loja precursora do crediário no comércio paulista (que então no máximo conhecia o fiado…) oferecendo aos clientes a possibilidade de fazer suas compras a prazo. Com forte apelo na mídia, especialmente a “Liquidação Anual no Mappin” e seu famoso jingle “Mappin, venha correndo, Mappin, chegou a hora Mappin, é a liquidação”, a empresa passou a ser comandada em 1982 por Cosette Alves, viúva de Alberto, e detentora do controle acionário.

Foram abertas filiais, o Mappin tornou-se uma rede com 12 lojas e foi então vendido ao empresário Ricardo Mansur, dono da Mesbla, em 1996. Megalomaníaco, quis fundir as duas redes e, mal gestor, acabou ficando sem capital e teve a falência do grupo decretada em 1999.

O Mappin marcou época na cidade de São Paulo, seja com seu salão de chá, que tornou-se ponto de encontro, seja com suas liquidações.

Propaganda institucional de 1922

Propaganda institucional de 1922

Mulher-gato de 1967

Mulher-gato de 1967

Mappin desejando Boas Festas, ao redor dos anos 1960

Mappin desejando Boas Festas, ao redor dos anos 1960

Em 1966, todos os lançamentos de brinquedos eram feitos no Mappin

Em 1966, todos os lançamentos de brinquedos eram feitos no Mappin

 

Em 1978, os primeiros vídeogames eram lançados antes no Mappin. A cidade tinha muitas outras grandes lojas, como Pirani, Mesbla, A Exposição/ Clipper, a Sears, snard, Cássio Muniz, mas Mappin era... o Mappin.

Em 1978, os primeiros videogames eram lançados antes no Mappin. A cidade tinha muitas outras grandes lojas, como Pirani, Mesbla, A Exposição/ Clipper, a Sears, Isnard, Cássio Muniz, mas Mappin era… o Mappin.

Como havia o crediário, a maioria dos clientes preferia visitar primeiro o Mappin, que investia pesado em mídia

Como havia o crediário, a maioria dos clientes preferia visitar primeiro o Mappin, que investia pesado em mídia

O famoso jingle em um spot de rádio de 1978:

R.I.P.

A gente nunca sabe o dia de amanhã, por isso é melhor se prevenir e pensar no que escrever em sua lápide… Aí vão algumas dicas especialmente pensadas para diferentes públicos:

ESPÍRITAS

Volto já!

INTERNAUTAS

aquijaz.com.br

ARQUEÓLOGOS

Enfim, fóssil

SURFISTAS

Fui.

CARTUNISTAS

Partiu sem deixar traços

POLICIAIS

Tá olhando o quê? Circulando, circulando!

ECOLOGISTAS

Fui extinto

FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS

É no túmulo ao lado

HIPOCONDRÍACOS

Eu não disse que tava doente?

PESSIMISTAS

Aposto que está o maior frio no inferno

PSICANALISTAS

Esse negócio de eternidade não passa de um complexo de superioridade mal resolvido

SANITARISTAS

Sujou!

SEX SYMBOLS

Agora, só a terra há de comer

ADVOGADOS

Disseram que morri, mas vou recorrer

HERÓIS

Corri pro lado errado

 

O que George R. R. Martin está fazendo em vez de escrever

Para quem viveu em Marte nos últimos cinco anos e nunca ouviu falar de “Game of Thrones”, farei aqui um breve resumo do que se trata: é um seriado da HBO (canal de TV pago que se notabilizou por criar seriados de alta qualidade, como “Os Sopranos” e… Quê? Você também nunca ouviu falar dos Sopranos?…) criado como a adaptação dos livros escritos por George R. R. Martin, reunidos na série As Crônicas de Gelo e Fogo (A Song of Ice and Fire), composta por sete volumes, cinco dos quais já publicados.

Desde que estreou em 2011 na televisão, tornou-se a maior série da HBO, conquistando fãs em todo o mundo, fascinados por suas histórias de intrigas, luta pelo poder, pelo amor, pela honra e pela fortuna, anseios que permeiam a vida dos habitantes dos ficcionais Sete Reinos de Westeros, em um tempo inspirado na Idade Média e permeado de elementos sobrenaturais.

Dito isto, a 6ª temporada está no ar atualmente no mundo todo, inclusive no Brasil, conseguindo de novo muita repercussão com seus acontecimentos. Os fãs dos livros costumam apontar as discrepâncias entre o que foi escrito e o que foi adaptado para a TV, e estavam apreensivos com esta nova temporada, porque ela está adiantada… Sim, isso mesmo. A TV avançou e está desenvolvendo seus roteiros sem um livro para se basear, uma vez que o sexto volume – previsto para lançamento neste ano – foi adiado.

Os roteiristas da série de TV, obviamente, contam com a assessoria do escritor, que acompanha toda a produção de perto. Mas, ainda assim, a pergunta que fica é: que diabos George R. R. Martin fica fazendo que não escreve?

Bem, todo mundo admira esse senhor simpático que criou a trama fantástica que mantém o mundo inteiro discutindo sobre ela. Só que ele é meio atrapalhado com prazos e cada livro de sua série demora muito para sair. No começo, até que ele foi mais, digamos, ágil. O primeiro livro saiu nos Estados Unidos em 1996, o segundo em 1998, o terceiro em 2000 e daí a coisa complicou… O quarto só veio em 2005 e o quinto (e último, até agora), em 2011.  O sexto foi adiado e o sétimo, sabe Deus para quando…

Numa tentativa de descobrir o que mantém o George assim tão ocupado, o programa da TV americana Late Show, de Conan O’Brien, foi entrevistá-lo e descobriu:

  1. Ele fica brincando dentro de uma bola gigante…

2. Ou comprando carros maneiros (como esse Tesla, carro elétrico esportivo)…

3. Também passa os dias fazendo bolhas de sabão:

4. E atualiza seu blog vintage:

5. Na verdade, ele passa os dias pulando pelado em sua cama elástica!

Calma, calma! Não fique bravo, não queime seus livros e não saia em passeata gritando “Fora George”. Isso tudo foi uma brincadeira do programa! As imagens 2 e 4 são reais, as outras são de um ator que é sósia do escritor.

O fato é que o autor está passando por um bloqueio criativo e isso atrasou todo o processo. Faltam meses para terminar “Os Ventos do Inverno'”(The Winds of Winter), como ele mesmo revelou em seu blog. Veja a nota:

“OS VENTOS DO INVERNO não está terminado.

Acreditem em mim, digitar estas palavras não me dá nenhum prazer. Se você está desapontado, você não está sozinho. Meus editores estão desapontados, HBO está desapontada, meus agentes e tradutores estrangeiros estão desapontados… Mas nenhum poderia estar mais desapontado do que eu. Por meses eu queria nada mais do que dizer, “Eu terminei e entreguei Os Ventos do Inverno” até o último dia de 2015.

Mas o livro não está pronto.

Não é provável que será terminado amanhã, ou na próxima semana. Sim, há muita coisa escrita. Centenas de páginas. Dezenas de capítulos. (…) Mas também há muito a ser escrito. Estou meses longe de terminar… e isso se a escrita for bem (algumas vezes vai, outras não).”

É difícil para um escritor quando esse bloqueio acontece, muitas vezes causado pelas pressões externas, necessidade de cumprir prazos, cansaço… Isso aconteceu com outros escritores famosos, como Dan Brown e Stephen King. Neil Gaiman disse uma vez que escritores não são máquinas e que eles escrevem na velocidade que lhes convém.

O que nos resta é torcer para que tudo entre nos eixos e que a saga continue sem maiores interrupções. Todos os fãs querem saber o que Daenerys, a mãe dos dragões, irá aprontar.

Agora, que seria engraçado ver George na cama elástica gritando “Hodor! Hodor!”, seria.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte:

mundoestranho.abril.com.br

cinema10.com.br

 

Segredos a bordo

Companhias aéreas e aeronautas trabalham para que as viagens de avião sejam sempre seguras e confortáveis para os passageiros. E isso envolve manter alguns detalhes sobre os aviões e tripulantes em segredo. O principal objetivo desses segredos é fazer com que os passageiros não se preocupem durante a viagem de avião e, principalmente, para evitar pânico a bordo da aeronave em caso de incidentes.

Não que esses mistérios representem ameaças, seja ao voo ou aos passageiros, mas alguns pontos realmente podem surpreender, principalmente para quem é novato em viagens de avião. Já outros detalhes das operações e especialmente o treinamento de comissários são mantidos em sigilo do grande público para manter o “elemento surpresa”, como veremos a seguir:

Comissários “bons de briga”

A função de um comissário de bordo vai muito além de servir refeições aos passageiros e realizar os tradicionais “speeches”. Também chamados de “técnicos de segurança de voo”, esses profissionais passam por diversos treinamentos, que vão desde lições de etiqueta, formas de combater incêndios e, acredite, até aulas de artes marciais.

A técnica de defesa pessoal mais praticada por comissários é o Krav Maga. Esse tipo de luta, desenvolvido pelo exército de Israel, envolve técnicas de torções de membros, defesa contra armas de fogo, bastões, facas, agarramentos e golpeamentos. O foco dos golpes nesse estilo é sempre em áreas sensíveis do agressor, como genitais, olhos, mandíbula, garganta e joelhos.

Companhias asiáticas costumam ensinar kung-fu aos seus comissários (Divulgação)

Companhias asiáticas costumam ensinar kung-fu aos seus comissários (Divulgação)

No caso de incidentes com “passageiros indisciplinados”, os comissários de bordo podem ser obrigados a usar seus conhecimentos e, contida a ameaça a bordo, o passageiro descontrolado pode ser algemado (sim, o avião também leva algemas) e amarrado no assento.

Piloto todo poderoso

O comandante é a autoridade máxima em um avião, mesmo que a bordo da aeronave viaje um presidente ou um rei. O piloto–chefe pode mandar prender passageiros, aplicar multas e até mesmo registrar o testamento de um passageiro que morrer durante um voo.

Nem presidente, nem rei: quem manda e desmanda no avião é o comandante (Montagem – Airway)

Nem presidente, nem rei: quem manda e desmanda no avião é o comandante (Montagem – Airway)

E essa autoridade também vale quando o avião está em solo: o piloto principal pode impedir a entrada de passageiros que estiverem causando problemas na aeronave, antes mesmo da decolagem. Se alguma eventualidade acontecer com o comandante, o poder é repassado ao co-piloto.

Alarme de incêndio “bonitinho”

Se por acaso um incêndio começar no toalete de um avião, em vez de uma sirene escandalosa, o que se escuta é um discreto alarme em baixo volume. Os passageiros podem nem perceber o alerta, mas é o suficiente para fazer os comissários correrem pelos corredores da aeronave com as ferramentas de combate ao fogo.

O som do alarme de incêndio dos toaletes não é encontrado na internet e as empresas aéreas também não o revelam. Quem ouviu, diz que o ruído do alarme é até “bonitinho”. A discrição desse alerta serve para não causar pânico entre os passageiros, situação que poderia acabar dificultando ainda mais o combate ao fogo.

Machados a bordo

Todo avião comercial possui machados escondidos (dos passageiros) pela cabine. Dependendo do tamanho da aeronave, podem haver até três dessas ferramentas a bordo. O equipamento pode ser utilizado no combate a incêndios na cabine ou para arrombar a porta do toalete, no caso de algum passageiro tentar obstruir a porta, seja por indisciplina ou durante uma emergência.

O machado que os aviões carregam é exatamente como esse na foto (Ebay)

O machado que os aviões carregam é exatamente como esse na foto (Ebay)

Vale destacar que o machado é utilizado apenas em situações de emergência e jamais deve ser utilizado como uma arma dos comissários para conter passageiros indisciplinados.

Luzes suavizadas durante o pouso

Em voos noturnos, algumas companhias aéreas ainda insistem em dizer que as luzes da cabine são reduzidas durante o pouso “para economia de energia”. Pura balela. Esse procedimento é uma espécie de preparação para uma possível emergência.

Em voos noturnos, a luz da cabine é reduzida para adaptar os olhos dos passageiros a baixa luminosidade (Divulgação)

Em voos noturnos, a luz da cabine é reduzida para adaptar os olhos dos passageiros a baixa luminosidade (Divulgação)

Ao diminuir a intensidade da iluminação a bordo, os olhos dos passageiros se ajustam a baixa luminosidade. Se algo der errado durante o pouso, os ocupantes terão melhores chances de enxergar no escuro e assim evacuar a aeronave de forma mais rápida e segura.

Refeições diferentes para os pilotos

Em longos voos, geralmente viagens internacionais, se o comandante pedir uma macarronada com molho bolonhesa no jantar, o co-piloto será obrigado a pedir arroz com frango. Ou vice-versa. Equipes de pilotos que voam longos trechos nunca comem a mesma refeição.

Essa medida serve para evitar que o piloto e co-piloto sofram intoxicações alimentares simultâneas. Se o comandante ingerir algo contaminado, o co-piloto, que comeu outro prato e passa bem, pode assumir o comando da aeronave.

Comendo refeições diferentes, as chances de intoxicação dos dois pilotos é menor (reprodução/Instagram)

Comendo refeições diferentes, as chances de intoxicação dos dois pilotos é menor (reprodução/Instagram)

Trava secreta dos toaletes

Você não tem 100% de privacidade no avião, nem na primeira classe e nem no toalete. Mesmo trancada por dentro, é possível abrir facilmente a porta do banheiro de um avião por fora.

Uma pequena placa de metal na porta, logo acima do aviso sobre a disponibilidade do toalete, esconde a “trava secreta”. Quando viajar de avião preste atenção: antes do pouso, os comissários vão aos toaletes e discretamente travam todas as portas.

A trava “secreta” fica atrás da pequena placa acima do aviso sobre ocupação do toalete (Lifehacker)

A trava “secreta” fica atrás da pequena placa acima do aviso sobre ocupação do toalete (Lifehacker)

As portas dos toaletes são trancadas antes do pouso também como medida de segurança. Essa ação evita que passageiros em pânico entrem nos banheiros em caso de incêndio na cabine, o que seria ainda mais perigoso.

 

 

 

Fonte:

Thiago Vinholes, airway.uol.com.br

Os Banhos da Sereia

Largo São Bento em 1887. No centro a Rua São Bento

Largo São Bento em 1887. No centro, a Rua São Bento.

É difícil imaginar, mas houve uma época em que as casas de São Paulo não tinham banheiro. Não apenas as casas pobres, mas nenhuma casa tinha banheiro. Existiu até um pequeno móvel, uma espécie de cadeira com o assento vazado para melhor acomodar o traseiro e o penico colocado por baixo. Consta que os serviçais de D. João VI sempre levavam uma cadeira dessas nos passeios do rei1, porém nunca encontrei qualquer referência a tal artefato em São Paulo. Não faço ideia do que faria uma visita a uma casa de família em caso de aperto.

Cadeira - sanitário

Cadeira – sanitário

Quanto aos banhos, bem, estes eram de bacia mesmo. Uma memorialista nos conta que, após os trabalhos costumeiros na “sala de costura”, à noitinha, as pretas costureiras levantavam acampamento e “iam preparar os quartos para a noite, colocar velas nos castiçais e arear as bacias para os banhos”. E essa memorialista pertencia a uma das famílias mais abastadas de São Paulo na segunda metade do século XIX2.

Somente no final do século XIX, com o abastecimento de água um pouco melhor, foram desativados os últimos chafarizes públicos. Ao mesmo tempo criava-se uma limitada rede de esgotos, que eram lançados no Rio Tietê sem nenhum tratamento.

Então, algumas casas passaram a contar com banheiros. Mas somente as casas ricas. As mais simples ainda usavam o velho sistema. Zica Bergami (1913-2011), compositora de “Lampião de Gás”, relatando sua infância, conta que “naquela época, só havia toilettes nos grandes palacetes dos bairros ricos. Os menos favorecidos tinham que se arranjar com tinas ou bacias enormes ou, então banhavam-se à noite, nos tanques dos quintais, depois que todos dormiam3.

No século XIX eram comuns, nos grandes centros europeus, as casas de banhos, porém em São Paulo a primeira notícia que se tem de uma casa de banho é de fevereiro de 1857, quando Carlos Pedro Etchecoin anuncia a abertura de sua casa Banhos de Saúde, na Rua do Carmo,3. Oferecia “banhos de lavagem ou de vapor, segundo o gosto ou a necessidade de cada um4. Mas eram banhos de caráter medicinal, com acompanhamento médico. Não deve ter durado muito tempo, pois outro Etchecoin, agora João Luis Etchecoin e Companhia, proprietários do Hotel Quatro Nações, anunciava em 1863 também “banhos de corpo inteiro no dia 15”5.

A primeira casa de banhos de caráter não só higiênico, mas também com função social, somente apareceu em 1865. Chamava-se “A Sereia Paulista”. Foi inaugurada em 28 de setembro de 1865, para grande alegria do jornalista do Correio Paulistano que há algum tempo vinha se queixando da falta que fazia tal tipo de casa na capital. Seu proprietário era Bento Vianna e ficava na Rua São Bento, 1. O imóvel pertencia ao mosteiro de São Bento.

É a casa que vemos à direita da foto que abre a matéria. Era uma casa grande, ia da Rua São Bento até a antiga Rua São José, atual Líbero Badaró, onde era assobradada6. Tinha um poço para abastecimento de água, reservatórios, aquecimento e vários quartos com uma banheira de mármore em cada um. Um dos quartos era adaptado para “banhos de chuva7. Na sala da frente, “refrescos finos e bebidas de espírito”. Na época era propriedade de Henrique Schroeder.

Anúncio publicado no jornal O Correio Paulistano de 29-10-1865

Anúncio publicado no jornal O Correio Paulistano de 29-10-1865

No dia primeiro de janeiro de 1871, um personagem pitoresco adquiriu a Sereia Paulista8. Trata-se de José Fischer, um húngaro alto, barbudo e ranzinza que havia chegado ao Brasil no ano anterior. Fischer reformou a casa e, ao longo do tempo, transformou a sala onde eram servidas as bebidas em restaurante. Ficou famoso pelos bifes à Leipzig, que ficaram popularizados como bifes à cavalo. Por um bom tempo, tornou-se um bom programa paulistano ir tomar banho na Sereia e depois jantar um bife com vinho húngaro, o que era uma novidade para os brasileiros.

Diz antigo cronista que o húngaro levava ao pé da letra a metáfora de não tolerar que na sua casa ninguém falasse mais alto que ele. Sabendo disso, os estudantes, por gozação, entravam em fila e iam cumprimentando em tom cada vez mais alto e Fischer respondendo ainda mais alto. No final da fila, estavam todos aos berros9.

Ele somente recebia clientes masculinos e sua casa era muito frequentada pelos membros da colônia alemã. Quanto à sereia, ficava somente no nome e numa pintura feita por Nicolau Huascar que servia de emblema da casa10. Um viajante, Karl Von Koseritz, que certamente conhecia casas de banho europeias, visitando São Paulo em 1883, foi levado para uma visita à Sereia Paulista e relatou: “Os meus leitores hão de compreender que fui à sereia com as maiores esperanças e com água na boca, mas a desilusão foi completa. A sereia se nos apresentou sob a forma de um corpulento e amplamente barbado senhor Fischer, um húngaro, que é o proprietário dessa taverna, reconhecidamente a melhor de São Paulo”11.

Fischer importava vinhos da Hungria, principalmente dos tipos Tokay, Ménesi e Ruszti, porém espalhou-se o boato de que o vinho servido na Sereia era produzido com água do rio Tietê. Cansado das boatarias, Fischer mandou publicar nos jornais um anúncio oferecendo um conto de réis a quem provasse que seu vinho não era da Hungria, caso contrário ficaria passando por mentiroso12. Esquentado, não?

Anúncio publicado no jornal A Província de S. Paulo de 21-12-1887

Anúncio publicado no jornal A Província de S. Paulo de 21-12-1887

Em 1886, Fischer talvez já estivesse um pouco cansado do negócio, pois colocou a Sereia Paulista à venda13. Não deve ter conseguido nenhuma boa proposta de negócio, porque somente em 1891 é que passou a casa a uma Companhia Sereia Paulista que, apesar de ter planos de construção de um prédio maior, acabou entrando em liquidação dois anos depois14.

José Fischer retirou-se para Dassau, Alemanha, onde faleceu em 189815.

 

 

Notas
1 – GOMES, Laurentino, 1808, Editora Planeta do Brasil, 2007, pág. 302.
2 – BARROS, Maria Paes de, No Tempo de Dantes, São Paulo, Paz e Terra, 1998, pág. 19.
3 – BERGAMI, Zica, Onde estão os Pirilampos?, João Scortecci Editora, São Paulo, 1989, pág. 18.
4 – Jornal Correio Paulistano de 12-02-1857.
5 – Jornal Correio Paulistano de 08-01-1963.
6 – NOGUEIRA, Almeida, A Academia de São Paulo – Tradições e reminiscências, Nona série, 1912.
7 – Jornal Correio Paulistano de 26-09-1865
8 – Diário de São Paulo de 01-01-1871
9 – Ver nota 6.
10 – Correio Paulistano de 01-10-1865.
11 – BARBUY, Heloísa, A Cidade-Exposição, Comércio e Cosmopolitismo em São Paulo, 1860-1914,Editora da Universidade de São Paulo, 2006.
12 – Jornal A Província de S. Paulo de 21-12-1887.
13 – Jornal Correio Paulistano de 05-05-1886.
14 – Jornal O Estado de S. Paulo de 06-08-1893.
15 – Jornal O Estado de S. Paulo de 19-02-1898.

 

Fonte:

Edison Loureiro, saopaulopassado.wordpress.com

Elegância

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Existe uma coisa difícil de ser ensinada e que, talvez por isso, esteja cada vez mais rara: a elegância do comportamento. É um dom que vai muito além do uso correto dos talheres e que abrange bem mais do que dizer um simples obrigado diante de uma gentileza.

É a elegância que nos acompanha da primeira hora da manhã até a hora de dormir e que se manifesta nas situações mais prosaicas, quando não há festa alguma nem fotógrafos por perto. É uma elegância desobrigada. É possível detectá-la nas pessoas que elogiam mais do que criticam. Nas pessoas que escutam mais do que falam. E quando falam, passam longe da fofoca, das pequenas maldades ampliadas no boca a boca.

É possível detectá-la nas pessoas que não usam um tom superior de voz ao se dirigir a frentistas. Nas pessoas que evitam assuntos constrangedores porque não sentem prazer em humilhar os outros. É possível detectá-la em pessoas pontuais. Elegante é quem demonstra interesse por…

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A revolta de uma cidade

A revista americana Newsweek já foi a de maior circulação semanal no mundo, quando vendia mais de 4 milhões de exemplares por edição. Em 2013, quando as vendas despencaram, ela passou a ser apenas digital, mas voltou às bancas um ano depois. Hoje, sua edição digital convive com a versão impressa em tiragens mais modestas, em torno de 100 mil exemplares.

Mas continua com muito prestígio e produzindo reportagens de impacto. Como quando publicou uma série de reportagens sobre as cidades americanas que estão “moribundas” por causa da recente recessão no país. Cidades que, segundo a reportagem, pararam de crescer, estão sem oportunidades de emprego e/ou lazer e inclusive sofreram evasão dos residentes. Uma das cidades citadas foi Grand Rapids, no Michigan.

Michigan fica lá em cima, na fronteira com o Canadá, à beira dos Grandes Lagos. Segundo a revista, em 2000 sua população era de mais de 200 mil habitantes, e em dez anos encolheu cerca de 10%. O motivo foi o desemprego em função da crise da indústria automobilística americana, cuja sede fica em Detroit, a maior cidade do estado – e também da crise na indústria de móveis, que é a base da economia local. O ator Taylor Lautner (de Crepúsculo) é de Grand Rapids, assim como o vocalista Anthony Kiedis, da banda de rock Red Hot Chilli Peppers.

Taylor Lautner

Anthony Kiedis

A reportagem, como era de se esperar, despertou a ira da população, que respondeu rápido. Cerca de 5.000 pessoas se mobilizaram para gravar um clipe em resposta, mostrando seu amor pela cidade. O clipe custou mais de 40 mil dólares e foi patrocinado por 20 empresas locais.

A população mostrou a paixão e a energia dos que vivem em Grand Rapids e gravou um Lipdub. LipDub é um tipo de vídeo que combina sincronização labial e dublagem de áudio para produzir um videoclipe musical. É habitualmente produzido filmando grupos de pessoas que fazem sincronização labial ao som de um aparelho móvel de reprodução musical. No caso, a música escolhida foi “American Pie”, do americano Don McLean.

A letra da música, lançada em 1971, fala de eventos sobre música e comportamento que têm muito significado para os americanos, como por exemplo o final do movimento hippie ou a morte de John Kennedy, tida como símbolo da inocência perdida da geração de 1960. A música também foi tema da comédia “American Pie”, que se passa numa cidade com as características de Grand Rapids, onde o roteirista do filme viveu parte de sua vida.


Acho que o ponto principal de tudo isso é a lição de esperança que a população da cidade nos deu. Ninguém negou a recessão, o desemprego, as dificuldades que passam. Mas o vídeo mostra que as pessoas estão dispostas a lutar, a se divertir e a valorizar o local onde vivem e trabalham. Preservando a memória, a natureza e resgatando sua cidadania.
Porque eles sabem que assim serão mais fortes, como comunidade e como indivíduos.