O pior espectador é aquele que quer ver

 Leon Eliachar nasceu na cidade do Cairo, no Egito, no dia 12 de outubro de 1922. Veio muito pequeno para o Brasil e se tornou um dos melhores jornalistas de humor da imprensa falada e escrita, após ter atingido a idade da razão — ou do disparate, como costumava dizer.  Era tão brasileiro como qualquer brasileiro, embora conste que nunca tenha se naturalizado.

Jornalista desde os 19 anos de idade, trabalhou em diversos jornais e revistas, fixando-se, por último, na “Ultima Hora”, onde, seguindo o exemplo de Aporelly (o Barão de Itararé) nos tempos de “A Manhã” com “A Manha”, mantinha uma página, às vezes reduzida a meia, com o título de “Penúltima Hora”. Justificava o nome da página com a legenda “Um jornal feito na véspera”. Colaborador (arrependido, segundo ele mesmo) dos argumentos de dois filmes carnavalescos, foi autor de programas de rádio e secretário da revista “Manchete”. Conheci seu trabalho pelos livros que publicou, como “O Homem ao Zero” ou “O Homem ao Quadrado”, que não apenas eram hilários, mas também extremamente criativos, usando e abusando dos recursos gráficos da época (1965, 1967) que poucos ousaram, inclusive atualmente.

Queria ler tudo dele, mas era difícil de achar. Pelo menos consegui guardar os dois livros que comprei, que mantenho até hoje como um tesouro de criatividade e de humor.

O título do post é uma crônica escrita há quase 50 anos, publicada no livro “O Homem ao Zero” (1968) e que continua mais atual do que nunca. Leia e confirme se ele não era um gênio do humor!

Minha televisão vai fazer nove anos.

Tenho vontade de comprar uma nova pra ver se ela passa programas mais novos. No princípio só pegava um canal, agora pega um monte, cada um querendo imitar o outro.

Antigamente, eu sabia qual era o canal pela cara do artista, mas agora é difícil, porque os artistas mudam tanto de canal que a gente nunca sabe qual está vendo. Dizem que a televisão se orienta por um Departamento de Pesquisas que divide o público em classes a, b, c e d – não sei de que classe  sou, porque nunca fui pesquisado.

Só sei que me sinto um nobre, de sangue azul, porque assisto televisão no “horário nobre” que eles convencionaram ser das oito às dez. Acho até que sou supernobre, às vezes vejo televisão até à meia-noite. À tarde nunca assisto, só dá criança-prodígio fazendo caretas e dando adeuzinho pra mamãe; acho irritante criança com rótulo de talento. Mas o pior são as crianças-prodígio que entram na faixa das seis horas da tarde: todas elas com mais de trinta anos. 

Sei que a televisão está evoluindo, porque inventaram um aparelho que liga e desliga de longe, só não inventaram um pra desligar a do vizinho.

A coisa mais fascinante na televisão são as mensagens do patrocinador: eles apresentam um frasco de desodorante e convencem que se a gente usar aquele produto acaba arranjando uma namorada -, só não ensinam como é que a gente vai explicar isso à nossa mulher. Dizem que a televisão dá economia, a gente fica em casa e não precisa gastar dinheiro em cinema, em teatro, em boate – mas isso é pra quem não tem filho que obriga o pai comprar tudo o que aparece na televisão.

Outra coisa curiosa são os programas que eles dizem populares, pra vender coisas baratinhas, mas ninguém sabe o que eles querem vender, porque dão prêmio de automóvel e a gente só se lembra do automóvel. Inventaram também esses programas de auditório, ao invés de esticarem o palco, esticam o auditório, pra caber mais gente;  se a intenção deles é levar todo mundo pro auditório por que anunciam tanta televisão na televisão?

A estatística diz que a televisão une a família, acho que une até os vizinhos. Mas ai de quem abrir a boca pra interromper a novela!

Logo depois da novela vem a fita de mocinho, logo depois da fita de mocinho vem o jornal com notícias fresquinhas, logo depois vem a entrevista, logo depois vem o filme onde o astro é um cachorro, ou um cavalo, ou um gato, isso depende do animal que estiver na moda, logo depois vem o show com muita mesma mulher, com muita mesma música e com muita mesma piada, isso quando não entra em cadeia nacional um especialista político pra dar sua mesma mensagem sob o alto patrocínio do Governo Federal,  provando  com dezenas de gráficos que o custo de vida está baixando  –  que a impressão que dá é que eles usam os gráficos de cabeça para baixo, depois vem um programa esportivo, depois vem a mulher da gente dar a “bronca” porque a gente está dormindo no sofá há mais de duas horas e deixou a televisão ligada.

Ter uma televisão é um inferno, já vi que preciso ter duas.

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